A verdadeira história de como surgem os bebês.
1 A verdade.
Notas iniciais
Sei que as pessoas inventaram várias histórias burras sobre esse tema, lembra da vez que lhe disseram que o papai colocava uma semente dentro da sua mãe? Era mentira. E aquela história de que a cegonha havia trago você? E tem também aquela outra que envolve sexo, em que um pênis e uma vagina se cruzam, lembra? É tudo mentira.
Vim aqui contar a verdadeira história de como eu surgi.
Há alguns anos, uma senhora muito elegante criou o Fred, um robô grandão e muito engraçado. Ela juntou várias peças de metal, ferramentas, mecanismos e outras coisas que não entendo muito bem. Assim surgiu o Fred. Ela o fez para ser um robô divertido, medindo quase três metros de altura, com vários olhos -mas ele era cego, vai entender- e uma roupa colorida metalizada. Ele era tão engraçado que nem tinha mãos, no lugar de mãos ela o deu um par de ursos felpudos, que abraçavam as pessoas.
E ele levava alegria por onde passava, sempre rindo e pulando por aí. Ele tinha uma magia, ela não sabia disso, mas na hora de fabricá-lo ela adicionou uma porção muito grande de amor e felicidade, assim, o local por onde ele ia, era inundado por cores e risadas. Todos o amavam. As pessoas o convidavam para a festa de seus filhos, para as próprias festas, para banquetes, jantares, boates e até casamentos. Casamentos.
Em um casamento Fred pôde ver que todo humano tinha um par para si, e que isto os tornavam ainda mais felizes. E então Fred também quis o seu par, ele tentou com algumas garotas mas elas apenas riam, não com ele, mas dele. Ele tentou com cachorros, mas cachorros... bem, não deu muito certo. Ele tentou com objetos, carros, postes, árvores e nada. Até que ele teve a brilhante ideia de procurar outro robô que fosse como ele.
Fred sumiu, fez suas malas, deu adeus para seus amigos e partiu pelo mundo em busca de seu par. Em sua viagem ele enfrentou chuva, que corroeu sua estrutura, retirando sua camada de tinta, deixando-o enferrujado e em tons tristes de metal e ferrugem. Andou entre cactos e espinhos, que lhe furtaram a pelúcia dos ursos das mãos, revelando um par de espinhos pontudos que giravam como uma furadeira ao invés de abraçar as pessoas. E ao invés de inundar os locais com risadas e cores, Fred transbordava tristeza e murchava flores e tortas de morango.
Muito tempo se passou, até que o grandão desistiu. Então ele se sentou a beira de um abismo e encarou a escuridão infinita onde se jogaria. Era o fim. Uma garoa caia do céu e as gotas deslizavam pela superfície de metal de Fred, pingando na terra. E de sua angustia, eu nasci. Lembro que pousei uma mãozinha em seu ombro e sorri.
— Está com você! -E saí correndo pelo matagal, me escondi atrás de uma árvore e diminuí minha respiração, tentando ouvir sua aproximação.
No início ele continuou parado lá, sentado e encarando o seu final trágico. Mas então ele tirou forças não sei de onde e se levantou, veio correndo pela floresta, tentando me encontrar. Eu o vi primeiro, ele era engraçado com todos aqueles olhos cegos, o que me fez começar a rir muito.
E a floresta foi inundada com cores tristes, meio mortas, e também com risadas infantis, um pouco malévolas talvez.
Assim tudo se acertou, "um robô enferrujado e uma criança perturbada", eles disseram. Está perfeito.
Enfim, é assim que surgem as crianças: um robô grande decide se casar, mas não há muitos robôs grandes iguais a ele por aí, então ele fica muito triste e viaja o mundo em busca de um amor, não o encontra e decide encerrar sua existência. Daí, surgem os bebês.
Fale com o autor