A verdadeira magia
6 O continuar
Notas iniciais
Descendo as escadas, encontrei-me de novo com o pai de Amanda. Vestido com um terno azul escuro, com uma calça social também escura, ele estava esperando sentado no sofá da sala. Parecendo bem sério e trabalhador, ele logo mudou de figura quando viu Amanda chegando.
– Filha, onde você se meteu? O que aconteceu, me diga tudo. — Ele falou, largando a xícara de café na mesa e correndo pra filha.
– Pai, estou bem. — Ela olhou pra mim, que em resposta mandei um "Conta quase tudo" em forma de olhar. — O pai do Filipe já contou o que pra você? — Perfeito. Menos chance de contar coisa a mais.
– Ele falou que vocês chegaram e foram para o quarto fazer o trabalho. — Agradeci ao meu pai por isso. — Foi só isso mesmo, filha?
– Sim, basicamente isso.
– Como basicamente isso? O que mais aconteceu?
– A gente jogou um pouco também. Ele me mostrou algumas cartas que ele tem, e conversamos muito sobre tudo. — Gelei quando ela falou das cartas, pensei que ia sair outra coisa. Depois do susto percebi o quanto ela era diferente. Se sentia envergonhada na frente do pai, mas não tinha problema nenhum em mentir.
– Ah, graças a Deus, estava com medo. — Ele falou, certamente pensando besteira. Pior que ele estava quase certo dessa vez.
– Não precisa, pai. Filipe é um dos meus amigos da escola, alguém em quem eu confio. — Sabe, mesmo se envergonhando fácil na frente dele ela tem uma cara de tacho tão grande quando mente.
– E esse Filipe por acaso será um futuro namorado? — Ele falou, agora mais aliviado, e pôs ênfase especial no Filipe de novo. Ao contrário do que aconteceu da última vez, eu me segurei e tentei parecer tranquilo, como Amanda tinha feito com meu pai. Ela, por outro lado parecia um vulcão que entrou em erupção de tão vermelha que ficou.
– Pai, já disse, para de falar assim sobre meus amigos. Você me envergonha.
– Oh, docinho, eu sei, por isso faço. — Bom, pelo menos ele é alegre. Me aproximei do meu pai pra tentar conversar com ele.
– Cadê a mãe?
– Quarto de hóspedes. Levei ela pra lá porque deram uma grande dose de remédios pra dormir e calmantes. Ela tá lá agora, sem dúvida dormindo.
– Certo.
– O que houve, Filipe? — Amanda perguntou.
– Nada não, só querendo saber onde está minha mãe. Bom, Amanda, eu vejo você amanhã na escola. Senhor pai da Amanda.
– Creio que eu tenha te pedido pra não me chamar de senhor, Filipe.
– Desculpe, mas não sei seu nome ainda, então fui pela resposta padrão.
– Ok, então saiba que meu nome é Ferdinand Gerald von Braaig.
Olhei pra ele confuso. Aquilo foi um nome? Tipo, um único nome?
– Pode chamá-lo de Fred mesmo. — Amanda falou, olhando pra mim. — Ele só faz isso pra parecer pomposo pros clientes.
– Ok, entendi. — Falei, duvidando até mesmo das minhas próprias palavras. — Um prazer, Fred.
– Igualmente, garoto. Senhor Thiago, obrigado pelo café. — Direcionando sua atenção ao meu pai.
– Foi um prazer, Senhor von Braaig. — Meu pai respondeu.
Após as cordialidades estranhamente antigas acabarem, Fred saiu em direção ao carro. Amanda ia saindo junto, quando cochichou algo no ouvido de seu pai. Ele, após ouvir tudo, foi para seu carro normalmente, e Amanda veio em minha direção. Intrigado sobre o que poderia ter sido, vi Amanda indo primeiro em direção ao meu pai e lhe dar um abraço. Não entendi direito o porquê, mas o vi retribuindo também. Após isso Amanda veio até mim, me abraçou, e sussurrou palavras no meu ouvido que eu jamais esquecerei.
– Esse foi o melhor dia da minha vida. Obrigada.
Estava prestes a dizer um simples "De nada", querendo mesmo dizer "O que?", mas ela já saía em direção ao carro, me deixando na sala sem saber o que fazer. Como impulso, corri até a porta pra dizer tchau, mas ao chegar na porta o carro já estava saindo.
Entrei e fui direto me sentar no sofá com meu pai. Tínhamos que planejar o que fazer a partir de agora.
– Pai. Próximo passo. — Comecei, me jogando no sofá.
– Filho. Que tal "Contar para seu velho o que aconteceu lá em cima"? — Ele falou, usando o mesmo tom. No mesmo momento meu rosto começou a ficar quente.
– Sobre o assalto? — Tentei desconversar.
– Bom, também. — Ufa, pelo menos... Também, como assim também? — Vamos desde o começo. Até o final. E não esqueça o meio. — Não gostei. — Tudo.
– Ok, eu conto, mas tem partes que não contarei. — Comecei a falar.
– Provavelmente as partes que eu mais quero saber. Mas eu quero saber o porquê de não contar, ouviu bem? — Ele respondeu. Um dos melhores lados de se ter um pai psiquiatra. Ele não força as coisas.
– Ok. Do começo. Eu fui pra escola. — Parei pra esperar uma resposta.
– Sim, como todo dia. — Ele falou. — Prossiga.
– Encontrei Amanda. Quer saber como? — Falei, com esperanças de não descrever tanto assim.
– Sim, resumidamente.
– Ufa, ok. Eu achei ela por uma postagem no face. Fiquei interessado no que ela tinha postado e queria ter mais informações. Era algo que eu procurava muito.
