A verdade sobre uma pequena mentira
27 Dando as cartas
— Um museu é um lugar muito original para uma reunião desse tipo, Júlia – Dario declarou, impressionado com a minha ideia, olhando o austero e silencioso ambiente ao nosso redor. Assim, em um importante museu da cidade, mas pouco movimentado àquela hora de um dia, no meio da semana, o nosso pequeno grupo de aparência inocente estava parado, bem no centro da sua maior galeria, formando um círculo. Enquanto isso, alguns escassos visitantes observavam os quadros pendurados nas paredes e os objetos em exposição, e nós conversávamos em voz baixa, para não chamarmos muito a atenção. Ironicamente, eu escolhi o local onde acontecia uma exposição de artes sacras, com peças raras e valiosas vinda de várias igrejas e conventos do país e do mundo, por isso, guardas vigiavam qualquer movimento estranho de qualquer dos presentes e câmeras de segurança do circuito interno completavam a acirrada segurança, deixando-me mais confiante.
— Então, Júlia, o que tem para nós? – Ruy começou quase sussurrando.
— Isso! – Continuei no mesmo tom de voz, mostrando as fotos no meu celular e completei – A definição é muito boa! Reparem com os nomes são bem legíveis assim como os números.
— O que é isso? – Alex respondeu, sem entender.
— São os livros de Tony, com os valores dos subornos e os nomes dos beneficiados – Thereza explicou, depois, olhou para mim. – Então, você tinha realmente os livros?
— Não tinha. Na verdade, quando essa história começou não sabia de nada sobre Tony e os livros. Também, não desconfiava que minha avó tinha sido assassinada por vocês – assim, perguntei, curiosa. — Ruy, foi você que se lembrou da minha avó, quando viu as fotos de Aline?
— Como você sabe disso? – Alex perguntou, intrigado.
— Ele me contou, indiretamente, quando dançou comigo na festa de aniversário dele, na sua casa – expliquei.
— Sim, eu me lembrei de Heloisa, porque passei toda a minha adolescência apaixonada por aquela mulher, tinha o seu rosto angelical gravado na minha memória. Então, quando vi os anúncios, não pude acreditar. Primeiro, achei que era só uma incrível coincidência, mas tinha que ter certeza, por isso investiguei até chegar a Heloisa. Achei que poria um fim naquela história com a morte dela.
— Mas, não terminou aí – completei.
— Foi por causa do seu livro – Dario confirmou –, eu nunca contei nada sobre ele, mas, quando sua mãe anunciou no rádio e saiu nos jornais, eles souberam que era a história de Tony e a deles Ficaram de olho em toda a sua família.
— Foi um erro publicar aquilo como meu, mas eu não sabia que tudo era verdade e não se pode voltar atrás – lamentei.
— E afinal, o que você quer, Júlia? – Ruy foi objetivo.
— Quero que eu e minha família fiquemos seguras. Tenho cópias desse arquivo espalhadas por aí. E caso algo aconteça com qualquer um de nós, essas cópias vão surgir de todos os lugares e serão mandadas para as pessoas certas, inclusive, para o pai de vocês, Claudio e Dario. Imagine Rodrigo, o benevolente, defensor das famílias dos desaparecidos, descobrindo toda a sujeira da sua própria família. E que a sua irmãzinha querida é a chefe da quadrilha e que o pai adotivo mandou seu verdadeiro pai para morte.
— Rodrigo é um romântico sonhador, acredita no bem e no mal – Finalmente, ouvimos a voz de Thereza, que até então permaneceu calada. Tinha que confessar, que ela era quem mais me assustava, com aquele brilho frio no olhar. – Meu irmão era muito pequeno, quando tudo aconteceu, não se lembra de como era nossa vida antes de Harom, no entanto, eu era mais velha e me recordo muito bem de tudo. Nosso verdadeiro pai era um ladrãozinho qualquer, nossa mãe vivia drogada, passávamos muita fome, ninguém se preocupava conosco. Harom nos tirou da miséria, nos deu um lar, seu nome, uma vida digna.
— Em troca, você o matou? – blefei, os outros me olharam surpresos.
— Eu lamentei muito ter que fazer isso. Eu o amava muito, mas ele havia perdido a razão, falando demais. Depois, daquela festa, quando conheceu você, ficou falando de Heloisa e de Tony e do colar que você usava naquela festa, que foi um presente dele, começou a contar fatos do passado, que Rodrigo não poderia saber.
— Depois, foi o Tony?
— Tony retornou do inferno. Claudio o reconheceu no enterro. Ele era outro que sabia demais – Thereza prosseguiu, sem emoção na voz.
