A verdade sobre uma pequena mentira
19 Escondendo a verdade
Não tinha alternativa, a não ser mudar de roupa e começar a arrumar um pouco toda daquela bagunça. Nem sabia por onde começar, então, recoloquei as almofadas do sofá e das poltronas nos seus lugares e vários objetos em cima das mesas, para abrir caminho. Mas, resolvi dar prioridade ao escritório, rumei para lá e comecei a recolocar os livros nos seus lugares e os objetos dentro das gavetas. Até o momento que o interfone anunciou a chegada de Dario, autorizei a sua entrada no prédio e fui tirar a poltrona, que pus na frente da porta, como proteção extra. E ele apareceu, vestindo blazer e calça social escuras, segurando dois cafés expressos, em copos descartáveis, e pãezinhos doce de canela, em um saco de papel. Abri a porta, já perguntando:
— Você não tinha um enterro para ir hoje?
— Bom dia para você também, Júlia. O enterro será mais tarde, ainda estão preparando o local onde ocorrerá o velório. Além disso, estava preocupado com você.
— Por quê?
— Porque seu apartamento foi invadido. Não levaram nada?
— Nada que eu sentisse falta.
Abri caminho para ele, que parou em frente da estátua do anjo, logo no hall de entrada, com um olhar curioso.
— Esse é o anjo Azazel, o protetor do paraíso e da minha avó – Adiantei-me na explicação usual.
— Não acha isso muito grande, para se ter em um apartamento? – Ele observou, ainda encarando o anjo, que permanecia impassível.
— Acho, mas minha avó já o tinha há muito tempo, por isso ele vai ficar aí mesmo.
Ele deu de ombros e virou-se, dando de cara com a bagunça da sala, já um pouco mais organizada e deu um longo assobio.
— Nossa! Que bagunça! – Dario exclamou, com os olhos arregalados.
— Eles reviraram tudo! Pareciam que procuravam por algo.
— Talvez, seja isso mesmo – ele falou sério, logo depois mudou para um tom mais leve – Vamos tomar o nosso café da manhã! – Mostrando-me o que tinha na mão.
— Vamos! – Sentamos no sofá, eu afastei os objetos sobre a mesinha de centro para dar lugar para os copos.
— O que você acha que estavam procurando? – Dario perguntou, casualmente, entre uma mordida no gostoso pãozinho e um gole de café, sem perceber que eu estava o observando comer, mas a pergunta me trouxe de volta a realidade.
— Ah! Não tenho a mínima ideia – respondi, dando de ombros, não ia cair no joguinho dele.
— Você acha que encontraram?
— Como eu vou saber, se não sei o que era? Talvez, fosse só um assalto, alguém que ouviu sobre o lançamento do meu livro e achou que eu estava cheia de dinheiro, ou algo parecido.
— É, talvez. – Ele repetiu pensativo. — Você quer ir ao enterro do meu avô comigo, Júlia?
— Jura?! Você está me convidando para ir a um enterro? – Sorri, achando graça daquele convite bizarro.
— Sim, estou.
— Eu não sei, vai ser meio estranho – mas, depois, pensei que talvez fosse uma oportunidade de conhecer mais gente próxima dos personagens do meu livro e do passado da minha família – Está bem! Eu vou com você.
Já estávamos acabando o café, quando a campainha tocou, surpresa, fui atender, era James.
— Bom dia, Júlia. O que houve? Acabei de voltar e o porteiro me contou, que a polícia esteve aqui ontem, porque seu apartamento foi invadido – Ele parecia bastante aflito.
— Bom dia, James. Por favor, entre! Sim, meu apartamento foi invadido e revirado, mas, aparentemente, não levaram nada – respondi, com um tom mais leve, abri mais a porta para lhe dar passagem, ele entrou, solene, observando, atentamente, a confusão ao redor, porém, seus olhos se fixaram em Dario, que se levantou devagar, sem desviar os olhos do homem mais velho.
— E quem é ele? – James apontou para Dario com a bengala, que trazia na mão, em um tom autoritário. Senti que Dario ficou um pouco intimidado na presença do homem mais velho.
— Ah, ele é um... Ele é Dario – falei, apressadamente, como se tivéssemos sido pegos fazendo algo errado — Esse é James, meu vizinho – conclui as apresentações.
— Muito prazer, senhor – disse Dario, indo em direção de James, e estendendo a mão, que ficou no vácuo, pois as mãos do recém-chegado permaneceram repousando sobre a bengala.
— Dario Ferrer, o neto de Harom? – James indagou, espreitando-o com interesse.
— Sim – respondeu Dario, recolhendo a mão, sem jeito.
— Você não tinha um enterro para ir hoje, meu rapaz?
— Só mais tarde. O senhor conhecia meu avô?
— Só de nome. Ele foi um chefe de polícia bastante conhecido, na época da minha juventude – James respondeu e, em seguida, se virou para mim. – Estou em casa, qualquer problema me procure, Júlia – Naquele momento, Uriel apareceu e se esfregou nas pernas de James. Que apesar da idade, abaixou com destreza, para acariciar o gato, que miou feliz, depois se ergueu, indo em direção da porta – Até mais, Júlia — E saiu, ignorando Dario.
— Nossa! Quem é ele? – Dario perguntou, perplexo.
— Eu disse, meu vizinho. Ele era amigo da minha avó e, agora, resolveu tomar conta de mim. Espere um pouco por mim, vou colocar uma roupa mais adequada para o enterro.
— Quer que eu ajude você? – Ele brincou, dei um olhar reprovador e fui para o meu quarto.
Quando voltei, vestida mais apropriadamente para um enterro, calça preta e blusa cinza mais fechada, encontrei Dario recolocando algumas coisas no lugar.
— Engraçado, não tem porta-retratos por aqui! – ele observou, algo que nunca havia prestado atenção, dei de ombros.
— Minha avó não gostava de fotografias. Você acha que a invasão do meu apartamento pode ter haver com a história de Tony Felix? – quis saber, realmente, interessada na opinião dele.
— Também, havia pensado nisso. Talvez, estivesse procurando a sua fonte ou os livros de contabilidade desaparecidos de Tony, achando que poderiam estar com você. Vamos, Júlia! Já está ficando tarde. Preciso chegar cedo lá.
Antes de entrarmos no carro dele, lutei contra o vento para manter meus cabelos no lugar, olhei para o céu pesado, carregado com nuvens cinzas.
— Acho que vai chover – adverti, olhando para o céu.
— Sim, acho que vai – ele confirmou, repetindo o meu gesto.
— Por que você veio até a minha casa, Dario?
— Eu já disse, porque me preocupo com você, Júlia.
— Por que você se preocuparia comigo, Dario?
— Porque acho que você entrou, sem querer, em uma história bastante complicada e perigosa.
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