A teoria do caos

24 Capítulo XXIV - O inverno está aqui


"É o nome de família que perdura. É tudo o que permanece. Não é sua glória pessoal, não é a sua honra... mas a família."

— Game of Thrones

Nos dias que se seguiram, Eraserhead não levantou mais a questão sobre a sua situação familiar, mas Izuku agora percebia como ele o observava. Em perspectiva, se dava conta de como ele poderia ter chegado àquela conclusão. Não seria a primeira vez que alguém desconfiava sobre seu tio durante os últimos anos, mas eles nunca ficavam muito tempo em um mesmo lugar para isso realmente se tornar um problema e as pessoas nunca se importavam por muito tempo com Izuku.

Uma parte sua se sentia insultado em benefício de Takashi, mas havia outra parte, um sentimento que não conseguia identificar bem, ao perceber no quanto o herói parecia se importar com ele. Izuku não estava acostumado com isso, com adultos além da família e próximos da família se importando tanto. Professores com certeza nunca se importaram, e Eraserhead não era nem mesmo seu professor, apenas professor da escola. Mesmo ele sendo um herói, Izuku já havia perdido a ilusão sobre os heróis serem infalíveis já há algum tempo.

Ele havia ponderado por muito tempo sobre o que fazer sobre a situação e uma parte sua queria a ignorar até fosse embora.

— Ele apenas vai continuar investigando se não falar nada.

Hitoshi comentou enquanto observavam o herói separar o equipamento para mais uma sessão.

— Não por muito tempo.

— Por que diz isso?

Ele o olhou de forma estranha, ajustando as bandagens um dos outro.

Izuku deu de ombros.

— Ninguém investiga por muito tempo com gente como eu.

Quando Izuku foi morar com Takashi tinha 70% de certeza que ele iria o matar durante o sono, ainda assim ninguém olhou duas vezes quando foi com ele. Claro que não podia usar esse argumento sem piorar a situação.

Hitoshi parou e o olhou com uma expressão mais estranha ainda. Izuku suspirou, apertando as bandagens no pulso dele.

— Não me olhe assim, Hichan.

— Assim como?

A voz dele saiu suave. Nessas horas, Hitoshi lembrava mais da mãe dele do que do pai, por mais que tenha passado pouco tempo com ela.

— Eu não tenho vergonha de não ter uma quirk.

Isso não queria dizer que ele não continuasse odiando como era tratado às vezes por isso.

— Eu não pensei nisso.

Avaliou o outro e viu sinceridade. Izuku se sentiu mal por seu tom rude.

— Desculpe.

O outro balançou a cabeça, mas segurou seu pulso quando se moveu ao terminar. Os dois se olharam e Izuku percebeu curioso a expressão dele ficar resoluta. Hitoshi, assim como Shoto, parecia ter bastante dificuldade em lidar com pessoas, muitas vezes se passando por rude por isso.

O ver fazer tanto esforço no momento o fez pausar, atento ao que ele diria.

— Eu...eu não sei de certeza o que está acontecendo, sobre seu tio. Quando você fala o nome dele, seu rosto... Eu sei que é algo que não é bom. E você é bem paranóico para contar qualquer coisa.

Abriu a boca para negar, mas a fechou imediatamente. Tinha que admitir a verdade, mas ele tinha muitas razões para ser paranoico.

— Mas acho que deveria conversar com ele. Aizawa-sensei, digo. Ele não é como...essas outras pessoas, Izuku. Não sei se percebeu, mas ele se importa. Um monte de gente se importa. Você...você não está sozinho para resolver tudo, como acha que está.

Izuku não sabia o que falar. Isso contradizia muita coisa sobre a sua situação até aquele momento.

E ainda assim, Hitoshi parecia tão certo sobre isso.

Quando Eraserhead os chamou se sentiu aliviado pela interrupção.

"Você não está sozinho para resolver tudo, como acha que está."

E ainda assim, sempre que ele pediu por ajuda ninguém veio.

Até que ele resolveu que não poderia esperar por ninguém mais.

Esperar por ajuda só causava desapontamento.

........................................................................

Shoto não confiava em adultos. Era um princípio que estava lá, apenas mais um fato sobre sua existência. Nem sempre havia sido assim, mas depois de ter tentado algumas vezes falar sobre a sua situação em casa com algumas pessoas e ser ignorado porque, quem acreditaria que o herói Endeavor seria um pedaço de merda, não é verdade? Shoto havia aprendido a sua lição.

