Ela olhou para o anel de noivado em seu dedo. A delicada esmeralda sobressaia-se entre três pequenos diamantes de cada lado. A joia cintilou para ela ao encontrar-se com os primeiros raios de sol que se infiltraram entre as grossas cortinas das janelas do aposento.

Um sorriso genuíno curvou seus lábios enquanto mantinha seus olhos no anel que continha tantas promessas e tantos sonhos que parecia injusto sentir toda aquela alegria explodindo em seu peito enquanto o mundo mágico estava sendo consumido pelo caos e pela destruição que as forças de Voldemort estavam causando.

As barreiras de proteção que mantinham Hogwarts protegida não suportariam por muito mais tempo, e era uma questão de tempo até a guerra arrebatar por todo campus. Comensais da Morte, Dementadores e até mesmo dragões transformariam tudo em poeira e o cheiro da morte putrefaria o oxigênio até que não restasse mais nada que pudesse ser salvo.

A cada minuto mais pessoas eram atingidas por feitiços letais ou capturadas para servirem como escravos. E mesmo com dezoito anos, Gina já tinha visto o suficiente para saber que a única forma de sair vencedora das batalhas, era sendo tão cruel e impiedosa quanto seus inimigos.

Não havia espaço para a bondade em uma guerra.

Era necessário lutar com cada força do seu ser para resistir aos ataques, e esquecer qualquer traço de humanidade em sua mente. Qualquer hesitação na hora de matar alguém resultaria em sua própria morte.

E ela não estava pronta para morrer.

Muito menos agora que Harry havia finalmente decidido dar o próximo passo no relacionamento deles.

Ao ouvir o som do chuveiro, Gina olhou para a porta do banheiro. Mordendo o lábio, afastou as cobertas e caminhou na ponta dos pés. Abriu a porta lentamente, e observou a forma como o vapor da água quente ia borrando o espelho e o ar. Entrando silenciosamente, deslizou as alças de sua camisola enquanto observava os músculos das costas de Harry se contraírem quando ele apoiou as duas mãos contra os azulejos e abaixou a cabeça para que a água o molhasse completamente.

— Você vai ficar apenas olhando ou irá se ajuntar a mim? – A repentina pergunta dele a surpreendeu. O que era ridículo, porque nada passava despercebido por Harry.

Sufocando uma risadinha, Gina afastou o vidro da porta do box e entrou. Passou os braços ao redor da cintura dele e deitou a cabeça contra suas costas.

— Eu estou feliz – disse, suavemente. – E me sentindo péssima por isso.

A risada rouca dele ecoou pelo banheiro.

— Isso é meio ilógico, Gin.

— Eu sei. Mas... Não sei como explicar. São dois sentimentos que estão lutando dentro de mim, e a cada minuto, sinto que a felicidade está vencendo a tristeza. E então penso o quanto é injusto querer gritar a minha felicidade para o mundo inteiro quando mães estão chorando pela morte de seus filhos. É como se essa minha alegria fosse indigna.

Lentamente, Harry se virou, seus olhos verdes encontrando os dela com uma intensidade que fez Gina estremecer. A água caía sobre eles, fazendo com que seus corpos deslizassem com mais facilidade um contra o outro. Os cabelos dele estavam precisando de um corte, as madeixam negras grudavam em sua testa, ocultando a cicatriz em forma de raio e um pouco de seu pescoço.

Gina sentiu suas mãos coçarem para afastar a franja que caía sobre os olhos dele, ao mesmo tempo em que admirava todas as transformações que Harry fora submetido ao longo dos anos. Ele não tinha mais nenhum traço do menininho curioso e alegre que conhecera na estação King’s Cross. Seu corpo tampouco era magricela. Ele tinha braços fortes, um peitoral poderoso, um estomago definido e coxas poderosas que os longos treinamentos da Armada havia trabalhado exaustivamente. O ar gentil e carismático haviam desaparecido para dar lugar a uma força masculina intimidante. Cicatrizes marcavam sua pele bronzeada, e aos olhos de Gina, todos aqueles detalhes o tornavam ainda mais belo.

