A touch of fire
3 Por que o dia não pode mesmo ficar pior.
Capítulo III
— E ai baixinha! – Aléxis fala no meu ouvido e eu quase salto dez metros de susto.
Idiota. Eu já mencionei isso? Ele não é capaz de dizer o meu nome. Ou é baixinha, ou nanica, ou tampinha ou miúda. Ou qualquer coisa que pesquisou no dicionário e signifique que não cresci muito. Quero dizer, 1,56 não é tão baixo assim, é?
Sinto meu temperamento ferver como faz cada vez que ele está perto. Não consigo sentir qualquer outra coisa quando ele está ao nosso redor.
É inevitável, eu sou a melhor amiga de Adrian e Adrian também é o melhor amigo dele e então tenho que aguentar e conviver.
— Eu já disse que eu tenho um nome, certo? — ele ri. Sempre de bom humor, como se não tivesse um problema na sua vida perfeita.
Aléxis é mais alto que Adrian, o porquê dele me chamar de tantos sinônimos de baixinha. Ele acha que tem “lugar de fala” no caso. Não há nenhuma semelhança entre eles, Adrian tem cabelos loiros, Aléxis tem cabelos muito pretos e olhos cor de avelã e mel, tudo bem, os são olhos bonitos. E só.
Se você quer sinceridade total, ele é sim bonito. Não só os olhos incomuns. Mas, uma beleza acompanhada de implicância e pouco conteúdo, não adianta de nada.
Ele é um ano mais velho que a gente. É forte, tem músculos, eu quero dizer... Seus ombros são muito largos. Seu rosto é quadrado e muito masculino. Talvez por conta da diferença de idade ele, já tenha atravessado totalmente esse caminho estranho que a adolescência dá aos meninos.
Deve ser por isso que as meninas e alguns meninos estão babando por ele. Isso e sua atitude de bad boy. De quem não se importa com nada. Um mistério é sempre atrativo não é?
— Já disse sim.
— Então pode usar.
— Eu não faço questão miúda.
— Bem, saia da minha frente então, eu estou atrasada. – A aula tinha terminado e eu tinha que correr para casa para almoçar e ir trabalhar.
Mas ele não sabe disso e nem precisa.
— O que? Você por acaso tem que trabalhar? – ele zomba. Bom, talvez Adrian tenha contado então.
— Não é da sua conta.
— Ouch! Você está de mau humor hoje. Está nos dias? – meu rosto fica vermelho. Sempre encontra um jeito de me constranger, todas as malditas vezes.
— Deixa de provocar ela Lex! — a voz de Adrian me alivia.
— Eusó estava tendo uma conversa agradável!
— É assim que chamam hoje em dia? – eu pergunto zombando dele.
-É claro! Eu só gosto de deixar você afiada, petitinha.
— Oi Sofi.
— Oi. – minha voz sai num suspiro e espero mesmo que ele ache que é alivio e não… Não esse sentimento besta que vem na boca do meu estômago quando ele me olha e me abraça. Ele tem um cheiro bom. Que merda. – Vou ter que ir. — digo de pressa. Cometo o erro de olhar Alexis que está com um sorrisinho presunçoso no rosto. Como se soubesse…- Não se esquece de levar a carne. É a sua vez.
— Eu não vou esquecer. Te vejo as seis.
Hoje é o dia do espaguete com almondegas. Outra das nossas tradições. Fazemos isso uma vez por mês há sete anos. Tem muita coisa que eu e Adrian fazemos desde pequenos, coisinhas que criamos, costumes que não conseguimos mais deixar.
Isso só me fez ver que, não conseguia mais ver ele só como Adrian o meu melhor amigo. Que me sentia tão bem na companhia dele que talvez fosse outra coisa e talvez quisesse mais. Não tinha ideias românticas como Lia, não achava que ia ter um romance tórrido com o meu melhor amigo e ele ia me salvar de tudo. Então coloquei tudo num potinho e guardei.