Ele havia aceitado sua situação, abraçando o pedaço de rebeldia que podia e sobrevivido com isso, na certeza que em algum momento ele poderia sair pela porta, eventualmente. Preferencialmente vivo, diferente de Touya, o irmão que mal lembrava.

Então, Shoto não confiava em adultos. Ele não tinha muita certeza no que essa situação atual iria acabar, mas boa parte sua acreditava que no de sempre: em nada. Ele apenas ficava feliz por alguém ao menos acreditar nele. Sua intenção nem mesmo havia sido a de chamar atenção para o problema.

— Eu tenho quase tudo que precisamos.

E ainda assim, o foco havia sido direcionado completamente para ele.

Shoto avaliou Izuku com o usual sentimento de confusão. Sentados nas mesas do gramado, longe da cafeteria lotada, percebia que ele parecia ainda mais cansado que o usual. Havia uma mancha de graxa em sua bochecha, o cabelo mesmo amarrado parecia desalinhado e em cima dos olhos. Shoto se perguntava quando havia sido a última vez em que ele havia ao menos dormido.

Ele sabia que os dois nem mesmo tinham o mesmo horário de almoço, e ainda assim Izuku estava o esperando na entrada do refeitório, com soba frio e mais café do que o permitido.

— Como conseguiu tudo isso?

Olhou de relance as informações que o outro organizava no computador. Shoto teria se sentido invadido, se não tivesse dado permissão para ele fazer o que achava necessário. Ele só não conseguia entender como ele havia organizado tudo em tão pouco tempo.

Provavelmente isso explicava o cansaço.

— Não é difícil escavar coisa dele, sabe? As pessoas é que são cegas quando se trata de um herói famoso.

Shoto sabia disso.

—Eles só acreditam no que querem acreditar.

E por isso Shoto sabia o quanto isso tudo poderia ser em vão. Ele não queria que essa decisão prejudicasse sua mãe ou seus irmãos. Naquele cabo de guerra, na cabeça de Shoto, Endeavor tinha mais força do que eles. Talvez isso estivesse escrito em sua testa, porque Izuku parou e olhou, a expressão muito séria.

—Eu tenho um plano, Shouchan. Acredite em mim, não vou piorar a situação de vocês.

Por algum motivo que nem mesmo conseguia discernir, ele confiava em Izuku.

— Vou acatar o que pediu, apesar de saber que ele não merece.

Shoto piscou, vendo a tensão no outro. Percebendo o sentimento que havia visto no dia anterior nele. Era estranho ver outra pessoa, alguém de fora da família, ter tanto sentimento por sua situação.

—Não é por ele.

Izuku assentiu, fechando o computador. Shoto continuou o olhando, ainda mistificado com toda a situação. Talvez se o fitasse o suficiente entenderia o que estava se passando na cabeça dele.

— O quê?

Balançou a cabeça, não chegando à conclusão alguma.

— Só não entendo. Por que está fazendo tudo isso?

Observou o outro abrir a boca, então a fechar, a expressão pensativa. Era uma pergunta simples, não era?

Izuku tocou a própria cicatriz suavemente e Shoto estreitou os olhos, atento. Assim de perto conseguia ver melhor as nuances da marca. A cor escurecida, o tecido repuxado, as falhas na sobrancelha. Não era uma queimadura como a sua, tinha certeza. Shoto sentiu uma estranha urgência de tocar nela, mas sabia por experiência própria como isso podia ser uma má ideia.

— Eu acho — A voz do outra era suave, quebrando sua concentração. — Que deveria dizer que é porque quero ser um herói.

— Mas não seria a verdade?

Questionou ainda mais curioso.

—Não totalmente.

Izuku o olhou, as sobrancelhas franzidas. Procurando algo em Shoto que o deixou ainda mais confuso. Seja o que for que ele estivesse procurando, ele pareceu encontrar. Talvez o entendimento, como Shoto geralmente encontrava nele. Uma identificação, que era o motivo para confiar tanto em alguém de quem não sabia quase nada.

— A pessoa que fez essa cicatriz em mim, era alguém que eu queria muita salvar.

Shoto puxou o ar, sentindo um aperto no peito. E isso não era familiar?

—Eu claro que falhei de forma miserável. Eu acho que é um padrão, sabe? Até hoje eu falhei, de alguma forma, todo mundo próximo de mim que já tentei salvar. Muitos deles morreram. Não muito heroico da minha parte, hn?

