A um passo do fim.
9 Algumas coisas bem antigas.
Notas iniciais
O grupo incomum estava formado, Naruto queria aprender mais sobre o mundo espiritual, Gaara queria retomar o contato com sua mãe, Sai queria ficar mais forte e Hinata queria amizade, entretanto a garota doce de olhos brancos nutria outros interesses em relação aquele grupo, para alcançar seus objetivos deveria mantê-los em segredo.
Os alunos não podiam deixar de notar que Naruto e Gaara voltaram juntos, quando retornaram a sala vários olhares se direcionaram a dupla que parecia estranhamente próxima, ninguém recordava de ter visto os garotos trocarem palavras e agora conversavam como se fossem grandes amigos, até mesmo os irmãos do ruivo não esconderam a surpresa de ver os dois tão amigos.
Quando o dia de aula chegou ao fim o loiro mais uma vez surpreendeu seus amigos, levantou de seu lugar e foi em direção a Gaara que logo o acompanhou para fora, no pátio todos observavam quando os dois colegas de turma encontraram Sai e conversavam animadamente, Sasuke estava irritado pelas atitudes do melhor amigo mesmo sabendo que aquilo provavelmente não era de propósito, afinal Naruto não entendia o que significava ignorar alguém, o moreno decidiu aborda-lo de maneira sutil e assim o fez, aproximou-se da conversa com cuidado e chamou o amigo.
– Naruto! – A voz do moreno parecia agradável. – Você pode passar na minha casa?
– Me desculpe Sasuke, o Gaara e eu combinamos de ir ao apartamento do Sai. – Respondeu passando a mão na nuca.
Aquilo era demais para Sasuke, o moreno era frio e arrogante, gostava de considerar-se indiferente, mantinha uma lista de garotas sempre dispostas a agrada-lo e era acostumado a ter tudo o que queria, Naruto era o único que considerava como um verdadeiro amigo e até então ele era o único que podia ser considerado um amigo verdadeiro para o loiro afinal era o único com quem Naruto dividia a frustração de carregar aquela síndrome. Sasuke saiu dali irritado enquanto Naruto e Gaara apenas seguiram rumo ao apartamento de Sai.
Hinata prometeu que ensinaria mais sobre o mundo espiritual e os ajudaria a melhorar a habilidade espiritual de cada um, para isso pediu que fossem até o apartamento de Sai onde os encontraria, quando chegaram Hinata já os aguardava, decidiram lanchar enquanto conversavam, sentaram-se a mesa um em cada lado e depois de agradecer começaram a comer.
– Então Gaara-kun... – Hinata estava sentada em frente ao ruivo. – Quando foi a ultima vez que viu a sua mãe?
– Há seis meses... – Respondeu mordendo um sanduiche. – Posso te perguntar uma coisa?
– É claro! – Respondeu sorrindo.
– Você já viu Deus? – Perguntou com naturalidade.
– Bem... – Hinata ficou inquieta. – Ainda não o conheci. – Respondeu meio sem graça.
– Hum. – Gaara pousou o sanduiche sobre o prato. – Então não tem certeza que ele existe. – Afirmou encarando-a com curiosidade.
– É claro que ele existe! – Exclamou de olhos fechados. – Não preciso vê-lo, todos nós somos parte dele então se eu existo ele existe também.
– Sua afirmação é um tanto simplista, mas esse não é o ponto no qual eu queria chegar. – Disse e entortou o canto da boca. – Minha mãe me disse que viu Deus. Porque ela viu e você não?
– Provavelmente estejamos em planos diferentes, assim como eu e vocês... – Disse em tom explicativo enquanto respirava profundamente. – O meu mundo e o seu coexistem, tudo que existe no mundo material existiu primeiro no mundo espiritual...
– Está dizendo que nós éramos espíritos? – Naruto interrompeu a explicação.
– Sim. Mas isso não é uma exclusividade nossa, animais e objetos também. – Respondeu encarando os olhos azuis. – Essa mesa, o seu sanduiche, tudo isso existe no mundo espiritual e tem seu reflexo aqui, ou seja, seus corpos são apenas reflexos do seu espírito.
– Como isso é possível? – Gaara perguntou enquanto enrugava a testa.