Harry era simplesmente perfeito. E as batidas frenéticas de seu coração pareciam concordar com ela.

— Não se sinta mal pelos outros. Estamos só nós dois aqui – Harry murmurou, apertando com mais força seus braços entorno dela. – E quando estivermos sozinhos, vamos esquecer o que está acontecendo lá fora, e nos focar apenas em nosso mundo particular. Esses meus momentos com você são os únicos que fazem a minha vida valer a pena agora.

— Você está feliz?

Harry inclinou a cabeça, encostando sua testa contra a dela.

— Como eu não poderia ser feliz quando a coisa mais importante da minha vida está nos meus braços agora?

Gina sorriu, e roçou seu nariz ao longo do nariz de Harry, fazendo-o sorrir brevemente também.

— Eu não posso acreditar que serei a Senhora Potter.

— E eu não posso acreditar que você aceitou.

— Você sabe que isso seria impossível – ela disse, inclinando a cabeça para cima de modo que sua boca ficasse poucos milímetros da dele. – Eu sou incapaz de negar algo a você.

Em um movimento incrivelmente rápido, Harry girou o corpo e prensou Gina contra a parede. Ela arfou com surpresa ao sentir o choque frio dos azulejos contra sua pele quente. Harry deslizou as mãos até as coxas dela, e usando apenas a força dos braços, a fez entrelaçar as pernas em sua cintura.

— O que você está fazendo? – Gina perguntou, tentando soar séria, mas falhando miseravelmente quando suas cordas vocais vibraram com um suave gemido.

Harry moveu o quadril contra ela, tornando-a mais ciente da dureza de sua excitação quando a cabeça de seu pênis roçou contra o pequeno botão em sua vagina. Ele investia lentamente em movimentos sensuais e languidos, estimulando cada vez mais cada célula nervosa do corpo de Gina. Ela jogou a cabeça para trás, fechando os olhos e fincando as unhas nos ombros dele à medida que seu orgasmo ia sendo construído.

— Estou apenas apressando a nossa lua de mel.

— Meu Deus – ela gemeu, girando o quadril involuntariamente para acompanhar os movimentos dele. – Acho que li em algum lugar que fazer sexo antes do casamento dá azar.

— Não era se o noivo visse o vestido da noiva?

— Dane-se, vamos casar pelados, eu não me importo – um novo gemido escapou de sua boca quando Harry usou a ponta da língua em seu pescoço, parecendo saborear o gosto da sua pele molhada antes de deslizá-la até o lóbulo de sua orelha e mordê-lo.

— Concordo plenamente com essa ideia – Harry disse. – Mas acho que seus irmãos podem causar alguns problemas.

— É só não os convidar. Eu não estava planejando pedir para nenhum deles ser a minha dama de honra de qualquer forma.

A risada de Harry fez com que toda a pele dela ficasse arrepiada.

Gina conseguiu entreabrir os olhos e observou com satisfação o prazer queimando naquelas íris verdes que a mantinham presa em um feitiço entorpecente. O rosto de Harry estava coberto por uma expressão quente e animalesca, deixando-a ainda mais excitada. Com um sorriso malicioso, Gina respirou fundo, fazendo seus seios empinarem.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Isso é um golpe baixo, amor.

— Quem é que está quase me fazendo gozar usando apenas a cabeça do...- sua provocação foi interrompida com um gritinho de assombro quando Harry a penetrou sem qualquer cuidado. Apenas um golpe duro e forte que roubou todo o ar de seus pulmões e a fez apertar as pernas ainda mais.

— Vamos esquecer a sua família por um segundo, Gin. Eu não quero a imagem do rosto de Rony na minha cabeça quando estamos fazendo amor.

— Como eu disse...- ela umedeceu os lábios, apreciando a grossura dele a preenchendo completamente. – Eu sempre irei dizer sim para você, querido.

Então ele finalmente a beijou. Sua boca cobrindo a dela com um desespero carnal que apenas o levou a movimentar os quadris cada vez mais rápido. Mais forte. Mais fundo.

