A viagem do tigre - Pov dos tigres
11 Goa - Ren
Mais tarde, nós três nos encontramos no deque do navio. Chegaríamos a Goa na manhã seguinte e pegaríamos o instrutor de mergulho. Eu propus que fôssemos fazer compras e Kelsey topou, dizendo que queria comprar presentes para Sara, Mike e as crianças.
— Querem assistir a um filme? — Propôs Kelsey —Acho que está na hora de eu apresentar vocês, tigres, a Tubarão. Vocês dois precisam de uma dose saudável de terror oceânico, para que eu não seja a única a ter medo de entrar na água.
Assistimos a tubarão 1 e 2. Kishan e eu achamos graça dos temores de Kelsey. Depois do filme, nós três acompanhamos Kadam e Nilima no jantar. Kelsey terminou antes e foi para o quarto. Eu fui até lá mais tarde, mas Kelsey estava no banho. Então eu deixei uma poesia em cima de seu travesseiro.
O mar tem suas pérolas
Heinrich Heine
O mar tem suas pérolas, em calma
Tem o céu mil estrelas, minha flor;
Mas minha alma, minha alma, esta minha alma
Tem teu amor!
Grande é o mar, grande o céu, porém maior
É o meu coração, lírio singelo,
Mais que os astros, que as pérolas mais belo,
Brilha este amor!
É teu! é teu! é teu todo o meu peito
Todo o meu peito que se mescla, flor,
Ao grande mar, ao grande céu, desfeito
Num só amor!
Quando a ouvi sair do banho, esperei um pouco, e então abri a porta de ligação entre nossos quartos e a vi. Ela estava linda, com o roupão bordado que Kishan havia lhe dado e os cabelos molhado e penteados.
Ela estava sentada na cama, lendo o poema e sorrindo. Fiquei ali, observando-a, satisfeito e sorridente. Ela se assustou ao me ver encostado no batente da porta.
—Há quanto tempo você está aí parado?
—O bastante para apreciar a vista.—Eu me aproximei e peguei o poema da sua mão—Você gostou?
—Gostei.
Eu a abracei pela cintura e aspirei seu perfume.
—O seu cheiro é delicioso.
—Obrigada. O seu até que não é ruim. O que tem atrás dessa porta? De onde você veio?
—Do meu quarto. Quer ver?
Ela fez que sim, então eu a peguei pela mão e a levei até lá.
—Nós temos uma porta de comunicação?
Eu sorri.
—Temos.
—Kishan sabia disso antes de escolherem cada quarto?
—Sabia.
—Hum. Fico surpresa de saber que ele deixou você ficar com este.
—No começo, achamos que Nilima ou Kadam deveriam ficar com ele, mas nós dois concluímos que seria melhor se você tivesse um tigre por perto. Brigamos pelo quarto, mas eu venci no final. Principalmente porque Kishan sabe que não posso tocar em você.
—Eu adoraria ter presenciado essa conversa.
—O meu quarto é legal, mas eu estava esperando não precisar usá-lo.
—Como assim?
—Eu estava pensando em talvez dormir com você. Como tigre.
Ela levantou a sobrancelha e riu:
—Está louco para ouvir meus roncos, hein?
—Você não ronca, e eu gosto de ficar perto de você. Além do mais, é legal acordar do seu lado de manhã... não que não seja legal estar perto de você agora — Eu a apertei contra o meu corpo.— Eu já lhe disse hoje que você é linda?
Ela se virou para ficar de frente para mim e começou a brincar com meus cabelos. Era bom ficar assim com ela, mas durava pouco. Abaixei a cabeça para encostar minha testa na dela. Eu já estava me sentindo mal, então fechei os olhos para tentar suportar aquilo sem ter que soltá-la. Ela apertou meu braço e se afastou.
—Estou bem. Só me dê um minuto.
— Pode se recuperar enquanto eu troco de roupa.
