A verdadeira história de Salém
2 Bruxas existem?
Notas iniciais
— Tituba! Tituba! Onde está você?
Tituba acorda ouvindo alguém ao longe chamar seu nome. Ela estava caída na floresta, toda cheia de folhas secas. A noite já havia avançado. Ela se levanta e grita:
— Estou aqui!
Sua mãe aparece com um lampião
— Minha nossa Tituba. Estamos procurando por você há um tempão! – sua mãe estava ao mesmo tempo aliviada e irritada.
— Desculpe mãe, é que... eu e as meninas estávamos brincando aqui e...
— Brincando na floresta? Mas oras, que ideia é essa... – nessa hora sua mãe ilumina com o lampião o lugar onde estava a galinha. Ela dá um grito e se afasta para trás.
— Tituba! O que vocês fizeram?! – o pavor estampava o rosto da mãe
— Estávamos só brincando mãe. Eu queria assustar elas.
— Eu lhe avisei para não falar nada sobre o voo doo para esse povo! Eles não entendem. E o que vocês fizeram... Posso até sentir uma força estranha nesta floresta. Como se este lugar já não fosse amaldiçoado o suficiente. Precisamos conversar. Vamos para a cabana – sua mãe a pega pela mão e a arrasta até em casa.
— Minha pequena, o que vocês fizeram não foi nada bom. Devemos manter nossa cultura o mais longe possível destes brancos ignorantes – disse ela.
A mãe preparava uma sopa com os poucos alimentos que restavam. As velas iluminavam a pequena cabana de madeira onde as duas moravam. A cabana ficava ao lado da casa dos colonizadores. A mãe trabalhava para eles durante o dia.
—Porém, isso que aconteceu me mostrou uma coisa. Uma coisa que ao mesmo tempo me preocupa e orgulha – a mãe se virou e olhou seriamente para ela.
— Filha, o que você sentiu durante o ritual – perguntou.
— Não era um ritual de verdade mãe! – disse Tituba exasperada.
— Que seja! O que você sentiu criança? – ela repetiu.
— Me senti estranha. Parecia que o meu corpo estava sendo tomado por uma força... eu não tinha mais controle de nada. Até que de repente tudo apagou. – Tituba estava confusa.
— Eu sei que isso vai parecer estranho minha pequena – a mãe respirou fundo – você é uma bruxa.
Tituba deixou a colher cair da mão e abriu a boca surpresa.
— Eu sou o quê?!
— Uma bruxa. Assim como eu sou , sua vó foi e assim por diante durante milênios. O dom pode se manifestar ou não. Minha irmã não tinha o poder. Ele se manifesta bem cedo. O que você fez na floresta foi a prova definitiva – a mãe segurou as mãos de Tituba e a olhou nos olhos com afeto.
— Sempre suspeitei. Você sempre foi muito inteligente e perspicaz. E agora terá que ser mais do que nunca. Nosso clã foi devastado por esses brancos ignorantes. Nos tiraram de nossa terra, nos escravizaram e tentam silenciar nossas tradições com sua religião ignorante. Temos que nos manter escondidas, Tituba. Ninguém pode suspeitar de seus poderes. Eles acham que isso é coisa do diabo e se descobrirem qualquer coisa irão julgá-la e enforcá-la – disse sua mãe.
Tituba estava com os olhos arregalados. Não sabia o que pensar. Ela, uma bruxa? Era ao mesmo tempo super legal e apavorante.
— Esses brancos não sabem nada da vida. Sua religião é cega a natureza. Somos nós que sabemos manipular a natureza e respeita-la. E eles acham isso uma aberração, por isso tentam nos destruir. É só o que sabem fazer: Destruir e explorar – a mãe estava resignada.
— O ritual que vocês fizeram na floresta invocou alguma entidade. Não sei o que é, só sei que é algo maligno. Todos os espíritos se aproveitam de mentes fracas... tais como as de suas amigas. Tituba, se qualquer coisa acontecer e os homens da lei te interrogarem... você vai ter que acusar outras pessoas. Pense nas mais estranhas dessa vila, a velha Elizabeth que vive isolada naquela casa, o louco John que fala sozinho. Você entendeu criança?
— Sim, mãe. Vou fazer isso, não vou te decepcionar – Tituba estava com medo. Mais medo do que quando fez a brincadeira. Abraçou a mãe e desejou que os homens não fizessem nada de mal as duas.
— Ser uma bruxa traz grandes responsabilidades. Como eu desejo que estivéssemos em nossa terra, com nosso povo. Eu iria lhe ensinar tudo sobre seus poderes. E agora temos que nos manter nas sombras, com medo – disse ela.
A mãe sentia uma profunda tristeza. Porém, sabia que tinha que se manter forte. Sua família precisava dela agora mais do que nunca. Ela sempre foi forte, manteve a cabeça erguida, mesmo quando lhe arrastaram do seu lar para esse continente sem vida.
E ainda havia um espirito, rondando pela vila, buscando uma alma fraca para se alimentar. Salém estava mais amaldiçoada agora do que nunca antes esteve.
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