Notas iniciais
Se estiverem gostando me digam para que eu possa postar mais rápido os próximos capítulos.

Nem sei quantas vezes olhei para traz enquanto me afastava. Me via parando em meu encalço, olhando por cima do ombro, andando outra vez, parando, até que finalmente estivesse longe demais para que eu visse qualquer coisa.

Quando chego em meu apartamento as luzes estão apagadas como de costume. Tiro meus sapatos e me jogo no sofá. Coloco meu braço por sobre minha testa e fecho meus olhos tentando esquecer o momento mais constrangedor de toda a minha vida.

Como eu iria adivinhar?

Eu sou a vi ali sozinha e pensei que poderíamos fazer companhia um ao outro.

Como eu fui idiota!

Demorei a perceber o óbvio. Eu devo tê-la assustado. É claro que ela ficaria na defensiva, e eu como um tremendo babaca, continuei batendo boca.

Hoje é um daquele dias que se eu pudesse eu daria reset e recomeçaria tudo de novo.

Na verdade, recomeçaria até a noite passada que já foi uma bagunça tremenda.

Estremeço frustrado.

— Preciso de um banho. — Murmuro para mim mesmo.

Tomo um banho rápido, me visto com uma calça de pijama, e não me preocupo em colocar nenhuma camiseta.

Mesmo não tendo comido praticamente nada hoje não sinto fome. Tomo um analgésico e quando finalmente deito minha cabeça no travesseiro só consigo pensar nela...

Não é nenhuma novidade eu deitar a cabeça no travesseiro e pensar em uma mulher, já que acontece quase sempre, geralmente é só no que eu penso.

O jeito como seu rosto ficou vermelho de irritação, os olhos faiscando quase como se pudesse me atirar adagas.

Ela sabe se defender.

Sorrio.

Não gosto de reconhecer, mas me senti mais aliviado ao ver que ela não estava sozinha, mesmo sabendo que ela sabe se defender, e muito bem.

Não é como se eu me preocupasse com ela, eu nem a conheço, é só empatia.

Já faz muito tempo que não me importo com ninguém.

Mas não posso negar que ela me impressionou, se não tivesse impressionado eu não teria sonhado com ela a maior parte da minha noite.

Quando o alarme toca eu instantaneamente me cubro mais. Eu odeio acordar cedo, ainda mais quando não tenho uma noite de sono boa o bastante.

Me forço a levantar e entrar embaixo do chuveiro antes que a preguiça tome conta de mim. Deixo a água cair e me despertar aos poucos. Depois do banho me troco e tudo o que mais quero agora é uma boa xícara de café, mas é óbvio que eu não tenho isso aqui.

Eu preciso mesmo fazer algumas compras.

Essa é uma das desvantagens de se morar sozinho, eu nunca me lembro de fazer compras. Geralmente peço para que Ana faça isso, ela não fica muito feliz, mas acaba cedendo.

Ela também não ficou muito feliz quando pedi que arranjasse alguém para trazer meu carro ontem à noite.

Ela resmungou algo como: Garoto folgado!

Ela reclama, mas sei que adora fazer as coisas para mim. Ana cuida de mim, sempre cuidou.

Pego as chaves do carro na mesinha de centro, e meu celular logo ao lado, tem uma mensagem não lida da minha mãe.

Droga.

"Pensei que poderíamos almoçar juntos hoje, meu amor, faz tempo que não nos vemos e você não tem vindo em casa... Hoje está bom para você?"

Eu amo minha mãe, mas eu a evito porque ela tende a mexer em feridas minhas que não gosto de remexer. Não me sinto nem um pouco bem em evitá-lá, mas as vezes é necessário, mas pelo jeito não vou conseguir fazer isso por muito tempo.

Passo a mão por entre meus cabelos, frustrado.

Dessa eu não vou conseguir correr.

"Hoje não terei tempo, mãe. Estarei muito ocupado, mas no almoço de amanhã estou livre, pode ser?"

