A teoria do caos
29 Capítulo XXIX – Os galhos da árvore
"Não posso deixar de pensar que somos mais do que a soma total de nossas escolhas e que todos os caminhos que poderíamos ter trilhado influem de algum modo na matemática da nossa identidade."
—Blake Crouch, Matéria escura.
A história é contada pelos vencedores, Mei Hatsume sempre soube disso. Houve um tempo, logo quando pessoas começaram a aparecer com mutações e poderes além da compreensão, que a linha moral foi cruzada. Não seria a primeira vez nem a última que isso aconteceria, mas enquanto hoje em dia, ao estudarem os horrores dos campos de prisioneiros e testes desumanos, todos se compadecem, na época, onde o normal era não ter nenhum poder, isso não era visto com grande horror pela maioria.
Em parte, essa falta de empatia era fruto do medo do desconhecido, em outra, pela ideia de que essas pessoas não eram humanos, mas uma classe diferente, aos quais os direitos eram anulados. Foi uma luta árdua para que isso fosse mudado, com muitos sacrifícios pelo caminho. Até que um dia a balança pendeu para o outro lado e tudo mudou.
Onde antes havia os crimes contra pessoas com quirk, hoje em dia os 20% da população que não nascem com um desses poderes é que sofrem o golpe: crimes de ódio, desaparecimentos, menores salários, desemprego e anulação de direitos. Nem sempre isso foi tão ruim assim; tudo piorou depois de um trabalho publicado de grande repercussão por um geneticista sobre o perigo genético do desaparecimento de quirk através da multiplicação das pessoas que não levam o gene da mutação. Mei havia lido esse trabalho e visto o gráfico de mortes que se seguiu. Nada foi o mesmo depois disso. Dr Hiruta não publicou mais nenhum trabalho depois desse, mas o estrago já havia sido feito.
O fato é, Izuku nasceu quando a situação já havia tomado um rumo para pior, onde já haviam começado a realizar testes durante a gravidez para se descobrir se sua criança possuía ou não o gene para o surgimento de uma quirk e a possibilidade de terminar uma gravidez por sua ausência começava a ser debatida.
Onde o simples fato de ser aceito por sua família é considerado privilégio e sorte, mesmo sabendo que será vocês contra o resto. Onde as pessoas que te aceitam podem sofrer a repercussão por você.
— Está em toda parte. — Shinsou apertou o telefone, os olhos grudados na tela. — Estão pedindo para ele ser tirado do torneio.
— Eles não podem fazer isso!
Mei ignorou os outros colegas que começaram a discutir. Pela expressão de alguns alunos da classe de heróis, alguns deles também estavam lendo as notícias do festival.
Izuku sabia que isso podia acontecer, ele a havia alertado que as coisas ficariam feias quando percebessem que ele não tinha uma quirk. Ela só esperou que isso acontecesse pelo menos depois do primeiro combate, e não antes.
— Você acha que ele já viu?
Era improvável. Mei estava com o telefone dele no bolso. Mas logo isso não faria diferença, ela conseguia ouvir o burburinho na arquibancada.
— Ele vai precisar de apoio para isso. — Uma das gêmeas puxou um computador da bolsa e o abriu sem cerimônias. Era a gêmea calma, mas a expressão dela não parecia calma. — Quem não for lutar, venham aqui.
— As coisas vão ficar feias. — Shinsou fechou o celular, mas não sem antes ela conseguir ver os comentários na postagem. Não eram nada bons. — Talvez o diretor acabe cedendo.
Alguns alunos começaram a sair da arquibancada, mas Mei sabia que não chegariam até Izuku a tempo. A luta já ia começar. Só o que restava era o daqui para frente.
— O diretor gosta do caos. — Começou a trabalhar no celular, aquilo ia ser um embate bem mais interessante do que poderia fazer em qualquer arena. — Izuku vai ficar bem.
Porque ao contrário do que ele acreditava, não estava sozinho, dessa vez ele tinha mais do que sua mãe contra o mundo.
