A verdade sobre uma pequena mentira
6 Apenas verdades escondidas
Dentro do táxi, a caminho da editora, estava um pouco atrasada e bastante ansiosa, devido ao engarrafamento monstruoso que enfrentamos, com muito medo de perder o horário da minha entrevista. Até que, finalmente, o táxi parou na frente do edifício do meu destino, paguei e sai dele, apressada, mas a minha falta de jeito, o vestido justo e a grande bolsa me atrapalharam, foi então que o salto do meu sapato prendeu em uma fresta da calçada, me fazendo perder o equilíbrio, sai tropeçando, tentando evitar não cair esparramada do chão, no meio da rua. Contudo, algo me deteve antes da minha queda, percebi que era um homem, graças a Deus, forte o bastante para impedir que eu e ele caíssemos juntos no chão, o mesmo não pode dizer do copo de café que ele segurava, que voou pelos ares, derramando seu conteúdo por completo na calçada. Por um segundo, ficamos os dois parados, surpresos, agarrados um no outro, minha cara encostada no peito dele, respirei fundo, recuperando-me do susto, levantei a cabeça para olhar o seu rosto, ele continuava me segurando firme pelos braços, encarando, por cima dos óculos escuros, de um jeito como se achasse aquela situação divertida. Eu, ainda aturdida, encostada ao peito dele, tão próxima que podia sentir sua respiração e o seu cheiro, tive uma estranha sensação, um formigamento pelo corpo, pensei que fosse pelo nervosismo devido ao meu atraso.
— Desculpe! – Afastei-me, com um salto para trás, tão logo recuperei meu raciocínio. – Seu café! Eu pago outro! – disse, afobada, tentando achar a minha carteira na bolsa.
— Não precisa! – ele respondeu, com um sorriso maroto, achando aquilo tudo muito engraçado. – Eu compro outro, depois.
— Ah! Desculpe, outra vez! Mas, eu estou atrasada! Preciso ir! – Sai correndo para pegar o elevador. – Adeus.
— Adeus, coelho branco! – Ouvi ele dizer atrás de mim.
Cheguei esbaforida e sem jeito, desculpando-me pelo atraso, a secretária sorriu para mim com simpatia e anunciou a minha chegada. Patrícia já me esperava no seu escritório, era uma mulher mais jovem do que esperava, bonita, pequena, magra, com cabelos louros e curtos, usava óculos de grau redondos, grandes demais para o seu tipo de rosto.
— Julia, eu sou Patrícia Well. É um prazer em conhecê-la. Não esperava por alguém tão jovem – ela se levantou e estendeu a mão para mim.
— O prazer é todo meu! – disse, enquanto apertávamos as mãos.
— Por favor, sente-se – ela me indicou uma das cadeiras junto a sua mesa, enquanto retornava ao seu lugar – Realmente, gostei muito do seu livro, uma história bem interessante. Aqui, temos um público fiel a este tipo de leitura.
— Obrigada!
— E o seu primeiro livro?
— Sim.
— Estou impressionada! A história é muito bem elaborada.
— Então, vocês querem publicar meu livro? — Fui direta ao assunto, pois estava muito apreensiva.
— Sim, queremos. Gostamos da história e a nossa editora tem um bom público para esse tipo de literatura. Então, estamos pensando no básico que seria do tipo padrão brochura. Como você ainda é uma escritora desconhecida, pensamos de cerca mil exemplares na primeira tiragem, com distribuição nas principais redes de livrarias pelo país
Confesso que não entendia quase nada do que ela estava falando, mas tentava demonstrar o contrário, mantendo minha atenção. Depois ela começou a discorrer sobre contratos, percentagens, exclusividade, aquilo estava me deixando tonta.
— O que você acha, Julia?
— Bem, preciso pensar, mas parece bom para mim – menti, para esconder minha falta de conhecimento no assunto.
— Ótimo! Mas, não se preocupe com isso agora, esse nosso primeiro contato será para nos conhecermos, tenho certeza que a nossa parceria será excelente. Mandaremos um contrato padrão pelo seu e-mail para você analisar com calma. Também, acho que precisamos repensar no título. Acho que “ Vivendo com o crime”, meio batido.
— Eu vou pensar no assunto.
— Mandarei algumas sugestões de novos títulos para você, que poderemos usar, caso goste de alguma. Claro que haverá as revisões e podemos sugerir algumas mudanças, que não alteraram o contexto da história.
Nesse momento, a porta se abre e secretária de Patrícia colocou a cabeça para dentro da sala.
— Patrícia, Dario está aqui.
— Por favor, avise que já vou falar com ele. Ou melhor, peça para ele entrar, quero apresentá-lo a Julia.
