A terceira eterna vida de Bree Tanner.
8 O sutiã azul
Notas iniciais
7. O SUTIÃ AZUL

Emma P.O.V
Onde foi parar o meu sutiã azul?! –– perguntei-me, irritada. Cocei a cabeça com uma mão e girei no mesmo lugar –– uma atitude de aparente exasperação minha –– por três vezes. Parei quando meu corpo estava de frete à porta branca do meu quarto. Fui até ela e chequei. Perfeitamente trancada. Não tinha como Bobby ter entrado por ela.
Uma brisa fria invadiu o quarto deixando minha pele ainda mais gelada. Olhei surpresa para as portas da sacada, que estavam abertas. Estreitei os olhos e caminhei até elas, olhando para baixo. Minha boca abriu-se num perfeito ‘O’ e eu quase não acreditei no que vi. Havia uma escada bem ali, logo abaixo da minha sacada!
–– BOBBY! –– gritei a plenos pulmões. –– Seu pestinha encrenqueiro!
Abri a porta do meu quarto firmando a toalha azul que cobria meu corpo ainda molhado e caminhei a paços duros até o quarto do monstrinho que eu tenho que chamar de irmão.
Eu nem bati, simplesmente abri aporta com um estrondo e fiquei ainda mais raivosa por ele não estar lá.
–– ROBERT BLUE, ONDE ESTÁ VOCÊ? –– gritei, enquanto saia do quarto do pestinha.
Escutei um risinho baixo que parecia vir do primeiro andar. Corri até lá, fazendo o possível para manter minha toalha enrolada em meu corpo.
Desci as escadas tão rápido que fiquei surpresa por não cair, feito a anta da minha prima, a Abelhinha.
Já no primeiro andar, eu não precisei procurar muito, apenas segui pelo corredor que me levaria para a sala de visitas e lá eu encontrei Bobby. Ele estava sentado na poltrona branca do meu pai e tinha quase todo o corpo coberto por seu inseparável cobertor azul. Apenas o topo de sua cabeça extremamente loira e despenteada era visível. Ele soltou mais uma risadinha, e baixou o cobertor o suficiente para que eu visse seus olhos, que brilhavam em um divertimento muito claro. Ele estava amando tudo aquilo.
–– Robert, onde está o meu sutiã azul?
E riu, e balançou a cabeça.
–– Eu não posso mais entrar no seu quarto, lembra?
Naquele momento, eu quase ri. Como alguém tão fofo e pequeno podia ser tão irritante?
Fechei meus olhos, tentando lembrar que ele só tinha seis anos e que tudo aquilo era uma fase. Ele cresceria e se tornaria um rapazinho comportado que eu amaria muito e em algum momento de nossas eternidades nós riríamos de tudo isso. Então eu me acalmei.
Mentira. Eu continuei irritada e tudo o que eu fiz foi correr atrás dele pela casa enquanto ele chorava e gritava chamando nossos pais. Quando mamãe e papai finalmente nos acharam, eu perseguia Bobby pela mesa do café, que já estava posta.
Bem, você quer saber a conclusão de toda aquela confusão matinal? Mamãe nos colocou de castigo (sim, até eu, a vítima dessa história), e deixou Bobby sem sobremesa por uma semana. Eu achei pouco, mas com a minha mãe nem adiantava argumentar.
Mamãe conseguiu fazer Bobby falar onde estava o meu sutiã. Um tanto contrariado, ele disse que estava no quarto de hospedes. Haviam cinco quartos de hóspedes, mas eu já estava cheia de tudo aquilo, então decidi procurar com a única informação que eu tinha.
Já no andar de cima, olhei em cada canto dos quatro quartos que ficavam longe do meu, eles pareciam bons para esconder coisas. Eu não encontrei nada neles. E então só restava mais um, ele ficava de frente para o meu quarto.
Parei um segundo para pensar naquilo. Parecia bem óbvio, mas era o Bobby. E ele optava pelo óbvio por não parecer tão óbvio assim, entende?
–– Por que eu não pensei nisso antes? –– murmurei comigo mesma enquanto entrava no quarto. Mas eu parei logo na porta, estática com a cena que vi.
