A tradição do número 4
13 Visita ao passado
Notas iniciais
–Abby, acorda- Luke sussurrou para Abby
Abby se virou para o outro lado da cama e murmurou algo sobre cães alados e elefantes.
–Abby, minha mãe esta nos pressionando para falar o que aconteceu- Falou Jack se aproximando- A história dos monitores não cola mais
Abby não respondeu, mas estava acordada
–Decida, by- Falou Luke- Estamos com você, não importa o que você decidir!
Abby se virou para eles e sentou na cama sem dizer nada, prendeu os cabelos vermelhos em um coque e quando não havia mais desculpas para não encará-los, ela falou:
–Quando ela voltar do ministério nós contamos!
Luke abraçou ela, não tinha o que falar. Eles sabiam que não seria nada divertido contar para Bella que mexeram na corrêspondencia dela e ouviram a conversa com o vovô.
O dia passou rápido demais, mais do que Abby gostaria. Os quatro estavam sentados no sofá quando Bella chegou.
Uma pausa para contar uma coisa muito mais importante que essas chatices depressivas: Mandaram flores para mim hoje! Deixaram na porta da minha casa! Foi só eu me mudar para o Brasil que já ganhei admiradores. No portão da minha casa tinha flores, vinho e... farofa e uma galinha? Deve ser coisa de brasileiro... Vamos voltar para a história.
Bella se sentou no sofá, todos estavam sérios
–Resolveram me contar?- Falou Bella
Abby pensou em milhares maneiras de começar. Mas ela queria que a conversa fosse rápida, que ela durasse o minimo possivel. Então resolveu ser direta:
–Porque não me contou que meus pais estavam vivos?
Bella não parecia surpresa, ela apenas encarou Abby sem reação
–Eles não estão!- Bella falou firme
–Vimos a corrêspondencia!- Argumentou Luke
–Não era dela- Retrucou Bella
–Eu conheço a letra da minha mãe!- Exclamou Abby
–Não era dela! Não pode ser dela! Ela morreu!- Bella gritou, parecia falar mais para ela do que para os quatro
–Como meus pais morreram?- Perguntou Maya quase sussurrando. Era a primeira vez que ela falou o dia todo. Ela não olhou para Bella mas a mulher sabia que a garota escutava atentamente.
–Foi...- Bella pensava se deveria contar a verdade- Em um incêndio...
Bella contou a história do incêndio
–Meus pais fizeram isso?- Perguntou Abby surpresa por sua voz ter saido
–Sim- Respondeu Bella- É horrivel dizer isso, mas se vocês não estivessem no berço brincando com o Jack, vocês teriam morrido também... Meu primeiro impulso foi salvar o meu filho, e o escudo salvou todos vocês! O feitiço do George que salvou eu e ele
–Porque ele não salvou todos nossos pais também?- Perguntou Luke
–Lançamos o feitiço e desmaiamos- Respondeu Bella- Só lembro de acordar em um hospital de trouxas e o médico falar que todos estavamos bem, quando perguntei das minhas irmãs, ele disse que se haviam outras pessoas além de um homem e quatro crianças na casa, o fogo cremou elas. Foi horrivel.- Bella estava chorando
–Não acharam os corpos?- Perguntou Jack confuso
–Não havia corpos, seu idiota!- Falou Maya- O fogo queimou cada parte do corpo dos nossos pais
Maya, Bella e Abby choravam descontroladamente
–Meus pais morreram porque a mãe da Abby decidiu que deveriam, não acredito nisso!- Luke concluiu olhando para seus pés
–Luke, eu sinto muito mesmo- Falou Abby, agora ele sentia que também deveria ser forte. Os seus pais mataram os pais dele.
–Agora não, Abby!- Respondeu Luke
A resposta dura fez Abby se sentir pior. "Não acredito! Ele me odeia!"- Pensou Abby
–Luke...- Falou Abby quase chorando pelo desprezo da ultima resposta
Mas Luke não olhou para ela, ele saiu em direção a escada sem olhar para trás
–Luke!- Chamou Abby que agora estava chorando mesmo
Maya tentou abraçá-la, mas Abby se desvencilhou dela e correu em direção a porta tampando a boca para amenizar o choro..
–Porque não foram atrás de pistas sobre o paradeiro da Lina?- Perguntou Maya
–Decidimos que superar a morte deles seria melhor para nós e para vocês! Estavamos superando! Estava tudo bem até...
–Até começar a chegar cartas- Interrompeu Jack
–Parem- Gritou Bella chorando
–Nós vamos parar, mãe- Falou Jack gentilmente
–Mas não ache que a Abby vai- Disse Maya em um sussurro audivel
Acho que a Bella nunca esteve tão leve por contar a verdade e tão mal por... Contar a verdade. Que doido. A verdade é que Bella queria colocar todos com o sobrenome Johnson Carter, e fazê-los pensar que eram irmãos.