– Para que entendam vou ter que explicar algumas coisas bem antigas. – Disse sorrindo. – Durante a grande guerra celeste surgiram três forças poderosas e incontroláveis, o amor, o ódio e a morte, entre os anjos que guerreavam a morte recebeu o nome de banimento, pois se um anjo ou espírito morre ele desaparece para sempre, dizem que a energia se dissipa e simplesmente deixa de existir, o medo estava consumindo os anjos e aos poucos eles enlouqueciam tentando controlar o desconhecido. Quando a guerra acabou Deus encontrou uma alternativa, ele criou essa matéria e fez nossos corpos colocando o amor e o ódio dentro de cada um, para que tivéssemos a chance de aprender a controla-los tivemos que nascer ignorantes e aprender tudo desde o inicio, já a morte virou uma entidade, seu poder foi entregue a um dos anjos mais poderosos e a ele foi dado o trabalho de acabar com a vida nesse mundo daqueles que tivessem seu tempo cumprido para que pudessem voltar ao mundo espiritual, deveríamos aprender a morrer para que o medo do banimento não nos conduza a loucura, assim criou-se um equilíbrio delicado entre o mundo espiritual e o seu reflexo o mundo dos vivos, bem como um equilíbrio entre as três forças ocultas, se o equilíbrio for desestabilizado vai ter inicio uma reação em cadeia que levaria todos ao banimento, o desequilíbrio romperia o véu completamente deixando-os a mercê de anjos e demônios, uma nova guerra seria travada neste mundo e a devastação seria inevitável.
– Porque a guerra seria travada aqui? – Gaara perguntou.
– Lúcifer e seus seguidores foram expulsos do mundo supremo que é o lugar que vocês chamam de céu, ainda assim seu orgulho o impulsiona a desejar o lugar de Deus, então ele achou uma maneira, se ele controlar a amada criação do altíssimo ele poderá derruba-lo e tomar o seu lugar, para isso ele teria que derrubar o véu criando um campo de batalha, como não podem ir ao céu o único jeito é trazer eles até aqui, assim ele baniria muitos anjos enfraquecendo definitivamente o exercito divino, ele acredita que do desequilíbrio surgira um novo universo comandado por ele, por outro lado nós acreditamos que o desequilíbrio traria apenas destruição absoluta.
– Então é por isso que está aqui? – Naruto perguntou enquanto tentava dissecar as palavras da garota.
– Espíritos como eu foram ceifados antes da hora, por isso ficamos presos e não temos contato direto com anjos e demônios, por isso ficamos aqui. – Respondeu sorrindo. – Eu fui encontrada por membros de uma colônia espiritual que são guiados por um espírito muito poderoso que ainda não consegui identificar a origem, sei apenas que não é um vivo ceifado prematuramente.
– Como nós nos encaixamos nessa guerra? – Gaara perguntou cerrando os olhos.
– Temos estudado o poder dos médiuns e descobrimos um controle excepcional do véu por isso achamos que talvez os vivos possam nos ajudar a ter contato direto com os anjos, até agora não tivemos sucesso, pois a barreira que nos separa deles é bem mais espessa, mas a sua marca pode nos ajudar muito. – Hinata fez uma pausa e como não houve reação continuou. – Acredito que a resposta está na sua inscrição, se a sua mão for um anjo e essa inscrição pode fazer vocês terem contato então talvez seja isso que falta para atingirmos eles.
– É melhor começarmos a ensinar a pratica a eles. – Sai falou terminando de tomar o suco. – Não temos muito tempo.
– Me desculpem... – Hinata corou. – É que quando começo a falar essas coisas me empolgo pesquisar sobre o passado era o meu passatempo.
Todos assentiram e depois de arrumar a cozinha se reuniram na sala do apartamento formando um circulo, Hinata respirou fundo e começou a falar.
– O Naruto não tem controle sobre o véu. – Falou devagar enquanto encarava os olhos azuis. – Você está em contato com o mundo espiritual graças a sua condição, como está assim por muito tempo é possível que o seu poder seja maior que o do Sai, mas precisamos que controle isso somente assim o seu poder virá a tona. – Hinata esperou Naruto acenar positivamente e voltou seu olhar para Gaara. – Você não tem poder sobre o véu a sua inscrição permite que veja somente quem está ligado a ela, você tem uma proteção espiritual enorme, sendo quase impossível atravessa-la em outras palavras você é imune a qualquer tipo de ataque espiritual e podemos treinar isso a fortalecendo e aumentando seu controle, além de te permitir identificar o mundo espiritual mesmo que não possa vê-lo.
Todos acenaram e Hinata encarou Sai fazendo um sinal para que ele assumisse, assim o moreno juntou as mãos em forma de concha e começou a concentrar energia entre elas fazendo surgir uma bola azul brilhante.
– Isso é chakra. – Afirmou concentrado no poder em suas mãos. – Todos temos isso dentro de nós, mas só aqueles que sabem que existe podem manifesta-lo. A partir disso podemos fazer inúmeras coisas usando selos de mãos para canaliza-los.
