A trincheira de Campbell - Relato do Gás Mostarda
1 A trincheira de Campbell - Relato do Gás Mostarda
Abril de 1915, próximo à região de Alsácia-Lorena.
–Podem mandar mais! – eu gritava para o soldado na parte de cima da trincheira.
Já era fim de tarde, os tiros estavam começando a cessar e não tardava o começo da coleta de corpos. Eu era um médico militar comum, atendendo à todas as necessidades comuns e sabia que iria morrer como um médico militar comum. E não deixava de ser um dia normal. Sim um dia normal, um dia normal para um médico militar comum. Porém não era um dia normal para alguns dos muitos soldados que ali chegavam, sem um braço ou duas pernas faltando. Apesar de ser um médico militar comum, estando ali não só servindo o país como também arrecadando fundos para alimentar a família. Era fascinado pela ciência. Desde quando Darwin publicou toda a especulação sobre sermos descendentes de primatas, eu estava sempre a seu lado. Inclusive tive a honra de apertar sua mão antes de sua viagem mortal para a América Latina. De certa forma acredito que nós, seres humanos, bípedes, viemos de primatas, semi quadrupedes. Não só primatas semi quadrupedes que ao nos tornarmos bípedes inventamos o mamãe e papai para menos esforço sexual, e sim primatas bípedes, hoje, barbados, trajando bege e máscara de gás, mal segurando um mosquete e lutando nas linhas de frente. Isso porque nós, tão evoluídos bípedes, queríamos dominar outros evoluídos bípedes.
–Isso dói!
–É claro que dói, é uma fratura exposta!
Tomar conta de soldados parecia mais simples do que se pensa. Na verdade todos nossos verdadeiros soldados morreram no ano que passou. Agora o que nos restava eram homens, matemáticos, artistas e advogados, todos morrendo igualmente. Ah, tolos aqueles que pensaram ser uns melhores que os outros em vida. Cristãos, judeus, certa noite tive uma curiosidade e a fiz, abri ambos corpos e... Olhe só, seus corações eram idênticos. A única parte que não me agradou foram os pulmões. Enquanto uns se faziam cinza os do outro eram tão normais quanto o fêmur deste soldado com fratura exposta. Eu buscava tentar acalma-los com o máximo de suprimentos que me forneciam (cruz vermelha não era de nada) ou o que eu mesmo tinha a oferecer. Tanto esforço físico quanto psicológico. Tudo isso entra no psicológico de pouco em pouco. Mas na verdade não digo de toda aquela “coisa ser nojenta”. Muito pelo contrário. Quando a fome batia e eu estava no meio de algum estancamento ou cirurgia rápida, a famosa sopa de feijão era o que a vida nos dava. E até onde sei nunca confundi uma colher com um bisturi. E no final, é o verdadeiro psicológico, não biológico. Depois de mexer com tanto carbono, há do indivíduo ficar fora de si. Agora sei o porquê os pulmões daqueles indigentes eram tão cinzas.
–Você pode parar de se mexer?
–Se não doesse tanto!
Esmurro seu estomago. Ele já não pode retornar porque seus braços estão presos à mesa. Abro sua boca forçadamente e goela a baixo esvazio mais uma garrafa de alcoólico.
–Você vai morrer, me desculpe, a medicina de hoje não suporta tudo isso, inclusive aqui, cheio de poças e ratos e ossos. Me desculpe – olho disfarçadamente sua medalha – Thomas, me desculpe, saiba que a culpa não é minha. Quem sabe seu corpo não seja utilizado em pesquisas para aprimorar?
Era tarde demais. Thomas, assim como muitos outros ali naquela mesa, morreu de hemorragia. É por isso que as pessoas mudam de bairro, como já dizia um velho amigo de meu pai. Depois de mais alguns dias ali, comendo sopa de feijão e dando falsas esperanças aos pobres matemáticos, filósofos e artistas que ali compartilharam o mesmo leito, fui embora. Fui embora, sai mesmo, de noite. Quanto à minha família, a boa folga do sargento me tacharia como morto e a “renda morte” os sustentaria até me decidir voltar. E num lugar longe dali, quem sabe Brasil, poderia pensar sobre esse ser bípede... Esse ser bípede...
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