A viagem ao paralelo
1 Prólogo
Durante todo o século XXIV, cientistas tentaram criar uma forma de viajar no tempo, sem sucesso. Máquinas de diversos tipos foram criadas, sempre usando macacos como cobaias. Nem sempre os animaizinhos sobreviviam aos testes.
Por volta de meados do século XXV, uma máquina criada pelo físico Anton Kotov chamou a atenção dos demais cientistas. Com utilização embasada em nitrogênio, o objetivo era congelar a pessoa em uma temperatura suficiente para gerar um portal interdimensional para o futuro ou passado. A teoria não fazia sentido algum para ninguém de início. Mas, quando viram um macaco congelando e desaparecendo dentro da máquina, diante das câmeras e dos olhos humanos, mudaram suas visões sobre aquilo.
Entretanto, nem tudo pareceu dar certo. O primeiro macaco congelado, não possuía sequer um equipamento de registro, e não conseguiu retornar. Já o segundo macaco, agora equipado com escutas e uma câmera de vídeo, congelou como o esperado, mas faleceu dentro da máquina. Uma terceira cobaia foi testada, também equipada, dessa vez somente com uma câmera, porém desapareceu sozinho, enquanto os equipamentos misteriosamente caíram no chão.
O que acontecia com aqueles animais? Será que viajavam mesmo no tempo ou somente eram desintegrados? Se eram desintegrados, por que um deles não foi? Anton passava noites em claro se perguntando sobre isso. Não haveria como registrar nada daquilo, e mesmo se pudesse, os animais não retornavam, afinal.
A teoria que Kotov criou era de que os animais não conseguiam retornar, pois não possuíam inteligência suficiente para encontrar o módulo da máquina no presente em que iam. Mas ele sabia que não era somente aquilo. Se fossem para o passado, a máquina nem mesmo teria existido. Talvez seja isso, foram mandados para o passado e não há como retornar. Pensava, otimista, apesar dos fracassos.
Anton sabia que a única forma de descobrir os segredos de sua invenção, era com cobaias humanas. Porém, e se fossem mandados para um local de onde não há mais volta? Se sentiria culpado caso sua cobaia não retornasse. Tudo pela ciência. Pensou ele, concluindo sua ideia de uma cobaia humana.
–... Sim, eles se voluntariariam a serem cobaias. Seria como um presente a algumas pessoas.
– Me desculpe Anton, mas isto é loucura, não posso autorizar este tipo de coisa, vidas humanas não são brinquedos – quem estava conversando diretamente com Anton era o célebre ministro da tecnologia da Russia, George Beruskov.
– Tudo bem, eu compreendo a sua preocupação, irei esquecer essa ideia, Senhor Ministro – não parecia tão frustrado como deveria.
E não estava mesmo, Anton planejava dar continuidade com o teste, de forma clandestina. Faria algumas ligações, e dessa forma encontraria sua cobaia. Vocês verão que não será nada ruim uma viagem no tempo.
Fez mais de trinta ligações, e conseguiu quatro cobaias: um garoto órfão que vivia em um orfanato, filho de um amigo de Anton que foi assassinado junto de sua esposa; um velho cansado de ficar no asilo e daquela vida medíocre; um jovem que acabara de descobrir que era traído por sua namorada; e um homem que simplesmente possuía curiosidade sobre a máquina e o que ela poderia fazer.
Reuniu os quatro em sua casa, era relativamente próxima ao laboratório, então o deslocamento seria fácil. Explicou o que provavelmente aconteceria durante a viagem, e sugeriu um voluntário entre eles para iniciar os experimentos. O risco de morrer congelado ao invés de ser teletransportado era enorme, e tratou de dizer-lhes isso. A princípio, nenhum dos quatro se importou muito com isso, pareciam não ter mais tanta empolgação com a vida. Parece que escolhi bem essas cobaias. Pensou ele, concluindo que as pessoas não fariam falta alguma para a sociedade.
