A verdade

2 Capitulo 1: Aparições


Havia acabado de anoitecer! Depois desse ultimo mês, quando meu pai trabalhava até mais tarde, começou a deixar a Srta Montez cuidando de mim como uma punição por ter mentindo e ido patinar escondida, apesar dele ter insistido em negar. Abgail Montez é uma amiga dele e a nossa nova vizinha, pelo menos foi a ultima a se mudar pra nossa rua há alguns meses. Quando ela não estava trabalhando no hospital onde era pediatra nas horas vagas, se divertia sendo minha babá. Como se eu tivesse cinco anos de idade e não prestes a fazer dezesseis. Pra falar a verdade eu acho que até as crianças dessa idade tem mais liberdade e independência. Mas sempre que reclamo com meus pais sobre isso eles dizem que EU estou sendo exagerada e que devo ser mais razoável. Contudo eu os compreendo, se qualquer outra pessoa passasse os últimos anos fazendo regulares visitas ao hospital e exames, seus pais também seriam assim.

Contudo, de uns tempos pra cá estou me sentindo bem melhor, apesar do incidente que houve no fim do mês passado, ainda me lembro de como em um minuto me sentia feliz, livre e completamente normal e no outro, a drástica realidade da minha vida vindo à tona, literalmente me derrubando. O que acabou rendendo alguns dias no hospital e dois sermões enormes, um da minha mãe e outro do meu pai. Entretanto, por mais idiota que possa soar não me arrependi de nada! Mesmo que as restrições aumentaram e que agora tenha uma fofoqueira em meu encalço direto, embora desconfiava que mesmo antes estivesse de olho em mim, para mantê-lo informado de cada movimento meu.

Talvez esteja meio chateada por minha nova “babá”, no entanto nunca diria isso ao meu pai porque ele a defenderia, o que só serviria pra me aborrecer ainda mais! Porém já estou acostumada com as pretendentes dele vindo aqui trazer bolinhos ou coisas do tipo. Andrew Button era herdeiro de algumas ações que cedeu para seu tio James Button, fazendo dele o dono majoritário em uma empresa que fabricava pequenas embarcações, pois como a parte financeira nunca foi pra ele, meu pai preferiu ser o engenheiro mecânico. Sua paixão por automóveis sempre gerou brigas com meu avô, inclusive quando disse que não assumiria um cargo no negócio da família. Meu pai é divorciado e costuma ser simpáticos com todos, levando as viúvas da casa de repouso para idosos ao delírio ao cumprimentá-las quando ia correr todos os dias ao entardecer na Praça Oeste, que ficava a uma quadra dali ou quando ia jogar basquete com antigos amigos sempre que podia. O fato de manter-se em forma o dava certa vantagem em comparação a alguns deles, um pouco corpulentos. E se tirasse a super proteção e um pouco de ciúme era um bom partido, já que não se descuidava, tendo até uma barba rala propositalmente e um cabelo castanho escuro sempre cortado do jeito que gostava por mais que ainda não tivesse namorado após a separação.

Meus pais sempre foram mais sociáveis e tiveram mais amigos do que eu, embora, ultimamente estivessem muito ocupados com seus trabalhos e principalmente comigo, até parecia que não era da família. Sempre fui mais reservada e sempre ficava na minha comparada a eles. Podia ser descrita como a garota que na maioria do tempo vive andando com um caderno de desenho, fones de ouvido ou um livro embaixo do braço pra lá e pra cá, talvez por que no fundo sei que só dessa forma posso ter um pouco de aventura e me desconectar com a realidade. No entanto, sou mais famosa por ter uma saúde de ferro... Derretido!

A Srta Montez deveria ser só mais uma das que fingem se importar comigo para causar boa impressão em meu pai. Mas havia algo que a fazia diferente, apesar de não saber o que exatamente, me sentia incomodada em relação a ela e pra piorar, vivia tentando me conquistar mesmo ele não estando perto, vinha e me perguntava se esta tudo bem. Isso realmente me irrita! Sei que esta achando que devo dá-la uma chance e ser menos ranzinza, porém já tomei minha decisão e não me via sendo simpática em hipótese alguma com ela.

Sinceramente tinha que admitir... Abgail era bonita. Ela tinha trinta e quatro anos, olhos verdes, cabelos castanhos escuro, rosto triangular e comparada as pessoas que moram aqui um pouco branquela, só que não podia dizer nada, tendo em mente que pareço uma folha de caderno. Em meu favor dizia que não tinha como me bronzear no hospital ou enfiada dentro de casa sobre os cuidados de meu pai, mas a verdade era que eu abominava a idéia de ficar torrando embaixo do sol.

Já estava de noite quando me senti mais cansada que o normal e fui me deitar cedo. Pouco depois me levantei sem ter conseguido dormir e continuava mal, sentia muito frio e dor no corpo. Fui ao banheiro e me olhei no espelho, então percebi que estava pálida (mais que o habitual) e com os olhos fundos. Me senti tonta e estava suando, lavei meu rosto e logo fui perdendo as forças, de repente minhas pálpebras pareciam pesar muito, até se fecharem totalmente...

Tive um pesadelo, porém eu não me assustava mais com ele. Já o vinha tendo a umas semanas de forma irregular no começo, ficando mais freqüente. Após uma semana apenas o esperava como um velho amigo e até que funcionou. Depois que parei de me apavorar por causa de um sonho e comecei a dormir, minhas olheiras diminuíram, mesmo que cada vez ficasse tensa e meu coração acelerasse, me despertando assustada. Dizia a mim mesma para manter a calma, pois já sabia que aquilo não era real. Se isso era normal pra mim? Não! Mas a realidade era muito pior pra se perder tempo se obcecando com um sonho. Nem era tanto de arrepiar, até agora...

“Como de costume me acordava e ia ao banheiro, pois por mais que tentasse sair dali de alguma forma, era atraída a passar por aquilo repetidas vezes. Me olhava no espelho e em um segundo me via no reflexo e no outro tinha uma garota que nunca vi antes na minha vida, exceto em minha mente. Tinha o rosto retangular, grandes olhos intensamente verdes e um cabelo de um loiro médio; ela aparentava ter uns vinte e poucos anos era alta e esbelta, um corpo a se admirar se não fosse por alguns hematomas recentes, usava roupas casuais sujas e ensangüentadas. E então eu acordava angustiada e esgotada.” Porém hoje era um rosto diferente, pela primeira vez a imagem mudou e em seu lugar estava outra garota desconhecida, do contrario se fosse um garoto tão bonito quanto elas não seria um pesadelo.

Essa tinha o rosto oval, seu nariz era arrebitado, pele clara, olhos pequenos de um castanho esverdeado e o cabelo loiro; aparentava ser mais baixa e um pouco mais encorpada, sendo uns dois ou três anos mais velha que eu. Diferente da outra que parecia preocupada e atordoada ainda mais que eu mesma, “Quem sabe me ver também não seja tão agradável pra ela!”, essa sorria pra mim. Só que ao mesmo tempo não parecia que sua alegria era real, seu sorriso era mais uma tentativa de parecer convidativo e seus olhos eram cautelosos e me analisavam, parecia estar ansiosa e querer se aproximar, porém com medo de fazer algum movimento brusco que pudesse me assustar.

Quando tocou o espelho, tive um impulso de saltar para trás, mas me contive. “É só um espelho”, pensei, “não pode atravessá-lo e vir aqui me fazer mal!” e eu não estava completamente errada. Ao invés de sair do espelho como temi de um jeito inexplicável, ao conseguir tirar meus olhos dos dela, percebi que o cenário ao meu redor mudou completamente, agora não estava mais no banheiro do meu quarto. Não era exatamente um lugar, parecia um espaço vácuo todo prateado, não havia fim e não havia começo e lá estava ela... a uma curta distancia. Reparei que usava calça jeans e regata preta, porém sem nenhum sangue e uma jaqueta de couro preta que recordava a parte de um uniforme com um emblema esquisito ao lado do peito esquerdo com uma ave que aparentava ser uma fênix sobreposta a uma bandeira distinta. Fiquei sem ação e ficamos em silencio por uns instantes, que me pareceram horas, repetindo para mim mesma que já iria acabar e acordaria logo, sabia que o despertador me acordaria me lembrando de tomar o remédio, ele nunca falhava, só esperava que não demorasse muito!

Ela ia dar um passo e ao ver que me encolhi atenta e um pouco nervosa, recuou e optou por outra abordagem, no entanto quando ia dizer algo, tudo ao nosso redor sumiu e por fim ela também se foi. O devaneio foi interrompido e do nada senti o impacto do meu corpo contra o chão e assustada percebi que tinha caído da cama. Assim como previ, o despertador tocou, mas estava tão focada nela que cheguei a me esquecer que era apenas coisa da minha imaginação, parecia tão real, no entanto muitos de meus sonhos eram assim. Uma vez li que são uma forma de expressar o que o nosso inconsciente deseja ou, no caso dos pesadelos, demonstrar nossos medos mascarados. Ainda assim meus sonhos não se encaixavam em nenhuma das alternativas. Primeiro que eles não pareciam mascarados, na verdade eram bem diretos e não me significavam nada. Em segundo: como essas garotas no espelho me encarando poderiam representar algo que possa querer? Isso era muito estranho! Só podia concluir que devia ter algo errado com minha mente e acabei esquecendo esse negocio de interpretar os sonhos. Não entendia porque logo eu, tinha que ter esses deslumbres bizarros.

Quando abri os olhos e voltei ao presente, chamou a minha atenção o fato de não estar no banheiro onde desmaiei e sim, no meu quarto. Me apoiei na cama intrigada e levantei resmungando algo do tipo: “com tanta coisa pra sonhar”. E no que eu virei me espantei ainda mais ao vê-la em pé ao lado do meu guarda roupa com um sorriso meio torto. Aparentava estar muito curiosa e se divertindo, quisera eu poder dizer o mesmo de mim! Reconheci aquela feição, era o mesmo rosto distinto do meu pesadelo, a nova personagem da minha mente que viera para me atormentar. Talvez por já tiver me acostumado com a outra e não me aterrorizar como antes, que ela acabou ganhando uma substituta. As roupas que estava usando, pareciam às mesmas com que a vi a pouco, só que estar em sua presença aqui, era ainda pior do que antes! Por que agora não ia mais acordar ou seria um daqueles sonhos dentro de outro? Não... Nunca tive um desses antes e apesar dos meus parecerem relativamente realidade e de sentir angustia, meu coração estava acelerado e a adrenalina pulsando, não me lembro de já ter sentido dor em um sonho como quando cai e sabia que estava acordada, pois não se pode sentir dor física de verdade, não é?