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Nunca havia sido a intenção de Denki que as coisas escalassem daquela forma. Para alguém que era julgado constantemente por algo fora do seu controle, ele não havia percebido a hipocrisia da situação até bem depois, quando já era um pouco tarde demais.
Não era como se ele não gostasse de Izuku Midoriya, na verdade era bem o contrário disso. E daí vinha sua relutância.
— Eu não quero lutar com ele, não parece justo.
Sero deu uma batidinha em seu ombro enquanto caminhava para a sala de preparação. Seus amigos não pareciam entender seu conflito.
— Não esquenta a cabeça com isso, cara.
—E se eu machucar ele?
— Bem, é um combate. E pelo o que vi das provas até agora eu me preocuparia mais comigo mesmo.
Denki ignorou o tom de brincadeira do amigo. Ele não podia entender, nenhum deles poderia. Levavam sua quirk como uma brincadeira, porque Denki parecia um idiota a usando. Só ele sabia o quanto podia ser perigoso, ainda mais em alguém que não pudesse revidar.
— Sero, ele não tem uma quirk, e se eu-
— Ele não tem? — Uma nova voz os interrompeu e os dois alunos olharam aturdidos para a mulher desconhecida na parede do túnel do estágio. Denki não notou o crachá nela, mas Sero sim. — Vocês estão dizendo que aquele garoto não tem uma quirk?
— Ei, senhora, não deveria estar aqui. É só para quem tem permissão. — Sero apontou para a identificação dela. — O pessoal do jornal fica lá em cima.
A mulher ficou vermelha e riu.
— Ah sim, só me perdi no caminho do banheiro. Mas então, o garoto, Izuku Midoriya, não é isso? Ele não tem uma quirk? Isso é permitido? Em U.A?
Denki sabia que havia algo de errado. Nem mesmo ele perdeu o tom de reprovação ali, ou o olhar de quem havia descoberto algo grande. De repente, ele teve a sensação de ter feito algo errado. Ele não sabia que era um segredo. Todo mundo que ele conhecia parecia saber.
Sero pegou seu braço e o empurrou para o corredor com um tapinha de boa sorte. Conseguia ouvir ele falando com a mulher sobre ir chamar alguém para a levar para seu lugar. Seus passos se tornaram pesados enquanto ia para a sala de preparo e quase deu meia volta quando se deparou com Midoriya já lá dentro, mexendo em algo no próprio braço, a expressão distante. Ele ficou um longo tempo ali, parado, o encarando sem entrar. Minutos inteiros.
Denki lembrou de algo quando era criança, em uma das muitas idas ao hospital. Ele lembrava de sua mãe comentar como seria bem melhor se ele não tivesse uma quirk do que ter algo como tinha. A expressão de seu pai se retorceu como se ela tivesse dito algo absurdo, lhe desejado uma doença muito pior.
"A vida dele seria bem mais difícil, talvez seja melhor assim. Sem quirk ele sobreviveria bem menos nesse mundo. Seria devorado vivo."
Midoriya se virou e sorriu em sua direção e Denki sentiu vergonha.
— Me desculpe.
O outro garoto piscou, confuso, esperando uma explicação.
Não deu tempo de falar mais nada, e ele nem sabia o que diria, pois já estavam sendo chamados.
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— E VAMOS PARA O PRIMEIRO COMBATE DE HOJE! DA CLASSE DE HERÓIS A, TEMOS O ELÉTRICO DENKI KAMINARI!
Aizawa notou que havia algo de estranho na arquibancada, ele só não sabia o que era. Talvez fosse apenas o início dos combates, mas a ala de jornalistas parecia ter acordado, agitada. Não parecia excitamento pela batalha, no entanto, se a forma como alguns deles pareciam grudados nas câmeras diziam alguma coisa. Eles nem mesmo estavam olhando para o estágio.
— E A SURPRESA DO DIA! DO DEPARTAMENTO DE SUPORTE, O NOSSO PEQUENO HEFESTO! IZUKU MIDORIYA! OU SHIMIZU! Eu nem sei mais qual é o sobrenome dessa criança.
Aizawa tinha um mal sentimento sobre isso, algo naquela situação não parecia bem.