— Eu tinha visto a ficha dele para ficar de olho. Mas, ele desapareceu, logo depois que saiu da prisão. Então, como você e James, nós o encontramos escondido naquele buraco, como um rato – Claudio revelou.
— Agora chega! As mortes agora param por aqui! – digo, com firmeza. – Quero que nos deixem em paz e nós os deixaremos também. Só isso! Então, o que me dizem?
— Os livros? – Claudio perguntou.
— Continuarão escondidos. Eu serei a guardiã deles. Garanta a segurança de todos à nossa volta e os livros permanecerão esquecidos, onde estão. Esses são meus termos. Aceitam?
Eles se entreolharam, se sentido sem saída.
— Sim, aceitamos! – Thereza confirmou, não tendo escolha.
— Então, é isso! Está feito, mas lembre-se qualquer deslize e nosso trato estará quebrado. Adeus – Virei-me, desesperada para sair dali, e, foi nesse momento, que reparei o grande quadro atrás de mim, era de um anjo empunhando uma espada flamejante, sorri para ele, sai andando e tentando disfarçar meu coração tamborilando, minhas mãos trêmulas e a boca seca. Quando estava fora do museu e olhei para o céu azul e agradeci que tudo tinha dado certo.
Algum tempo depois, meus pais já haviam voltado de viagem, convidei minha mãe para almoçar em um pequeno e discreto restaurante, apesar de estranhar o convite, ela aceitou, sem perguntar o motivo. No horário marcado, minha mãe chegou já me encontrando à sua espera, ocupando uma mesa em um canto mais reservado.
— Desculpe o atraso, Júlia. Tive problemas com a gravação do meu programa – justificou-se, aflita.
— Tudo bem, mãe. Você chegou na hora certa, fui eu quem chegou cedo. E ainda estou esperando o meu outro convidado.
— Outro convidado? Quem? – ela me perguntou, intrigada.
— Olha! Ele chegou! – falei animada, quando vi James entrando no restaurante, vindo na nossa direção.
— Júlia! Pensei que almoçaríamos só nós duas! – Minha mãe estava confusa e James ficou sem jeito ao vê-la ali, junto de mim, já sentadas à mesa.
— Mãe, esse é James, um velho amigo e um antigo vizinho de minha avó. Tenho certeza, que vocês têm muito que conversar – Em seguida, peguei minha bolsa, levantei-me, pronta para ir embora.
— Você não vai almoçar conosco, Júlia? – Minha mãe ficou surpresa.
— Infelizmente, não. Tenho uma reunião com a minha editora agora, sobre a publicação do meu novo livro que escrevi – Abaixei e dei um beijo no rosto dela e sussurrei no seu ouvido. – Qual era um dos seus maiores sonhos, mãe? – Poucas vezes na vida, vi minha mãe sem palavras, pois sabia que era descobrir quem era o seu pai.
— Vocês já perderam muito tempo – falei aos dois antes de ir embora. – Até logo.
Quando cheguei na editora, anunciei-me a Bia.
— Só um minutinho, Júlia. Patrícia está com outro autor lá dentro e já vai atendê-la – ela me informou, com um sorriso simpático.
— Obrigada – agradeci, sentando-me no sofá, reparei pendurada na parede, o pôster da capa do meu livro, quando a porta se abriu.
Dario sai de dentro da sala, acompanhado por Patrícia se despedindo, animados. Tenho que admitir que ele ainda mexia muito comigo, meu coração bateu forte, talvez, por toda aquela adrenalina e excitação que ocorreu durante nossa história juntos.
— Tenho certeza, que seu novo livro será um sucesso, Dario! – ela falava, empolgada. — Júlia! Você já chegou! Vocês já se conhecem, é claro? – disse, olhando para nós, sem ter ideia o quanto nós nos conhecíamos.
— Sim — respondemos em uníssono.
— Como vai, Júlia? – ele me perguntou, meio sem jeito, acho que sentia o mesmo sobre mim.
— Bem – respondi no mesmo tom. — E você, Dario? – Imaginei, quem sabe, se pudéssemos ter outra chance e escrever uma outra história diferente para nós dois, afinal, não tínhamos culpa de sermos descendentes de que éramos.
— Estou bem. Mais um livro? – Dario quis saber.
— Sim.
— Outra história policial?
— Não! Desta vez será uma história de terror – respondi, com um sorriso maroto.
— Eu estou louco para ler – ele me devolveu aquele adorável sorriso torto.
— É bom que vocês se conheçam – disse Patrícia, animada. – Assim, poderão fazer companhia um ao outro, quando estiverem juntos na próxima feira de livros, em Lisboa, no fim do mês.
Nós dois nos entreolhamos, espantados, não estávamos esperando por isso. E quem sabe o que poderá acontecer?
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