O tom dele era tão auto-depreciativo que Shoto não segurou mais a necessidade de o alcançar, mas ao invés de tocar a marca, se viu segurando o pulso do outro e removendo a mão dele de perto do rosto. O sentiu tencionar, e então relaxar minimamente, olhando a mão dos dois de forma curiosa, mas receptiva.

— Eu tento ajudar outras pessoas, eu acho que ajudei algumas até, mas as mais próximas de mim eu acabo sempre falhando. Eu...eu não quero falhar com você.

Shoto absorveu isso, sua mão ainda circulando o pulso dele. Quando ele falou, foi pausadamente, quase de forma incerta.

— Isso quer dizer que sou uma pessoa próxima de você?

Izuku franziu a testa e o olhou como se fosse obtuso.

— Claro que é, somos amigos Shouchan.

Amigos.

Shoto não veio para U.A para fazer amigos. Ele quase abriu a boca para falar justo isso, mas acabou apenas olhando para Izuku de forma perdida. O outro suspirou e o olhou suavemente, a expressão mais leve do que segundos atrás.

— A gente se parece bastante, hn? Isso não é um elogio. Não é muito saudável ser parecido comigo.

Shoto não podia refutar isso. Izuku, pelo pouco que havia percebido, era uma bagunça. E um tanto hipócrita, porque por mais que estivesse fazendo tudo isso para ajudar Shoto, ele ainda não parecia inclinado a ser ajudado. Aquilo havia sido o máximo que já havia ouvido ele falar sobre algum problema, de entender porque quando olhava para o outro garoto tinha a sensação de ver alguém que havia ido ao inferno e voltado. Ele já havia visto esse tipo de olhar antes, na sua mãe antes de quebrar totalmente.

Era o olhar de alguém que precisava de ajuda. Que precisava ser salvo.

Shoto percebeu ali, em uma epifania, a principal razão de ter deixado Izuku se meter em seus problemas daquela forma: Ele teria que deixar ser ajudado, para conseguir ajudar Izuku.

E Shoto nunca quis tanto ajudar alguém desde a sua mãe.

"Você me salva, eu te salvo de volta."

Não mudava o fato de não saber como responder a tudo aquilo.

—Eu...Quer um pouco do meu soba?

Izuku piscou lentamente, então deu um sorriso terrivelmente divertido que fez Shoto se sentir ainda mais estranho.

—DEKU!

Sentiu seu corpo tensionar com a voz irritada, até ver Bakugou marchando na direção dos dois, parecendo ainda mais furioso do que de costume.

E quase irreconhecível, com a pele e os cabelos verdes assim.

Ouviu Izuku soltar um som estranho ao seu lado.

— Eu não fiz nada!

Shoto percebeu que ele estava tentando não rir, o que não tornava a defesa muito confiável.

—EU VOU TE MATAR!

— Eu juro que não fiz nada!

Shoto não tinha ideia do que estava acontecendo, mas ainda assim fez uma barreira de gelo rapidamente no meio do caminho do búfalo raivoso que vinha até eles.

Quase ficou impressionado quando ele a derrubou sem nem pausar.

E foi quando percebeu que havia alguma coisa flutuando ao redor de Bakugou. Pareciam borboletas, mas quando ele se aproximou finalmente notou que eram origamis.

Origamis que de alguma forma estavam se movendo. E cantando.

Alouette, gentille alouette

Alouette, je te plumerai

Je te plumerai la tête

Je te plumerai la tête

Et la tête! Et la tête!

Alouette, Alouette!

Oh, oh, oh, oh

— Hum?

— Meu Deus. O que diabos eles fizeram?

Izuku murmurou, parecendo estarrecido, mas também terrivelmente animado para alguém que estava prestes a ter Bakugou em cima deles.

Bakugou os alcançou ao mesmo tempo em que Izuku saltou do caminho, arrastando Shoto com ele pelo pulso que ainda segurava.

— BAKUGOU, ESPERA!

Kirishima, Uraraka e mais alguns alunos da sala deles estavam correndo em direção a eles, alguns ficando para trás, ocupados demais caindo de rir no gramado.

Shinsou estava suspeitosamente ausente.

Izuku correu, ainda gritando que não havia feito nada, arrastando Shoto na fuga.

— GREMLIN.

— NÃO SOU EU QUE ESTOU VERDE, GRINCH!

—Ele chamou ele de Grinch! Chamou de Grinch!