Meu celular toca no bolso.
— Alô?
— Sofia? – a voz da minha mãe soa do outro lado. – Preciso que você vá experimentar seu vestido de madrinha, estou te mandando a localização, esteja lá às cinco.
— Mas... – ela desliga. Contenho a vontade de arremessar o celular longe. Gritar. Socar algo. O que ela acha que eu sou? Um animal de estimação a ser exibido por ai? Para fazer bonito ao novo trouxa que ela pensa que é o seu amor eterno?
Me arrasto para o endereço que minha mãe me passou pelo celular. Meu dia piorando a cada segundo que passa.
Chego em uma boutique muito chique. Tenho a impressão que não deveria entrar em lojas pintadas de branco e com grandes janelas de vidro que tem vendedoras de salto fino e terninho, mas lá está Lia em um longo vestido branco de princesa admirando seu reflexo no espelho gigantesco. É bufante e brilhoso. Uma calda enorme espalhada pelo chão. Ela seca lágrimas inexistentes. Pisca os olhos como se diz: olhem pra mim eu sou tão sensível. Lia pode ser muito dramática. Tipo, o tempo todo.
— Sofia o que você acha? – Ela está esperando minha resposta como uma criança esperando um elogio. É exatamente isso. Ela é como uma criança. Deus! A quanto tempo eu tenho sido uma mãe pra ela?
Já coloquei sua bunda bêbada na cama, já fui buscar altas horas da madrugada em lugares estranhos, compro comida em casa e pagos a s contas para que ela possa tomar seus longos banhos quentes. Estou tão cansada. Ainda assim, eu não tenho coragem de falar qualquer coisa negativa. Vá entender. Tenho um idiota de um coração mole.
— Você está linda.
— Obrigada! — ela sorri. E quando ela sorri assim, entendo por que tantos homens se apaixonam por ela. Quem diria não a um anjo desses? Demora a chegar ao interior. Onde tudo está estragado. — Agora vá! Experimente o que eu escolhi pra você.
O vestido que ela escolheu não é tão mal assim. É um vestido dourado que marca as minhas curvas. Ou me dá algumas se você preferir. É um pouco justo, mas muito elegante e até combina comigo.
— Isso! Vai ficar bom. Deixei tudo arranjado, falei com a cerimonialista e ela achou de bom tom você entrar com o filho dele.
— Entrar com o filho dele?
— Sim, é perfeito. Foi uma ideia maravilhosa na verdade, eu devia ter pensado nisso antes. Nossos filhos tem que entrar juntos. Como uma família !
— Mas...
— Sem mas! Não é um pedido não Sofia. É um comunicado. — ela bate o pé. Me faz desejar ter dito que aquele vestido a deixava gorda. Mesmo que não fosse verdade, só pra ver ela se desesperar.
— Sério Lia? O que mais vou ter que fazer rolar e dar a patinha?
— Não seja tola! E me chame de mamãe a partir de agora , se não você vai esquecer e vai me fazer parecer idiota na frente de Edward. O que acha que ele vai pensar se ouvir você me chamando de Lia por aí ?
— Nunca ligou pra nada disso antes. Que diferença vai fazer agora? Nunca te chamei de mãe. — resmungo.
— Ele pensa que somos próximas. E é o minimo que você pode fazer depois de estragar a minha vida. Você sabe, eu ia ser uma modelo...
Já ouvi esse discurso tantas vezes que sei repeti-lo de cor.
— Estou indo. — corto seu drama.
— So pra você saber eu não vou pra casa hoje.
— Nossa que surpresa. — minha voz se enche de ironia, ela fica ligeiramente vermelha.
— É melhor você melhorar as maneiras quando for morar comigo e com Edward, mocinha!
São quase seis quando olho no relógio da loja, decido não discutir mais e vou pra casa, me encontrar com Adrian, isso sim vai me fazer sentir muito melhor.
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