– Podemos fazer isso? – Gaara parecia extasiado.
– Isso pode demorar um pouco. – Afirmou dispersando a energia. – Agora o Naruto vai treinar com a Hinata o controle do véu e nós vamos treinar um pouco de percepção. Como o espaço é pequeno você e eu vamos ficar aqui enquanto eles vão treinar no terraço.
Naruto esboçou um pequeno sorriso, afinal ficaria um tempo sozinho com Hinata, Gaara concordou com a proposta e assim Hinata e Naruto saíram do apartamento caminhando lentamente até o terraço, subiram três lances de escadas e chegaram ao seu destino, assim que atravessaram a posta se posicionaram de frente um para o outro.
– Naruto-kun você precisa se concentrar bastante, restabelecer o véu é bem mais difícil do que rompê-lo, por isso quero que feche os olhos. – Hinata se aproximou e colocou as mãos sobre as mãos do rapaz. – Senti essa energia?
– Um pouco. – Disse sentindo uma sensação de calor nas mãos. – Hinata eu...
– Você tem que deixar fluir, o véu está em toda parte tem que deixar ele se regenerar. – Falou soltando as mãos do rapaz.
– Hinata eu não posso...
– Esse é somente o primeiro passo, depois que identificar o véu vai poder controlar o seu poder.
– E se eu não conseguir mais ver você? – Perguntou abrindo os olhos percebendo o quanto aquilo o afetava.
– Não se preocupe com isso Naruto-kun... – Hinata sorria docemente. – Eu sempre vou estar ao seu lado.
– Se eu conseguir fazer isso eu vou poder tocar você? – Perguntou corado.
– Eu sei que você vai ficar mais forte... – Respondeu mantendo o sorriso enquanto as bochechas coravam levemente. – E sei que logo vou poder te dar um abraço.
– Então eu preciso mesmo tentar... – Naruto abriu um sorriso enorme e essa era uma das poucas vezes que o gesto foi feito com sinceridade.
Enquanto o loiro tentava restabelecer o véu entre ele e Hinata Gaara já estava mostrando melhoras em seu treinamento com Sai.
– Bem agora vou projetar meu espírito no mundo espiritual e você tem que dizer onde estou.
Sai encostou-se ao sofá fechou os olhos e relaxou o corpo, logo seu espírito estava flutuando consciente enquanto estava ligado ao corpo por uma linha azul o rapaz então se posicionou atrás de Gaara que tentava sentir as variações do mundo espiritual.
– Isso é muito difícil. – Murmurou impaciente ainda tentando identificar o que estava ao seu redor.
Naruto e Gaara estavam decididos a melhorar e assim treinaram até a exaustão, saíram da casa de Sai por volta das nove da noite e ambos melhoraram bastante, Naruto conseguiu estabelecer o véu por alguns segundos, com isso já podia identificar quando alguém o atravessava ou o rompia, também podia dizer se havia algum espírito dentro do seu raio de alcance e Gaara podia sentir o espírito de Sai se mover pelo apartamento. Dividiram um taxi para voltar a suas casas e Naruto convenceu Hinata a acompanha-lo.
A mansão do loiro era fascinante, assim que atravessaram o momento de admiração que a jovem Hyuuga estava tendo foi interrompido pela recepção incomum de uma bela mulher de longos cabelos vermelhos.
– Uzumaki Naruto. – Chamou com a voz firme e irritada. – Você não pode simplesmente sumir e nos deixar preocupados dessa maneira.
– Eu estava com alguns amigos e não percebi que o celular estava desligado. – Disse e continuou a andar.
– Como assim com alguns amigos? – A mulher cruzou os braços enquanto batia o pé. – Liguei para o Sasuke, para a Sakura e para cada um dos seus amigos da escola e ninguém sabia nada sobre você. – Kushina estreitou os olhos.
– Esqueceu-se de ligar para o Sai. – Respondeu próximo à escada. – Vou pro meu quarto, estou sem fome, nos falamos amanhã. – Disse imparcial e começou a subir as escadas quando estava no meio do caminho olhou para trás e viu Hinata parada observando a mulher. – Você vem? – Perguntou com gentileza.
– Sim. – Respondeu por reflexo desviando o foco da mulher e indo em direção ao loiro.
– Você disse algo? – Kushina virou em direção ao filho.
– Não. — Disse sem encara-la lembrando-se que sua mãe não podia ver Hinata.
Kushina suspirou pesadamente vendo o filho ir sem esboçar reação, era nítido o avanço da doença e Naruto parecia cada vez mais distante, ele não entendia o risco que corria, a dor é o que nos faz ter cuidado, a dor nos avisa dos perigos, um corte, uma queda, o dano mais simples poderia levar seu precioso filho a morte.