– Eu posso ser o primeiro? – perguntou o garoto.
– Por que quer ser o primeiro, Julian?
– Porque eu não quero ver essas pessoas morrendo, Dr.
Todos ficaram estagnados, inclusive Anton. Era um garoto de aproximados treze anos, já sabia como o mundo funcionava, afinal, seus pais foram assassinados na sua frente. Entretanto, era de se espantar as palavras do garoto.
Um calafrio. Foi o que sentiu Nail. Era um homem magro com terno e gravata. Formado em direito, não sabia bem o que fazia ali, mas tinha curiosidade sobre o mundo e suas tecnologias. Aos poucos começava a se arrepender de ter aceitado ser cobaia, e as palavras de Julian o fizeram tremer. Apesar de tanta curiosidade sobre tudo, Nail não passava de um medroso. Poderia estar em casa comendo um pedaço do bolo de morango da vovó. Pensou ele, frustrado.
– Ninguém vai morrer, moleque, vira essa boca pra lá – disse ele, enquanto tirava um maço de cigarros do bolso.
– Receio que você não possa fumar aqui, Nail – disse o cientista, calmamente.
O homem tirou o cigarro que já estava em sua boca àquela altura e devolveu ao maço. Tsc...
Ao término da explicação, caminharam até o laboratório. Era uma construção subterrânea. Já não existiam mais tantos terrenos ao ar livre, então os grandes senhores de terra comercializavam as terras baixas, a fim de lucrar em cima de cada centímetro das propriedades.
Entraram no ambiente, e a seguir, Anton virou um interruptor que fez com que as luzes ambientes se acendessem. Fechou a porta e a trancou com sua senha, era um local extremamente privativo, afinal, e parecia bastante seguro, apesar de tudo. Alguns macacos enjaulados começaram a gritar e bater com as mãos na cela quando a luz bateu em suas faces.
– Não se preocupem, são geneticamente modificados. Macacos artificiais – disse Anton, ao ver que seus convidados estranharam tanto maltrato aos animais.
– Me deixa explicar uma última coisa: retirem qualquer equipamento de metal. Não podem entrar na máquina portando alguma coisa metálica.
Rapidamente removeram cordões, pulseiras, anéis, cinto, carteiras, e demais objetos que pudessem interferir no andamento do teste.
– Julian... Tem certeza que quer ser o primeiro? – de alguma forma, Anton sentiu pena do garoto, e temeu por sua vida, mas era orgulhoso e ambicioso demais para deixa-lo ir.
– Eu quero ir, não me importo com o que aconteça depois, só que como eu disse, não quero presenciar suas lamentações pela morte de nós quatro.
Anton abalou-se, mas continuou, abriu a porta da máquina, era de um resistente metal, e possuía uma escotilha redonda nela, onde era possível observar o que se passava lá dentro. Além obviamente das filmadoras espalhadas por todas as partes da câmara.
– Vista isso – apontou para um armário com vários macacões cinza alinhados em manequins, e ao lado deles, uma máscara de gás.
Segurou a porta com uma mão, e com a outra, gesticulou para o garoto entrar, enquanto se vestia com um macacão grosseiramente maior que ele, seguido da máscara.
Ele entrou e sentou-se em um acento acolchoado, vendo Anton fechar a porta a sua frente. Uma voz disse ecoou dentro da máquina.
– Está pronto? – ele balançou a cabeça positivamente, e Anton ligou a câmara que aos poucos era coberta por um denso gás.
Minutos depois da despressurização, a fumaça baixou dentro da câmara. As cobaias restantes olharam curiosos pela escotilha, para saber se o garoto estava bem. Mas isso não teria como saberem, pois ele havia desaparecido!
– Será que deu certo? – perguntou Vladmir, um jovem que possuía porte físico atlético e curto cabelo castanho claro.