Gina estremecia em seus braços, seu pequeno corpo balançando para cima e para baixo a medida que sentia o calor do sexo inundando-a. Ela voltou a fechar os olhos e permitiu que toda a felicidade a consumisse.

Não havia guerra, morte ou incertezas naquele momento.

Ali, protegidos pelas paredes de vidro do banheiro, rodeados pelo vapor da água quente e focados nas sensações que seus corpos ofereciam um ao outro, a única coisa importante era o amor que os embalava dentro daquele momento perfeito.

E nada seria capaz de destruir isso, porque não importava o quanto o mundo estivesse sendo consumido pelas trevas, enquanto Harry e Gina tivessem um ao outro, para eles, ainda haveria esperanças.

**************

Algo estava errado.

Gina podia sentir a mudança na atmosfera assim que virou no corredor e caminhou até o escritório de Dumbledore. Na maioria das vezes em que tina sido chamada para conversar em particular com o diretor foi por motivos que envolviam alguma confusão de seus irmãos, mas daquela vez, ela era capaz de sentir que o assunto seria muito diferente.

Hesitante, bateu na porta e aguardou pela voz aveludada de Dumbledore lhe pedindo para entrar. Assim que a abriu, seus olhos não se perderam no cenário ao redor como normalmente teriam feito, Gina apenas se focou na postura de Dumbledore sentado atrás de sua mesa, o rosto severo e as mãos entrelaçadas sobre a mesa.

— Obrigado por vir, Gina. Por favor, sente-se.

Ela obedeceu. Os passos cuidadosos como se a qualquer momento pudesse pisar em algum lugar que abriria o chão ao meio e a engoliria para algum buraco no subterrâneo.

— Eu vim o mais rápido que pude. Sua mensagem parecia bastante séria, diretor – disse, tentando soar a mais tranquila possível. – O que aconteceu?

— Temo que não tenha boas noticias, Gina. Mas quero deixar claro que você terá a total liberdade de recusar o meu pedido.

— Isso é impossível. Se ela não aceitar todos nós morreremos.

Gina saltou na cadeira ao reconhecer aquela voz fanhosa e ríspida. Virou a cabeça e viu-se diante de Severo Snape apoiado em um canto sombrio do escritório, a capa negra balançando suavemente em seus calcanhares enquanto mantinha os olhos negros focado nela com sua usual carranca desprezível.

— O que... o que ele está fazendo aqui? – Gina praticamente gritou, levantando-se e levando a mão até a cintura, onde estava sua varinha.

— Acalme-se, Gina – pediu Dumbledore.

— Me acalmar? – Gina exclamou, não tirando os olhos do Comensal e empunhando a varinha em sua direção. – O senhor está com um maldito traidor em seu escritório e quer que eu fique calma? Precisamos chamar os guardas ou qualquer um que...

— Eu tinha me esquecido como os Weasley são barulhentos – disse Snape, girando os olhos.

— Você não está ajudando, Severo – Dumbledore enviou um olhar cauteloso ao antigo professor de poções – É claro que ela ficaria surpresa com a sua presença.

— Surpresa? — Gina interrompeu. – Eu estaria surpresa se um dragão começasse a cuspir fogo, se os quadros começassem a falar ou se os livros explodissem, mas ele – ela apontou para Snape. – Eu estou tendo um colapso aqui! Harry! Preciso ir chamar Harry e avisar que as barreiras de proteção da escola foram comprometidas. Se o seboso está aqui, os Malfoys também devem estar...

— Inferno sangrento, cale a boca e sente-se, Weasley, antes que eu arranque a sua língua! – Snape finalmente perdeu a compostura, avançando sobre ela como um espectro da morte.

Gina fechou a boca, recuando nervosamente. Seu quadril esbarrou na cadeira, fazendo-a cambalear no ar antes de cair e fazer um som estrondoso ecoar pelo escritório. O silêncio que se seguiu pesou sobre cada um dos bruxos. Dumbledore encarava Gina, que por sua vez, não conseguia tirar os olhos de Snape. A pele dela estava mais pálida do que uma folha de papel.

