A touch of fire
13 Não é como se Aléxis fosse meu segredo sujo!
Notas iniciais
O relógio marca quase sete.
Estou atrasada para aula.
Me troco o mais rápido de posso e acabo colocando jeans, uma blusa preta macia e tênis confortáveis.
A verdade é que não dormi muito essa noite, pensando no final de semana e nos erros que cometi. Não paro de pensar que deixar Alexis se aproximar é um erro enorme. Que ele é um erro enorme.
Nunca gostei dele desde que o conheci, nosso “moods operandis” é briga e provocação, não temos um assunto em comum, não conseguimos conversar, não somos o que se chamaria de amigos nem um pouco. Então por que?
Desço tão distraída que levo um susto quando vejo que Edward e Lia estão lá.
É normal sentir esse frio na base do estômago sempre que eu olho para Lia? Minha própria mãe? O instinto louco de correr na direção oposta ?
Lia me olha. Seu rosto está me desaprovando. Como sempre faz. Meu coração troveja nas costelas, pensando, o que ela acha que fiz de errado agora?
A casa toda está movimentada, as pessoas uniformizadas servindo e fluindo com elegância, mas só vejo Lia agora, só vejo o rosto dela numa máscara de frieza, seus olhos perfurando os meus.
— Bom dia querida. – Ela diz estreitando os olhos para mim. Engulo seco.
— Bom dia. Fizeram boa viajem?
-Sim, fomos para as montanhas, quero voltar lá em família, levar você e Lex com a gente, vocês vão adorar. — Edward diz animado. Ele é exatamente como Alexis, tão bonito quando se empolga. Sorrio um pouco sem conseguir evitar.
-Era um chalé ?
-Mais como uma casa nas montanhas, Lia não gosta de aventuras, mas como você tem uma moto podíamos subir de bug, sabe? Fazer trilhas.
-Isso seria muito legal.
-Vou providenciar as reservas, vocês vão amar. — não quero desencorajar ele e dizer que provavelmente não vou a lugar nenhum com eles e com ela.
— O que é que você está vestindo? – Lia interrompe, olhando minhas roupas com desprezo mal disfarçado. Edward está sereno. Ele sempre está. Será que ele a conhece? Será que ele não vê?
— Jeans? – pergunto incerta segurando minha bolsa com toda força que tenho.
— Não querida você está vestindo a pobreza. – ela diz. Edward se vira para ela e aperta os olhos e posso dizer que ele está surpreso. Mas, não deveria, ele deveria conhecer ela bem antes de se casar com ela. – Quero dizer. Eu posso dar algo melhor para você agora. — corrige em seguida. Por um fio, não dou risada da cena que ela produz, do tanto que se esforça pra ser alguém que simplesmente não é.
Preciso ficar longe dela.
— Está tudo bem.
— Não. Não está.
— Bom dia pai. Lia. – Aléxis entra na cozinha parecendo um modelo da GQ. Veste uma calça preta, coturno, e uma camisa cinza modelada do corpo dele. É simples. um tipo de simplicidade chique, que exala bom gosto. Estaria agora salivando, se não tivesse usando toda força que tenho para ser indiferente.
Essa cara acordou na minha cama ontem pela manhã, meus pensamentos gritam.
Ignoro.
Alexis vai até a máquina de café.
-Voce quer? — demoro um minuto pra perceber que está me oferecendo.
-Quero… — poderia chorar e implorar por uma xícara de café antes da aula, meu vício.
-Leite?
-Puro, por favor. — ele se vira pra mim com aquele sorriso cinico.
-Por favor é? -ergue a sobrancelha esticando a mão com um copo de papel com tampa. Desvio de seu olhar intenso e agarro o copinho com tampa, precisando mais disso do que minha próxima respiração.
— Olá querido. – Lia interrompe olhando Aléxis com os olhos brilhando um pouco demais. – Sofia. Edward e eu... – Por que ela usa Edward e eu em toda maldita frase? – Vamos fazer uma festa beneficente. Afinal ele é um homem de negócios importante e é bom para imagem ele estar envolvido nesse tipo de coisa. Você precisa se vestir melhor.
— É mesmo?. – digo duramente. Edward e Lia me encaram, e só por isso seu marido não pode ver o veneno nos seus olhos quando ela me olha. Já Alexis está franzindo a testa provavelmente lembrando da nossa conversa.
-Nao vejo problema na roupa dela. — ele diz ao mesmo tempo que ela fala:
— É necessário, querida. – tão suavemente que se não a conhecesse bem pensaria que ela era uma flor delicada.
Só que eu a conheço.
Eu realmente a conheço.
E já ouvi esse tom milhares de voz e ele sempre vem acompanhado de punição.
Sempre.
– Meu alfaiate vai vir às 5 horas. É imprescindível que você esteja aqui. Claro. E nós já conversamos sobre esse ideia ridícula de trabalho também. É melhor você me escutar.
-Acho que já estabelecemos isso também não ? — Edward diz sério.
-Amor, isso é assunto de mãe e filha sabe como é?
-Acho que você fez disso um problema de família Lia, quando colocou essa discussão no café da manhã. — Alexis me defende. Isso me assusta e me envergonha.
— Eu tenho que ir. – quero só sair dali, estou mortificada, tremendo. Não é medo. Deixei de sentir medo a anos atrás.
Isso é raiva.