Kelsey me empurrou de leve e fechou a porta de comunicação. Eu me sentei na cama. Ela voltou depois de alguns minutos e abriu a porta. Ela estava linda, usando um pijama de seda que marcava suas curvas. Eu a olhei de cima a baixo e sorri satisfeito.
—Esse pijama é bem legal, mas prefiro o roupão.
—Você tinha que ter visto o roupão original em Shangri-lá. Não me surpreendo com o fato de gostar do pijama. Foi você quem me deu, sabia?
—Dei mesmo? Quando?
—Antes de irmos à caverna pegar a profecia.
—Hum. Eu obviamente já tinha planos para você àquela altura.
—Você disse que começou a gostar de mim já na época do circo.
Ela foi até a cama e eu a segui. Ela se deitou de costas para mim e puxou as cobertas, então se virou e perguntou se eu não estava me sentindo mal.
—Só um pouquinho. Mas estar perto de você, ainda mais quando está vestindo seda, vale a pena.
Ela sorriu e eu abri os braços para ela. Ela veio até mim e me abraçou.
—Isso é gostoso—Eu disse, acariciando suas costas
—É, sim. Pena que dura tão pouco.
—Venha. Eu cubro você.
Eu a cobri com a colcha de retalho e ela me perguntou intrigada:
—Como sabe que é assim que gosto de dormir?
—Eu presto atenção. Você adora esta colcha velha.
—É, adoro mesmo.
—Boa noite, iadala.
—Boa noite, Ren.
Apaguei as luzes e me transformei, deitando-me ao lado da cama. Algum tempo depois ela me chamou.
—Ren? Onde você está?
Apertei o focinho contra sua palma estendida.
—Não consigo dormir. O navio está balançando demais.
Pulei para a cama e me deitei a seu lado. Ela agradeceu e se agarrou a mim, enterrando o rosto em meu pelo. E então dormiu...
Antes que ela acordasse, me transformei em homem e a puxei para mim. Fiquei brincando com seus cabelos enquanto ela estava deitada sobre meu peito. Ela acordou e tentou se afastar imediatamente, mas eu a puxei de volta:
—Tudo bem. Eu só me transformei em homem faz um minuto. A dor ainda não está forte. Não toquei na sua pele.
—Ah. Ei, o iate não está se movendo.
—Aportamos há horas.
—Que horas são?
—Não sei. Talvez umas seis e meia. Está amanhecendo. Veja.
Ela olhou pela janela e me perguntou se estávamos em Goa. Depois sorriu e me disse que eu costumava brincar com seus cabelos o tempo todo.
—Imagino que sim. Adoro o seu cabelo.
—É mesmo? Ele é de um castanho normal e sem graça. Não tem nada de especial. O cabelo de Nilima é lindo. Cor de ébano. Muito exótico.
—Eu gosto do seu. Encaracolado, liso, cacheado, preso, solto, trançado...
—Gosta dele trançado?
—Acho legal brincar com as fitas, e toda vez que você faz trança fico com vontade de soltá-las.
—Ah, faz sentido. Você já puxou as fitas do meu cabelo e desmanchou minhas tranças várias vezes. Agora eu sei por quê. Você tem fetiche por tranças.
Eu sorri e beijei sua testa.
—Talvez tenha. Está pronta para ir às compras?
—Prefiro ficar aqui agarradinha a você.
—Eu sabia que tinha uma razão para eu gostar de você.—Eu lhe dei um abraço apertado.—Infelizmente, estou começando a sentir os efeitos desse agarramento.
—Certo.
Sai da cama e andei em direção ao meu quarto. Encostando-me no batente, virei para ela, que ainda não havia se levantado.
—Acho que o Universo está conspirando contra mim.
—Como assim?
Ela se espreguiçou e virou-se para mim, como uma gatinha preguiçosa.
—É que eu só posso me deleitar à distância com o seu corpo quente e lindo, todo sonolento e doce no pijama de seda. Tem ideia de como é extremamente tentadora? Fico muito, muito feliz de saber que a porta de Kishan não tem comunicação com a sua.
Ela deu risadas.