Seus olhos desceram para a imagem da câmera e viu seu estudante. Só pela expressão dele se perguntou o que ele tinha aprontado. Kaminari sempre era pego no que fazia por não conseguir remover aquela expressão de culpa da cara, como um cachorro que fazia algo errado.
Os dois garotos começaram a conversar na arena. Aizawa não conseguia os ouvir dali, mas percebeu o momento em que o rosto de Izuku se acendeu em compreensão, o rosto virando em direção a arquibancada, o corpo completamente tenso.
A câmera capturou seu rosto no telão, e nesse momento as pessoas na arquibancada começaram a gritar e exigir que cancelassem a luta.
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A teoria dos multiversos implica que tudo o que poderia acontecer vai acontecer; cada decisão que tomamos nos leva a um novo caminho, como os galhos de uma árvore se ramificando. Isso significa que há infinitas versões de nós mesmos, separadas por decisões diferentes, por mais insignificantes que pareçam.
Existem, claro, aqueles momentos decisivos que mudam o rumo por completo, que desviam esse galho em uma distância maior do que os outros.
Nascer ou não com uma quirk, Izuku sabia, não era uma decisão sua, mas de vez em quando ele pensava se existia alguma versão sua, em algum universo, que não teve sua vida definida pela presença de um osso miserável em seu pé.
Se existia algum Izuku que entrou naquela arena em que estava naquele momento, sem ter que ouvir o que aquelas pessoas gritavam da arquibancada, sem ninguém tentar o convencer que não deveria estar ali, que não merecia estar ali, que aquele não era o seu lugar.
Era algo comum, que não o surpreendia, e isso era o mais triste. Como algum fator tão esperado que estivesse segurando a respiração todo esse tempo, apenas esperando acontecer. Inevitável.
(Ele lembrava bem de como se sentia assim quando criança sempre que passava pela porta de casa. Ele nunca era bem vindo em nenhum lugar e sair de casa era como entrar em um campo de batalha. Ele seria apenas uma casualidade se não tivesse aprendido a revidar.)
— Previsível.
— Eu sinto muito mesmo, não foi minha intenção-
Balançou a cabeça e o outro se calou. Izuku não culpava Kaminari. Ele não seria o primeiro nem o último a o subestimar, e isso geralmente trabalhava em seu favor.
— Não é como se fosse um segredo. — Olhou para a heroína Midnight, que estava falando no comunicador com alguém, a expressão tensa. Provavelmente o diretor. Izuku conhecia o bastante dele para saber que a comissão poderia descer até ali naquele momento, e nem assim ele pararia aquela luta. Izuku se certificou de o manter o interessado para aquele momento. — Eu não tenho vergonha de quem eu sou. Eu quero que as pessoas vejam.
— Mas a desvantagem-
Izuku se posicionou em uma distância que julgava adequada, erguendo sua mão para medir do quanto precisava, chegou o esvaziamento de energia e assentiu.
—Se você quer se desculpar, vai me atingir com tudo.
O garoto arregalou os olhos e fitou a arquibancada. Midnight deu um sinal de positivo, um sorriso no rosto, tenso demais com a situação.
— Podem começar!
— Mas eu não-
— Você está me ofendendo, Kaminari. — Izuku estalou o pescoço, sua voz perdendo o calor de momentos atrás. As pessoas continuavam reclamando. Ele sabia que só iria piorar. — Está com medo de me machucar ou medo da sua quirk?
O outro se moveu como se tivesse sido atingido. Izuku não se sentia orgulhoso dos próximos momentos, mas cada um trabalhava com o que tinha.
— Se continuar assim, não vai conseguir realizar seu sonho de ser um herói. Vai ter pena dos vilões, também?
— Você não é um vilão! — Conseguia ver a eletricidade saindo do outro. Ele estava perdendo o controle das emoções. — Você não é-
— Eu estou no seu caminho. Não quer provar para sua família que pode ser mais do que eles acreditaram? Me ataque, Kaminari.
— Não-
— Agora!
— Não!
— Vai desistir então? Fácil assim? Não quer provar aos outros que não é um idiota que eles pensam? Eu me enganei com você?
