A verdade sobre uma pequena mentira
24 Culpado ou inocente?
— O que vamos fazer com ele? – quis saber, exaltada, enquanto olhava para Dario, preso com fita adesiva a uma cadeira, na sala do meu apartamento. Um outro pedaço de fita tampava a sua boca, para ele não gritar, mesmo assim se sacudia, querendo se soltar.
James encarou Dario, de um jeito determinado.
— Acho que será melhor matá-lo – decretou, friamente.
— Não! – gritei, desesperada, no mesmo momento que Dario grunhia e arregalava os olhos, depois respirei fundo e ponderei, mantendo a voz calma – Não podemos matá-lo, isso poderá começar uma guerra. Tipo “olho no olho, dente por dente”. Nunca teremos paz.
James suspirou, refletindo.
— Você tem razão, Júlia. Acabaremos colocar o resto da família em perigo. Preciso pensar no que fazer. Tenho uns amigos que poderiam nos ajudar, esconder o garoto por algum tempo. Vou ligar para eles do meu apartamento – ele se dirigiu a porta, mas antes de sair, voltou-se para mim. – Júlia, fique de olho nele e, por favor, não caia na conversa dele. Ele quis ferir você.
Assim que James saiu, sentei na cadeira em frente de Dario, observando-o, notei que seus rosto e tórax estavam bastante arranhados pelas unhas de Uriel, no momento, que o joguei sobre ele para fugir.
— Então, foi isso! Você só se aproximou de mim por causa do livro, e eu cai como um patinho nessa sua história! – Eu falava com raiva, mais de mim do que dele, por ter sido tão burra e me envolver, mesmo com o aviso de James, para ter cuidado com ele. Dario não tirava os olhos de mim, sacudindo a cabeça em negativa.
— O destino foi muito sarcástico, colocando você no meu caminho naquele dia da editora, antes mesmo de sabermos do envolvimento das nossas famílias, no passado – depois, refleti. – A não ser que você já houve lido o original que mandei para a editora! – Nos olhos deles, notei que eu o havia pego. – Você leu o original, foi Patrícia que lhe entregou, para ter a sua opinião, talvez, porque soubesse a sua intenção de escrever um livro sobre aquela história. Foi isso? – Ele sacudiu a cabeça em negativa — Ela tem alguma coisa com isso? – Ele negou outra vez. – Foi por isso que você estava lá, no dia da minha reunião com ela, para me conhecer.
Continuava com meus devaneios para o meu interlocutor, impossibilitado de responder.
— Isso tudo foi um plano para me encurralar! Você e Alex planejaram tudo essa história, me contando todas aquelas mentiras, para ver com quem eu me envolveria primeiro? – Ele sacudiu a cabeça em negativa, violentamente, mais uma vez, resmungando. – Sabe, Dario, não entendo, como você pode proteger essa organização. Eles mataram o seu verdadeiro avô. Foi Harom o entregou para Tony matá-lo. – Dario arregalou os olhos, espantado. – Você não sabia disso? – duvidei, ele balançou a cabeça de novo, negando. – Acho que seu pai, também, não sabe disso. – Ele confirmou minha impressão. – Foi por isso que Harom adotou seu pai e sua tia, ele e a mulher não tinham filhos, então, matou dois coelhos com uma cajadada. Ops! Desculpe a expressão! Foi mal! – Ele piscou em concordância.
— Mas, eles mataram a minha avó, também. E nem esse anjo idiota, que ela gostava tanto, que dizia que a protegia e para quem fazia suas confissões, a ajudou. – Apontei para a estátua atrás de dele. Dario parecia entediado e desconfortável, mas, no fundo, estava gostando de vê-lo sofrer um pouquinho, prossegui o meu monólogo: – Eu sinto saudades dela, era uma mulher muito especial. Sabe, ela costumava a me dar presentes diferentes. Uma vez, me deu uma caixinha de música, que quando a gente levantava a bailarina, era um porta-joias. – Sorri nostálgica, com a lembrança. – Outra vez, ela me deu uma boneca, que tinha.... – Parei de falar, lembrando dos detalhes, que a boneca tinha uma gavetinha secreta, minha avó dizia que era para guardar os meus segredos.
Recordei as exatas palavras delas sobre o anjo Azazel, olhando para ele, quando eu era criança.
— Ele é o nosso protetor, que guarda os meus segredos – repeti, murmurando baixinho, para Dario não escutar.
— Preciso alimentar o gato! – Levantei, subitamente, assustando-o, corri em direção a estátua, mas, antes, verifiquei se Dario veria o que eu estava fazendo, mas ele não podia da posição onde estava, preso de costas para o anjo.
Assim, comecei minha exploração. Primeiro circundei a estátua, olhando todos os relevos e depressões da escultura, com muito cuidado. Em seguida, passei a mão em toda ela, tateando seus detalhes, que eram muitos, tentando encontrar alguma fresta ou alavanca, que abriria algum compartimento segredo. Lembrei-me das histórias antigas, onde as estátuas de santos eram usadas para esconder e transportar objetos. Então, minha mão encontrou um pequeno botão, quase imperceptível, debaixo de uma das asas, eu o pressionei e uma gaveta pulou na base da estátua, com um leve e doloroso rangido, e sobre uma fina camada de poeira estavam uma pilha de livros de capas pretas e etiquetas com datas escritas a mão, retirei um deles e folhei com cuidado as frágeis páginas amarelas, escrito com tinta azul desbotada, cheias de datas, nomes e quantias pagas. Depois, com cuidado, retirei todos, debaixo deles haviam alguns pequenos lingotes de ouro, remanescente do tesouro roubado de Tony. Recoloquei os livros no lugar original e fechei a gaveta, meio tonta, fui alimentar o pobre gato esquecido.
Enquanto enchia a tigela de Uriel, quase automaticamente, pensava que era isso que minha avó pretendia, me contar sobre o seu segredo, que ela escondia até mesmo do companheiro, mas sua morte inesperada a impediu. Imaginei que diário que eu encontrei e, inadvertidamente, usei para o meu livro, havia sido escrito para mim mesma.
Assim que terminei de alimentar Uriel, voltei para minha cadeira, na frente de Dario, e puxei a fita que cobria sua boca com força, sem piedade, ele gemeu de dor.
— Eu contei tudo que sei para você, agora, e a sua vez de falar – eu o instiguei, olhando nos seus olhos.
— O que você quer saber? – Ele sustentou o olhar.
— Tudo! – respondi com firmeza.
— Bem! Eu não estava mentindo, quando disse que queria protegê-la, só não falei que era da minha família.
— Sei – falei em um tom sarcástico, demonstrando minha descrença.
— Você pode não acreditar, mas é verdade. Desde de criança, o nome de Tony Felix era sussurrado pelos cantos das nossas casas, como um segredo. E como tudo que é escondido, desperta curiosidade, e foi o que aconteceu comigo. Então, comecei a pesquisar sobre o assunto, sem ninguém saber. Acho que foi isso que me fez ser escritor de livros policiais.
— E aí? – incentivei-o a prosseguir.
— Nessas pesquisas, notei que tanto o nome do meu avô como o do Velho Hierro, apareciam muito, de algum modo, estavam sempre ligados com o de Tony. E o fato de como eles enriqueceram muito, após a prisão de Tony, chamou ainda mais minha atenção. Aí, foi só somar dois mais dois e soube a resposta.
— Você está me falando que é inocente? Que não tinha nada com os negócios da sua família? – Espreitei-o com os olhos em fenda, duvidando.
— Estou, porém, não posso provar, você só terá a minha palavra.
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