Não sei explicar o porquê, mas a garota não me causou pavor, claro que não simpatizei com ela, só que sua postura e seu olhar interessado me deixavam intrigada.

No impulso peguei o que estava mais perto e ataquei contra ela, infelizmente tive o azar de ter sido um simples e macio travesseiro e corri desesperadamente para a cozinha. Também não ficaria pensando muito em que deveria fazer geralmente em uma situação como essa, as pessoas ficam paradas nos filmes de terror e eu sempre acabo reclamando, ás vezes até torço para serem pegas só pra ver se aprendem, contudo, tinha de admitir não ter sido muito esperta também.

Não sei se era adrenalina, porém as dores sumiram e pude sair de lá correndo desajeitada tentando montar um plano, conseguindo no máximo pensar em ligar para a ajuda pelo telefone da cozinha e pegar algo com o que me proteger caso ela tentasse me atacar. Como não ouvi nenhum passo, soube que não estava me seguindo, só que quando cheguei à cozinha tomei um susto ao vê-la me esperando parada em frente a pia e antes que pudesse me segurar, espontaneamente gritei um “sai daqui!”, não esperava que a garota realmente atendesse meu pedido desesperado, mas ela se foi como se fosse uma fumaça levada pelo vento, com uma expressão sobressaltada, talvez não achasse que pudesse ter uma reação daquele jeito histérico, o problema é que nunca li um manual de como agir em uma situação como essa.

Antes que pudesse digerir o que acabou de acontecer, fui surpreendida por minha campainha. Com certeza meu grito foi mais alto que pensei e a Srta Montez veio ver como eu estava. Contudo a explicação não era meu único problema, pra piorar, voltei a ficar mal depois que a agitação havia passado, tive que ir atender a porta respirando fundo e andando devagar.

— Karen, tudo bem? Eu ouvi berros! – Na verdade foi só um gritinho, mas tudo bem, não pude segurar o alivio por vê-la.

— Me assustei com um inseto, muito nojento! – Ressaltei, como se aquela garota ainda estivesse ali e pudesse se ofender ao ouvir isso.

— Está bem? Parece pálida. – Afirmou tentando enxergar no escuro. “Eu sou pálida!”, retruquei em pensamento.

— Não estou muito bem. Será que poderia ficar aqui comigo? – Os olhos dela se arregalaram um pouco e sua boca ficou aberta sem produzir nenhum som. Ela conseguiu fazer com que eu me surpreendesse com sua surpresa e que repensasse por um segundo sobre aquilo ser realmente necessário, mas temia ter que passar por tudo de novo se estivesse desacompanhada.

— Sim. — Respondeu depois de uns segundos ainda impressionada com o milagre que estava acontecendo ali, já que em outra ocasião teria me livrado dela rapidinho.

Ela me acompanhou até meu quarto e pegou alguns remédios que fariam com que eu voltasse a dormir e por mais que a idéia não parecesse muito atraente, melhoraria minhas dores e a febre, que devia ser a causadora das alucinações. Abgail ficou por perto até meu pai chegar após o avisá-lo pelo telefone, o que não demorou muito, já que havia ficado preocupado comigo. Quase não os via e ouvia, eram meio que sussurros e borrões, , pois os efeitos colaterais dos remédios estavam me apagando. A minha “babá” o explicou que eu passei mal, mas que agora estava melhor depois de tomar os medicamentos.

— Obrigado. Nem sei o que faria se você não estivesse aqui! — Disse ele a abraçando. Quase pude imaginar os seus suspiros e o coração dela acelerando.

— Não precisa agradecer! É o meu trabalho e eu amo poder ajudar as pessoas a melhorarem. – “Ama se meter onde não é chamada”, pensei sendo sarcástica mesmo estando meio grogue.

— Faz um tempinho que ela não ficava assim. – Disse ele passando a mão em minha testa, meio que afagando e verificando minha temperatura. — Será que é porque está ansiosa pra viagem a casa de campo? – Eu com certeza estava! Sentia saudades da minha mãe e do lugar, sem contar que com ela para freá-lo, teria um pouco mais de liberdade.

— Não sei te dizer assim. — Falou virando a cabeça para me avaliar — Precisaria fazer uns exames pra ter certeza do que é! Talvez seja só um resfriado ou os anticorpos exterminando com as infecções, mas por causa de sua imunidade baixa as coisas são duas vezes piores, por isso a afeta tanto.

— Tenho tanto medo de que fique mal de novo! Quando ainda era uma criança o médico disse que ela não viveria por muitos anos, não posso nem pensar nisso! Se pelo menos houvesse um meio de ajudá-la e lhe proporcionar uma vida normal.

— Você não vai perdê-la! Entendeu? Olha, sei que vai soar estranho por ser eu quem está falando, mas nós médicos também erramos e se for acreditar no que ele disse a fio, Karen já deveria ter falecido há algum tempo, só que está aqui prestes há fazer dezesseis anos. – Ele foi se acalmando apesar do que ouviu o ter causado calafrios e uma enorme preocupação só de imaginar. No entanto eu não estava surpresa, já tinha ouvido aquilo algumas vezes nas conversas de meus pais, ás vezes com meu médico o doutor White, ou amigos e familiares mais próximos, sem que ninguém soubesse de minha presença, é claro. Nunca comentei ou os perguntei sobre aquilo, não queria fazê-los pensar no assunto, mais do que já o faziam. — Nem você, nem ela merecem isso! Afinal ela é uma lutadora incansável. – Concluiu. “Ela deve estar dizendo da boca para fora, para agradá-lo”, refleti comigo mesma, me sentindo incomodada do jeito que dizia ou com outra coisa qualquer que não conseguia descrever e nem raciocinar naquele momento, que estava mais pra lá do que pra cá.

— Verdade! Nisso ela puxou a mãe, a Camille é uma lutadora, sempre foi. – Ouvi orgulho e admiração em sua voz.

— Pelo que você me fala dela... Tenho certeza que sim! — Depois disso me forcei a dormir e parei de me concentrar na conversa, não queria pensar sobre meu pai falando da minha mãe com ELA! Não queria sentir raiva ou algo do tipo, não queria sentir nada!

Me entreguei a sonolência com quem vinha lutando para poder escutá-los. Desta vez só acordei no dia seguinte de manhã e por sorte não tive nenhum pesadelo, pra falar a verdade não sabia dizer ao certo se havia realmente sonhado, , pois não me lembrava de nada, nem de uma remota ou pequena parte.

Terminei de me arrumar, já com o remédio da manhã tomado, peguei minha mochila transversal preta, estilo carteiro, que não era nada feminina e vivia cheio de cadernos da escola e um de desenho, ás vezes um livro, lápis e algumas canetas que tinham estourado deixando algumas manchas que adquiriu ao longo dos dois anos que a tenho, mas ainda assim não via necessidade de trocá-la. Quando desci meu pai já estava pronto para trabalhar e tomava café.

— Oi. — Falei me sentando querendo aparentar estar o melhor possível.

— Aonde você vai? – Perguntou a me ver vestida e pronta para sair, me encarando com aqueles olhos verdes confusos.

— Com essa roupa? Talvez pular de para quedas. — Respondi irônica enquanto colocava minha mochila encostada na cadeira. Mas ele continuou sério, não estava de muito bom humor e ainda esperava uma resposta. – Pra escola. – Falei desta vez sem brincadeira, apesar de parecer obvio.

— Não hoje! Já estava indo te chamar, vou te levar no hospital fazer alguns exames. Tirei o dia de folga. – “Droga” pensei, “tudo por causa da Abgail que lhe aconselhou a me levar ao hospital, porque a pedi pra me fazer companhia mesmo?”, culpei a mim mesma internamente. Mas esse cuidado todo já era normal, além de ser cauteloso meu pai era super protetor.

— Nem pensar!

— Como? – Seu olhar era aquele que dizia “você não vai se escapar dessa vez! Não adianta tentar fazer um de seus discursos sobre injustiças ou coisas do tipo”.

— Eu não quero fazer exames! – Reclamei mais como um pedido do que uma afirmação.

— Por quê? – Perguntou incrédulo. “Não sei ao certo, afinal ficar esperando pra ser espetada é tão divertido!”.

— Porque quando se procura, acha! E quando se acha, fica trancada dentro de um hospital ou no quarto com mais remédios. – Desta vez eu teria que fazer mais para convencê-lo – Pai, acabei de voltar e temos planos pra essas férias, não vou ser eu a estragar, não de novo! – Não que gostasse de apelar para o drama, mas eles nunca me escutavam quando o assunto era minha saúde.

— Tomou seu remédio? – Perguntou não gostando nada da idéia de faltar à consulta.

— Esta tudo em ordem! – Disse o mais confiante possível.

— Esta bem. Mas se você passar mal nós vamos cancelar tudo! Sua saúde vem em primeiro lugar.

— Claro! – Fiz um sinal de reverencia militar, brincando com ele e bem na hora acabei espirrando e me odiei por isso. Meu pai se levantou, foi direto pegar o termômetro ou a caixa de medicamentos e eu peguei as minhas coisas e sai silenciosamente. Ao voltar com o termômetro nas mãos, já não havia mais ninguém ali.

Ao me acomodar no ônibus e ver alguns rostos desanimados por ainda ser só segunda enquanto outros contavam o que havia acontecido no fim de semana, percebi que seria a mesma coisa de sempre, porém o que é entediante pra uns, é libertador para outros. Apesar de gostar de lugares silenciosos, ás vezes era bom ficar em lugares cheios, se distrair, conversando, pensando ou só observando, qualquer coisa era melhor e menos tedioso que um hospital quando se tem que esperar, mas sempre acabava acontecendo algo inusitado ou engraçado naquele lugar chamado ironicamente de Escola de Ensino Médio Legado, pois todos que estudavam ali de certa forma já tinham o futuro quase acertado, uns assumiriam os posto de seus pais, outros largariam e fugiriam para fazer o que realmente queriam ser ou só ficaram aproveitando por muito tempo o fato de serem herdeiros na costas e contas bancarias das pessoas responsáveis por eles.

Na entrada avistei as três bandeiras sendo uma da cidade expondo o grande sol no centro, a grande porta de vidro dando direto em um corredor e passando pela secretaria, vindo depois as varias salas e por fim a minha mais conhecida parte a enfermaria, eu e ela tínhamos muitas histórias tanto que tratava a enfermeira pelo primeiro nome conversando algumas vezes sobre suas viagens de férias ou qualquer outra coisa para passar o tempo. Já havia uma multidão de pessoas, alguns grupos num canto e outros mais espalhados, alguns rostos conhecidos, mas nenhum era o que eu procurava. Dei mais alguns passos até avistar Brandon, meu melhor amigo que estava a minha espera. Fui em sua direção ansiosa e sentindo meu coração pulsar forte cada vez mais que a distancia se encurtava. Ele não pareceu notar que meu pai não havia me trazido como fazia na maioria das vezes, sem tirarmos os olhos um do outro enquanto me aproximava, com um sentimento que fazia parecer que não nos víamos há muito tempo.