— Ele não está aqui para nos causar qualquer mal, Gina – Dumbledore quebrou o silêncio, mas a tensão no ar era quase palpável.

— Na verdade, estou aqui para salvar a todos nós – Snape completou amargamente. – Então abaixe essa varinha ante que acabe causando algum acidente.

— O... o que ele está fazendo aqui? – Perguntou Gina, não largando a varinha.

— Snape não é um Comensal da Morte – Dumbledore começou a explicar, mas a risada nervosa de Gina o interrompeu.

— A tatuagem dele diz outra coisa.

— Ele está infiltrado – o diretor esclareceu. – Severo se tornou um Comensal da Morte porque eu pedi que ele fizesse isso e pudesse nos ajudar.

O choque daquelas palavras fez com que Gina engasga-se. Seus pulmões pareceram parar de funcionar enquanto sua mente trabalhava energeticamente para entender o que estava acontecendo.

Lentamente, ela conseguiu tirar os olhos de Snape e encarou Dumbledore com os olhos arregalados.

— O que o senhor disse?

— Irei explicar tudo mais tarde, mas agora, temos um assunto mais importante para discutir. Por favor, sente-se, Gina. Snape não apresenta nenhuma ameaça.

Sentindo-se um ventrículo que tinha as linhas de suas pernas controladas, ela obedeceu ao pedido de Dumbledore e erguer a cadeira antes de sentar-se. Sem conseguir emitir um único som, Gina apenas manteve-se atenta ao rosto do diretor, seus traços velhos parecendo ainda mais evidentes, assim como a tensão em seus ombros.

O medo a acertou em cheio, percorrendo seu sangue como um veneno toxico que a impedia de se mexer.

— Você se lembra quando Harry e resgatou da Câmera secreta? – incapaz de encontrar a voz, Gina apenas assentiu. – Infelizmente descobrimos isso tarde demais, mas quando você esteve presa no feitiço de Tom Riddle, você criou um elo de ligação com ele, mas quando Harry a salvou, esse elo foi quebrado.

Ela sabia disso, mesmo que jamais tenha contado a ninguém, após obter aquele contato com Tom, algo dentro dela mudou para sempre. Podia sentir diariamente uma pequena parte maligna, negra e obscura adormecida em algum lugar dentro dela. Como um pequeno buraco que parecia estar esperando o momento certo para crescer e consumi-la. Contaminando qualquer coisa boa que tivesse cultivado ao longo dos anos.

E não importa o quanto tivesse tentado lutar contra essa pequena parte, o mais assustador fora descobrir que ela havia se acostumado a esse buraco, como se tivesse se acoplado em sua alma e se tornado parte de quem ela era agora.

— O que Dumbledore está tentando lhe contar delicadamente, Weasley, é que após Potter resgatá-la, o elo não foi completamente quebrado. Ao se conectar com Tom Riddle, fragmentos da alma dele ficarem em você, assim como pedaços da sua alma ficaram presas a ele.

Gina virou o pescoço tão rápido que poderia tê-lo quebrado.

— O QUE? – gritou.

— Eu estava tentando prepara-la antes de contar isso, Severo – Dumbledore suspirou.

— Não tempos tempo para oferecer conforto, ela precisa o que está acontecendo e o quanto mais rápido descobrir a verdade, mais rápido poderemos agir.

— Ela ainda não concordou com o nosso plano.

— Não é uma questão de aceitar ou não, ela precisa fazer isso. Não é um plano, Dumbledore, é um fato irreparável.

Gina olhava de um para o outro, tentando saber como estava relacionada a aquela discussão. Por fim, prendeu sua atenção em Snape.

— Diga logo de uma vez o que você quer de mim.

Os olhos negros do professor se tornaram tão letais que a fizeram se encolher.