Não espero sua resposta, mesmo sabendo que será rápida. Saio apressadamente respondendo uma mensagem de Fabrício me perguntando sobre os catálogos do novo projeto. Estou tão concentrado no celular que não percebo a caixa parada bem em frente à minha porta, quando a vejo já é tarde de mais.

Nem sei onde meu celular foi parar só sei que ele não está comigo quando me esborracho no chão da forma mais patética possível.

pode ser brincadeira.

Isso é o que eu chamo de começar o dia com o pé esquerdo.

Nem preciso estar de fora para ver o quão ridículo eu estou esparramado no chão.

— Merda! — Xingo irritado enquanto me levanto devagar.

Alcanço meu celular do outro lado do hall, tento desamassar meu terno o mais rápido possível. Dou uma olhada em volta e consigo contar pelo menos umas seis caixas espelhadas pelo hall.

Vizinhos novos.

Já fazia tanto tempo que esse apartamento estava desocupado que eu já estava acostumado em ser o único que morava no andar, e eu até estava gostando, pelo jeito minha alegria não irá durar muito.

Até que eu gostava da ideia de não precisar ser muito silencioso, porque não tinha ninguém morando por perto. Sem receber reclamações de quando eu trazia minhas "amigas" para cá, o que acontecia muito com meus antigos vizinhos.

Não tenho culpa se a vida sexual deles era péssima.

— Eu não sei para que você quer tanta tralha, pelo amor de deus! — Diz uma voz feminina de dentro do apartamento.

Pelo jeito meus vizinhos novos não são silenciosos.

Então, estamos quites.

Chamo o elevador e tento apagar da memória os últimos dois minutos. Parece que estou ficando expert em momentos constrangedores. Pelo menos dessa vez não tinha ninguém como testemunha.

Graças a deus.

Quando eu acho que nada pode piorar sinto algo puxando meu calcanhar, olho para o chão e vejo um diabinho, peludo e branco, com os dentes cravados em minha calça. O diabinho rosna e balança a cabeça de um lado para o outro com minha calça presa entre seus dentes, puxa com tanta força que quase chega a ponto de rasgar.

— Solta! — Exclamo irritado, puxando minha perna para que ele pare. — Pare com isso, isso não é brinquedo!

O cachorro solta, mas então começa a rosnar e a latir em minha direção. Uma coisinha minúscula que acha que coloca medo em alguém.

Se essa situação não fosse tão ridícula eu poderia até rir.

— Aí está você, sua pestinha. Eu já disse para você não incomodar os vizinhos.

A mulher que sai de dentro do apartamento é baixinha e gordinha, tem um sorriso simpatico, deve estar na faixa dos quarenta e tanto. Seu rosto está vermelho quando ela finalmente se dirige à mim.

— Eu sinto muito, ela ainda está agitada por conta da mudança. — A pestinha se aninha no colo da mulher como se fosse a criatura mais doce da face da terra, como se não estivesse a ponto de rasgar a minha calça a menos de cinco minutos. — A propósito, meu nome é Cecília.

Ela me estende a mão e eu a cumprimento com firmeza.

— Inácio, sou seu vizinho de porta. — Digo apontando para a porta do meu apartamento.

Seus olhos seguem meu dedo e ela dá um sorrisinho.

— Desculpe pela bagunça, espero não estar atrapalhando, mas sabe como é, mudanças são um caos total. — Cecília inclina a cabeça para o lado e semicerra os olhos. — Tudo bem aí com o seu olho?

Toco o hematoma quase automaticamente. As vezes esqueço que ele está aí.

— Ah, sim! Tudo bem. Foi só um acidente bobo, não é nada.

— Não parece bobo.

Concordo com a cabeça porque realmente concordo com suas palavras.

Não é nada bobo receber uma torradeira de mais de sete quilos diretamente no olho.

Mas não que eu vá dizer isso para ela.

A diabinha em seu colo rosna para mim mais uma vez.

— Amora, isso é muito feio. — Repreende Cecília. Incrível como a cachorra corresponde porque ela se cala no mesmo instante.