— Oi. — Me recebeu com o belo sorriso de sempre, mas desta vez optei por. Um breve e desajeitado abraço, no qual pude sentir seu delicioso perfume, só de pensar que ficaríamos longe por dias me fazia querer ficar desse jeito por muito mais tempo, e aproveitar esses momentos que ainda tínhamos.

— Oi. – Respondi me forçando a soltá-lo e reprimindo a idéia de ficar em seus braços pra sempre.

— Como se sente hoje?

— Melhor. – “Pelo menos agora estou.”

— Você quer dizer melhor que ontem? – Seu olhar era acusador e me censurava.

— Meu pai já te contou! – Afirmei entendendo o que aconteceu. “Aquele fofoqueiro!”, acusei em silencio olhando para cima como se assim pudesse transmiti-lo uma mensagem mental. Apesar de ter saído daquela maneira não precisava alarmar ninguém, mas era uma forma de me castigar, já que sabia como odiava aquilo. – Por que não estou surpresa?

— Ele me ligou pedindo pra ficar de olho em você. – O defendeu.

— Como se precisasse pedir! — disse uma voz atrás dele, que pertencia a Jessica Blanke, uma amiga. Sua roupa tinha um estilo mais esportivo, como quase sempre, que combinava com ela. Estava acompanhada de Ethan Nellins, seu namorado, que tinha cabelos e olhos castanhos, de nariz um pouco fino, estava mais musculoso nesse ano, por ter trocado corrida por basquete e dono de uma paciência incrível por estar em um relacionamento em que mais escuta do que fala! Vindo mais atrás Mason Campbell e Gabriella Collins para se juntar a nós.

— Oi pra você também! – Meu olhar foi como uma advertência de comentário desnecessário, já sentindo minhas bochechas corar.

— Oiiiii! — Deu um cumprimento meio exagerado e me olhou como se estivesse me perguntando “satisfeita?”.

— O que você tem? — Brandon retomou ao assuntou, ignorando os outros. Ele me olhava sério e atento, me acostumei com esse olhar cuidadoso parecido com os dos meus pais, do qual passei a odiar. A única coisa pior eram os olhares de pena. Não gostava de parecer frágil e indefesa, nem de ser a garota doente o tempo todo, alias detestava ser em qualquer momento.

— Nada! Estou perfeitamente bem. – Dei uns passos a frente sob seu olhar desconfiado e então ele segurou o meu braço de um jeito cauteloso para não me machucar, como se pudesse me quebrar ao dar um movimento descuidado, na verdade todas as suas ações pareciam ser premeditadas. – Sério! É melhor aproveitarmos o último dia de aula. – O sino tocou atrás de nós e aproveitei para fugir de um interrogatório.

Aquele era o meu ultimo dia, ainda faltava mais uma semana para as férias de fim de ano começarem, mas como as provas já tinham acabado e meu novo médico Daniel Smith sugeriu que umas férias adiantadas e respirar ar puro para evitar o estresse me faria bem, após aquele incidente do último mês e que talvez fosse bom parar com alguns remédios que já não vinham demonstrando muita eficácia a algum tempo, para retornar com outros em um novo tratamento o que fez meu pai quase enfartar dizendo que era loucura parar com tudo de repente e ainda mais agora que estava me recuperando.

Já tinha perdido a conta de quantas mensagens e ligações havia recebido do Dylan nas últimas semanas para saber como eu estava e todas ás vezes me dizia as mesmas desculpas, no entanto eu tratava de mudar de assunto sem que ele se desse conta e de repente estávamos falando sobre qualquer outra coisa, apesar de não termos tanto em comum.

Depois de explicar que mesmo tendo me machucado estava bem, porque pelo menos havia saído enquanto me divertia e agindo como uma adolescente normal que não era sufocada o tempo todo, com uma daquelas enormes listas do que não podia fazer. Meus pais conversaram por telefone algumas vezes, em alguns momentos era como se eu fosse um daqueles hamsters de laboratório que eles analisavam, fazendo um formulário sobre as alterações ao longo do dia. Meu consolo era que eles tinham férias acumuladas e resolveram viajar para nossa antiga casa de campo, em uma pequena cidade chamada Green Fields no estado do Tennessee. Pelo menos não havia mais nenhum clima ruim ao estarem de baixo do mesmo teto em comparação a outros divorciados, como os pais da Jessica que depois de anos casados nem podiam se olhar.

— Ainda vai viajar? — Perguntou Mason curioso, chamando minha atenção de volta ao presente.

— Sim, alguém se recusou a fazer os exames. — Retrucou Brandon de novo, com um barulho estridente do sino interrompendo sua persistência no assunto. “Bem na hora!”, agradeci mentalmente, dando uns passos animados a frente, sendo a única feliz em ir para a sala.

— Vamos! — O puxei pelo braço — Pare de fazer biquinho, estou doida pra dissecar uns sapos na aula de biologia.

— Você não pode ser desse planeta! — Disse Jessica com cara de nojo, enquanto me divertia já esperando esse tipo de reação dela tentando provocá-la, mesmo sabendo que tinha pavor disso e preferia enfrentar um grupo de garotos a enfrentar insetos ou outros tipos de seres pequeninos e que considerava asquerosos, não que eu fosse muito fã deles.

— Gabriella sabe do que estou falando. – Me referi a minha cúmplice de lindos cabelos pretos e pele morena clara da qual tinha uma pontinha de inveja, , pois mesmo que ela não fosse á praia, continuava com aquele bronzeado natural. Além do mais, ela queria ser médica e amava as aulas de biologia, além de ser super curiosa em assuntos relacionados, apesar de que eu não era super saudável tinha um estomago forte.

— Com certeza! — Me apoiou sorrindo com seus lábios carnudos, fazendo pequenas covinhas aparecerem em suas bochechas. Passei meu braço pelos seus ombros e fomos todos juntos para a aula.

As horas pareciam voar pra mim, tinha essa sensação toda vez que saia do hospital e era sempre muito divertido estar com meus amigos. Uma vantagem era que o Brandon e eu tínhamos todas as aulas juntos a pedido de meus pais, já que confiavam nele e nossos pais eram amigos desde antes de nascermos, logo nos conhecíamos desde crianças o que contribuiu com nossa amizade. Depois dos dez anos começamos a nos aproximar mais, pois o tio do meu pai James Button passou a fornecer o pagamento de meus estudos nesse colégio caro. E depois de passarmos um tempo juntos, quando nos demos conta éramos amigos inseparáveis. Ele sempre cuidava de mim, apesar de isso ser um problema ás vezes, mas vê-lo era uma das principais coisas que me animava e os momentos em que estava presente eram os melhores. Eu sabia que ele tinha desistido de fazer parte de várias equipes de esportes, só pra ter mais tempo pra ficar comigo no hospital quando ficava internada e ás vezes até dormia lá nos fins de semana, era uma das poucas pessoas com quem eu ficava e meu pai não ligava o tempo todo pra ver se estava bem. O pai dele, Charlie Devone era o oposto do meu, o amava, porém era meio distante, no entanto sua mãe Julie era muito gentil e diferente do marido, ele puxou todas suas qualidades, menos a de ser cabeça dura, mesmo não gostando muito de ficar alguns dias do fim de semana longe do filho, já que ela trabalhava e era o único tempo pra ficarem juntos, o deixava ir.

Ele é cauteloso, companheiro, um pouco sério e contido, mesmo achando que era só comigo, como se ficasse tenso em minha presença. Mas podia me lembrar dele há alguns anos e não era assim, parecia que de uns tempos pra cá carregava um peso nas costas, fosse na escola, no hospital, no cinema ou em qualquer outro lugar ás vezes ao olhá-lo via a preocupação e isso não era exclusivo dele, meu pai também parecia ter esse mesmo fardo e sabia que se tratava de mim.

Assim que nasci o doutor White disse que era diferente, meus pais pensaram que o diferente significava algo superficial, mas assim que fui crescendo ficava doente com mais facilidade, me sentia tonta e cansada com uma certa freqüência, minha mente e meu coração aceleravam, como se fossem explodir quando estava nervosa fazendo apitar o meu bip, que era o apelido do meu esquisito relógio monitor cardíaco, ás vezes me esquecia do que fazia como se tivesse apagões, tinha dores no corpo e as pessoas podiam quase jurar que eu era bipolar, pois tinha vários distúrbios emocionais. Deram vários nomes de doenças para o que eu sentia, mas sempre havia algo que não se encaixava. Além de ser difícil encontrar um coração novo compatível, meu organismo poderia rejeitar e por todos os outros fatores que não me fazem ser muito saudável não fazia de mim a pessoa mais indicada a receber um órgão e a fila também era enorme. Mesmo que meu novo médico tenha dito que se tomássemos as medidas certas não aconteceria nada de grave, meus pais só ouviam a parte do tomar cuidado! Principalmente meu pai, que não gostou muito do doutor ficar me incentivando a ter uma vida normal.

No almoço nos sentamos no lugar de sempre perto da porta e meio afastados das várias outras mesas do refeitório que era amplo e com uma grande parede de vidro, deixando o lugar central para os populares o que pra mim não era nenhum problema, pois só de pensar em desfilar como a Ashley fazia sentia um arrepio no corpo e minhas pernas tremiam. Uma coisa legal era que entre nós não tinha essa de sentar separados uns com os nerds e outros com o time de basquete, alguns de nós desde pequenos ficávamos juntos, eu e a Gabi estávamos no mesmo colégio desde o jardim de infância, junto com o Brandon, o Ethan e havia os outros, que também conhecíamos há um bom tempo. Poderíamos ser considerados inseparáveis e mesmo sendo tão diferentes quanto Jessica e Gabriella que não costumavam se falar antes, por causa daquele jeitão da Jess, as pessoas podiam ter uma impressão errada dela, achando que era apenas uma encrenqueira que queria chamar a atenção quando havia muito mais a se ver. E podia até ser a dona de uma persuasão incrível! Quem não a conhecia diria que é uma menina adorável por fora, mas que por dentro eram outros quinhentos, contudo eu diria que era exatamente o oposto daquilo. Ela era 55% palavras e 45% ação, já a vi brigar algumas vezes e não queria ser uma das que estavam contra. Sabia que apenas lutava pelo que queria e não admitia que pisassem nela, como quando hesitaram ao deixá-la fazer parte do time de vôlei e ela provou ser uma fera, mesmo que fosse a menor do time na época. Isso fez com que o afastamento dela com a Gabriella acabasse, pois no assunto determinação eram parecidas. Se no começo não conversavam entre si, agora caso alguém se meter com elas sei que protegeriam uma a outra e o mesmo vale para todos. Eu sou do tipo que tem poucos amigos, mas os que tenho, são de verdade e por mais que as vezes os afaste e não seja muito do tipo de expressar sentimentos e de ganhar o premio de melhor amiga do ano, tinha a noção da importância de cada um em minha vida e o quanto insubstituíveis e únicos eram.