—Essa sua fala mansa é um perigo, meu caro. Mas eu já estou acostumada e gosto disso em você. Agora, vá se vestir. A gente se vê no café da manhã.
Depois do café, Kishan e eu levamos Kelsey até a garagem do iate e mostramos as motos para ela.
—E, hã... vocês sabem andar de moto? Elas parecem... perigosas.
Kishan deu risada.
—E são. A moto, e esta especificamente, é uma das melhores coisas deste século, Kells. Nós a compramos há seis meses, pouco depois de você ir para o Oregon. E sabemos pilotá-las, sim, senhora.
Nós vestimos nossas jaquetas e Kishan jogou uma para Kelsey:
—Tome. Kadam mandou fazer esta especialmente para você. Deve servir.
Ela vestiu a jaqueta, reclamando:
—Mas não tem lugar para mim na moto, então é melhor vocês irem sozinhos.
—Claro que tem. — Respondi e abri a cobertura da traseira para revelar o banco oculto.
Eu lhe entreguei o capacete e esperei até que ela montasse na minha garupa. Mas Kishan pigarreou, chamando nossa atenção:
—Acho que Kelsey deve ir comigo.
—Acho que não.
—Use o bom senso. Você vai passar mal, provocar um acidente e machucar a Kelsey.
—Vai ficar tudo bem. Eu consigo controlar.— Respondi irritado
—Não vou permitir que corra esse risco com ela e, se parar de ser ciumento por um minuto, vai concordar comigo.
—Ele tem razão, Ren — interrompeu Kelsey, tocando na manga da minha jaqueta —Já tenho medo suficiente dessas máquinas sem precisar me preocupar se você vai passar mal. Eu vou com Kishan.
Suspirei, frustrado.
—Tudo bem— Toquei de leve sua bochecha, e a ajudei a colocar o capacete enquanto sussurrava —Segure firme. Kishan gosta de fazer curvas fechadas.
Kishan abriu a parte de trás da motocicleta e ajudou Kelsey a subir. Então ele se acomodou no assento e ajeitou o capacete.
—Está pronta?
— Acho que sim.
—Segure-se em mim e se incline quando eu me inclinar.
Kelsey se agarrou a Kishan, que deu a partida na moto. Eu o segui e parei a seu lado, lançando um olhar de alerta, para Kishan se comportar. Em seguida, olhei para Kelsey e sorri. Acelerei e deixei a garagem, seguido por Kishan.
Eu estava bem à frente, então diminuí a velocidade para esperá-los. Kishan encostou a moto e eu parei ao lado. Ele me disse que Kelsey queria apostar corrida. Nós concordamos, desde que não fizéssemos nada perigoso demais. Eu cheguei primeiro. Desci da moto e os esperei.
Kelsey desceu da moto de Kishan e estava muito animada. Ela deu um abraço nele, falando alto e rápido:
—Foi muito divertido! Você é bom mesmo! Não fiquei nem um pouco com medo. Obrigada!
Ele retribuiu o abraço.
—Sempre que quiser, Kells.
Olhei para o meu irmão de cara feia, e disse que estava com fome. Depois de comermos, fomos fazer compras. Kelsey comprou alguns presentes e depois disse que esquecera seu maiô em casa.
—Então, vamos comprar um novo.— Respondi
Ela se inclinou e sussurrou:
—Não podemos simplesmente pedir outro ao Lenço?
—Até poderíamos, mas sempre que um material tem elementos sintéticos, como elastano, por exemplo, o Lenço o substitui por materiais naturais. O seu maiô pode acabar sendo de um algodão fino, coisa que estou totalmente disposto a permitir que aconteça.
Dei uma piscadela e sorri. Kelsey me deu um soco de leve no braço.
—Não, obrigada. Melhor comprar um aqui.
Nós três começamos a examinar as araras. Eu escolhi alguns biquínis que ficariam muito sexy, mas Kishan colocou-os de volta na arara.
—Você não conhece a Kelsey nem um pouco? Ela não é o tipo de garota que usa biquíni. Que tal este aqui, Kells?