— Acho que ela não gostou muito de mim. — Digo achando graça. — Nem da minha calça.

Minha calça que custou 2 mil euros!

— Ela é assim mesmo, não se dá bem com estranhos, mas ela acostuma rápido, e como ela vai ver os vizinhos com frequência. — Diz dando de ombros enquanto acaricia a cabeça da pestinha branca. — Logo, logo, vocês serão ótimos amigos!

A pestinha range os dentes para mim outra vez, e nesse momento tenho certeza de que não seremos ótimos amigos coisa nenhuma.

— Você não tem mais cachorros, têm? — Pergunto preocupado porque não estou afim de ser mordido na canela outra vez.

Cecília gargalha jogando a cabeça para traz.

— Não se preocupe, essa aqui é filha única, mas dá trabalho por dez. — Percebi, ah como percebi. — E ela não é minha, é da minha irmã, que dá muita moleza para ela, porque se ela fosse minha já tinha entrado nos trilhos.

Sorrio porque Cecília está sorrindo e ela é tão simpática que me faz querer ser simpático também por tabela.

Não estou ouvindo voz de homem, então talvez ela não tenha ninguém para ajudar com a mudança.

— Vocês não contrataram nenhuma forma para ajudar vocês? — Pergunto genuinamente curioso.

— Minha irmã não achou necessário.

Arqueio uma sobrancelha com incredulidade.

Não achou necessário?

Eu estou vendo pelo menos umas seis caixas espalhadas por aqui, e alguma coisa me diz que não acaba por aí.

Cecilia percebe meu espanto e dá risadinhas.

— Marina é teimosa. Acha que consegue fazer tudo sozinha. Mas acredite, nós estamos dando conta.

Aceno com a cabeça sinalizando que entendi.

— Se estiverem precisando de ajuda, mesmo que estejam dando conta, uma ajudazinha não vai nada mal, certo? Eu estou à disposição.

Geralmente eu não me ofereço para ajudar, mas ela me parece uma boa pessoa, e não é ruim manter boas relações com meus vizinhos novos. Eu posso até ser um cafajeste, mas sou um cafajeste gentil.

— Ah, que gentil! — Diz carinhosamente quase como se estivesse lendo minha mente. — Fico muito mais tranquila sabendo que os vizinhos daqui são gentis. Eu agradeço muito, mas não se preocupe com a gente, nós damos conta.

Sorrio.

Ergo meu pulso para ver as horas e me dou conta de que já estou atrasado.

O que não é nenhuma novidade.

— Eu preciso ir agora, mas nos vemos por aí já que vamos ser vizinhos.

— Provavelmente vamos, mas não vou ser sua vizinha, só estou ajudando minha irmã com a mudança.

Estou gastando meu charme de bom vizinho com a pessoa errada.

— Mas nos veremos com frequência porque eu vou estar sempre por aqui. — Continua alegremente. — E você já está convidado para jantar conosco, porque gostei muito de você, menino gentil. — Cecília cutuca meu ombro de uma forma engraçada. — Que forte! — Constata.

Droga! Eu estou enrubecendo?

Feito um menino.

Foram as palavras que ela usou.

Acho graça nisso, estou longe de ser um menino com meus trinta e dois anos, e gentil não é um adjetivo que usam para me definir com frequência.

Sei muito bem o que você esperava ganhar com sua gentileza.

As palavras da moça do parque surgem em minha mente o que faz meu sorriso aumentar.

O que eu não daria para ela ouvir isso.

— Vamos combinar. — Digo mesmo sabendo que isso não vai acontecer. — Vou ficar ansioso.

A porta do elevador se abre e eu aceno para Cecília antes que elas se fechem.

O trânsito está particularmente agradável hoje. Examino meu reflexo no espelho enquanto aguardo pelo sinal verde. Meu cabelo está mais longo do que de costume, o penteio para traz e chego a conclusão de que já está mais do que na hora de fazer uma visita ao barbeiro.

O sinal fica verde e continuo meu caminho.