— Karen, tenho que te contar algo! — Falou Jessica animada vindo se juntar a nós com um jeito de estar tramando algo e um brilho no olhar que já conhecia muito bem e que agora me causavam um certo receio do que estava por vir.

— Então fale logo! – Disse sentindo certa curiosidade e tentando acabar com o mistério, pensando que fosse alguma novidade no colégio ou uma fofoca sobre pessoas que vagamente me lembrava.

— O Liam veio me perguntar sobre você e pareceu bem interessado! – Agora havia entendido o porquê olhavam para nossa mesa, enquanto conversava com ele á pouco. Liam Parker era um dos garotos que mais entendia de computadores e games da minha classe, já chegamos a conversar algumas vezes sobre animes e mangas, mas o considerava apenas como um amigo de escola. Era alto e magro, usava óculos estilo geek e até tinha um sorriso tímido encantador, com um visual propositalmente desleixado e fones de ouvido que era como um acessório do qual nunca ficava sem. Começamos a nos falar após ele ter feito um trabalho em grupo na minha casa, todos vieram até mim já que eu tinha de ficar em repouso e depois passamos a falar sobre umas revistas de histórias em quadrinhos que tinha numa estante e do qual a maioria era do meu pai, que colecionava quando era mais jovem. Eu não diria que éramos da mesma tribo, por que apesar das revistinhas que tinha, não sabia de muita coisa sobre o assunto e estava longe de ser uma expert, alem do mais havia algumas pessoas como o Liam, que levavam isso muito a sério, fazendo com que me sentisse tentando entender matemática sendo alguém como a Ashley, uma patricinha conhecida por sua arrogância, preocupação com estilo e não por sua inteligência, então me faltava um pouco ainda pra fazer parte daquele grupo.

— Aonde quer chegar com isso? — Quis que ela fosse direto ao ponto mesmo sabendo que não gostaria muito do fim.

— Eu acabei comentando sobre sua viagem e ele me perguntou se talvez, você não queria fazer algo hoje, antes de ir amanhã. – Por um momento pensei que Brandon havia ficado tenso ao meu lado, mas estava comendo e parecia nem estar ouvindo direito nossa conversa ou simplesmente não ligava. Eu a olhei com uma cara de quem queria estrangulá-la sentindo minhas bochechas corarem e torcendo para que não notassem.

— A pena pela garota doente chegou a esse ponto? — Tentei parecer descontraída e relaxada, querendo demonstrar que não ligava para aquilo e que não estava pouco a vontade. Eu era famosa na escola, porém era por causa da minha saúde, por meus desmaios e ataques de fúria quando era criança. Também houve vezes em que tive uma, ou melhor, duas “pequenas” descompensação cardíacas, sorte que estava acompanhada do meu médico nessas ocasiões, que agiu rapidamente. A primeira foi quando fizemos uma festa surpresa de aniversario para meu pai em minha casa com alguns familiares e amigos próximos, do qual o Dr. White se encaixava, tinha ido fazer uns exames naquela semana e parecia estar bem e todos estávamos animados, queria muito que ele relaxasse um pouco e curtisse um momento com seus amigos, sem ter que se preocupar comigo, mas acabei estragando isso também. No meio da festa desmaiei na cozinha e todos ficaram assustados, ao acordar não me lembrava de nada como se apenas tivesse tirado um cochilo, porém estava no chão com meus pais de um lado e o Brandon segurando minha mão do outro. Na segunda, coincidentemente, também foi em um aniversário, só que desta vez era o meu de quinze anos e de novo meu médico me salvou, após fazer incansavelmente massagem cardíaca em mim até que voltasse a vida e recobrasse a consciência.

— Ninguém está falando em pena. Liam realmente parecia interessado! – Insistiu se inclinando para frente ansiosa por um sim, a verdade era que ela adorava bancar o cupido para as amigas solteiras, ou seja, eu e Gabriella.

— De qualquer forma, não posso! Tenho compromisso hoje á noite. — Ela não gostou da minha resposta, mas não insistiu, até deu uma olhada para a outra amiga ao lado que a devolveu outro que significava um: “não, nem adianta insistir!”. Reparei que cruzou os braços sobre o peito, emburrada como um criança e após isso Brandon voltou a conversar com Ethan que passou o braço nos ombros da namorada tentando animá-la, até chegarmos na sala ela já estava brincando de novo.

Não era como se não achasse Liam bom o suficiente para mim, só não queria ninguém e alem do mais fica bem estando sozinha. Já tinha muitas preocupações e não precisava de mais alguém para me perguntar se estava bem, se havia tomado meus remédios, nem nada do tipo, não precisava ser um fardo para mais ninguém e muito menos servia de distração, na verdade as pessoas costumavam se manter afastadas de mim e não era considerada uma garota muito acessível, apesar de estar “disponível”.

Continuamos a conversar enquanto íamos sozinhos até o estacionamento, ás vezes tirávamos proveito da minha condição e saiamos um pouco mais cedo da aula de educação física, tinha que ter lado bom nisso e aquilo era algo que ele não parecia reprovar, então quando eu estava nós escapulíamos mais cedo.

— Você não deveria ter jogado vôlei, não está bem pra isso!

— Está brincando? Estou me sentindo ótima! Bem melhor que antes de jogar. – Realmente, algumas vezes me sentia melhor depois de fazer alguma atividade física. Essa era mais uma das coisas estranhas em mim, enquanto as outras pessoas precisavam repousar para ficarem boas, eu tinha que me manter pelo menos um pouco em movimento, apesar do professor fazer vista grossa e ficar me chamando de tempos em tempos para descansar quando achava que estava me esforçando demais.

— Você vai me dizer o que tem? – Disse como se estivesse pensando nisso o dia todo.

— Como assim? – Fingi esta confusa, sabendo que não ia escapar dessa vez do “relatório”, sobre como me sentia

— Não tente me enganar que é perca de tempo! Sei que está escondendo algo. – Não era muito boa em manter segredos quando se tratava dos detectores ambulantes Brandon e Andrew, até porque qualquer dor de cabeça ou efeito ruim que tentava esconder vinha a se complicar e piorar depois, mesmo quando fingia que os remédios me faziam ficar melhor, quando não tinha certeza do que era pior: meu estado de saúde ou os efeitos dele.

— Então quando encontrar essa coisa que escondo conte-me que também estou curiosa pra saber! — Ele me encarou sério, não vendo tanta graça como eu. — Ok, pare de me olhar assim, eu falo.

— Conta logo! – Exigiu dando uns passos em minha direção e me olhando fixamente, o que era o suficiente para que destruísse minhas defesas e o dissesse o que queria.

— Ontem tive uns sonhos que estavam mais pra delírios ou qualquer coisa que venha de uma mente fértil e com tempo disponível sob os efeitos dos remédios. – Sabia que não podia ser por causa da medicação já que não os tomei, mas tinha que ter uma desculpa pra não parecer louca. Não contei isso pra Abgail porque tinha certeza que meu pai teria neuras com isso, mas não conseguia esconder nada dele e ele ficaria insistindo até que abrisse o jogo, de qualquer maneira, pelo menos encerraria o assunto de uma vez por todas.

— Que delírios? – Respirei fundo, aquilo não passaria despercebido, mesmo que ainda estivesse atormentando meus pensamentos me fazendo lembrar o que fazia questão de enterrar.

— Ficava vendo uma garota que desaparecia e voltava. – Falei com a imagem dela vindo à mente. – Ou talvez só estivesse sonolenta e a vi sonhando acordada. – Acrescentei vendo sua preocupação.

— A mesma dos seus sonhos?

— Não, essa já é outra. É horrível ter que ficar vendo essas garotas, se ainda fossem garotos! — Novamente ele me encarou parecendo não estar muito de bom humor, mas não estava tenso — É brincadeira! – Falei meio sem graça, não era muito boa em piadas e o fato de todos serem muito sério comigo também contribui para minha ruína na comédia.

— Porque não contou pro Andrew? – Mesmo confiando cegamente nele, ás vezes, quando o assunto era minha saúde tinha impressão que ele era muito leal ao meu pai.

— Porque não quero atrapalhar as férias de ninguém! – Não havia duvidas que mais uma vez meus pais perderiam sua viagem de descanso ficando ao meu lado dentro de um hospital. – Todos querem ter boas lembranças, pra que suas vidas tenham valido a pena. E quer coisa melhor que ver as pessoas de quem gosto felizes? – Disse brincando novamente, tentando desesperadamente baixar a tensão da conversa, , pois aquela não era a despedida que imaginei ter, mesmo que a que eu queria não fosse acontecer realmente.

Não que gostasse de essa tática para que deixassem fazer algo, mas sempre foi assim, se quisesse um pônei rosa fariam de tudo para me dar, porém se pedisse para dormir na casa de alguma amiga, ficavam receosos e tinha de implorar para aceitarem. Desta vez Brandon se chateou e calado olhava pra frente enquanto andava. Sempre fazia isso quando estava irritado ou nervoso, em vez de gritar ou dizer algo pra mim, simplesmente virava as costas e ia em silencio.

— Espera! – Falei apressando o passo para alcançá-lo.

— Não! – Disse sem olhar para trás.

— Está bem, não teve graça! – Me rendi, tentando pensar em algo para distrair e acabar com o clima desagradável quando ele parou bruscamente. Cheguei a esbarrar nele retirando rapidamente minha mão de suas costas.

— Sabe que não gosto que fale desse jeito! – Retrucou aparentando estar calmo, com uma voz controlada como se também já estivesse cansado de discutir

— Desculpa, eu só não quero mais estragar nada pra ninguém. – Dei um sorrisinho sem humor, não conseguindo o olhar nos olhos. Apesar de sempre me achar um problema que ninguém merecia ter de lidar, não costumava a falar sobre isso e quase sempre guardava as coisas para mim mesma.

— Você não estraga os momentos e nem a vida de ninguém! De onde tirou isso? – Me senti como se fosse uma criançinha e ele um irmão mais velho ranzinza, talvez fosse assim como me visse, uma menininha indefesa que se sentia obrigado a tomar conta.