O loiro caminhava levemente sendo seguido pela Hyuuga, não demorou e chegou ao quarto assim que entrou deu passagem para Hinata que atravessou a porta um pouco envergonhada.
– Naruto-kun, acho que já devo ir. – Disse sorrindo enquanto o loiro fechava a porta.
– Por favor. – Falou apertando a maçaneta. – Fique um pouco mais. – Pediu de olhos fechados sem encarar a menina.
– Posso ficar mais um pouco. – Proferiu de maneira serena sentindo angustia na voz do rapaz.
– Vou tomar banho, por favor me espere. – Pediu virando-se para encarar a garota. – Preciso conversar algo importante com você.
– Tudo bem. – Falou sorrindo na tentativa de aliviar o coração do rapaz.
Naruto apenas sorria, pegou uma muda de roupa que estava dobrada sobre sua cama e foi até o banheiro, por habito deixou a porta entreaberta. Hinata era extremamente ligada a água, por isso amava ouvir alguém tomar banho, assim que Naruto entrou no banheiro ela se aproximou e sentou no chão estava encostada a parede, o quarto era grande e ali era o melhor lugar para ouvir o som da água.
– O contato com a água é uma das melhores coisas de estar vivo. – A menina disse suficientemente alto para que o rapaz escutasse.
– Não há água no mundo espiritual? – Perguntou confuso, pois as afirmações anteriores da garota sugeriam que aquilo também deveria existir onde ela estava.
– Existe sim, mas é energia pura. – Respondeu encostando a cabeça na parede deixando o som da água penetrar em seus tímpanos. – A consistência é diferente, assim como a consistência do nosso corpo é diferente da do nosso espírito.
Naruto deixou a água lavar seu corpo enquanto ponderava sobre as palavras da garota, saiu do banho e a viu encostada a parede.
– Hinata... – Chamou e a menina abriu os olhos. – Você dorme?
– Não... – Respondeu com uma pequena risada. – Mas eu gosto de ver os vivos dormindo.
– Sabe Hinata-chan desde que eu te vi no pátio da escola eu sinto algo que não dá pra explicar. – Caminhou até a cama e sentou-se. – Você quer ser minha namorada? – Perguntou corado.
– Naruto... – Hinata realmente não esperava por algo assim. – Você não sabe o que está falando. – Afirmou enquanto sua face ficava completamente vermelha.
– Hinata eu sei muito bem, eu não pertenço a esse lugar, o que eu sinto em relação a você é a coisa mais concreta que eu já consegui discernir. – Naruto a encarou com firmeza. – Estou prestes a não sentir nada, se você não tivesse aparecido eu já teria sucumbido completamente a essa doença, por favor fique comigo. – Apelou tentando a manter ali.
– Você está doente? – Perguntou abalada.
– Fui diagnosticado com síndrome de síndrome de Riley Day*, eu não sinto dor. – Naruto desviou o olhar. – O meu caso é um pouco mais raro e estou a ponto de perder completamente a sensibilidade relacionada aos sentimentos também, tive má formação em todo o sistema nervoso e isso está impedindo que as informações dos estímulos cheguem ao meu cérebro.
– Naruto eu sinto muito. – Disse com pesar e quando tentou tocar a mão do loiro viu suas mãos atravessarem a matéria lembrando-a de suas limitações. – Eu não posso nem te tocar. – A voz da garota estava falha.
– Dorme comigo... – Pediu encarando os olhos brancos.
Hinata apenas balançou a cabeça de maneira positiva. Naruto deitou-se de lado enquanto Hinata deitava a sua frente, depois puxou o edredom que os cobria completamente, mesmo no escuro era possível ver os olhos de ambos a morena levantou a mão deixando-a na altura do peito do loiro assim liberou um pouco de chakra que brilhava, Naruto levou sua mão na mesma direção que a da menina e sentiu o calor que aquela energia emanava.
– Promete que vai pensar na minha proposta? – Pediu enquanto suas pálpebras pesavam.
Hinata viu o rapaz pegar no sono e deixou-o sem resposta, para ela não havia resposta que pudesse ser dada, estavam em lugares opostos e a ideia de um relacionamento não passava de uma ilusão, talvez uma brincadeira cruel e insana do destino, enquanto observava o rosto sereno do rapaz sem sentimentos uma pontada de dor invadiu seu coração e por um longo momento a menina achou que talvez aquele desejo poderia consumi-la também. Hinata fechou os olhos e por um instante sonhou.
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