Ele estava dormindo meio sentado, o que resultaria em uma forte dor na coluna mais tarde. A cabeça pendia para o lado direito, virada na direção da porta, bem onde eu estava. Ele babava um pouco no travesseiro que apoiava sua cabeça, o cabelo loiro que sempre estava bagunçado parecia um ninho de passarinho enquanto ele dormia. Ele suspirou fazendo com que o ar se agitasse e chegasse onde eu estava, e alguns fios do meu cabelo se agitaram. Ergui a mão livre para retirar os fios que caíram em meus olhos. Ele se mexeu ainda dormindo e foi aí que eu vi. Embaixo de seu abdômen desnudo, estava meu sutiã.
Reprimi um gemido. Droga, Bobby!
O que eu faria agora? Eu já tinha minha roupa toda planejada e aquele sutiã era a peça certa para a composição perfeita do look. Não, simplesmente não dava para tirá-lo debaixo daquele garoto.
Reprimi a vontade de gritar e saí do quarto tentando ser o mais silenciosa possível.
Entrei no meu quarto com os olhos marejados e procurei por meu celular. Ele estava na penteadeira, peguei-o e disquei o número da única pessoa que poderia me salvar agora. Chamou uma vez, ela atendeu no segundo toque.
Eu não dei oportunidade para ela falar alguma coisa.
–– Charllotte, o Bobby pegou o meu sutiã azul e escondeu debaixo do Samuel Snow, e sim, ele está mesmo dormindo aqui em casa! E eu não sei o que fazer! Eu preciso daquele sutiã, Char. E ele está embaixo do Sam Snow! E apesar de tudo eu ainda não sustei e eu realmente o vi dormindo no quarto em frente ao meu. E ele nem está usando camiseta! Por favor, me salva. –– Chorei para ela.
É. Eu realmente estava bem dramática naquele dia. Minha mãe diz que eu sou assim o tempo todo, mas eu prefiro dizer que não.
Eu a ouvi suspirar e murmurar um ‘ela não sabe o que é dormir?’.
Eu contei quatro segundos antes dela responder.
–– Não há nenhum outro sutiã que combine com aquela roupa? –– a voz dela soou rouca, como de quem acaba de acordar. Ops. Charllotte deveria ganhar um prêmio por me aturar.
–– Não. Não ao menos um daquela cor, os poucos sutiãs claros que eu tenho não tem o formato certo para aquele vestido.
–– Tá, okay. Ahhnn... Tem certeza que vai usar vestido hoje? –– ela perguntou, fazendo-me franzir as sobrancelhas.
–– Tenho.
–– Mesmo?
–– É, Charllotte, eu tenho certeza. Desde ontem eu tenho certeza disso –– suspirei, um tanto frustrada. Ela não estava me dando nenhuma verdadeira ajuda aparente.
–– Emma, você já olhou pela janela hoje?
–– O que tem isso?
–– Você olhou ou não?
–– Sim! Eu olhei Char.
Ela bufou.
–– Não olhou, não! Você está mentindo para mim ás seis da manhã! Quem no planeta faz isso com a melhor amiga?!
Revirei meus olhos.
–– Primeiro, você está certa. Eu não olhei. E segundo, e daí? Eu ainda não entendo o seu ponto, Miss Drama.
–– Bem, se você caminhar até a sua sacada e olhar o mundo ao seu redor, vai entender perfeitamente o que eu quero dizer.
Rolei novamente meus olhos, e fiz o que ela falou.
–– Droga!
–– É. Eu disse quase a mesma coisa quando vi toda essa neve idiota. Só que eu fui menos delicada, diga-se de passagem.
Como eu não falei nada, ela continuou.
–– Com toda essa espessura e a sua má sorte, vamos ficar sem usar vestidos por uma semana. Então, eu acho melhor você esquecer o seu vestido, o sutiã azul e o Sam Snow sem camisa babando no travesseiro do quarto de hóspedes, entrar no seu closet e procurar um jeans confortável e algo bem quente para pelo menos fingir que você sente frio. E, sabe, você tem que admitir que tem sorte, você poderia ser uma dominadora da terra e sentir frio para caramba. Veja pelo lado positivo.
E eu a obedeci. Procurei por um jeans legal, um suéter, um casaco grande e quente. E claro uma bota de cano curto.
–– Tá, mas como você sabia que o Sam está babando no travesseiro? –– especulei curiosa.
–– Eu não sabia mesmo que ele baba, é só que toda vez que eu olhava para a cara dele, eu pensava ‘ele tem cara de quem baba’. Eu sei, é completamente estranho, mas não me julgue.
Eu ri, e ela me acompanhou.
–– É. Isso é bem estranho, mas o que não é no nosso mundo?
Nós continuamos conversando enquanto eu me vestia. Entre os assuntos, estavam os Cullen, alunos novos vindos do Canadá para Forks.