Fabrício está tagarelando sobre as maravilhas da paternidade há quase uma hora, e eu já me perguntei mais de uma vez se seria uma queda muito grande caso eu pulasse pela janela, e a resposta é:

Sim, seria.

— É a melhor coisa do mundo chegar em casa e dar de cara com aqueles olhinhos me olhando como se eu fosse a coisa mais importante no mundo para ela. — Baba pela filha. — Claro que a coisa mais importante no mundo para ela é obviamente a mãe dela, mas eu provavelmente sou a segunda.

Seu sorriso orgulho me faz fazer uma careta.

Fabrício se tornou pai há alguns meses e desde então é o único assunto que ele tem. No começo eu ficava feliz por seu entusiasmo, Deus sabe que ele ia precisar de muito entusiasmo, mas agora está começando a me irritar.

— Baba, choro, e fralda suja. Deve ser mesmo o paraíso. — Comento sem conseguir o tom ranzinza em minha voz. — Você é mesmo um cara de muita sorte.

— Quando você for pai você vai entender do que eu estou falando. É surreal. — Diz ignorando meu comentário.

Levanto meus olhos para encará-lo e percebo que ele não se deu conta da última frase que acabou de sair de sua boca. Fabrício me conhece melhor que ninguém e sabe que paternidade é a última coisa que quero para a minha vida.

— Eu não pretendo ser pai. — Digo simplesmente.

Ele me olha como se eu fosse a criatura mais estranha que ele já viu na vida.

— Você diz isso agora, mas quando você finalmente achar a mulher certa...

— Para que eu vou querer a mulher certa se eu posso ter quantas mulheres eu quiser. — Digo o cortando. — É matemática básica.

Enlaço minhas mãos atrás da minha cabeça e dou um sorriso presunçoso.

Ele revira os olhos.

Nunca me senti atraído por uma mulher a ponto de querer só ela e mais ninguém. Na verdade acho que nunca tive um relacionamento real por mais de uma semana, e sinceramente, isso nunca me fez falta.

Não preciso nem imaginar para saber o quão chato deve ser. A mesma pessoa todo dia.

Fabrício até tenta disfarçar, mas eu já percebi o cansaço em seu rosto, resultado de noites mal dormidas provavelmente.

E com certeza não são meus tipos de noites mal dormidas.

— Você não sente falta de chegar em casa e ter alguém te esperando? — Pergunta com curiosidade genuína. — Alguém para se preocupar com você?

— Minha mãe faz isso. E eu gosto de morar sozinho. Gosto de ninguém se intrometendo nas minhas coisas, gosto da minha vida do jeitinho que está. — Eu odiaria alguém tomando conta do meu espaço. — Gosto de dormir a noite inteira tranquilamente, coisa que estou vendo que você não faz à algum tempo já que está parecendo um zumbi.

Fabrício toca o rosto instantaneamente como se para ter certeza de que não é um zumbi.

Não me imagino chegando em casa e tendo que encarar uma criança chorando, uma mulher irritada, depois de um dia cheio de trabalho. Só de pensar sinto um arrepio percorrer minha espinha.

Fabrício suspira.

— Algumas coisas são mais complicadas, como acordar algumas vezes durante a noite para dar mamadeira, ou trocar uma fralda, mas te garanto que vale a pena. Vale muito a pena.

Rio sarcasticamente.

— Duvido.

Além de toda essa agitação não consigo imaginar em como ele se sente satisfeito em ter sexo só com uma única pessoa. Fabrício costumava sair com uma mulher diferente por semana. Não é possível que ele tenha mudado tanto.

— Nessa sua rotina tão agitada como vocês conseguem arranjar tempo para transar? — Pergunto porque realmente estou curioso.

Fabrício se impertiga na cadeira.

— Como se eu fosse ficar falando para você sobre minha vida sexual com a minha esposa.

Sua resposta me deixa de boca aberta. Me impertigo também em minha cadeira e pergunto:

— Quando foi a última vez que você transou?

Fabrício começa a gaguejar e eu fico mais perplexo ainda.