– O que era? — Ele perguntou.
– Esse é o problema, pai. Eu não posso te contar. Não posso contar o que é, o que faz, nem o porquê de não poder contar. Vamos dizer que era um item que eu coleciono.
– Hmm, entendo. — Sério? Como isso? — Não vou perguntar sobre a natureza disso. Continue.
– Bom, eu encontrei Amanda na minha sala, coincidentemente do meu lado.
– Hm. — Só o que ouvi de resposta.
– Conversamos sobre o post no face, ela falou sobre ele, eu mostrei... — Parei por um momento. — Eu a chamei pra casa pra poder falar sobre isso melhor, num local neutro, por assim dizer.
– Sim, entendo. O que você mostrou pra ela?
– Você-sabe-o-quê. — Falei. Sussurrei, na verdade.
– Ha, sim, entendi. Continue, senhor Potter. — Pelo menos é bem humorado.
– Quando estávamos vindo pra cá, passamos na loja do Senhor Burlin. Só pra olhar mesmo.
– Após isso vocês vieram pra casa?
– Sim. — De repente percebi que estava deitado no sofá e ele com um bloco de anotações na mão. — Ei, isso é uma consulta?
– Sim, sem custos, continue. — Ele falou apressadamente.
– Sem graça. — Disse, mas minhas risadas tornaram o argumento inválido. — Chegamos em casa.
– Oh, boy, agora com calma. — Ele disse me interrompendo. — Primeiro, o que você fez?
– Gritei pela mãe. Não teve resposta. Como não tive recado no celular já fiquei preocupado.
Meu pai anotava tudo que eu dizia a partir desse ponto. Contei sobre o assaltante do corredor, mas não pude dizer o que fiz. Nem como fiz, só que me livrei dele. As perguntas foram ficando cada vez mais profundas, quase como se ele soubesse das cartas. Expliquei o que aconteceu no quarto da mãe, depois no meu quarto, sem contar o transporte mal sucedido dos dois assaltantes, e terminei contando até a parte do beijo na cama.
– Sim. Agora vamos por partes. — Essa era a parte mais perigosa. Ele tinha anotado tudo, e ia perguntar muita coisa. — Filho, me responda tudo, por favor.
– Vou tentar, pai.
– Primeiro, quando é o casamento? — Ele falou. Me virei com tudo, olhando desesperadamente vermelho em sua direção.
– Não faça isso. — A minha voz falha fez ele rir mais do que devia. Depois de se recompor e assumir a posição séria de antes, ele continuou.
– Você pode me mostrar o post no face?
– Não posso, Amanda excluiu.
– Essas partes que você não pode me dizer o que fez, nem como fez. Tem jeito de me mostrar? — Entendi perfeitamente o que ele quis dizer. Estava com medo de mostrar, mas eu tinha que confiar em alguém, não é?
– Espere aqui. Eu vou tentar te mostrar. — Disse isso, e saí da sala indo para o quarto. Meu pai não protestou. Pegando Velocidade e Dimensão alternativa, desci correndo para mostrar pra ele.
– Olhe essas cartas. — Entreguei as duas para ele.
Ele pegou, observou rapidamente, e me devolveu, pra começar a escrever de novo.
– O que têm elas?
– Eu as comprei ontem. Elas são sem dúvida as cartas mais raras que existem neste mundo.
– Porque isso?
Hesitei. Minha língua travou sem eu perceber. Após alguns segundos, onde meu pai também olhou pra mim, eu falei.
– Elas são mágicas. — Foi o melhor que pude. Percebi, entretanto, que foi a maior besteira que já tinha dito.
– Mágicas? — Ele me olhou confuso. — Em que sentido?
– Elas são mágicas, de verdade. — Aos poucos, meu nervosismo foi parando. Ele segurou as cartas novamente, e fez o nervosismo sumir.
– Explique. — Ele falou. Não perguntou nem pediu, soou como um mandamento.
– Melhor você olhar.
Peguei Velocidade das mãos dele e comecei a aproximar do meu rosto. Chegando bem perto a carta ativou. Eu senti o efeito dela no meu corpo, então olhei para meu pai esperando que ele tivesse pulado de susto, ou boquiaberto de surpresa, mas não. Ele parecia relaxado e calmo como antes.
– Filho. — Ele falou. Mesmo com feições normais a voz saiu um pouco quebrada. — Eu vou tentar falar de um jeito simples e calmo. — Ele limpou a garganta. — O QUE DIABOS FOI ISSO? — O grito dele me fez cair pra trás, de bunda no chão. Eu jamais tinha visto uma explosão de emoções vinda dele antes. O bloquinho, antes repousando firmemente em suas mãos, voava por cima da minha cabeça. Corri para pegar antes que caísse no chão.
– Entendeu? Viu isso? — Falei, olhando pra trás.
Acho que não, pois quando eu olhei eu vi ele com o rosto em cima da mesa, de frente. Cheguei perto e vi que ele desmaiou. Tentei acordá-lo, mas não deu certo. Minha mãe estava pirada, doida comigo, meu pai estava desmaiado, mais pra nocauteado, depois de fazer algo que eu nunca nem imaginava, e Amanda não estava mais aqui, sem contar que ela não pode me mostrar a carta dela. Subi derrotado a escada, após minha tentativa de explicar para meu pai sobre o meu dia. Pus Velocidade e Dimensão alternativa nas suas devidas proteções, e olhei finalmente para o relógio. Nove da noite. Decidi tentar dormir para me preparar amanhã. Dois pais fora de combate, eu que não sou doido de sair pra um hotel a essa hora da noite. Me preparei pra deitar, e me joguei na cama, também dormindo logo em seguida.
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