–– Mas então, o que você achou deles? –– Ela quis saber, depois de dizer sobre como ela achou todos os rapazes muito bonitos, principalmente um dos loiros, não o que andava com a anã de cabelo espetado, mas o loiro solitário que parecia entediado. Ela também tinha achado o moreno de cabelos ondulados bonito, mas disse que ainda preferia o loiro. Fred era o nome dele.
–– Ah, eles são bonitos e tal, mas eu não me senti atraída por nenhum. Para te falar a verdade, eles me pareceram meio sem graça.
Dei de ombros, penteando meu cabelo.
Ela ficou em silêncio por um momento, e eu continuei o que fazia.
–– Então... –– murmurou alguns segundos depois, parecendo confusa. –– Sem amor ou ódio? –– indagou ainda surpresa.
Sorri de canto, imaginando como estaria sua expressão.
–– É. Sem amor ou ódio.
–– Algum motivo especial para isso? Quero dizer, você é Emma Blue, você sempre sente amor ou ódio!
Eu ri, e isso a deixou ainda mais incrédula.
–– Você faz parecer que eu sou muito extrema, Char.
–– E não é?
–– Não. Eu também posso olhar para uma pessoa e não sentir nada, eu sou como qualquer pessoa.
Olhei para meu cabelo refletido no espelho. Eu até pensei em fazer alguma coisa, mas decidi deixa-lo solto mesmo. Eu não precisava de muito para arrumá-lo, ele já era levemente ondulado por todo o comprimento, o que dava uma cara de babyliss largo o tempo todo naturalmente. Eu tinha de admitir, se minha má sorte estava voltada para sutiãs, vestidos, neve e Samuel Snow, com meu cabelo a história era outra.
Como maquiagem, eu só usei um batom que tinha um tom muito parecido com a da minha boca e um rímel preto. Eu estava bem básica, nem havia saltos nas minhas botas.
–– Se eu não estivesse ouvindo isso da sua boca, eu não acreditaria... –– ela murmurou.
–– Em quê? Que eu tenho mais de dois sentimentos?
–– Não –– ela riu. –– Bem, sim, mas não exatamente. É que eu te conheço faz tanto tempo que é bem natural ver você ter uma opinião formada sobre todos ao seu redor. E geralmente ela é de amor ou ódio.
Eu sorri, tranquei as portas da sacada, peguei minha bolça e a chave do meu quarto. Tranquei a porta dele também. Bobby estava de castigo, mas ele ainda era quem era.
–– Bem, assim como a água pode assumir tantas formas, a minha ‘opinião formada’ sobre eles pode mudar. Mas vamos deixar que as águas sigam seu curso. Só assim nós saberemos, minha cara Challotte White.
–– Certo, Emma. Vamos deixar as águas seguirem. –– Eu quase podia vê-la sorrindo ao telefone. –– Bem, eu preciso desligar. Quero comer alguma coisa antes de ir para aquela droga de lugar.
–– Eu também. Até logo, Charl.
–– Até logo, Emma.
E nós desligamos o telefone.
Já no andar de baixo, dirigi-me até a sala de jantar, onde meus pais e Bobby já estavam.
Sentei-me sem dizer nada e comecei a me servir em silêncio. Eu só comi um bolinho e suco de laranja com leite de soja. Eu nunca sentia muita fome pela manhã, então isso era todo o que eu suportava.
E, eu juro. Eu pretendia manter minha boca ocupada demais mastigando e não falar nada, mas simplesmente não deu para segurar a minha curiosidade.
–– Eu pensei que o filho dos Snow não estivesse mais dormindo aqui em casa? –– Era um comentário, mas soou como uma pergunta.
–– Ah, sim. Ele não estava, mas então o Bobby disse que não dormiria sem ele aqui e bem, nós ligamos para o Sammy e ele gentilmente atendeu nosso pedido. –– Foi minha mãe que respondeu, e eu não pude deixar de notar o nível de intimidade quando ela disse o nome dele. Papai assentiu levemente com a cabeça. Ele sim parecia bem entretido com a comida.
Balancei a cabeça, torcendo o lábio inferior.
–– Bem, ele vai voltar para casa dele hoje, não é?
–– Emma! –– Reclamou ela.
–– Ah, mãe! Por que o Bobby tem tudo o que quer? Eu não era tão irritante e mimada quando eu era criança.