— Não sou cega! – Afirmei com uma ponta de magoa em minha voz, mesmo estando me esforçando para parecer calma, mas não era tão boa em manipular emoções quanto ele. — Vejo o que acontece ao meu redor, sempre atraso a todos. – Essa discussão de ser um atraso já era bem antiga, mas vivíamos repetindo, não que eu quisesse ficar completamente sozinha, mas ficava mal o vendo perder tantas coisas, já era ruim de mais um de nós ter de ficar trancada, ele não precisava disso.

— Está errada! – Disse com a mão em meu queixo me fazendo encará-lo e a retirando sem demora. Ás vezes tinha essa impressão de que era como se o causasse um choque fazendo-o sempre se manter afastado. Seus olhos eram como brasas em mim e como eu queria me esquentar nelas. No entanto a irritação falou mais alto.

— Não, não estou! Meus pais se separaram depois que fiquei mais doente, você poderia estar no time de basquete ou que quisesse fazer! Só que está preso ao “dever” que assumiu de cuidar da doente.

— Acha que faço isso por dever? Que eu tenho pena de você? — Fiquei quieta desviando do olhar ofendido que vinha direto no meu rosto, era difícil brigarmos e mais ainda ele dizer o que realmente pensava, parecia que as pessoas tinham medo de me magoar, pelo menos as que se importavam comigo. — Que sou como o Liam?

— Não tem nada haver com o Liam! Porque o está colocando na conversa? – Disse surpresa por mencioná-lo. Minha voz era nervosa pensando se estava zombando do que houve, antes havia achado que nem ouviu o que Jessica tinha me dito, mas apenas estava ignorando sem que o assunto o importasse.

— Te ofende eu falar dele? – Minha reação o espantou, dando a impressão errada de que o estivesse protegendo, o que não entendi foi à chateação dele com isso. — Disse que ele tinha pena de você, não eu. – Ele parecia não acreditar que era mesmo por pena que o outro queria se aproximar, mas ainda assim mencionou na minha cara e a irritação fez meu sangue borbulhar em minhas veias, não precisava de mais um Andrew super protetor. Ele respirou fundo tentando se controlar de novo, como se tivesse medo de continuar a falar e isso realmente me aborreceu ainda mais.

— É verdade, mas quer saber? Admiro a coragem de ter me convidado pra sair! – Não sei como aquelas palavras saíram da minha boca, foi tão rápido que nem percebi o que estava falando. “o que estava dizendo? Qual é o seu problema?”, pensei comigo mesma sabendo que me deixei levar, era como se um baú cheio de velhas lembranças se abrisse em minha mente, me fazendo reviver alguns momentos nossos, que me forcei a esquecer. Já tinha decido deixar tudo que envolvesse um relacionamento que ultrapassasse a amizade de lado. – Eu... O que quis dizer é que mesmo se for por piedade, tem que ter coragem para sair comigo ainda mais sendo tão ignorante em games e animes... – Tentei disfarçar, me lembrando que na semana anterior eu e Liam ficamos falando sobre isso um bom tempo na enfermaria, quando nós dois tínhamos passado mal, ele por estar com baixo teor de açúcar no sangue e eu por uma leve tontura para qual praticamente chamaram uma ambulância com medo que desmaiasse. Me recordo de ter rido muito e achado interessante algumas historias que contou sobre o que leu em seus mangás e no dia seguinte me deu um dos seus preferidos. A cada sorriso e cumprimento que trocávamos Jessica insistia que éramos perfeitos um para o outro, enquanto eu revirava os olhos já estando acostumada com a necessidade dela de deixar tudo preto no branco. Talvez ate pudesse me interessar por Liam, já havia tentando gostar de outros rapazes, só que não conseguia tirar Brandon da minha cabeça, por mais que ás vezes quisesse e achasse que era o certo e sensato a fazer.

Ele continuou a desviar o olhar sem se convencer com a minha explicação, talvez se tocando que foi uma indireta, era a mestra em deixar um clima pesado mesmo não tendo completa intenção de falar aquilo, pelo menos não em voz alta. Não o disse pelo fato do outro ter me chamado para sair, mas de ter dito o que tinha vontade ao invés de ser tão cauteloso, porém sabia o que tinha entendido como se o estivesse cobrando algo, tocando no assunto que havíamos proibido e que tentávamos esquecer, pelo menos eu queria conseguir como ele fazia sobre o que havia acontecido entre nós há um tempo, algo que podia não significar muito, mas que pra mim tinha sido único, mesmo que ficasse repetindo que para todos devia ser assim e que estava fantasiando demais. Ficamos parados no fim do estacionamento em silencio por um tempo.

— Desculpa... Sou mesmo uma idiota! Mas não quero viajar estando brigada com você. Não com você! – Pensei em por a mão em suas costas, porém me detive em apenas esperar que me respondesse, sem se importar com algumas pessoas que olhavam ao passar ou se quer reparar nelas. Afinal o verdadeiro motivo pra ir a escola um dia antes de viajar e ainda mais numa segunda, era porque desse modo passaríamos mais tempo juntos.

— Eu quem sou o idiota, não você. – Sua respiração estava pesada, como se algo apertasse seu peito.

— Não fica bravo comigo. — Disse segurando com uma das mãos a alça da minha mochila com força e a outra na testa após ter fechado os olhos apertando-os enquanto me xingava em pensamento. Por dentro era quase como se implorasse, queria muito voltar no tempo, mas o teria feito muitas vezes, por que apesar de também guardar algumas coisas para mim, depois de um período não suportava mais e acabava falando precipitadamente.

— Como poderia? – Se virou para mim lentamente e pude ver um meio sorriso torto se formando e sua expressão se suavizar aos poucos, sabia que já deveria ter enterrado aquela conversa como fazia das outras vezes e fingiríamos que nunca aconteceu.

— Quando finalmente vão marcar o casamento? — Dessa vez o intrometido da conversa era o Mason, também conhecido como o mestre da inconveniência, competindo apenas com Jess. Estávamos tão distraídos que nem percebemos o sino tocando e a grande quantidade de pessoas ao redor.

— Não enche, está bem? – Disse sem rodeios querendo ter tido mais tempo para conversar com Brandon a sós, mesmo não tendo idéia sobre o que.

— Ok! – Falou levantando os braços como sinal de paz, percebendo que não era hora de piadinhas.

— O nosso ônibus já passou como vamos agora? — Perguntou Gabriella preocupada com o horário afinal depois da escola ela ia trabalhar no café de sua mãe que tinham há alguns anos desde que seu pai, que era das forças armadas dos EUA, morrer. Gabriella tinha apenas cinco anos de idade quando aconteceu, agora a única coisa que ela e a Sra. Elena Collins tinham, eram uma a outra e isso gerou um laço forte entre elas, sem contar que é a filha perfeita e responsável, que pensa no futuro e quer o melhor pra sua pequena família, as duas são amigas, muito unidas e conversam bastante, por isso a admiro muito; quando meus pais se separaram só ouvi a ela, sabia que estava certa e que aquilo não era o fim do mundo. Ás vezes queria ter um laço assim com a minha mãe também, mas sabia que ela se esforçava mesmo estando longe e era eu quem dificultava com meu jeito reservado e minha dificuldade em falar de sentimentos até para mim mesma.

— Desculpa, eu atrasei vocês! – Obviamente eles esperaram a nossa pequena discussão acabar.

— Não, a culpa foi da senhorita dramática aqui! – Apontou Mason fazendo uma careta e dando de ombros para os protestos da Jessica.

— Não é drama nenhum. Tínhamos que encontrá-la! – Disse com a aliança de compromisso na mão a segurando firme, como se pudesse sair fugindo dela.

— Ethan poderia ter te dado outra ao invés de nos por para procurar na quadra inteira!

— Eu não preciso de outra, já tenho uma e é esta que quero! – Falou encerrando o assunto e pondo-o de volta no dedo enquanto Ethan pôs a mão em seu ombro, aparentemente calmo, sem se importar tanto como Mason de ter procurado ou perdido o ônibus.

— É melhor esperar aqui ao invés de andar. – Disse atento e cuidadoso comigo, de novo me tratando de maneira diferente.

— Não, eu já havia falado antes que iria a pé! – Respondi esperando um protesto, mas Brandon apenas olhou por cima do meu ombro o carro de Bryan estacionado não muito afastado de nós

— Vou pedir para levarem vocês até o café da senhora Collins. — Falou para eles fazendo Jess e Mason trocarem olhares e segurarem os sorrisos insinuantes, como se o “vocês”, que ele falou teve mais ênfase em seus ouvidos, porém ele os ignorou. Como eles não moravam muito longe de onde Gabriella trabalhava não seria problema para eles irem a pé de lá.

Vi Bryan Walker se aproximando com um sorriso simpático que achava bem parecido com o do Brandon. Ele era um velho amigo da família Devone, apesar de ter apenas 19 anos ele morava com eles desde os 15 anos, sua mãe morreu e como não tinha mais ninguém pra ficar com ele, ela lhe deu uma carta e um endereço, disse que era de um antigo amigo que o ajudaria se algo a acontecesse e logo após faleceu. Ao lhe entregar a carta ainda lacrada a Charlie, que parecia não estar ligando muito pra ele e explicar o que houve, Julia cuidou dele e lhe deu um dos quartos pra ficar enquanto resolviam as coisas, até que no dia seguinte Charlie anunciou que iria morar com eles a partir daquele momento. Apesar de ser como um filho há um tempo, não gostava da idéia de lhe pagarem tudo, era cabeça-dura e só aceitou que lhe pagassem o colégio se trabalhasse em troca, então como precisavam de alguém pra levar Brandon até a escola ficou encarregado disso e mesmo agora que se formou ainda o leva e o traz. Até fez suas malas para ir embora quando fez dezoito anos e não queria escutar a ninguém, então Charlie o contou o que estava escrito na carta de sua mãe.

Lá dizia que ele era seu filho e que não o havia contado nada quando soube que estava grávida por que pensou que seria melhor criá-lo sozinho e longe de toda a confusão com os avôs do Brandon, que nunca aceitariam um relacionamento entre eles já que ela era empregada. Então soube que Charlie teve uma filha um tempo depois, chamada Ashley e sabia ser tarde demais para contar a ele, depois pediu para que cuidasse de seu filho. Brandon quem me contou aquela história assim que ficou sabendo, ao mesmo tempo em que estava feliz por saber que o outro era mesmo seu irmão, ficou triste por ele ter se sentido traído por seus pais que não o falaram a verdade.

