Mais uma vez, o reino estava mais escuro do que de costume. Ao invés das pessoas utilizarem vestes negras, o rosto delas já diziam tudo. A preocupação tomava conta de todos, principalmente por não terem mais uma pessoa específica para governar o reino inteiro.

–Envenenamento, majestade. -Dinis entrou no quarto da princesa, vendo-a sentada na ponta de sua cama e sendo consolada pelo antigo vassalo. -Nosso principal suspeito é um homem encapuzado.

–Como isso é possível? -Hilda estava com um vestido negro. -Esse era o mesmo suspeito que assassinou minha mãe, não foi? Você acha que foi a mesma pessoa?

–Não posso concluir nada ainda, majestade. Ainda tenho as minhas suspeitas sobre isso, majestade. -A princesa agradeceu. -Se me derem licença, tenho que ir ouvir o que algumas pessoas dizem sobre o acontecido com o rei.

–É claro.

O guarda fechou a porta do cômodo onde a princesa estava. Tanto a princesa quanto o amigo dela ficaram quietos, fazendo o quarto ficar tão silencioso a ponto de conseguirem ouvir o choro baixo das empregadas e a conversa dos conselheiros pelo corredor. O único barulho que escutavam eram o dos ponteiros do relógio.

A princesa não tirava os olhos do pequeno quadro de seu irmão, como se estivesse tentando dar a notícia para ele. -Princesa, eu sinto muito. -Essa era a única coisa que Ravio poderia falar para a amiga naquele momento.

–Obrigada... -Ela deu um único e pequeno sorriso. -Eu realmente não sei por que eu estou desta maneira, Ravio. Quero dizer, meu pai nunca foi alguém que realmente se importava comigo, mas agora eu não tenho mais um pai ou uma mãe...

–Princesa, não diga isso. -Ele colocou a mão no ombro dela. -Tudo se dará um jeito.

–Talvez, mas como é que meu irmão reagirá quando descobrir da notícia? -Ravio fez um rosto preocupado. Depois de tanto tempo, ela ainda acreditava que ele estaria vivo. -Ele ficará arrasado com isso, ele era muito apegado ao nosso pai.

–Eu não sei se essa pergunta será muito boa, mas você está preocupada? -Ela afirmou balançando a cabeça.

–É claro que estou. Pense nisso, eu governarei esse reino inteiro, e ainda tenho dezesseis anos, é muita responsabilidade para mim. Um reino inteiro de ladrões, pessoas más, isso será impossível para mim! -Ravio interrompeu Hilda.

–Bem, na verdade princesa, lembra-se daquela lei que sua majestade impôs? -A princesa tentou lembrar-se. -Você seria uma princesa regente, já que não tem nenhuma pessoa no qual tenha um relacionamento legal para se tornar o novo rei. Basicamente, os conselheiros iriam governar e você teria um pequeno papel político juntamente a eles. -Hilda se impressionou com o que o antigo vassalo havia dito.

–Onde você aprendeu isso, coelho?

–As paredes deste castelo são finas, eu ouvi os conselheiros falando. Além disso, eu li alguns livros sobre política naquele dia em que você me pediu que eu lhe esperasse terminar de se arrumar para jantarmos.

–Acho que é uma das primeiras vezes que eu escuto você dizendo que leu um livro. -Ele riu. -Fiquei impressionada agora.

–Eu sabia que você iria dizer isso. -Mais um sorriso da princesa. -Enfim, não há nada no qual você tem que se preocupar, princesa. Tudo estará bem.

–É isso que eu espero. Ravio, como eu queria ter poder de saber o destino que o nosso reino e o meu futuro espera... -O antigo vassalo olhou para os lados. -Espere, você sabe algo sobre o futuro?

–Não exatamente, é algo relacionado com isso. Você já leu até o final do livro que contava sobre a história do nosso reino? -Ela negou. -Dizem que existe um vidente tão velho quanto sábio no reino, e que ele dá dicas sobre o futuro.

–Essas dicas são verdadeiras?

–A maioria delas realmente se concretizam no futuro, mas já houveram reclamações dizendo que essas dicas foram combinadas para serem... -Ele foi interrompido pelo olhar brilhante da princesa.

Hilda correu até a penteadeira dela e abriu uma caixinha decorada, pegando algumas rupees. -Do que estamos esperando então, Ravio? -Ela tirou as jóias que usava e colocou um casaco comprido com um capuz. -Vamos logo então!

–Princesa, você deveria ficar aqui para prestar luto com as outras pessoas. Além disso, não vão deixar você sair do castelo.

–E perder essa oportunidade? Todos acham que você ainda é o meu vassalo, e já que a sua função era de me proteger, eles não poderão nós impedir. Vamos logo, tenho certeza que você se lembra onde esse vidente fica.

Nenhum guarda os impediu de sair do castelo, assim como a princesa disse. No lado externo, um vento frio deixava a princesa e seu amigo com frio, já que ele não tinha nenhuma roupa para aquele clima. -A tenda do vidente fica no norte da cidade dos ladrões, não é uma boa ideia ir até lá.

–Eu ouvi que existe uma passagem de ir até lá sem ter de passar pela cidade. -A princesa era muito teimosa, quando colocava uma ideia na cabeça, nada poderia tira-la. -Se fossemos pela cidade, eu tenho certeza que as pessoas de lá reclamariam para mim o motivo de não ter nenhuma reforma para eles. Ninguém no reino inteiro tem rupees o suficiente para fazer uma reforma naquele local inteiro, inclusive eu da família real.

–Princesa, você verá. Eu ainda vou conseguir vender minhas criações e ter rupees para reformarmos qualquer lugar que quisermos. -Ela sorriu. -Ah, ali está a tenda do vidente... -A conversa deixava qualquer caminhada mais rápida.

–Ótimo! -Ela segurou na mão de Ravio e entrou na tenda.

Ao entrar, viram um homem velho atrás de uma bola de cristal, com vestes azuis e roxas e uma máscara cor de marfim no rosto. A sua barba era tão comprida quanto ao comprido cobertor que estava ao seu colo, e o rosto caído lhe entregava a idade. -Majestade... -Ele disse com uma voz trêmula. -O que te traz até aqui?

–Meu futuro, senhor. -O vidente pediu para que ele se aproximasse. -Você pode ver o meu futuro? -A princesa entregou as rupees para ele, fazendo-o tirar a máscara e ver as mãos dela e analisar a bola de cristal.

Você acha que isso vai dar certo? –Ravio sussurrou no ouvido dela.

Quem deu a ideia foi você, coelho!–O vidente olhou para os olhos vermelhos da princesa e deu-lhe uma única resposta. -E então?

–O homem que lhe ajudará no seu governo está na floresta. -O senhor os pediu que saísse da tenda. -Isso é tudo que eu consegui prever.

–Obrigada. -Eles saíram da tenda. -Então vamos para a floresta, Ravio!

–Princesa, é melhor você esperar um pouco antes de irmos para lá. Sua majestade foi envenenada três dias atrás, esse novo governo seu começou hoje!

–Bem, acho que você está certo. Tudo bem, eu posso esperar um pouco.