— Você é a sétima filha de uma linhagem incrivelmente poderosa. Sua bisavó foi uma das bruxas mais poderosas que já caminharam por esse mundo, Weasley, e o sangue dela corre em suas veias. Seu destino estava traçado assim que foi concebida. Você era a única aluna nesta escola que Voldemort poderia criar uma ligação para tentar atingir o Potter, mas o que ele não sabia naquela época é que o feitiço usado para te controlar criava um elo de duas vidas, permitindo que você também tivesse o poder de controlá-lo.

Gina piscou, tentando acompanhar a rapidez com que aquelas informações eram jogadas em sua cara. Snape não recuou diante do seu assombro e continuou:

— Quando Potter foi marcado com aquela cicatriz, Voldemort o tornou em uma horcrux. E isso já é o suficiente para sabermos que o rapaz dificilmente saíra vivo no final dessa guerra, mas você é a nossa única chance de tentar minimizar os danos, Weasley. Você pode salvar milhões de pessoas se conseguir reestabelecer o elo com Voldemort e o submeter as suas vontades.

A pequena menção das poucas chances de Harry sobreviver fez com que Gina sentisse seu coração parar. Seus olhos arderam quando as lágrimas queimaram ao longo de sua garganta, tornando sua voz em um pequeno chiado quando finalmente conseguiu dizer:

— Harry irá morrer?

Pela primeira vez, Snape pareceu receoso. Sua fisionomia frigida e apática relaxou para uma expressão mais humana, mas não menos aterrorizante. Quase como se estivesse sentindo pena dela, ele voltou a explicar com um pouco mais de cuidado:

— As chances são altas para isso, Weasley. Mas com a sua ajuda, ele poderá viver. Ele e toda a sua família.

Com as lágrimas já manchando seu rosto, Gina virou-se para Dumbledore.

— O que eu preciso fazer? – perguntou, desesperada. – O que vocês querem de mim?

Os olhos de Dumbledore brilharam com algo incrivelmente doloroso por trás dos oclinhos de meia-lua. E Gina soube, com a mesma certeza de que tinha que faria o que fosse necessário para manter Harry a salvo, que sua vida estava preste a mudar drasticamente.

— Eu preciso que você se torne uma Comensal da Morte, Gina.

**************

Ela havia aceitado.

Entre lágrimas, soluços, um medo excruciante e uma incerteza ainda maior, ela disse sim ao plano de Dumbledore. Em poucas horas estaria acompanhando Snape para fora dos escudos protetores de Hogwarts para ir em direção ao que poderia ser a sua própria morte.

Pelo que entendeu, a única forma de voltar a estabelecer uma conexão com Voldemort era estando próxima a ele, e lentamente, ela funcionaria como uma sanguessuga de energia, enfraquecendo-o a ponto de deixá-lo debilitado o suficiente para que Harry pudesse matá-lo no dia do confronto. Caso a conexão fosse feita a distância, Voldemort seria capaz de interceptá-la.

Precisava ser cuidadosa e sutil. Doses homeopáticas que fizessem o Senhor das Trevas não suspeitar de sua repentina presença. Snape a levaria até o covil dos Comensais e diria que havia conseguido captura-la, e a partir daquele ponto, Gina teria que interpretar uma garota perturbada e determinada a se unir a causa deles.

Ela teria que fazê-los acreditar em suas mentiras.

Teria que fazer Voldemort acreditar em suas palavras.

E ela teria que acreditar ser capaz de fazer isso.

Tinha poucas horas para se preparar, ou ao menos, fazer o que fosse necessário para parar de chorar. Ela não podia ser fraca, covarde ou agir mais como uma menininha. Não era apenas a sua vida que estava em jogo, mas a de Harry, de sua família, seus amigos e me milhões de bruxos inocentes. Estava em sua total responsabilidade sobreviver ao que estivesse a esperando no futuro.

Sobreviver para ser capaz de retornar para a sua casa.

Para os braços de Harry.

Para a sua vida.

Gina entrou no quarto que dividia com Harry e olhou ao redor. O perfume dele estava no ar. Deslizou as mãos pela colcha da cama onde haviam dormindo juntos na última noite, com ele a abraçando fortemente por trás, o rosto enfiado entre seus cabelos.