— Oh! Corre Deku! Corre!

— Verde fica bem em você, Bakugou!

— Kaminari, você vai morrer assim.

— Todoroki vai congelar o gramado inteiro!

— De onde ele tirou esse extintor de incêndio?!

— Parem com isso!

Alouette, gentille alouette

Alouette, je te plumerai

Shoto se perguntava se essa era sua vida daqui para frente ao aceitar ser amigo daquela criatura.

.......................................................................

Sekijiro piscou aturdido, ao entrar na sala dos professores e encontrar caos. Yamada e Kayama estavam em meio a um ataque de riso no chão, Aizawa parecia furioso e Maijima terrivelmente cansado.

—O que aconteceu?

Yamada tossiu, a voz saiu esganiçada.

— A sala do Maijima atacou uma das crianças do Shouta e...e... Oh my god.

—Atacou!?

—Não realmente! Foi só uma brincadeira! Um mal entendido!

Maijima defendeu.

— Eu não estou rindo. Não foi você que teve que parar Bakugou de cometer um crime. E depois ainda tive que ouvir todo o drama adolescente.

Aizawa parecia miserável. Kayama que havia começado a se controlar voltou a rir, caindo no chão de forma nada digna.

—Até Nedzu riu, Shouta. Tem que admitir que o uso das quirks deles em conjunto foi genial. Os origamis cantando!

Aizawa suspirou, passando a mão nos olhos e murmurando algo como "nunca vou tirar a música da cabeça."

— Pelo menos Bakugou não está mais tentando matar ninguém.

Sekijiro, nessas horas, agradecia que o único problema da sua sala era Monoma.

..................................................................

Shinsou ficou um pouco decepcionado quando Aya cancelou a quirk dela.

Bakugou havia ficado bem de verde.

— Eu considero isso um sucesso!

Hiro bateu palmas. Tako o olhou de forma nada impressionada.

— A nossa sala inteira ganhou detenção, Hiro. Só Deku escapou, porque provou inocência.

— Como disse, sucesso!

....................................

Família sempre havia sido um ponto fraco para Izuku, algo regado com sentimentos contraditórios. Havia um instinto, um chamado em seu sangue, que o fazia querer buscar o sentimento de família a todo custo.

Em perspectiva, ele imaginava se era isso que havia o ligado à Shigakari de forma tão imediata: a busca por essa familiaridade quase dolorosa.

Hoje, mesmo com toda a fúria que vinha ao pensar nele, ainda tinha esse sentimento entrelaçado. Foi essa necessidade também que o levou a fuçar e encontrar o destino do filho de Takashi, mesmo contra as ordens dele sobre o assunto. Ele sabia que seu tio nunca havia confiado totalmente nele depois disso.

Seu pai, de acordo com ele, havia sido assim também. Foi essa necessidade que havia o ligado a sua mãe e seu tio de forma imediata e incondicional. Izuku sabia que havia acontecido algo entre eles, algo que havia quebrado quase totalmente esse laço entre seu tio e seu pai, mas ainda assim o laço ainda estava lá. Mesmo antes de Izuku, para Hisashi eles eram família. Família, ele aprendeu com seu pai, era algo que não começava e acabava com sangue.

Da sua mãe Izuku aprendeu que família se mantinha unida, não importasse o que acontecesse. Juntos, eles dois aguentaram cada turbulência. Ela nunca o abandonou, por mais que isso tornasse a vida dela mais fácil. Inko Midoriya seguraria o céu nas costas por sua família.

No fim, ela tentou segurar um prédio pelo filho.

Enquanto o amor de Inko vinha da necessidade de nunca abandonar, foi por amor ao filho que Takashi o deixou ir embora. Era curioso como a quirk dos dois se refletia nisso, nesse oposto. Inko sempre puxava as pessoas que amava para si, Takashi sempre as repelia de forma proposital na tentativa de as proteger.

Izuku sempre teria um pouco de todos eles.

Família era importante.

Família também era doloroso.

Dentro de uma cela, ele se viu rodeado de pessoas que foram abandonados pela família, antes mesmo da sociedade as abandonar. Crianças que foram machucadas, abusadas de todas as formas por pessoas que deviam as proteger acima de tudo. Izuku, que havia crescido com a proteção incondicional da sua mãe, havia caído em um mundo paralelo. Um universo de seus piores pesadelos, que o fazia se sentir culpado por ter sorte.