— Claro. – Ela tem um pequeno sorriso. – Esteja aqui as cinco. – E sei o que isso significa. E não é só roupas novas, se fosse, estaria feliz, quem não quer roupas novas? Mas, com ela, tudo é acompanhado de algo mais.
Então, saio andando antes que diga algo no qual me arrependa.
Ligo para Adrian em seguida.
— Ei, Sofi! Bom dia! – ele diz. A voz de Adrian me acalma um pouco, mas minhas mãos ainda não param de tremer;
— Adrian, hum, você poderia me encontrar para o almoço? – sei que Adrian tem aulas avançadas de calculo hoje e tenho aulas avançadas de química, não vou ver ele na aula. Nossos horários e corredores sendo diferentes o dia todo.
— Está tudo bem? – engulo seco outra vez.
— Sim. Eu, Lia quer me encontrar hoje mais tarde. Sabe como é né. – digo em um tom que diz: “ Não é grande coisa”
— Sei, posso sim, vamos comer um sanduíche no Tito’s.
— meio dia?
— Te encontro lá.
Não quero voltar para casa para o almoço. Não quero voltar para casa e ponto.
— Ei, miúda! – A voz de Aléxis me alcança. A última pessoa que quero ver. – Tudo bem?
— Estou.
— Você está meio pálida.
— Uh, eu só... está tudo bem.
— Você está tremendo. Quer me contar? Você alguma fobia de alfaiate? – ele diz brincando. Tenho fobia dela!
— Não. Ela só… tem achado algo para implicar comigo. – digo dando um meio sorriso. – Mas eu gosto das minhas roupas. Não preciso de novas.
-Nao gosto de como ela fala com você. — meu coração palpita um pouco com a intensidade em que ele me encara.
-Deixa isso pra lá. -desvio o olhar, nervosa demais para manter. — Estou indo. Estamos atrasados.
— Posso te dar carona.
— Tenho que ir para o trabalho depois, então é melhor estar de moto.
— Você pega quando viermos almoçar.
— Eu... hum, vou almoçar com Adrian. –custo admitir. A expressão de Aléxis muda na hora. Sinto um vazio na barriga.
—Certo, entendi. – ele caminha para longe. Adrian também é amigo dele! Qual é o grande problema?
Mal presto atenção na aula.
É difícil concentrar e o tempo se arrasta, o tic tac do relógio tirando sarro da minha cara. Uma confusão de pensamentos me distraem, Lia toma uma parte, minha raiva dela subindo a superfície, imaginando que não bastaria só ser uma “boa menina” teria que ser também a marionete dela. Adrian que sumiu o final de semana todo e outra boa parte de pensamentos em Alexis. O Alexis do final de semana em contraste com o Alexis de mais cedo, de antes de sempre.
Finalmente quando a aula acaba dirijo direto para o Tito’s. Adrian já está lá quando eu entro e ele me abraça com força.
— Tudo bem?
— Bem, sim, mas não queria falar de problemas. Chamei você para almoçar para me distrair.
— Okaaayy. – . Adrian sabe não pressionar. E gosto disso nele, na verdade pouca coisa eu desgosto nele.
— O que você fez esse fim de semana?
— Nada de mais. Fiquei em casa na maior parte e fui a uma festa em uma faculdade na saída da cidade. — ele nunca me chama para ir à essas festas, e me deixa surpresa ele estar com gente mais velha e nem ter me mandado uma mensagem pra contar.
— Uau! Na faculdade?
— Sim, conheço um pessoal lá.
— Bem, você já está enturmado então.
— Nãovou fazer faculdade aqui você sabe.
— Eu sei, não quero que você me abandone. — brinco, temos planos de irmos juntos para faculdade, a Universidade Villa Norte, existe um programa bom lá para cozinheiros e arquitetos o que é uma combinação que nos atrai.
— O que depois de uma festa? Que tipo de amigo eu seria?
-Do tipo que vai à festa e não me convida. – rio.
-Sofi… — ele ri.- Sabe que não ia conseguir ver suas composições culinárias lá né ? — dou um tapa em seu braço.
-Nao foi só isso que fiz no final de semana. -Não ? — ele ri. E o que mais você fez? — Dormi de conchinha com Alexis. Minha mente sussurra, até meus pensamentos me traem.
—Vi um filme… — deixo o assunto morrer. Não é como se Aléxis fosse meu segredo sujo! Nós fizemos nada demais, mas verbalizar isso pra Adrian? Não tenho coragem.
— Só isso? Sofi, você está virando um panda.
— Pandas tem uma vida incrível! É só comer dormir, rolar e fazer isso tudo de novo.
— Pandas são fofos.
— Sou fofa. Realmente tem semelhança se você pensar bem.
— Ainda mais quando sua maquiagem borra. – .
— Isso não acontece... não muitas vezes de qualquer maneira.
— Sim, mas lembra no casamento da Sam? Você não aguentou e dormiu no salão e quando acordou... – ele riu mais forte. – Você tinha tantinho preto debaixo dos olhos! – ele limpa os olhos depois de rir até as lágrimas. Mostro a língua para ele.
— Eu tinha quinze anos. E não tinha um rímel a prova d’agua ou de machas ou sei lá!
— Sim, mas aquela vez você parecia um maldito panda. E você ainda tinha esse rosto mais redondo…
— O que?
— Ah Sofi, você sabe... tipo babe face ?
— Eu estava gorda?
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