Meu Deus, deve ser o inferno.

— Semana passada, eu acho. — Se apressa em responder, mas não preciso estar dentro de sua cabeça para ver as engrenagens trabalhando a todo vapor. — Talvez mais, sei lá, quem é que conta? As coisas mudam um pouco depois da chegada de um bebê. A garotinha parece que sente quando encosto na mãe dela, é surreal.

— Você ainda tem coragem de olhar nos meus olhos e tentar me convencer de que casar é o paraíso.

— Talvez para um ninfomaníaco como você não seja suficiente mesmo. — Alfineta.

Tamborilo meus dedos na mesa ainda incrédulo.

— Não é questão de ninfomania, é questão de necessidades básicas. — Digo achando graça. — Eu preciso relaxar, e cada um tem sua própria forma de fazer isso.

Fabrício está quase a ponto de se jogar por sobre a mesa e apertar meu pescoço.

— Uma hora você também vai se aposentar do seu posto de cafajeste, e aí você vai ver que nem tudo se resume a sexo. Tem coisa mais importantes na vida.

Rio jogando a cabeça para traz.

— Isso jamais, meu amigo. Gosto, e muito, do meu posto de cafajeste.

— As mulheres ainda caem no seu papinho? — Pergunta com ceticismo.

— Com frequência. — Digo lhe lançando um sorriso presunçoso.

Fabrício balança a cabeça em reprovação.

— Você é um filho da mãe sortudo, isso sim, nasceu com essa cara de babaca esculpido pela porcaria de um anjo, então nem precisa fazer muito esforço. — Diz apontando a caneta para mim de forma frenética. — É isso o que deixa as mulheres loucas.

Olhos escuros irritados invadem minha mente.

— Nem todas. — Digo baixinho, pensativo.

Uma figura pequena completamente irritada, pronta para a briga, adorável...

Adorável?

Que droga de palavra é essa?

Fabrício está começando a me contaminar com sua baboseira.

— O que quer dizer com nem todas? Você levou um fora e não me contou? — Agora o filho da mãe parece ter recuperado o senso de humor outra vez.

Cerro os dentes.

— Não foi bem um fora — Foi sim!— Foi mais um momento constrangedor que eu pretendo apagar da memória.

— E esse momento constranger foi quando? — Continua me instigando a dar mais informações. — Detalhes, detalhes. — Pede.

Ele está se divertindo, o desgraçado.

Não que eu queira dar o gostinho para que ele ria as minhas custas, mas eu meio que estou precisando falar disso para alguém, só para saber se sou ou não um ser humano desprezível.

— Ontem, logo depois que você me deixou em frente de casa. Eu fui procurar alguma coisa para beber naquele festival...

— Beber, sei. — Diz me interrompendo. — Beber, e mulheres, obviamente.

Olho para ele com irritação e ele ergue as mãos na defensiva, mas não consegue conter o sorrisinho.

Reviro os olhos.

— Eu vi uma moça sentada sozinha, e achei que talvez poderíamos fazer companhia um ao outro, mas ela reagiu como uma megera.

— Geralmente não é essa reação que você provoca. — Brinca Fabrício. — Quer dizer, não de imediato. Geralmente essa reação vem depois de uns três dias.

Se ele não fosse meu melhor amigo, eu já o teria matado.

— Essa não foi a pior parte. — Continuo. — Eu fiquei irritado pela reação exagerada que ela teve, e meio que comecei a discutir com ela.

— Você discutiu com ela por ela não aceitar sua cantada?

Claro que não!

— Você colocando desse jeito faz parecer que eu sou o maior babaca da terra. — Sibilo irritado. — Ela tinha duas opções, aceitar ou não aceitar a cantada, era simples.

— Pelo jeito ela tinha uma terceira opção.

Juro que se ele não fosse meu melhor amigo eu daria um soco em sua cara nesse exato momento.

Fabrício se debruça por sobre a mesa e me encara.

— Por que você parece tão chateado com isso?

Suspiro.

