A caminhada era tranquila e agradável até o curso de inglês. Por ser suficientemente perto de minha casa para se andar, eu sempre fui caminhando. A aula começava as cinco e terminava as seis, então nunca houve problemas quando a eu caminhar nos dias de aula.

Dessa vez, eu tinha Velocidade e Dimensão alternativa guardadas na bolsa. Iria calmamente para raciocinar o que estava ocorrendo recentemente. Eu achar as cartas, aprender a usar, saber que uma companheira de classe tinha outra carta, e depois outro. Tudo foi muito pra por na cabeça. Só deu pra pensar nisso mesmo, porque já tinha chegado à porta do prédio do curso.

Uma hora depois eu já estava indo pra casa. Não teve muita novidade hoje, boa parte eu já tinha aprendido nas séries e filmes. Equipei Velocidade para voltar pra casa, e cheguei tão rápido que até eu me assustei. Fiquei mais rápido do que antes, isso pude ver, e cansei menos ainda. Por isso que a carta dizia efeito aprimorável.

Chegando em casa, esperando achar uma casa normal do jeito que estava antes de eu sair, encontrei uma van do lado de fora, que parecia ser de uma empresa de limpeza a domicílio. Entrei estranhando muito como tudo estava. Não havia mudanças quanto à posição, mas o ambiente havia mudado. Notei meu pai deitado no sofá vendo novela.

– Pai, o que aconteceu aqui?

– Sua mãe chamou uma agência pra limpar nosso quarto. Mas o contrato deles era pra casa, então limparam tudo. — Ele falou sem desviar seu olhar da televisão.

– E isso não te incomodou?

– Não muito, por quê?

– Porque tudo parece estar brilhando mais do que o normal. — Falei, pondo a mão no rosto tentando dramatizar.

– Drama demais, filho. Espere pra ver o seu quarto. — Ele falou soltando um riso de lado. Não gostei.

Subi rapidamente para meu quarto, e vi dentro do quarto de hóspedes uma das pessoas que estavam aqui fazendo o serviço. Ignorei e entrei no meu quarto. Quase desmaiei na cama forrada perfeitamente quando vi o que fizeram com meu quarto. O meu antigo templo da escuridão sombria agora parecia um local de reunião de fadas. A luz do sol se pondo entrava fracamente pela janela completamente aberta e não bloqueada pela cortina, e todo o local exalava o cheiro de flores. O chão, antes cinza opaco, parecia refletir o forro de tão branco, e brilhava mais do que a luz do quarto. Se meu quarto estava assim eu não vou nem entrar no banheiro sem usar um óculos escuros.

– Que tal, filho? Gostou? — Eu ouvi a voz irônica do meu pai falar.

– Pai, deixou eles limparem meu quarto? — Eu falei ainda não acreditando.

– Sim, porque não? O contrato era pra limpar a casa toda, porque deixaria seu quarto fora? — Ele falava, com um largo sorriso no rosto.

– Mas… Mas… — Balbuciei. — Cadê a mãe?

– Lá no nosso quarto, ajudando.

– Ajudando? — Como assim?

– Ela simplesmente adorou o que fizeram no seu quarto, então foi ajuda no nosso.

– Mas, tá com cheiro de flor! — Falei mais alto. — E brilhando! Como pode o chão cinza brilhar?

– A cerâmica era branca, mas agora foi devidamente limpa. — Vi a ironia dele nessa frase. Eu limpava meu quarto desde os doze.

– Ok, chega, eu vou tentar dormir nesse campo aberto cheio de flores por hoje.

Entrei no meu “quarto” e me joguei na cama. Senti o cheiro forte de flor subir do colchão. Eu não ia conseguir descansar. Fui para minha mesa, devidamente limpa, sem pó, e organizada, e entrei no computador pra fazer algo pra me distrair até ficar cansado. Fui olhar meu face e vi um convite de amizade. Abri e aceitei, pois era de Amanda. Logo abri o chat pra conversar com ela.

F: Amanda aconteceu uma tragedia

A: o que??

F: limparam meu quarto ToT

A: rsrsrs e porque o drama?

F: tah limpo demais!!!!

A: rsrsrs

F: eu gostava do cinza no chao

F: agora parece que eu to no meio do mato de tao forte o cheiro de flor

A: nao acha que esta exagerando?