Dario entrou, não conseguia vê-lo muito bem, de onde estava meio de lado, porém percebi o seu andar confiante e que tinha um belo corpo proporcional, não era muito alto, cabelos castanhos e a pele levemente bronzeada. Patrícia se levantou para recebê-lo, com dois beijinhos no rosto.
— Querido, como está?
— Bem, Patrícia. Precisamos conversar sobre o meu novo livro.
— Claro, querido. Mas, antes, quero que conheça uma nova aquisição da nossa editora, Julia Carson – Levantei e me virei completamente na sua direção, para cumprimentá-lo, ficamos frente à frente, então pude vê-lo melhor. Meu queixo caiu, quando reconheci o homem em quem eu havia esbarrado na rua, logo na entrada do prédio e cujo café tinha derrubado. – Julia, esse é Dario Ferrer. Ele é a nossa estrela dos romances policiais. – Ele me olhou, achando graça, provavelmente, eu estava com meu rosto vermelho, pois sentia como se pegasse fogo, envergonhada, me lembrando da cena do vergonhoso encontrão, enquanto estendia a mão para cumprimentá-lo.
— Olá, Julia
— Olá, Dario.
— Vocês se conhecem? – Patrícia perguntou, curiosa.
— A gente já se esbarrou por aí – Dario explicou, dando um sorriso travesso, que me deixou mais sem-graça, ainda.
— Qual o tipo de livro você escreve, Julia? – Dario quis saber, sentando–se na cadeira desocupada a minha frente, e cruzando as pernas, relaxado, que combinava bem com o tipo que ele fazia, calças jeans, camiseta e um casaco moderno estilo casual.
— Policial – falei, baixinho, meio intimidada por ele, retornando ao meu lugar.
— Nunca diria que você é do tipo que escreve um livro policial, estou curioso para ler isso – Ele foi sarcástico, me encarando. Aquele cara estava me irritando.
— Pois eu escrevi e a Primus que editá-lo – eu repliquei, sustentando o olhar.
— Por que uma garota como você escreveria um livro policial?
— Por que não? Ou só homens machões podem fazer isso? – instiguei-o, um tanto exasperada.
— Não, mas como eu falei, não parece o seu estilo – ele falava em um tom, casualmente, indiferente.
— E qual seria o meu estilo? – quis saber, com uma pontinha de sarcasmo.
— Sei lá! Tipo comédia romântica, romance de mulher – ele falou, dando os ombros.
— Quer dizer que mulher só pode escrever esse tipo de livro? Comédias românticas?
— Não, no entanto você...
— Como assim eu? – Minha voz subiu de tom.
— Pare de aborrecer a moça, Dario! – Patrícia intercedeu, pois, a conversa se tornava mais acalorada. – Não ligue para ele, Julia. Seu livro é ótimo e estamos felizes em publicá-lo. Obrigada por ter vindo. Nosso departamento jurídico entrará em contato com você em breve. E não esqueça de repensar no título – Patrícia falava e me encaminhava, em direção à porta.
— Adeus, senhor Dario — Virei-me para falar, me despedindo, secamente daquele cara arrogante.
— Adeus Julia. Eu estou ansioso para ler o seu livro – ele se manifestou, me dando um sorriso sardônico.
— Até breve, Julia – Patrícia encerrou aquele diálogo, me colocando, educadamente, para fora da sala dela.
Carinha antipático, metido e arrogante, eu pensava, furiosa, enquanto saía da sala de Patrícia, bufando de ódio. Foi aí que deparei com vários cartazes de livros pendurados nas paredes da antessala, dois deles me chamaram a atenção: Tempo de vingança e A honra da família, escrito por Dario Ferrer. Pararei na frente deles, a mesma moça, que anunciou a minha chegada e de Dario, veio falar comigo.
— Ele é a nossa maior estrela, os livros dele vendem muito. Cogitam até virar filme – ela comentou, animada, ela mesmo parecia uma das fãs de Dario.
— Ele é bom mesmo? – Não podia acreditar, que um cara como aquele escrevesse tão bem assim.
— Sim, ele é muito bom! — Ela me estendeu a mão, que eu apertei — Ah! Muito prazer, meu nome é Beatriz, me chame de Bia. A gente vai se falar muito daqui para frente. Vou pegar seus dados agora – ela anunciou. E depois de um pequeno interrogatório, Bia me dispensou.
— É só isso, por enquanto, Julia. Obrigada.
— Obrigada, Bia. Até mais – Já ia saindo, quando Bia me chamou.
— Julia! Aqui – Questionei-a com o olhar, quando ela me entregou um livro – É o Tempo de Vingança, o primeiro livro de Dario. Você já leu?
— Não – falei, tanto espantada com o presente.
— Então leia. Já que você escreve histórias policiais, deve gostar de ler também.
— Obrigada, mais uma vez, Bia – agradeci, colocando o livro na minha bolsa, não pretendia ler aquilo, nunca.
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