“Esse é o nosso mundo. Só existe nós dois aqui, Gina. Não vamos desperdiçar o nosso tempo pensando no que está acontecendo lá fora. Você e eu. Isso é tudo o que importa”.

As palavras dele ecoaram em sua mente, obrigando-a a morder o lábio para controlar uma nova enxurrada de lágrimas.

Ela não podia dar-se a esse luxo.

O anel de noivado parecia queimar em seu dedo. A esmeralda cintilando para ela como se estivesse tentando avisá-la desesperadamente para desistir daquele plano insano e ficar ali, ao lado das pessoas que amava e lutar ao lado dele.

“Você é a nossa última chance” a mensagem de Snape a golpeou.

Gina segurou o anel e começou a retirá-lo, sentindo como se estivesse arrancando seu próprio coração. Sabia perfeitamente o que precisava fazer, e mesmo que isso fosse rasgá-la ao meio, não havia outra alternativa.

Ela precisava destruir todos os laços que a ligavam a Harry para que ele não fosse atrás dela quando descobrisse que havia mudado de lado e agora lutava com os Comensais da Morte.

Ela precisava que ele a odiasse acima de qualquer coisa.

Precisava destruí-lo da mesma maneira que ela estava destruindo a si mesma.

**************

Harry voltou para o quarto depois de algumas horas.

Gina viu através do reflexo do vidro da janela a forma como ele sorriu quando a viu, sentada no batente parecendo perdida em pensamentos.

Ele tirou a camiseta suada do treino enquanto caminhava até ela.

— Ei, pensei que você estivesse nas estufas com a Hermione – comentou, inclinando-se para beijar o topo da cabeça dela de forma carinhosa.

Gina saltou para longe, desviando dele como se estivesse fugindo de alguma contaminação.

— Gin? – Harry franziu o cenho, sua mão parada no meio do ar – O que foi?

A coluna dela parecia tão tensa como se um guindaste estivesse a mantendo erguida. Os ombros retos e duros. Quando ela girou bruscamente para encará-lo, Harry não conteve a surpresa ao deparar-se com um par de olhos castanhos frios e intocáveis.

— Eu estava errada – ela atirou de repente, a voz soando como uma facada.

Harry piscou, jogando a camiseta sobre um ombro antes de cruzar os braços.

— O que está querendo dizer?

Gina ergueu o anel de noivado, a joia parecendo piscar miseravelmente para ele como se estivesse pedindo desculpas por não estar mais no dedo dela.

— Isso – Gina agitou o anel. – Eu estou me referindo isso. A nós. É uma completa loucura. Eu não sei onde estava com a cabeça quando aceitei esse relacionamento. Você é o Menino que Sobreviveu, o Eleito, o maldito salvador da nossa pátria.

Gina sabia que o ponto fraco de Harry era ser chamado daqueles termos que o tornaram uma lenda. Ele odiava, e era um dos golpes mais sujos que podia usar. Mas ela precisava dele furioso, enlouquecido e profundamente ferido.

Ela precisava feri-lo como ninguém mais seria capaz.

Massacrado, quebrado, estraçalhado.

O maxilar de Harry pareceu trincar quando ele disse entre os dentes:

— Tudo bem, eu não sei o que diabos está acontecendo com você, mas vamos nos acalmar e tentar resolver o problema aqui. Mesmo que eu não tenha a mínima ideia do que seja.

Gina soltou uma risada forçada.

— O problema somos nós, Potter. Eu e você – argumentou, bruscamente. – Você deveria estar completamente focado em proteger o mundo em vez de ficar gastado o tempo fodendo com a irmã do seu melhor amigo.

Mais um golpe baixo, e dessa vez Gina viu quando o olhar repleto de dor de Harry a acertou em cheio. Seu belo rosto sento tomado por uma angustia tão intensa quanto a ferida que estava começando a abrir caminho até a alma dela.