– Espero que sim. Vamos esperar durante uma hora, se não houver sinal de retorno dele, o próximo será você, Vladmir.
O rapaz concordou com a cabeça. Não parecia ter medo da máquina, e nem do destino que o reservava ao entrar nela. Ao contrario de Nail, que estava agachado torcendo pelo retorno do garoto, próximo a um dos macacos.
– Vai amiguinho, volta logo – dizia ele para o macaco.
O tempo passou depressa, e parecia claro que o garoto não retornaria, pelo menos não agora. Parecia claro, e todos ali já haviam percebido, que Anton não fazia ideia de como eles retornariam. Se é que existisse uma forma.
Vladmir já colocava seu macacão e máscara antes mesmo de receber as instruções de Anton, e quando o cientista olhou para ele, já estava preparado para seu destino.
– Se eu não retornar – disse Vlad, levantando a máscara para olhar nos olhos de Anton – diga a ela, que é uma vadia – colocou a máscara e entrou na câmara.
Anton sabia de quem se referia, sua namorada confessou que o traia há mais de dois meses. Era demais para o rapaz, se drogava todos os dias, e ficava em casa o tempo inteiro para evitar fazer algo na qual se arrependeria em breve. Recusou dar seu perdão para a garota, e agora estava dando adeus a tudo.
Fez com a mão um sinal de positivo pela escotilha, e Anton acionou a alavanca que fez a câmara se encher de nitrogênio.
Alguns minutos se passaram, e a névoa de gás começava a abaixar. Nail preferiu não olhar pela escotilha dessa vez, e o velho também não parecia se importar muito com o resultado. Mas Anton se importava. E ele se encarregou de olhar pela escotilha, enquanto uma silhueta ia se revelando dentro da máquina: Vladmir estava congelado dentro da câmara. E agora provavelmente morto.
– Oh meu Deus – disse Anton, encostando sua testa na escotilha, não aceitando que não havia dado certo.
– O que houve, Dr.? – perguntou assustado e ansioso Nail, tão nervoso que já não aguentava mais ficar sem fumar.
– Vladmir... Está morto.
Nail tremeu. Colocou as mãos sobre a cabeça e olhou para o chão, um desespero tomou conta e ele precisava fumar urgentemente. Levantou-se e correu até a porta do laboratório. Era uma porta automática que só abria com a senha, e obviamente, ele não sabia.
– Abre isso aqui, eu vou embora! – gritou ele, desesperado, apertando todos os números do painel da senha.
Ele foi calado com um braço que surgiu em seu pescoço por suas costas, travou sua garganta e uma outra mão forçou sua cabeça para frente, ele mal conseguia falar, tampouco respirar.
– Cale a boca. Você nem parece um homem.
Nail desmaiou nos braços do velho, que o soltou ali mesmo no chão e andou até Anton, ainda em choque na porta da máquina.
– Vai me dizer que não esperava por isso? Essa sua máquina não tem um padrão, as vezes funciona, as vezes não.
– Não é isso. Eu realmente não queria que isto tivesse acontecido, Andrey.
– Mas aconteceu, então vamos retirar esse corpo daí, pois já estou louco para entrar nisso.
Aguardaram alguns minutos até a temperatura abaixar e o corpo desgrudar do acento, então entraram no local e pegaram-no, assentando-o em uma outra câmara frigorífica.
– Nem quero saber o que fará com ele – resmungou o velho novamente.
– Ei amigos, ele morreu mesmo? – disse Nail, despertando, ainda sentado.
– É, rapaz, ele virou presunto congelado.
Nail ignorou a resposta de Andrey, não achava aquilo engraçado, e mesmo conhecendo Vladmir a tão pouco tempo, a experiência de ver alguém morrer em sua frente não era nada boa.
