A testemunha- HIATUS
38 Uma discussão sentimental
Notas iniciais
O que acontecera com Daphne ainda era muito recente e doloroso. Igor quase não recebia visitas e, quando as recebia, ficava encarando um ponto fixo enquanto ouvia o visitante falar. Ele não saía mais de casa, não abria as janelas e nem saía para o lado de fora, passava o dia todo em seu quarto lamentando a morte da garota. Clara e eu tentávamos, em vão, tirá-lo daquela casa tão cheia de más lembranças, mas o garoto se recusava a nos obedecer.
— Deixe-o. — Disse Clara em um suspiro. — Uma hora ele terá que ver a luz do sol. — Eu sei. — Respondi encostada à soleira da porta da casa do rapaz.
— Mas não podemos desistir de tentar melhorar e...
— Lisa, eu entendo que você queira muito ajudar, mas às vezes a coisa que mais auxilia é a distância. Deixe o garoto se recuperar, ficar sozinho pode clarear a mente dele.
Ainda não convencida, segui Clara relutantemente até a sua casa. O condomínio parecia seguir sua rotina normalmente, as flores cresciam, as crianças brincavam no meio da rua e o porteiro recebia as reclamações de algum morador mimado que não aceitava o fato de não poder sair do condomínio sem motivo e desacompanhado por policiais. Quando chegamos em frente à casa de Clara, avistei o Sr. Oliveira consertando algum aparelho doméstico.
— Anda logo. — Gritava Diana da janela. — Ou seus filhos não terão o que almoçar hoje.
— Já vai, já vai. — Ele gritou de volta e, virando-se para nós, acrescentou — Ela ainda vai me deixar maluco.
Clara revirou os olhos e eu dei minha melhor imitação de sorriso. Ao entrar na casa, deparei-me com Ian conversando animadamente com Bárbara enquanto acariciava o cachorro da família. Cumprimentei-o rapidamente e apenas meneei a cabeça quando Bárbara disse “olá”. Segui direto para o quarto de Clara.
— Argh! — Ela gritou, jogando uma almofada na parede. — Essa garota é tão irritante! Você viu o jeito dela de dizer “olá”? É algo como “Me notem, sou a rainha da beleza”. Eu a odeio!
Comecei a rir da reação de minha amiga.
— Ela não é tão má assim...
— Lisa, pare de ser falsa!
— Ok, ela é um porre. Por favor, alguém avise o Ian antes que ele se infecte com o vírus da chatice.
— É assim que se fala. — Incentivou minha amiga. — É uma pena que meu irmão perca todas as nossas conversas mega legais para ficar com aquela metidinha.
— Eu ficaria feliz de parar de escutar uma garota de cabelo azul ressecado lamentar sobre sua vida. Resumindo, eu ficaria feliz de não conviver comigo mesma.
—O que falta no seu cabelo é hidratação, colega. — Acrescentou Clara. — E te ouvir lamentar é bem melhor que ouvir os apelidinhos em diminuitivo que a Bárbara dá para o meu irmão. Gatinho, fofinho, Ianzinho, bolinho... Se eu tivesse que ouvir isso todos os dias, iria despejar um vomitôzinho na cara daquela garota.
— Ela chama Ian de “gatinho”?
—Caramba, Lisa, eu faço quase um monólogo aqui e você só presta atenção em uma palavra?
— Desculpe, mas é que eu achei muito ridículo.
— Pela sua cara, eu diria que você é quem queria estar dizendo isso à ele...
— Credo, Clara, ele é o seu irmão.
E, embora tivesse dito essa frase, eu sentia que a frase que ela dissera era real.* * *
Três batidas fortes assolaram a porta.
— Entre. — Disse Clara, ainda esparramada em sua cama.
A porta rangeu e deu lugar a Ian, que parecia cansado e infeliz.
— O que aconteceu? — A garota perguntou. — Brigou com o seu amor eterno?
— Ela não é meu amor eterno, Clara. Eu nem mesmo gosto dela desse jeito que você está pensando. — Respondeu o rapaz, lançando um breve olhar para mim.
— Então o que te fez abandonar a adorável companhia daquelazinha e invadir o meu quarto?
— Eu queria conversar um pouco, é proibido?
Clara revirou os olhos e se sentou na beirada da cama,indicando um espaço vazio para o irmão se sentasse. Obedecendo à irmã, ele se sentou ao meu lado.
— Novidades sobre o Igor? — Perguntou.
— Não, ele continua se recusando a sair de casa. Fiquei sabendo que a psicóloga está passando todas as tardes na casa dele, tem medo de que ele se mate também.
Ian soltou um longo suspiro.
— É uma lástima, Igor paecia ser gente boa.
— Ele é legal, sim, realmente um ótimo amigo.
— Que bom que encontrou um bom amigo, não?
— Pois é. — Respondi. — Talvez ele seja para mim a mesma coisa que Bárbara é para você.
E, quando fui perceber, estávamos nos encarando com intensidade.
— Pessoal? — Clara chamou. — Vocês estão bem?
O momento de tensão se partiu como um vaso de vidro que colide com o chão. Retomei minha atenção em Clara, que tagarelava sem parar sobre como era a sua vida antes do programa de proteção à testemunha.
— Me mandaram uma carta ontem, sabem? Eram algumas fotos da formatura. Todos estavam felizes e sorridentes, ninguém parecia notar que eu estava faltando.
— Não fique assim. — Respondi, lamentando. — Tenho certeza de que sequer se lembram de mim na minha escola. Por falar nisso, acho que a formatura é semana que vem.
— Com certeza sentem sua falta, Lisa. — Argumentou Ian. — Quero dizer, que tipo de maluco não sentiria?
— Algum com muita amziade com uma garota nova, talvez. — Falei, apenas me dando conta do que dissera depois que terminei o assunto.
— Isso foi uma indireta? — Ele perguntou, cruzando os braços. — Caso se incomode com algo, peço para que pare com essa infantilidade e diga diretamente.
— Gente... — Clara disse, tentando intervir.
— Sim, foi uma indireta. Se eu fosse você, procuria emprega na área de “decifrar indiretas”, pois essa estava realmente muito sutil.
— E você deveria procurar emprego na área de ironia, talvez. Já pensou na caso?
— Ian e Lisa, parem.
— Não se mete! — Ian gritou para a irmã.
— Não grite com ela! — Gritei de volta.
— Saiam os dois do meu quarto, agora. —Clara falou, levantando-se em um pulo. — Lisa, vá para a sua casa e só volte quando aprender a se controlar. E Ian, se tranque no seu quarto e inicie uma busca pela sua maturidade.
— Eu sou imaturo? Por que não diz isso para sua amiguinha aqui?
— Ah, agora eu sou somente amiguinha da Clara? Realmente, Bárbara deve ser muito boa para valer por duas.
— Ela não tem nada a ver com isso.
— SAIAM DO QUARTO AGORA! — Gritou Clara. — Ou então vão sair sendo arrastados pelos cabelos.
Praguejando, desci as escadas da casa dos irmãos correndo, quse derrubando um vaso que Diana mudara de lugar.
Era tarde demais , meu amigo (?) já fora infectado com o vírus da chatice de Bárbara.
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