De uma forma ou outra, família causava dor. Sua mãe, quebrada e silenciosa numa cama. Seu tio, preso dentro daquele corpo em sofrimento. Seu pai, morto e esquecido em uma terra estrangeira, sem ninguém para o enterrar. Shigakari.

Era uma dor conhecida.

Uma dor que ele via nos olhos de Rei Todoroki. Onde Shoto havia aprendido a se fechar para o mundo, a dor dela era visceral, aberta.

— Você veio de novo.

Um breve sorriso, gentil e suave. Ela parecia surpresa, mesmo quando havia a visitado três vezes.

— Eu disse que viria!

Ela era uma mulher peculiar. Mais cautelosa do que havia imaginado. Havia algo nos olhos dela que lhe davam a certeza que ela não estava tão quebrada como muitos acreditavam.

Izuku saltou do parapeito da janela, verificando novamente o congelamento das câmeras com Mei antes de remover a máscara novamente. Era um risco, o que estava fazendo. Um risco que não se arrependia de correr.

Ele precisava de uma decisão dela para ter certeza que aquilo daria certo.

Sentou na poltrona ao lado da cama, os olhos muito parecidos com o de Shoto observando cada movimento seu. Ela parecia pensativa.

— Seu cabelo é tão comprido, não tinha reparado. Ele atrapalha?

De todas as coisas que pensava que ela diria, não esperava por isso.

— Hun?

Ela deu uma risada suave, então estendeu a mão de forma hesitante.

— Eu costumo fazer o da Fuyumi, se quiser posso ajudar.

— Hun. Okay.

...........................................................................

— Não que me incomode de voar solo, mas Nora tinha que sumir logo hoje?

A risada de Hatsume em seu ouvido o fez revirar os olhos. Sádica.

Colocou as mãos nas costelas, onde havia recebido um bom golpe de um vilão. Logo antes de ser perseguido por 6 quarteirões por ninguém menos que Eraserhead. Seu sensei nem mesmo deveria estar em Hosu, não era a área dele.

Shinsou sentia que só havia escapado porque ele havia permitido, o que provava o que Izuku havia dito. Aizawa-sensei realmente tinha um fraco por vigilantes.

"— Nora está resolvendo outros problemas."

Shinsou grunhiu. Esses dois e seus segredos.

Estava na hora de fechar a patrulha de qualquer forma.

Muita emoção para uma noite só.

Na rua, um grupo de pessoas apontou na sua direção.

— Olha! É o Bakaneko!

— Eu odeio vocês dois, sabia?

Hatsume apenas continuou rindo.

Maldita.

........................................

Rei sentiu seu lábio curvar em um pequeno sorriso quando notou como o garoto havia ficado sonolento. Shoto costumava fazer o mesmo quando mexia no cabelo dele.

Abafou a tristeza, se ocupando em juntar a última trança com um grampo, puxando a massa de cabelos verdes gentilmente para o topo. Seus olhos focaram na orelha dele, agora exposta. Conseguia perceber que parte dela era apenas tecido destruído.

Fechou os olhos quando sua visão mudou e viu cabelos brancos e vermelhos em sua mão por alguns segundos.

— Eu tentei aliviar a dor dele, quando voltei a realidade.

O garoto se empertigou onde estava sentado na cadeira, olhos verdes a fitando por baixo dos fios. Não havia qualquer julgamento ali, por isso apenas continuou.

—Com minha quirk. Eu estava tão desesperada...Os gritos dele...

Era o que a perseguia mais durante a noite. Se sobrepondo aos de Touya constantemente.

— Depois, bem depois eu pensei, quando Fuyumi comentou sobre a cicatriz, como seria possível?

Aquele homem, ele havia dito várias vezes como Shoto era imune ao fogo, naquela lado. Diferente do pobre Touya.

Rei sentiu sua visão turvar com lágrimas, mas continuou.

—Não é uma cicatriz de fogo, é?

Ela perguntou, suavemente. A expressão do outro garoto lhe deu a certeza que ele sabia exatamente do que ela falava, o que ela queria saber. Algo que vinha a corroendo por anos. Todos os anos em que não havia visto Shoto.

— Por favor, pode me dizer?

O sentiu hesitar, então balançar a cabeça.

Rei assentiu, em entendimento.