— Você não pareceu reclamar quando transamos hoje de manhã no chuveiro. Na verdade, lembro muito bem de você gritando para que eu a fodesse – Harry avançou, seus passos duros e ameaçadores. – Você gritou o meu nome tão alto Gina, que pensei que estouraria os meus tímpanos. Você implorou pelo meu corpo. Você praticamente se humilhou para que eu a fizesse gozar. E eu fiz isso. Eu tive você estremecendo nos meus braços e dizendo que me amava tantas vezes que ainda tenho a sua voz ecoando na minha cabeça. Então não se atreva a transformar um dos momentos mais mágicos da minha vida em algo sujo e sórdido. Porque eu não estava transando com uma vagabunda, eu estava amando a minha mulher.

Ela jamais se esqueceria como Harry tinha o dom de dizer palavras duras com uma intensidade apaixonante. Ele estava furioso, ferido, mas ainda havia amor em sua voz. Havia carinho e respeito. Havia tudo o que ela sempre sonhou quando ele ainda não tinha colocado os olhos sobre ela e a visto além da irmã sardenta de Rony. E agora, ela estava jogando fora tudo o que haviam construído.

— Sério? – Gina atacou, erguendo o queixo. – Querido, eu sei que você não teve muitas aventuras sexuais antes que eu abalasse o seu mundo, mas qualquer garota diria o que fosse necessário quando tem um cara gostoso a levando para o mundo dos orgasmos múltiplos.

— Disse a garota que perdeu a virgindade comigo – Harry contra-atacou sem perder uma respiração.

Ali estava, a abertura que ela estava esperando.

Em um tom ácido e mortal, Gina disse:

— Eu perdi a virgindade com o seu pau, mas isso não significa que ele tenha sido o único a estar entre as minhas pernas.

Ali estava. O fim.

Harry recuou alguns passos como se ela tivesse o acertado com algum feitiço desnorteante. O brilho selvagem em seus olhos foi desaparecendo à medida que ele continuava a encarando como se estivesse diante de uma completa estranha.

— O que foi que você disse? – Harry perguntou, em um tom assustadoramente morto.

Gina balançou a cabeça, tentando parecer entediada.

— Eu me apaixonei por você quando era mais nova. Você era um garotinho fofo e engraçado, e depois que descobri a sua identidade, fiquei um pouco obcecada. Meu irmão era o melhor amigo do Garoto que Sobreviveu. Uau! Que incrível. Então as coisas foram acontecendo entre nós, e percebi que a minha admiração por você era apenas isso. Você ficou ainda mais lindo, o que ajudava bastante. Mas gostei do poder que o seu nome trazia, Harry – engolindo em seco, Gina encontrou os olhos dele e deu o golpe final: — Eu amo a sua fama, não você.

Ele estava pálido. A respiração acelerada. Seu peito nu descendo e subindo em um ritmo ruidoso. Ela tentou lutar contra a vontade de correr até ele e implorar por perdão, mas pressionou os pés contra o chão, forçando-se a ficar parada enquanto aceitava ver o ódio ir surgindo aos poucos nos olhos de Harry.

— Minha fama? – ele repetiu. – E por amar o que eu significo e não quem eu sou, você aceitou ser minha namorada enquanto transava com outros pelas minhas costas?

— Caso esteja curioso, você foi o melhor que tive.

O vidro da janela estourou naquele momento, fazendo-a gritar e se encolher para se proteger dos estilhaços. Gina tampou os ouvidos à medida que cada objeto do quarto ia sendo atingindo por uma explosão de fúria vinda de Harry que os faziam pegar fogo até ser consumidos em cinzas.

A energia no ar crepitava em ondas sombrias, consumindo cada molécula de oxigênio até não restar mais nada além de raiva, dor e o cheiro de traição entre eles.

Gina sentiu a umidade de sangue em seu rosto, sentindo com a ponta dos dedos o ferimento em sua bochecha. Olhou transtornada para Harry. Ele estava parado no lugar, sua magia formando uma aura escura ao redor de seu corpo. Seus olhos eram mortais.

— Harry? – o chamou, insegura.