Agora já superou tudo resolvendo ficar morando com eles enquanto esta na empresa em que Charlie também trabalha, durante o tratamento em sua perna que machucou após um jogo de futebol, pra então tentar uma bolsa e entrar na faculdade, se mantendo com o dinheiro que esta guardando. Seu modo de ser era impressionante e conversávamos ás vezes, sem contar que eu preferia mil vezes falar com ele do a que dar de cara com a Ashley de quem ele vivia protegendo Julie contra seus “ataques de fúria” e dramas.

Depois de explicar ao Bryan que me acompanharia e pedir se poderia dar uma carona aos nossos amigos, nos despedimos deles e nós dois fomos andando e conversando sobre qualquer coisa que aconteceu na escola ou que vimos na TV, comigo tomando mais cuidado agora com o que falava.

Um tempo depois caminhando encontramos três garotos brigando, os dois que estavam batendo sem dar chance de se proteger eram Cristian e Austin Perez, Jessica disse que eram conhecidos como “os irmãos problema”, pois viviam se metendo em encrenca e por isso eram bem populares por sua má conduta. Eles eram bem parecidos, tinham cabelos loiros e arrepiados meio desarrumado, olhos verdes, rostos magros e um pouco alongados, lábios finos e eram bem altos e tinham um cheiro de cigarro e álcool na roupa amassada. Não estudavam na minha escola, mas os conhecia porque eram os bad boys daqui, só mais um exemplo que as pessoas davam sobre os rapazes do bairro ao lado, Clock Island. Não sei o que as garotas gostavam neles, mas pareciam o tipo de confusão em quais algumas gostariam de se meter! O outro era Gavin Robson, devia ser um ano e meio mais velho que nós e também tinha uma fama de encrenqueiro e de se achar melhor que os outros. Tinha cabelo e olhos castanhos, era pouco mais alto que eu, um corpo avantajado que da um ar de fofinho e rosto oval, um gênio difícil e um ar arrogante, como sempre usava uma de suas roupas caras que adora exibir e que agora estavam em trapos sujo com seu sangue.

Em outro dia teria deixado pra lá e ido embora pensando em como ajudar o Gavin sem me meter em confusão e principalmente o Brandon porque com certeza sobraria pra ele, mas ao invés de ligar para policia ou buscar ajuda por perto, me intrometi fazendo novamente o que não era muito do meu feitio ou o que proibia a mim mesma a fazer, agindo precipitadamente.

— Hey, é melhor deixarem o garoto em paz! – Falei meio insegura, parecia até uma sugestão. “O que estou fazendo?”.

— É melhor vocês irem embora! — Senti Brandon se pondo ao me lado ficando bem perto, o suficiente para sentir seu perfume e me puxando de uma forma cuidadosa pelo braço, para que não levasse um golpe ou acabassem esbarrando em mim, mas o ignorei.

— Já disse pra pararem com isso! – Desta vez minha voz saiu mais firme, sentindo pena do garoto caído, por mais que já tivesse soltado piadinhas maldosas sobre a maioria da escola e que pudesse estar nessa situação por culpa própria.

— Cara, é melhor levar sua namoradinha embora! — Se havia algo que odiava era ser tratada como criança ou incapaz.

— Parem com isso! — Puxei Austin pelo braço. Senti a temperatura aumentando e meu coração acelerar com um bip já começando a apitar.

— Agora perdi a paciência! — Disse me empurrando com força para nos afugentar, cambaleei para trás sem equilíbrio e Brandon me segurou a tempo, antes que caísse de bunda no chão.

Depois Brandon foi em sua direção irritado e o outro irmão se intrometeu, ao perceber que eles iam pra cima dele e apesar de estar indo bem contra os dois senti uma raiva enorme, ele havia treinado Judô por anos e era apaixonado por todas as modalidades de luta e estava quase ileso exceto por um aranhão em cima da sobrancelha. Por um instante era como se perdesse o controle de mim mesma e então me vi jogando Cristian com força contra a parede, segurando firmemente sua camisa a alargando completamente, mas aqueles comandos não vieram de mim e aquela força não era minha, era como se meu corpo se movesse por conta própria. Ao ver meu reflexo nos olhos dele me distanciei, me surpreendendo com a raiva que vi em mim e afrouxei minhas mãos o soltando. Ele fez uma cara de apavorado e de dor, puxou o irmão e foram embora, enquanto Austin tinha uma mão na costela e o olho direito meio fechado, sabia que logo começaria a inchar por causa do soco que Brandon o deu por ter me empurrado.

Mas tinha uma coisa me incomodando além do fato de ter empurrado alguém contra a minha vontade com uma força que fez a parede ficar com vestígios do impacto, me perguntando o que o apavorou tanto e algo me dizia que não era minha reação em atacá-lo, é claro que aquilo o surpreendeu, mas tinha que ser outra coisa e isso fez minha raiva sumir, na mesma hora em que vi sua expressão transtornada, aquilo foi muito estranho, “aquele medo vinha de onde? E por que olhava pra mim quando adquiriu aquele semblante? E porque Gavin também saiu correndo assustado se o estávamos ajudando?” Essas dúvidas cruéis ficaram em minha cabeça e o fato de Cristian, aquele rapaz “corajoso” se assustar daquele jeito, como se fosse um animalzinho encurralado, me deixou intrigada.

— Que droga! Você esta sangrando. — Disse com minhas mãos em seu rosto depois deles correrem, fazendo qualquer coisa que estava sentindo seja confusão ou raiva sumir e minha atenção tinha inteiramente se voltado pra ele, tentando analisar o tamanho do corte, mas com a quantidade de sangue não dava de ter certeza.

— Não é nada, chegando em casa faço um curativo. – Falou se afastando e levantando a camisa para poder limpar o líquido que escorria por seu rosto, me pegando desprevenida, sentindo minhas bochechas corarem, enquanto tentava não ficar encarando seu abdômen.

— Tem alguém na sua casa? – Mesmo que tenha perguntado tinha quase certeza de qual seria a resposta, o dando para pressionar o machucado minha pequena toalha de rosto que levava nos dias em que havia educação física, mas que tinha certeza de estar limpa, , pois mal joguei, dando a desculpa de estar muito cansada pra sair da aula, enquanto reprimia a parte de mim que estava relutante em perder aquela visão.

— Não, mas eu me viro depois. – Respondeu abaixando a camisa e usando aquilo no lugar.

— Fui eu quem causou isso, eu dou um jeito! – Apesar de não gostar muito da idéia, o levei a melhor opção que tinha, afinal era minha culpa.

Caminhei até a varanda com flores que pediam desesperadamente por um pouco de água, pensando que para alguém que cuidava da saúde dos outros com plantas ela não era muito boa. Apertei a campainha e logo após ouvi passos apressados vindo em direção a porta nos atender.

— Karen? Brandon? – Disse Abgail surpresa ao nos ver, depois olhou séria para o sangue no rosto dele — Mas o que aconteceu?

— Será que poderia nós ajudar? – Falei finalmente hesitando um pouco, percebendo que Brandon não ia dizer nada, tendo que segurar a vontade de ir embora e tentar eu mesma fazer um curativo, mas ele não queria me dar trabalho e nem correr o risco do meu pai chegar mais cedo e o ver machucado. Por fim decidi ir até minha “vizinha favorita”, após não ter relutância da parte dele quando a citei.

— Claro! Entrem. – Falou com um sorriso meio preocupado nos dando espaço para passarmos.

— Eu não sabia o que fazer ou aonde ir. – Apesar do olhar dela dizer “não precisa se explicar”, eu queria dizer que aquela foi realmente a ultima opção e mesmo não gostando, sabia que ficaria devendo uma, ela cobrando ou não.

— Vocês sempre podem contar comigo! — Era a primeira vez que entrava em sua casa e devia admitir, até que tinha bom gosto, haviam cores vivas e móveis lindos sem que ficasse muito carregado, diferente do meu pai que fez minha casa parecer um museu de cores mortas e sem graça, tirando meu quarto, que após deixar de ser dos meus pais eu pedi para pintarem e depois fui “decorando” do meu jeito pondo fotos e desenhos deixando com mais vida, deixando apenas um sofá ao lado da janela onde costumava ler ou observar a noite por uns instantes e meu pai ficou com um dos outros dois. Ele defendia afirmando que eram antiguidades, pra mim eram velharias, assim como o carro antigo que antes pertenceu a meu avô e deveria estar reformando como dizia, mas que continuava parado na nossa garagem, mesmo o achando um carro com muito potencial. Só não entendia porque deixá-lo abandonado, era como se meu pai odiasse e ao mesmo tempo não conseguisse se livrar dele, no entanto como também não gostava de ter que compartilhar algumas coisas, não insistia no assunto. — Então, quem vai me contar como conseguiu esse corte?

— Foram uns caras que mexeram com a Karen, mas já dei um jeito neles! — Ele só contou essa parte o que eu agradeci, não queria que meu pai nem mais ninguém soubesse do meu lapso de racionalidade.

— Será que isso pode ficar só entre nós? — Perguntei sem expectativa nenhuma de cooperação da parte dela, já que só conhecia a Abgail amiga do meu pai, não sabia como ela realmente era, nem de seus gostos ou coisas do tipo e pra ser sincera não me interessava nem um pouco.

— Como ninguém se machucou seriamente, acho que não tem o porquê de preocupar o Andrew, ainda mais que vocês estão prestes a viajar, acho bom manter esse clima leve.

— Obrigado! — Foi o primeiro agradecimento sincero que a dei e a maior quantidade de tempo que a olhava sem desviar, ate porque estava prestando a atenção no corte de Brandon. Ela era ágil, executava seus movimentos como se fossem coisas tão simples quanto escrever e parecia ter muita delicadeza mesmo ás vezes ele ficando com uma feição mais séria e suavizando novamente.

— E como vai você Abigail? – A perguntou enquanto ela procurava algo dentro da maletinha de primeiros socorros, sabia que os dois conversavam algumas vezes pra falar sobre como eu estava.

— Me chame de Aby, você sabe que eu não gosto muito desse nome! – Eu sabia, por isso insistia em chamá-la pelo nome inteiro, sem informalidades ou intimidade. Ela de repente parecia mais nova do que eu a imaginava e na verdade sem o jaleco e depois de um tempo de descanso sua aparência era realmente mais jovial.

— Ainda não me respondeu! – Ele fez uma careta quando o cotonete com remédio tocou o machucado.