Ouvi papai soltar um suspiro. Parecia bem bobo e infantil da minha parte, mas o meu ponto era: Bobby sempre conseguia o que queria e nisso eu sempre me dava mal. Veja bem, já é bem desconfortável ter quase todas as mesmas aulas que o Snow, agora tê-lo dormindo e jantando e dormindo na minha casa já era demais. E, se você ainda não entendeu o porquê de todo esse desconforto... Bem, em algum momento você vai entender.
–– Vocês não se sentem incomodados? Digo, ele não é irritante nem nada, mas o Bobby quase faz o garoto viver aqui. E, quando eu finalmente penso que eu vou ter uma semana sem situações constrangedoras, eis que meu querido irmãozinho ataca novamente. ––Virei-me para meu irmão, cheia de ironia. –– Sério, garoto, você já parou para pensar que o Snow também tem uma família, uma vida? Eu acho que ele nem gosta de você, e só faz isso por respeito aos nossos pais.
Eu seeei, eu fui dura demais com um garotinho de seis anos, mas às vezes eu não me controlo e estouro. Arrependi-me no segundo em que vi a boca dele tremer e os olhos brilharem em lágrimas que ele tentava não derramar.
Quando abri a boca para pedir desculpa, papai me cortou.
–– Emma suba até o quarto em que o Sam está e o acorde. Creio que ele não vai querer se atrasar para a escola, e ele também precisa comer alguma coisa. Depois de feito isso, só desça as escadas novamente quando eu te chamar. Nós já tivemos discussões demais por hoje. –– Ele massageou as têmporas, parecendo cansado. –– Agora vá.
Eu o obedeci em silêncio, e não tive coragem para encará-lo, muito menos a mamãe ou a Bobby. Se eu já estava me sentindo mal por tudo o que tinha dito, papai sempre fazia eu me sentir pior com poucas palavras.
Parada novamente em frente à porta do quarto de Sam, eu tive que reunir todas as minhas forças para bater. Soltei um longo e pesado suspiro, então bati na porta. Uma, duas, três, quatro vezes e esperei. Nada, nem um resmungar. O garoto tinha um sono pesado. Bati novamente, quatro vezes, só que mais forte. Esperei alguns segundos e finalmente ouvi alguns resmungos e passos soando na direção de onde eu estava. Contei onze passos e ele finalmente abriu aporta.
Sam apoiou a lateral direita de seu corpo no batente da porta.
–– Oi –– murmurou ele, bocejando logo em seguida.
–– É, oi. Bom dia, Sam.
Sorri amigavelmente, mesmo ele estando com os olhos fechados.
Quando percebeu que era eu, ele pareceu levar um choque. Num pulo ele abriu os olhos verdes azulados para mim. E foi bem estranho, porque eu nunca tinha parado para observar em como os olhos dele eram lindos. Era um padrão bem curioso de verde-azul, com linhas e ondas de cores intercaladas. O cabelo dele também ficava muito bonito caindo sobre a testa. E, pior ainda foi a estupidez e desatenção que eu tive em relação a isso. Como eu pude ignorar a beleza de seus olhos por tanto tempo?
–– Emma! –– ele quase gritou.
–– É, Samuel, sou eu. Vai se arrumar para a escola, depois desce e come alguma coisa.
Com o aviso dado, girei-me nos calcanhares para ir para o meu quarto. Eu realmente não queria ficara ali com ele mais tempo que o necessário. Mas então uma dúvida martelou em minha cabeça, e virei-me para encará-lo. Sam ainda estava no mesmo lugar em que eu havia o deixado, parecia um tanto hipnotizado ao olhar para mim. Segurei com muito custo à vontade de revirar os olhos. Típico, eu causava isso em todos os garotos por somente respirar.
Em boa parte do tempo, isso era ótimo. Ser adorada e até mesmo venerada por tantos garotos era muito bom para o meu ego, e tê-los em minhas mãos fazia-me sentir bastante poderosa.
Mas, naquele momento, isso não me atraía tanto.
–– Você usar o seu carro, não é? –– apontei para o peito dele, mantendo contato visual.
Eu não o queria chegando à escola no mesmo carro que eu. Como eu ainda tinha quinze, meu pai tinha contratado um motorista para Bobby e eu, ele nos levava para a escola e qualquer outro lugar que quiséssemos.
–– Humm... É eu vou –– respondeu-me ele, ainda um pouco tonto.
–– Ah! –– Praticamente ri para ele, animada com a notícia. –– Então nós nos vemos na escola.
Ou não...
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