— Por que – ele disse com uma crueldade mortal – Por que você está fazendo isso agora? Por que esperou tanto tempo para me dizer a verdade? POR QUE, PORRA?

Apertando as mãos para esconder o quanto estava tremendo, Gina respondeu:

— Porque eu gostava de controlar você. Eu gostava de saber que precisava apenas estralar os dedos para você aparecer. Eu venho de uma família pobre, e com tantos irmãos, era difícil para mamãe e papai darem atenção a todos nós. E eu gostei da atenção que você me dava, dos presentes caros e de sempre parecer determinado em realizar todas as minhas vontades.

— Se você gostava tanto de me fazer de idiota e de todas as coisas que eu oferecia, por que está abandonando agora?

Gina limpou o sangue de seu rosto com as costas da mão, deixando um filete vermelho borrado em sua bochecha e em sua mão. Reunindo o que restava de sua coragem, ela foi até ele e estendeu o anel de noivado.

— Porque eu não quero te odiar caso alguém da minha família morra. Não quero culpá-lo por fracassar em proteger as pessoas que amo porque estava ocupado demais se divertindo comigo quando deveria estar treinando. Você é o Eleito, Harry, é sua responsabilidade salvar todos nós. Você não tem o direito de agir como se fosse um cara comum, porque você não é.

Como se estivesse vendo um filme em câmera lenta, Gina observou quando Harry pegou o anel de seu dedo. A delicada joia parecia ainda mais frágil no meio de sua palma repleta de calos de luta.

— Fique tranquila – ele rosnou, fechando a mão com o anel. – A sua família é minha família também, e eu irei salvá-los. Mesmo que isso cause a minha morte – ele aproximou tanto o rosto do dela que a fez pensar que estava preste a beijá-la. Mas Harry parou no último segundo, mantendo distância suficiente para passar apenas uma brisa de ar. — E mesmo que você não mereça, eu também irei te proteger, meu amor.

E então foi embora. Passando por ela como se estivesse fugindo do fogo do inferno.

Gina estremeceu quando a porta do quarto foi fechada com tanta força que fez o lustre do teto balançar.

Ela soltou a respiração que vinha prendendo, encarou o caos ao redor antes de caminhar até a janela quebrada e observar o pôr-do-sol.

Era uma questão de minutos agora. A qualquer momento Snape enviaria um sinal na orla da floresta para que fosse encontrá-lo.

Gina fechou os olhos e tentou usar os últimos raios do sol para aquecer o vazio em seu corpo. Não importa que Harry tivesse dito que também iria protegê-la, era ela quem estava indo lutar para mantê-lo vivo.

Mesmo que isso a levasse a estar a um passo do inverno.

Mesmo que isso significasse a sua própria morte.

Notas finais
Sejam bem vindos. :) Eu gostaria de dizer o quanto esse romance é importante para mim, e o quanto tem sido crucial colocar cada uma dessas palavras para fora da minha mente. Fiz questão de não amenizar nada, ou suavizar alguns momentos. E espero que vocês estejam ao meu lado ao longo desse árduo caminho que Gina e Harry terão que enfrentar. Pode ser uma fanfic com pitadas originais, mas nada que se afaste do mundo mágico ou que os façam estranhar. Aqui, temos um Harry repleto de cicatrizes e uma Gina determinada em ajudá-lo. Não se importando com o preço ou com as consequências. Mesmo que a levem até o inferno. Serão duas almas quebradas e torturadas pela guerra que terão de lutar mais uma vez para conseguirem perdoar a si mesmos. Será doloroso. Será difícil. Mas também será necessário para que o amor deles se torne ainda mais forte e encontre um caminho que os mantenha afastados do inferno e cada vez mais perto do paraíso. Desde já, peço desculpas por qualquer erro encontrado. Os capítulos não foram revisados porque não consegui encontrar nenhuma beta. :/ Obrigada por estar lendo a minha história, e espero que continue ao meu lado. ***Teremos capítulo novo toda sexta feira. Beijos. L.L
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.