– Eu não quero ir – disse ele, frustrado – o garoto previu tudo. Ele disse... “Não quero ver todos vocês morrendo.“
Anton já não teria condições de força-lo a ficar, e somente calou-se. Já Andrey, estava decidido, e queria que acontecesse... Com os dois.
– O garoto era algum profeta então? Não seja tolo, rapaz. Vou entrar na máquina e você verá que nada acontecerá além da minha viagem temporal.
Andrey entrou de supetão na máquina e fechou a porta atrás dele. Deu-se conta de que estava sem o macacão e a máscara, mas não se importou. Disse para Anton algumas palavras lá de dentro, que não foram escutadas. Todavia a leitura labial fora bem sucedida. “Liga logo isso”. Ele dizia.
– Você vai ligar mesmo que ele esteja sem os equipamentos?
– Ele não quer usá-los, Nail. Não tenho escolha – e forçou a alavanca abaixo, ligando a máquina.
Tudo aconteceu exatamente da mesma maneira que anteriormente, e ao passo que a névoa de nitrogênio ia abaixando, ficava claro que não havia mais ninguém dentro daquele compartimento.
– Parece que funcionou com ele também.
– Menos mal. Vamos esperar mais uma hora, e então você vai também, certo, Nail?
– Eu já estou aqui, não é mesmo?
Como Nail imaginou, não houve retorno de nenhum dos dois. Então era sua vez. Equipou-se cuidadosamente, e entrou na cápsula, em silêncio. Fechou a porta, e ao se sentar, balançou a cabeça positivamente.
A máquina rugiu, e lá se foi o nitrogênio cobrindo toda a cápsula em que Nail estava. Da mesma forma que nas outras vezes. Parecia que a máquina não diminuía seu desempenho a cada uso.
Três das cobaias foram transportadas. Isso é bom. Pensou Anton, percebendo que Nail também já não estava mais lá dentro. Espero que consigam retornar até amanhã, caso contrário... Serei obrigado a segui-los.
Nail acordou em um lugar que não lhe era estranho, estava nublado e era completo silêncio no ambiente. Estranho mesmo era onde estava dormindo. Acordou no meio do asfalto de uma rodovia. Mais confuso ainda era não ter carro algum em movimento ali. Haviam dezenas deles, mas todos parados e vazios, no meio da rodovia.
Que é isso? Não me parece com futuro ou passado. Pensou, se levantando devagar, e um carro próximo a ele começou a se mover lentamente em sua direção.
Hm? Quando se deu conta, o veículo estava quase o acertando. Saltou para trás, e percebeu que mais alguns carros vinham em sua direção, enquanto o outro mudava a trajetória e o seguia também. Parecia um imã ambulante. Até escutar uma voz, vindo debaixo uma passarela ao lado da rodovia.
– Ei, venha cá!
Era Julian. E Nail não pensou duas vezes antes de correr em direção ao garoto. Ele não estava mais com o macacão do laboratório, e usava em seu lugar, um traje peculiar, todo prateado, que refletia a luz. O garoto colocou Nail para trás dele, correndo, e seguindo no mesmo ritmo.
– O que está acontecendo, garoto?
– Não tenho tempo para explicar, somente corra.
Durante a corrida, curiosamente, objetos como latas de lixo e placas de trânsito balançavam com o passar da dupla. Alguns carros ficavam pelo caminho, e outros novos entravam na perseguição, por vezes capotando diversas vezes até travar em algum lugar.
Chegaram a um bosque longe do asfalto e da área urbana, então se sentaram no chão para descansar. Ambos estavam ofegantes.
– Cara – disse Nail, em meio a profunda respiração – aquelas coisas estavam vivas?
– Não... Você já deve ter percebido que estamos no mesmo presente, não é? – o garoto falava com muita propriedade sobre qualquer assunto. Não aparentava ter somente treze anos.
– Isso eu percebi, a cidade é exatamente a mesma.
– Exceto pelo fato de que não estamos na mesma cidade... Estamos em um universo paralelo.
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