Mas essa ideia acabou quando uma vidente parou Maya e Jack no meio da rua para dar uma caixa de feijõezinhos de todos os sabores falando que o amor emanava deles. Eles tinham dois anos, e só estavam passeando como sempre faziam pelo menos uma vez no mês. Não devem se lembrar.
Abby estava correndo com o cavalo, o palito que prendia o coque havia se soltado no meio do caminho, e de longe era possivel ver o cabelo vermelho voando. O vento era cortante, e as lágrimas pareciam ter virado gelo. Mas ela não se importava.
Tudo passava como flashes na cabeça dela, cada parte da conversa parecia ter se misturado e aquilo havia se transformado em uma grande bola de neve sem controle.
–Mãe. Incêndio. Pai. Magia. Luke.- Ela murmurava enquanto corria- Promete?
Abby não sabia onde estava e nem, onde queria chegar. Ela não queria chegar.
"Prometo!"- Lembrou Abby
Tudo ao seu lado era um vulto, e a velocidade era o caminho.
Abby sentiu o seu peso sair do corpo e voltar dez vezes mais forte, o frio nunca foi tão real. Ela não conseguia se mexer, e não queria. Queria passar a eternidade ali. Deitada. Em um lugar chamado Lugar Nenhum. Suas olhos estavam se fechando. E o calor estava tomando conta. Calor?
Abby estava em um quarto branco, quente como fogo. Crianças estavam gritando e chorando.
–Onde estou?- Abby perguntou, mas sua voz ecoou pelo quarto e ninguém pareceu ouvir
Adultos desacordados no chão e crianças em um berço.
"Tic, tac. Tic, tac"- O relógio contava o tempo, que demorava para passar.
Não era um relógio, Abby sabia disso.
–PROTEGO!- Dois adultos falaram, embora ela não pudesse ver seus rostos, eles cairam no chão, mas o campo invisivel continuou lá.
As crianças choravam.
Alguém entrou no quarto, Abby queria poder ver seus rostos.
–Mamãe!- Gritou uma menina negra no berço
Aquela era sua mãe?
A mulher estava sendo arrastada pela figura sem rosto, e ela levava todos os outros.
A porta se fechou com um estrondo e uma risada maléfica.
Alguns segundos depois, o fogo tomou conta do quarto. E só aqueceu quem estava dentro do campo, mas Abby não estava dentro do campo.
O fogo consumiu ela, o calor ela insuportável
–Abby?
Abby sentiu alguém tocando ela e a carregando para fora das chamas, mas as chamas iam atrás dela, alguma luz inexistente se apagou. Tudo ficou completamente preto.
Abby acordou em uma cama, olhando para um teto de madeira, o calor era agradável.
–Acordou?- Observou uma voz- Finalmente!
A visão de Abby entrou em foco e viu um garoto moreno de olhos verdes, ele tinha um sorriso radiante.
–Nicolas? Nick?- Perguntou Abby perplexa- É você mesmo?
Abby se lembrava dele como um garoto magrela que brincava com ela de esconde-enconde quando tinha oito anos, depois que ele se mudou ela nunca mais o viu.
Agora ele era alto, moreno, forte e bonito. Agora ele era gato, muito gato.
–Caramba!- Exclamou Abby- Você esta... Diferente
–Você está linda!- Respondeu Nick- Mas beba isso agora!- Exigiu Nick entregando uma caneca com chá nas mãos de Abby
–Eca!- Reclamou Abby depois de provar- É amargo
–Esperava um chá docinho com biscoitos?- Perguntou Nick
–Seria bom- Brincou Abby dando mais um gole
–Aqui não é permitido açucar!- Falou Nick
–Credo, então tudo é amargo e azedo nessa casa? Sério isso?- Perguntou Abby indignada
–Não- Respondeu Nick finalmente sorrindo- É que acabou o açucar mesmo- Ele mostrou um pote vazio
Abby riu
–O que leva uma pessoa a andar á cavalo no meio de uma tempestade de neve?- Perguntou Nick
–Deu vontade- Respondeu Abby simplesmente
–De morrer?
–É por ai- Brincou Abby
–Depois de anos sem te ver, eu te encontro quase congelando no meio da neve- Falou Nick verificando a lenha na lareira- Sabe como tem sorte por eu ter te encontrado?
Abby não respondeu, ela se levantou e olhou pela janela. Realmente estava tendo uma tempestade do lado de fora
–Dormi quanto?- Perguntou Abby
–Dois dias
–Dois dias?- Perguntou Abby sem acreditar
–Sim, acho melhor comer algo e falar o telefone da sua tia... Você ainda mora na fazenda?
Abby assentiu com a cabeça
–Uau, você cavalgou no minimo quatro horas- Disse Nick admirado- Vou pegar comida, deite ai antes que desmaie!
Ele foi até a cozinha, Abby olhou a casa. Era uma cabana de madeira. A cama era na sala, servia como sofá. A cozinha era logo ao lado, e a porta ao lado deveria dar para o banheiro.
"Aconchegante"- Pensou Abby
E ela deitou pensando no sonho... Ou lembrança. Ela ainda não havia decidido.
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