F: acho naum

A: ta bom

A: a gente se ve amanha, vou ir dormir

F: falou entao

Rodei mais um pouco no face antes de sair, e fui jogar um joguinho besta pra passar o tempo. A janela já estava devidamente selada e já não deixava luz nenhuma entrar. Deixei a porta aberta e o ventilador ligado para tentar fazer o cheiro sair um pouco e desci para comer. Jantamos nós três juntos, o que nem sempre era comum, já que eu costumo comer no quarto sempre. Mas como não gosto de comer ao ar livre, fiquei na mesa hoje.

– Filipe, como foi hoje o trabalho? — Minha mãe começou. Basicamente, toda vez que eu comia na mesa eles entendiam que eu queria que eles fizessem perguntas sobre minha vida.

– Bom, foi muito produtivo. — Eu tive que continuar a mentira só por enquanto.

– E você, filho, está se sentindo diferente? — Meu pai perguntou. — Sabe, por causa do assalto e tudo mais. — Tinha certa preocupação na voz dele.

– Eu tô bem, pai. — Respondi. E estava quase falando a verdade. — Não me abalei com isso.

– Que bom. — Ele respondeu. Minha mãe tinha até parado de mexer na comida por um tempo. Acho que esse assunto não será facilmente esquecido por ela. — Amor, me passa a salada.

– Claro. — Ela hesitou um pouco pra responder. Está tentando por uma fachada de forte. Bom, não irei comentar nada, é melhor assim. — Aqui querido.

– Obrigado. Agora, Filipe, vamos as novidades mais felizes. — Eu não gostei do modo que ele falou. — Você e Amanda, qual a situação? — Definitivamente não gostei.

– Companheiros de trabalho, e só. — Respondi rapidamente, mas isso não impediu minha mãe do continuar.

– O que aconteceu lá em cima? — Ela falou rapidamente.

– Nada, mãe. — Eu respondi, mas minha voz quase que falhou de nervosismo.

– Hoje nada mesmo, mas e ontem, hein filho? — Meu pai continuou. Ele pegou o copo para beber, só que dava pra ver que era pra esconder o riso.

– O que aconteceu? Diga, diga, diga. — Ela parecia estar desesperada pela fofoca.

– Pai, se você não fosse meu pai… — Eu comecei, mas logo ele me interrompeu.

– Eu seria o melhor amigo que te coloca em confusão. — Ele agora riu. — Continua.

– O que aconteceu? Eles estavam se abraçando demais? — Ela perguntou.

– Não, um pouco mais forte que isso. — Meu pai respondeu. Eu já nem estava mais lá, só viam o meu contorno vermelho.

– Eles se beijaram? Tipo, de cinema?

– Um pouco menos que isso.

– Ah, pelo amor de Deus me conta logo. — Ela quase gritou.

– Ela deu um beijo na bochecha dele. — Eu agora já tinha parado de comer, e tentava discretamente sair.

– Filipe, nem se atreva! — Oh droga, tava quase. — Volte aqui e explica isso.

– Foi inocente! — Eu queria não ter gritado isso, mas gritei. — Me deixa ir, por favor. — Agora a vergonha sumiu e veio a súplica.

Eles, eu acho que de dó, me permitiram ir. Correndo muito muito muito rápido, entrei no quarto e fechei a porta. Me joguei em cima da cama e fiquei ali deitado até dormir. Odeio ter que admitir, mas gostei do cheiro das flores que ficou no colchão. Tanto que até sonhei com isso.

Estava num campo aberto, bem iluminado, andando por entre as flores altas. Imensidão de flores de várias cores para qualquer lado que olhasse. O sol estava seguindo seu caminho para se por, deixando tudo mais alaranjado. No lado oposto ao sol, na direção que minha sombra estava alcançando, apareceu uma árvore. Corri na direção dela. Quando me aproximei e encostei nela, seus galhos me prenderam em seu tronco, passando pelas minhas costas e pernas. No tronco da árvore apareceu um rosto desfigurado, como se pertencesse a ela há muito tempo. O rosto abriu os olhos, e vi a escuridão deles me cobrindo. Meu desespero foi aumentando, até que vi uma luz vindo da direita. Percebi que era uma flecha de fogo que tinha passado rapidamente por mim e acertado o tronco. A escuridão sumiu, assim como os galhos, e eu caí pra trás, perdendo os sentidos. Eu pude unicamente ver uma silhueta, de uma garota de cabelos longos, antes de acordar.