— Digamos que estou melhor. — Disse fazendo um sinal para que deixasse para lá ou que falaria depois sobre o assunto, o que me levou a perceber que talvez eles não falavam só sobre mim e isso me fez ficar curiosa. Afinal, do que eles falavam? A meu ver não tinham muito em comum, entretanto como disse antes, não sabia muito sobre ela, podia ser que seu pai torcia para o mesmo time de basquete do Brandon, porém se fosse sobre coisas banais não teria problema em conversar na minha frente. Tentei esquecer o assunto, até porque eu não me importava, não é mesmo?

A agradeci novamente enquanto ela insistia dizendo que não era nada, então, não sentindo a mínima vontade de prolongar a conversa, nos despedimos e depois ele levou minhas coisas até a minha casa.

— Você vai me dizer que conversas e sinais eram aqueles com a ‘Aby’? — Disse o nome com sarcasmo, não estava irritada nem nada do tipo, mas interessada no que poderia ser de tão secreto, que não podia ser dito na minha frente.

— Como assim? – Pareceu confuso ou só se fingiu de desentendido.

— Tudo bem, não precisa me dizer senão quiser. Afinal, vocês conversam sobre o que quiserem. – Não gostava de parecer ciumenta, até porque nós dois não tínhamos nada pra poder justificar isso, mas queria que fosse como antes, quando contávamos tudo um para o outro ao invés de ter que ficar supondo ou adivinhando o que se passava e principalmente nos últimos dias, ele parecia distraído e preocupado com alguma coisa, mas quando percebia que o observava, apenas disfarçava com um meio sorriso e fingia que nada estava acontecendo.

— Não tem nada pra dizer, não é nada demais. – Deu de ombros com uma expressão despreocupada. Tentei parar de pensar na voizinha em minha cabeça que costumava me dar os piores conselhos e dizer coisas do tipo: “meu pai não é o bastante? Quer o Brandon agora?” e esquecer esse assunto como ele pareceu ter feito.

— Você vai viajar pra casa da sua avó mesmo? – Troquei de assunto, fazendo aqueles pensamentos sem sentido desaparecerem.

— Sim, nós vamos visitar a família da minha mãe.

— E a Ashley? – Ela era irmã por parte de pai, dois anos mais velha que ele, sendo a mais popular e mimada que conhecia, tinha cabelos de um dourado natural, olhos verdes, lábios um pouco carnudos, era alta e magra levando o assunto roupa tão a sério quanto matemática era para Gabi

— Vai viajar com algumas amigas pra algum lugar?

— Ela ainda não se dá bem com a sua mãe, não é?

— Minha irmã, nem tenta. — Esse era um assunto delicado e o deixava mal, mas ele falou encerrando como se estivesse cansado dessa historia. — Eu vou indo! — Disse pensativo me entregando minha mochila.

— Te ligo mais tarde! — Fui entrando em casa um pouco decepcionada, pois pensei que ele diria algo, já que era a primeira vez em muito tempo que passávamos o natal e nosso aniversário de um dia de diferença longe, geralmente viajávamos logo após dessas datas.

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—Karen, espera. – Ele respirou fundo como se tivesse resolvido um enigma mentalmente.

— O que foi? — Falei voltando rapidinho, talvez até um pouco ansiosa demais.

— Você vai ter algum compromisso hoje á noite?

— Não. Eu só falei aquilo pra Jessica sair do meu pé, não que eu não o ache legal, mas não queria sair com Liam. — Ele soltou um sorrisinho quase imperceptível. — Por quê?

— Eu precisava falar algo muito importante com você. – A essa altura meu coração pulava dentro do peito e eu tentei abafar o som do bip, odiava aquele troço.

— Devo ficar preocupada?- Desconfiei pelo fato dele não dizer agora.

— Não. Já basta um de nós estar preocupado! — Não entendi o que ele quis dizer com aquilo.

— Está me deixando curiosa.

— Se pensar bem, nem é algo imprevisível, só que eu pensei bem nisso e quero fazer antes de viajarmos! — Falou de novo pensativo e enigmático. Comecei a ficar nervosa e a respirar fundo tentando me acalmar.

— Não vai me dizer mesmo o que é? – Perguntei com os olhos semi cerrados imaginando o que podia ser ou se tinha dado alguma pista ao longo do dia, mas nada me veio à mente.

— Não, seja paciente pelo menos uma vez.

— Você realmente me conhece? – Paciência não era o meu forte.

— Sim, e é por isso que vou deixar meu celular em casa.

— Vai sair?

— Tenho que preparar algumas coisas antes de vir aqui.

— Não pode fazer isso comigo, sabia? Estou doente, não posso ficar ansiosa!

— Se fizesse só o que lhe é recomendado não seria você.

— Fato. – Me rendi meio desanimada tentando agüentar minha ansiedade.

— Eu já vou indo, daqui a pouco eu volto.

— É melhor não demorar! — Ele me deu um beijo na testa e um abraço, mas dessa vez foi diferente, foi mais demorado e caloroso que antes ou estava imaginando que fosse, de qualquer jeito eu adorei isso!

Para me distrair comecei a fazer minhas malas, mas não deu muito certo, até tentei ligar pra ver se ele realmente tinha deixado o celular em casa, mais ninguém me atendeu e deixei um recado dizendo: “Só verificando”. Fiquei impaciente, mas escondi meu celular pra não ligar ou mandar mais mensagens, peguei meu laptop, me deitei na cama e contei para Gabriella e Jessica. Seus sorrisos não cabiam na tela e ficamos mais bobas que crianças num parque de diversão, depois de uma hora e meia conversando elas desligaram e ficar sem nada pra fazer só aumentou minha inquietação, “porque demorava tanto?” Então aquela mesma voizinha de antes voltou a envenenar minha mente, me fazendo pensar em coisas o tipo: “E se a surpresa não for algo que você goste? Ele parecia tão feliz e animado, e se for por causa de outra pessoa? Talvez ele tenha conhecido alguém. Pior, talvez ele a queira apresentar hoje. Já pensou que bonito seria: você de um lado, ele e ela de mãos dadas no outro dizendo como se conheceram e como ela estava ansiosa em te conhecer, a melhor amiga do garoto dos seus sonhos”. Senti uma angustia e uma raiva enorme de mim mesma, porque ficava pensando nessas coisas? Mas aquela podia ser uma possibilidade que me assustava um pouco, então decidi esperar para ver no que ia dar e se fosse realmente aquilo, então faria o meu melhor para não magoá-lo e inventaria uma desculpa para me livrar de uma conversa longa, algo do tipo: “Vocês me dão licença? Eu adoraria ouvir o resto de sua história juntos, mas acho que vou ter uma parada cardíaca agora.”, talvez cortasse meus pulsos e dissesse que foi sem querer, mas essa era demais até pra mim. Por fim, decidi que a melhor desculpa era dizer apenas que as atividades de hoje havia me deixado cansada demais.

Como não estava me sentindo muito bem e meu coração começava descompensar, tomei uns remédios só que me esqueci dos efeitos e fui ficando sonolenta até dormir.

Essa foi a primeira vez que o sonho mudou completamente, não estava mais em minha casa e sim em um lugar escuro, devia ser um galpão, mas não dava de ver quase nada a minha frente, exceto ELA! Estava com um sorriso de novo, porém seus olhos discordavam com essa superficial felicidade, era como se aparentassem preocupação, mas continuava ali, parada e imponente me encarando.

— O que você quer? — Gritei pra ela, porém não obtive resposta nenhuma — Eu quero que me diga agora!

— Não seria melhor perguntar quem sou eu? — Disse se aproximando me fazendo ficar alerta.

— Seria... Se me interessasse!

— Você é durona... – Aquela era a primeira vez que alguém, que não fosse um médico, me dizia aquilo e confesso ter mantido uma postura firme e continuado seria, como se aquilo fosse confirmar sua impressão. Agora sim parecia sorrir de verdade e seus olhos ficaram levemente mais claros, porém o lugar não estava mais iluminado que antes, tudo igual e isso me intrigou. — Eu gosto disso!

— O que você gosta ou deixa de gosta não me importa!

— E o que te importa?

— Que você suma! — Disse com uma voz potente e como que para dar mais efeito, depois de ver seus olhos vorazes e se sorriso levemente torto, ela simplesmente desapareceu, assim como todo o resto ao meu redor.

Acordei chateada, já estava cansada desses sonhos ridículos e pra piorar, Brandon ainda não havia dado as caras, já eram nove horas da noite e meu pai estava em casa, o que acabava com meu plano de fingir não estar bem para me livrar de alguma presença indesejável, pois ele acabaria me levando para alguma consulta e acabaríamos passando a noite no hospital e provavelmente não viajaríamos mais.

— Querida, como está? Se sente cansada?

— Não, infelizmente peguei no sono!

— Porque infelizmente? – Perguntou sem entender meu mau humor.

— A Abgail está em casa?

— Sim, estava se arrumando pra ir trabalhar, hoje ela vai ficar de plantão. Vocês começaram a se dar bem, hein? – Percebi uma ligeira animação em sua voz, mas minha cara inafetada fez seu modesto sorriso desaparecer.

— Preciso ir agora. — Fechei a porta e quase corri pra casa da frente, por pouco não chego a tempo.

— Algum problema? — Disse desligando e saindo do carro.

— Você sabe se o Brandon esteve aqui?

— Não, ninguém esteve aqui até onde eu saiba.

— Tudo bem, obrigada. – Sai antes de mais perguntas, sem me explicar a deixando meio confusa, mas logo ouvi o carro acelerar um pouco e a vi virando a esquina.

Subi para o meu quarto, após ter que dizer algumas vezes que estava tudo bem, quando tinha vontade de ir correndo até a casa do Brandon no condomínio Nick’s Garden, ou pelo menos correr até onde podia ir que seria um pouco depois da minha esquina. Tentei ler, desenhar, mais não tinha paciência, então coloquei meus fones de ouvido e deixei em uma musica alta e agitada, esperando me distrair.

No dia seguinte acordei sete horas da manha e ainda meio mal humorada e com os olhos vermelhos. Vi minha mala fora do lugar e meu caderno que antes estava guardado nela aberto em um dos desenhos que fiz da garota ontem na sala, o que me apavorou foi o fato de estar escrito “ficou muito lindo” no canto da folha. Tentei pensar em alguém com aquela letra, mas não conhecia ninguém, e afinal só eu mexi no caderno de desenho desde quarta.

— Só pode ser brincadeira! — Exclamei brava.

— Não é não! Ficou ótimo! — Senti um arrepio por todo o meu corpo, repetindo a mim mesma “Me diz que é um sonho, me diz que é um sonho!”.

— Só posso estar dormindo ainda ou delirando. – Disse para mim mesma tentando ignorar a desagradável presença daquela segunda pessoa, fingindo estar sozinha e não ouvir nada, engolindo um grito desesperado e ridículo e fechando minhas mãos tremulas em punhos.