— Porque eu fiquei ali sendo um babaca e não percebi que a moça era cega.

Fabrício se reencosta em sua cadeira e faz uma careta.

Oficial.

Eu sou o maior babaca da face da terra.

Fabrício assobia alto.

— Que bola fora! Isso é ruim até para você.

— Eu sei! — Deito minha cabeça no encosto da cadeira e encaro o teto. — Acredite em mim, isso está martelando na minha cabeça desde ontem. Eu devo tê-la assustado, por isso ela reagiu da forma como reagiu.

— Como uma megera. — Reitera Fabrício.

Ignoro seu comentário.

— Só não queria me sentir tão mal por isso.

Fabrício se debruça novamente por sobre a mesa.

— Você não tinha como saber. Você não é o maior babaca da face da terra, da cidade talvez, mas da terra não.

Isso me faz rir.

— Se você fosse o maior babaca da face da terra você não estaria se sentindo mal como está.

Nisso ele tem razão. Eu tenho o meu estilo de vida, mas isso não quer dizer que eu não tenha coração, que eu não tenha empatia.

— Você não viu como ela ficou. Ela ficou assustada.

Seus olhos se movendo freneticamente como se estivesse tentando adivinhar qual seria meu próximo passo.

Quantas vezes isso já não deve ter acontecido? Ela era uma mulher muito atraente.

Só de pensar que pessoas com más intenções...

Engulo em seco.

— Você não tinha como saber. E você não queria fazer mal à ela, provavelmente você só queria fazer ela bem feliz, por sei lá, uns dois minutos? — Brinca ele não querendo deixar a conversa pesada.

— Dois minutos — Digo mal conseguindo conter a risada. — Muito engraçado.

Fabrício ri.

— E pelo jeito a moça sabe se defender. — Continua. — Não fique se martirizado tanto por isso, você não é o único idiota da face da terra, e provavelmente não vai ser o único a cruzar o caminho dela.

Um sorriso se forma em meu rosto quando me recordo dela me chamando de imbecil.

— Ela me chamou de imbecil. — Comento sem conseguir conter o sorriso.

— Errada ela não estava. Você é mesmo um imbecil, mas um imbecil com coração. Um idiota também, ninfomaníaco...

— Eu já entendi. — O corto sem conseguir conter a risada.

Nós dois rimos.

Já passa das oito horas da noite quando finalmente consigo fechar todos os detalhes da última campanha. Quando já estou quase no meio do caminho me recordo que não tenho nada pra comer em casa. O dia foi tão corrido que acabei me esquecendo de pedir para Ana resolver isso.

Preciso fazer um lembrete para não esquecer de novo.

Decido parar em um supermercado há uns quatro quarteirões de casa. Me dirijo a sessão de frios, e antes que me esqueça pego um pacote de pão fechado, e uma caixa de cerveja antes de me dirigir ao caixa.

A moça do caixa tem um cabelo loiro mal tingido, mas isso não a deixa menos atraente. Ela me olha com aprovação. Normalmente eu flertaria um pouco, mas tudo o que eu quero hoje é chegar logo em casa.

— Obrigado. — Murmuro quando ela termina de me ajudar a empacotar.

— De nada, amor. Volte sempre. — Diz sugestivamente. — Eu estou praticamente todos os dias aqui.

Eu poderia até pensar que isso foi uma crítica ao trabalho escravo que o estabelecimento proporciona se ela não estivesse sorrindo neste momento para mim.

Sorrio para ela.

Assim que coloco meu pé no hall da portaria dou de cara com Cecília. Ela está lutando para agarrar uma caixa que de longe parece bem maior que ela.

— Quer ajuda? — Pergunto apontando para a caixa.

Ela sorri meio sem graça antes de me responder. Parece cansada também.

Provavelmente deve estar pensando que uma ajuda é sim necessária.

— Essa é a última. Está mais pesada do que pensei. Mas não quero te atrapalhar, pelo jeito você está acabando de chegar do trabalho, deve estar cansado. — Ela faz um sinal com as mãos para eu não me preocupar que ela consegue. — Não se preocupe, eu peço para o meu marido carregar amanhã. Não tem problema deixá-la por aqui, não é?