Ele ergueu um maiô com estampa metálica e corpete torcido.
—É legal— Respondeu.
—Não é a cor dela— Eu disse.
—Suponho que você vá querer azul.
—Na verdade, não. Quero que ela use algo de cor forte, para não a perdermos na água.
Kelsey escolheu um preto, mas tanto Kishan quanto eu o rejeitamos. Finalmente todos concordamos com um modelo frente-única de corpete torcido e estampa avermelhada.
Terminamos as compras e combinamos de nadar quando chegássemos ao barco. Então Kelsey montou na garupa de Kishan e voltamos para casa.
Nós três combinamos de nos encontrar na piscina dali a 10 minutos. Encontrei Kishan no meio do caminho. Quando chegamos à piscina, vimos Kelsey interagindo com um homem.
—Agora, como é que uma garota americana bonita do...
—Oregon.
—Oregon? Oregon... veio parar na Índia?
—É uma história ainda mais longa do que a sua.
—Estou louco para saber tudo... mas parece que temos companhia— ele se levantou e, num sussurro exagerado, disse:—Você não mencionou que tinha dois namorados. Dois namorados grandes e bravos.
Kelsey deu uma risadinha, e se virou para trás:
—Ren, Kishan, este aqui é Wes, o nosso instrutor de mergulho.
—Eia! Como estão hoje, senhores?
Wes apertou minha mão com firmeza, depois a de Kishan, que o encarava de cara fechada, assim como eu. Mas o homem não parecia se importar:
—Eu só estava me apresentando para a mocinha bonita aqui. Agradeço muito por me deixarem pegar uma carona. Vou me recolher e deixar vocês aproveitarem a natação. Vamos começar as aulas ao nascer do sol, se concordarem. Bom, é melhor eu ir andando —Wes esfregou a barriga.—Espero que role logo uma boia. Estou começando a sentir a barriga vazia... eu gosto de comer um porco inteiro, se é que me entendem.—Ele sorriu e então se voltou para Kelsey.—Mas, olhe, foi mesmo muito bom conhecê-la, moça. Espero voltar a vê-la muito em breve.
—Foi legal conversar com você, Wes. A gente se vê no jantar.
O homem pegou as coisas dele e saiu. Caminhei até Kelsey, que estava usando o maiô novo e joguei a toalha sobre a espreguiçadeira.
—Não faço ideia do que aquele cara estava falando, mas não gostei dele.
—Somos dois. — Completou Kishan.
—Não sei qual é o problema de vocês. Wes pareceu um sujeito bastante agradável, além de muito divertido.
—Não gostei do jeito como ele ficou olhando para você.
—Você nunca gosta do jeito que homem algum olha para mim.
—Concordo com Ren. Ele está aprontando alguma.
—Será que vocês dois podem relaxar? Andem logo. Vamos nadar.
Eu a examinei de cima a baixo. Kelsey estava linda e muito sexy.
—Não estou gostando mais desse maiô. Acho que devemos voltar e trocá-lo por um que cubra mais o seu corpo.
Ela me cutucou o peito.
—Eu gosto deste. Pare de ser ciumento. Aliás, parem vocês dois.
Cruzei os braços sobre o peito, assim como Kishan. Nós a encaramos com firmeza, mas ela deu de ombros.
—Façam o que acharem melhor. Eu vou nadar.
Ela mergulhou na piscina e começou a nadar. Eu pulei atrás dela e Kishan me seguiu.
Durante o jantar, Kelsey ficou o tempo todo conversando com Wes e rindo de suas piadas sem graça. Quando ela se levantou dizendo que iria dormir, Kishan se levantou para acompanhá-la. Eu o corrigi dizendo que seria eu quem a acompanharia. Kelsey revirou os olhos para nós. Wes assobiou e disse:
—Eu diria que há touros demais no pasto. É melhor tomar cuidado para que uma coisinha bonita como você não seja pisoteada.
—A coisinha sabe tomar conta de si. E eu vou para o quarto sozinha. Boa noite, compadres.
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