Izuku se sentiria mais culpado se não soubesse que ele passaria bem pior lá fora. Esses garotos tinham que trabalhar nisso.
— Eu não-
— Se vai ser assim, é melhor deitar e rola a barriga! Me ataque!
E ele finalmente atacou.
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— Puta merda! Ele não vai sair do caminho??
Shinsou também queria saber. Ele não sabia exatamente o que Izuku estava planejando, mas pela cara de Kaminari, seu colega havia caído em um jogo psicológico dele. Ele tinha certeza que com a relutância de Kaminari Izuku teria terminado já aquela luta, mas ele parecia estar querendo dar ao outro uma chance de mostrar sua quirk. Talvez.
Quando a descarga atingiu Izuku ele pensou que algo havia dado errado, mas também ficou surpreso por Kaminari não cair como fazia quando usava seu poder. Parecia que o outro garoto andava trabalhando sua quirk.
A eletricidade parou e Izuku ainda estava de pé.
— Mas que diabos-
O corpo dele estava brilhando.
Um silêncio absoluto de fez na arena, até dos jornalistas. Izuku ergueu a mão em direção a Kaminari e um jato vermelho saiu da sua luz, atingindo o outro garoto em cheio e o jogando para fora da arena.
— Hum. — Midnight falou devagar, olhando de um para o outro. — Isso foi rápido. Izuku Midoriya é o vencedor do primeiro round!
— O que ele fez? — Perguntou intrigado, vendo Izuku ir até o outro garoto caído e o erguer, dando uma batidinha em seu ombro, Kaminari parecia desorientado, mas consciente. E muito vermelho. — Em menos de dois minutos.
— Ele deixou a eletricidade do outro garoto carregar a bateria da armadura e então usou contra ele. — Mei deu de ombros.
— Ele usou Kaminari como um carregador de celular?
— Não é diferente do que todo mundo já faz. — Jirou se meteu.
Ela estava rindo tanto que havia caído da cadeira.
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— Isso foi anticlimático para a primeira luta, mas enfim. PARTICIPANTES, LIMPAR A ARENA. OS PRÓXIMOS SIGAM PARA A SALA DE PREPARO. A próxima provavelmente vai ser mais destrutiva.
Hizashi desligou o microfone, a expressão se tornando mais séria.
— O que Nedzu falou? E a imprensa?
— Não pode ser retirada.
O outro homem fez uma careta: — As coisas vão escalar. Acha que ele vai ceder?
—Não. O problema é se a comissão se meter, mas não vejo o porquê fariam isso. Não é como se fosse uma provocação e não é proibido, só inesperado.
O pior é que não era nem preocupação por Midoriya, mas por serem idiotas. O garoto havia terminado a luta rápido provavelmente para provar isso, aceitado um golpe e se mostrado ileso. Se fosse preocupação acabaria aí.
Então lógico que não acabaria.
Agora ele entendia a razão de ele ter olhado para a câmera daquela forma da cerimônia. Não era uma simples declaração.
Izuku Midoriya entrou ali se preparando para começar uma guerra.
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Era irônico, se não triste, como a história se repetia. Todos somos galhos de uma árvore, partindo de um mesmo tronco.
Anos e anos atrás, um garoto se rebelou contra o sistema que negava sua humanidade, juntou pessoas e manipulou massas, organizou batalhas e sacrificou pessoas, até as que amava, para achar seu lugar no mundo.
Ele nunca foi totalmente aceito, mesmo quando quirks foram, porque sempre haveria aquelas que não seriam, e porque ao tentar ter sua humanidade aceita, ele se tornou um monstro: All for One
Agora, anos depois, do outro lado do espectro estava um outro garoto, se rebelando contra o sistema, juntando pessoas, organizando uma batalha para ter sua humanidade aceita, para declarar o seu direito de estar ali. Que pessoas ele sacrificaria? O que o impediria de também se tornar um monstro?
Mais um galho da árvore.
O homem sorriu, o rosto retorcido por tecido e cicatriz, por dentro e por fora.
— Tal avô, tal neto.
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