Não acho uma boa ideia.

Olho feio para o porteiro que está sentando fingindo que está muito concentrado no jornal.

— Não vai atrapalhar, a gente faz isso rapidinho. — Digo entregando minhas sacolas para ela e me agaichando para agarrar a caixa da melhor forma que consigo. — Você pode ir chamando o elevador. — Balbucio quase sem fôlego.

— Ah, sim! Claro! — Cecília corre afobada até o elevador e aperta o botão.

Meu Deus, o que será que tem aqui dentro? Essa caixa deve estar pesando quase uns 10 quilos.

— Tão gentil, Inácio, muito obrigada. É muito útil ter um vizinho grandão assim como você. — Diz entre risinhos. — Mas juro que não vou abusar.

— Não precisa agradecer, fico feliz em ajudar. — Mantenho a melhor pose que consigo, mas na verdade eu quase não estou aguentando.

Eu me simpatizei com ela. Seu jeito amoroso meio que me faz lembrar da minha mãe. Caso contrário de jeito nenhum eu estaria sofrendo desse jeito.

— Essa caixa ficou para fora do caminhão da mudança, então eu tive que me virar com ela. Acho que não sou tão forte do jeito que achava. — Diz achando graça. — Estou meio fora de forma.

Rio.

Quando o elevador finalmente para em nosso andar Cecília abre a porta do apartamento e pede para que eu a deixe na cozinha. Não é tão difícil adivinhar onde fica a cozinha já que este apartamento é idêntico ao meu.

— Cecília? — Alguém chama do corredor.

— Ah, sim, já estou aqui, meu amor. Seu vizinho é um anjo e me ajudou com a última caixa.

Viro-me e congelo.

É ela.

A mulher do parque.

Os mesmos olhos escuros, o mesmo cabelo longo e negro como uma manta...

Porra!

— Inácio, essa é minha irmã Marina. — Cecília começa fazendo as apresentações. — Ela que vai ser sua vizinha, eu só estou aqui para dar uma força para minha irmã.

Marina.

O nome combina com ela.

Ela sorri agradecida.

— Obrigada por ajudar minha irmã. — Diz tão docemente que se eu não tivesse certeza diria que é outra pessoa que está na minha frente. — Se eu puder retribuir de alguma forma.

Marina se aproxima e Cecília a ajuda até que ela esteja parada em minha frente. Ela é baixinha, assim como sua irmã, não tinha me atentado a esse detalhe. O topo da sua cabeça passa por pouco do meu ombro.

Por incrível que pareça ela parece ainda mais linda hoje.

Pigarreio.

Droga!

Marina estende a mão para mim e eu a aperto na minha. Acho graça de como sua mão parece pequena em compensação a minha.

Não consigo deixar de me perguntar se ela estaria sendo gentil, e segurando minha mão, se pudesse me ver.

Percebo que estou em silêncio à tempo demais.

Pigarreio outra vez.

— Muito prazer, Inácio. — Diz cordialmente não parecendo em nada a fera que queria me estrangular ainda ontem.

Pigarreio mais uma vez.

Que merda.

Elas vão começar a achar que tenho algo preso na minha garganta.

Talvez minha voz.

Já que eu não disse nada até agora. Ela deve estar achando que tenho algum tipo de problema.

— O prazer é meu. — Digo finalmente com o tom de voz mais neutro possível.

Parece babaquice, mas tenho a plena convicção de que tentei engrossar minha voz agora, e foi no automático.

Eu gostaria de me socar.

Cecília franzi o cenho. Provavelmente me achando esquisito.

Marina arqueia uma sobrancelha e inclina a cabeça para o lado.

— Você? — Diz simplesmente.

Sua testa está franzida e eu estou suando frio.

Fui pego.

— Vocês se conhecem? — Cecília olha de mim para Marina não entendendo nada.

— É o cara do parque.