— Nenhum dos dois!

— Vou parar de tomar esses remédios. – Continuei a ignorando. – Nada recompensa toda essa palhaçada!

— Seria ótimo, já que não funcionam muito. – Falava insistindo em conversarmos, sem parecer ligar para as minhas tentativas frustradas de evitá-la ou afetá-la.

— Pare de falar! Não tem permissão de falar! – Olhei furiosa pra ela a apontando o dedo, era difícil ficar daquele jeito e na maior parte do tempo acontecia entre meus distúrbios emocionais e eu não podia ter um agora.

— E quem disse que preciso de permissão? — Ela parecia um pouco irritada depois que disse aquilo.

— Eu! Você é fruto da minha imaginação, então estou no comando! — Me senti poderosa por um momento, apesar da loucura daquela situação.

— Sério? Então me faça desaparecer! – Me desafiou com uma feição descrente, levantando uma sobrancelha.

— Está bem! – Tentei devolver seu olhar firme e decidido — Eu só vou fechar meus olhos e pensar em você bem longe daqui, pode deixar, vai se dar bem lá! — Disse tentando parecer confiante. Fechei meus olhos bem forte que ao abri-los minha visão ficou desfocada por um instante — E agora vou te dar adeus. – Olhei pro lugar antes ocupado por ela, porem já não estava mais ali — Nem acredito que deu certo! – Estava completamente incrédula, mas dei um sorrisinho de vencedora.

— Ainda bem! Já estava duvidando da sua inteligência — Disse por trás de mim me dando um susto. Apertei minhas mãos contra minhas têmporas e comecei a respirar fundo, estava brincando com a minha cara. — E sabe aquele lugar em que estava pensando? Foi cruel! E você mentiu!

— Desculpe, quis dizer bem mal! — Minha voz soou cruel. Ela me encarou curiosa por um tempo, enquanto eu implorava em pensamento para que ela sumisse e nada mais de estranho acontecesse, estava cansada daquilo.

— E se eu te provar que sou real? Que estou aqui de verdade e não está louca? – Disse percebendo que as brincadeiras não estavam dando certo.

— Seria ótimo! Mas como vai fazer isso? – Falei olhando rapidamente pra cima, me perguntando por que essas coisas aconteciam sempre comigo. Talvez fosse um sinal de que me sentia sozinha e minha mente pra me ferrar esta fazendo isso.

— Sua campainha vai tocar, é a sua vizinha Aby.

— O que?... — Mal terminei de falar e a campainha tocou, só podia ser coincidência, disparei até a porta, talvez fosse o Brandon algumas horas atrasado.

— Oi – Cumprimentou, mas fiquei sem fala, a encarando boquiaberta — Karen? – Ela havia acertado.

— A-Abgail — Gaguejei com cara de espanto.

— É! Eu quero falar com você... – Disse desentendida se perguntando o que estava acontecendo.

— Espera só um pouquinho. – Encostei a porta e corri pro meu quarto, e ela estava mexendo nas minhas coisas.

— Então, era ela? Acredita em mim?

— Você é algum tipo de criatura sobrenatural? – Se fosse mesmo eu era uma idiota por ter voltado ali.

— Tipo um fantasma? Claro que não!

— É sim!

— Não vamos começar tudo de novo! – Disse como se encerrasse o assunto. – Olha eu só ouvi os passos dela saindo de casa e a vi caminhando até aqui. – Confessou ao ver meu olhar meio vidrado, como se ouvir os passos de uma pessoa do outro lado da rua fosse normal.

— Vem cá! — A peguei pelo braço e me surpreendi por sentir sua pele macia se tornar dura feito uma rocha em minhas mãos, então a puxei até a porta enquanto Abgail me encarava surpresa — Você consegue vê-la?

— Karen, como assim? – Ótimo! Agora com certeza seria internada, só que em um manicômio desta vez!

— Só responde! – Insisti. Se fosse pra fazer papel de louca que pelo menos me tirasse aquela duvida.

— É claro que eu a vejo, ela não é invisível! – A garota loira me encarou com um sorriso de “eu te avisei”. — Está tudo bem com você?

— Eu posso explicar! – Falou a garota tomando o controle da situação enquanto eu estava mais confusa que antes.

— Pode? – Perguntei pensando o que exatamente diria a outra.

— É que eu estava conversando com a Karen sobre me sentir invisível e ela brincalhona fez isso pra tentar me convencer de que não sou nenhum fantasma! Você não existe, sabia?

— OK! — Coincidiu com desconfiança. Sabia que seria difícil de pensar em mim como brincalhona.

— Mas já estamos convencidas de que sou real, não é mesmo? – E deu um tapinha nas minhas costas rindo ironicamente.

— Sim. — Também dei um sorrisinho desanimada e sem vontade, um dos mais falsos da minha vida.

— Vocês se conhecem da escola?

— Sim. Fui transferida há pouco tempo e vim me despedir antes dela viajar.

— Por falar em viajar, seu pai foi fazer uma rápida revisão no carro e comprar umas coisas pra levar junto e pediu para você se arrumar. — Ela estava com a roupa que foi trabalhar, devia ter acabado de chegar e com certeza ele a ligou pedindo pra avisar.

— Esta bem. – Como sempre economizando palavras com ela.

— Ele já deve estar chegando.

— Vou me arrumar. — Disse rapidamente, encerrando a conversa enquanto me olhava como se esperasse algo.

— Tchau. – Falou depois de um curto silencio.

— Tchau. — Fechei a porta e subi pro meu quarto para pegar as minhas coisas com ela me seguindo em silencio e eu me perguntando como podia fazer aquelas coisas.

— Que mal humorada, parece que essa tal de Ashley não é a única a sentir ciúmes da nova namorada do pai.

— Não estou aqui pra agradar ninguém! E mesmo sabendo que você não é um fantasma, tenho certeza de que não é normal e isso nunca tornaria o fato de estar invadindo minha casa aceitável. Então se não gostou, faça o imenso favor de ir embora. – Disse grosseira.

— Até queria, mas não posso.

— Por quê? – Se pudesse ajudaria no que fosse pra se livrar dela o quanto antes, uma vez tentei adotar um cachorro, mas quando o trouxe, meu pai logo tratou de se livrar dele o levando ao canil dizendo que cães podem transmitir doenças e eu não podia correr esse risco, imagino o que ele diria de uma garota anormal como animalzinho de estimação.

— É complicado. – Olhou me repreendendo como se soubesse o que eu havia pensado o que me fez ficar atenta. – Alem do mais isso não é da sua conta! — Quase pulei em seu pescoço, mas me controlei e a dei um olhar fatal — Também posso ser mal humorada! — Do nada me deu um ataque de risos que a fez me olhar seria. Como disse, sou bipolar! E uma parte de mim inexplicavelmente confiava nela, mesmo com todos os parênteses e as perguntas. — Agora eu fiquei assustada!

— Sabe, eu nunca fui tratada assim por ninguém, porque sou a “coitada com uma porcaria de saúde” – Devia estar com muito sono por isso meu humor estava alterado e sob o efeito dos remédios, mas aquilo me pareceu hilário e estranhamente confortável. — Até o Cristian não me empurrou com força, é exaustivo, as pessoas ficam alertas cada vez que estão perto de mim, tomam cuidado com o que vão dizer e isso em parte me impede de esquecer a minha instável saúde. É como se fosse feita de um vidro super delicado que ao menor toque eles pudessem me quebrar.

— E eu que sou a estranha! – Disse com um sorriso torto confiante, como se estivesse apreciando um pedaço do céu, o que me fez questionar se ela poderia mesmo estar escondendo algo ruim ou pretendendo fazer.

— Tem que admitir que também não é muito normal! – Já não estava mais em alerta e parecia ter esquecido o fato dela aparecer misteriosamente e fazer coisas inexplicáveis.

— Me defina normal.

— Seja o que for nós não somos! — falei guardando as coisas que ela tirou de dentro da mala.

— Justo! – Disse ficando seria ao ouvir o motor de um carro.

— Acho que meu pai chegou.

— É, e você nem está pronta.

— Caramba! – Olhei pra mim e corri para pegar uma roupa qualquer enquanto os passos pesados do meu pai eram cada vez mais audíveis no nosso velho e cansado assoalho.

— Karen, vem aqui. – Disse de bom humor já que sempre ficava animado com nossas viagens ainda, mas depois de alguns anos trabalhando direto para compensar as ausências das idas ao hospital, dirigir por um longo tempo, ouvindo suas antigas musicas favoritas, as vezes se entusiasmando um pouco demais e cantando junto ou batucando no volante, não sabia se era involuntário ou só fazia isso numa tentativa de animar mais o passeio. Desci e aproveitei para levar minhas coisas junto

— Ainda não está pronta?

— Pelo que parece... – Respondi levantando as peças de roupas na mão.

— Bem, se quiser ir assim não faz mal, pra mim você sempre vai ser minha linda garotinha, estando num belo vestido ou de pijama.

— Sempre deixa isso bem claro! Principalmente quando coloca babás me vigiarem. – Disse apesar de não estar com muita vontade de voltar naquele assunto novamente.

— Só quero seu bem.

— Mas não nessa viagem, pelo menos uma vez quero ser só uma adolescente, sem remédios ou cuidados especiais.

— Sem remédios? – Olhou meio espantado como se abominasse a alternativa, como se o estivesse pedindo autorização para me drogar e tatuar.

— Me promete? — Ele encarou pensativo enquanto fazia cara de cachorrinha pidona.

— Chantagista barata!

— Quem nunca fez isso? Afinal tenho direito de decidir algo ao menos uma vez na vida e articular ou implorar não dão certo pra mim.

— Ok, fale com Camille. – Era difícil ele me dizer não, então quando não conseguia me negar algo, me mandava falar com minha mãe que dependendo do que se tratava também não negava, sempre que podiam me dar algo o dava. Mas mesmo sendo desse jeito nunca me aproveitava muito dessa vantagem com coisas supérfluas e apesar de ter sido em parte mimada, não virei uma menininha chata que gasta fortunas e quer tudo na hora, mas não abria mão ir à escola como todos, por exemplo. Na verdade, sou muito boa administrando meu dinheiro, me comparando com as outras adolescentes eu parecia uma velha, nunca fazia nada de errado, mesmo quando tinha oportunidade, levava a maioria dos assuntos muito a serio e algo que os jovens não costumam fazer é pensar no amanha e como certas as coisas o afetava, mais isso me deprimia também, o futuro nunca me reservava algo realmente bom ou pelo que eu pudesse ansiar. Havia algumas perguntas a serem respondidas e apesar de querê-las muito, as temia com quase a mesma intensidade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.