Uma queimadura de gelo era bem diferente de uma queimadura por fogo. Shoto não teria uma cicatriz por fogo naquele lado, onde era imune. Rei lembrava, de formar gelo de forma desesperada, tentando aliviar a dor dele. E no processo, havia piorando a situação. Não havia sido a água quente que havia desfigurado o rosto do seu filho, mas o gelo dela.

— Ele não culpa você.

A voz interrompeu seu tormento, olhos verdes a fitando de forma sincera.

— Shoto, não culpa você.

— Ele deveria.

Se Rei não fosse tão fraca.

— Ele é uma pessoa muito bondosa. Como você.

Rei sentiu sua visão turva, as mãos parando de se mover para limpar o rosto.

—Fuyumi, como Fuyumi.

Porque Fuyumi é que havia criado Shoto. Fuyumi, que também era só uma criança. Fuyumi carregando o peso do mundo nas costas. Shoto era como Fuyumi, não como Rei. Rei estava fora da vida dele há muito tempo.

Sentiu uma mão na sua. Ele havia se virado na cadeira, a olhando com tanto entendimento. E Rei queria tanto acreditar.

Sua hesitação sumiu, como fumaça. Ela apertou a mão dele, os olhos fitando a cicatriz. Como Shoto. Como Touya.

Rei não se sentia uma boa mãe, ou mesmo uma boa pessoa. Ela não achava que merecia ser olhada assim, ou o perdão do seu filho. Mas de uma coisa ela tinha certeza, ela faria qualquer coisa pelos filhos.

Com essa resolução, sem saber, Rei Todoroki lembrou Izuku de sua própria mãe naquele momento mais que tudo.

Inko Midoriya segurou um prédio por seu filho.

Rei Todoroki seguraria o mundo nas costas pelos seus.

.........................................................

Quando Izuku retornou, Mei e Hitoshi ainda estavam o esperando.

Mei acenou da cadeira, bebendo chá e observando algo nas câmeras. Ela não havia perguntado sobre suas visitas à Rei Todoroki, como sempre. Mei sempre esperava que falasse primeiro, que viesse até ela. Era surpreendente como com todas as diferenças, as irmãs Hatsume se pareciam tanto em algumas coisas.

Ela ergueu uma sobrancelha, o observando por alguns segundos a mais, antes de dar de ombros e voltar às câmeras.

Hitoshi estava com uma bandagem ao redor do torso, ainda na parte de baixo do uniforme enquanto se estufava de Udon. Catalogou mais alguns machucados, Izuku suspirou, imaginando como explicariam isso amanhã. A desculpa que os dois treinavam juntos depois da escola ainda estava servindo, mas só iria tão longe.

— Noite difícil?

O outro virou, com alguma tirada pronta, mas parou de forma abrupta, a expressão estranha.

— O quê?

— Seu cabelo.

— Oh.

Izuku sentiu seu rosto esquentar um pouco, se olhando no reflexo do vidro na parede. Era a primeira vez que tinha o cabelo trançado assim, mas havia gostado.

— Ficou ruim?

—Não!

Foi tão veemente que olhou Hitoshi surpreso. O outro coçou a cabeça, virando o rosto de volta para a comida, as orelhas vermelhas.

—Só fiquei surpreso. Isso....combina com você.

Izuku piscou lentamente, o rosto esquentando mais. Mei deu uma risada, sem olhar para os dois.

— Parem de flertar.

Hitoshi tossiu, se engasgando na comida.

Izuku escolheu ignorar isso, sentando para comer e ouvir o relatório da noite.

Quando os outros foram embora, desceu para o túnel para cuidar de Takashi, levando o computador.

Ainda havia muito que precisava fazer antes de ir dormir.

......................................................

Quando Aya chegou na sala, mais cedo que de costume, encontrou alguém já no laboratório.

—Bom dia, Deku.

O outro a olhou, de onde anotava algo na bancada e sorriu. Ele parecia cansado, mas isso não era novidade. A novidade era o penteado. O cabelo dele havia crescido bastante desde o primeiro dia de aula, mas havia notado que ele sempre o deixava preso de forma desleixada. Era comum alguns fios queimarem em alguma explosão com Hatsume. Era a primeira vez que o via tão organizado e notou como deixava as feições dele mais suaves. Ajudava que não havia nenhuma graxa ou fuligem nele ainda.

Com ele assim, trançando e fora do rosto, também era a primeira vez que via até onde a cicatriz dele ia com clareza.

Tentou não desviar os olhos, sorrindo gentilmente.

—Seu cabelo está muito bonito.

Ele sorriu mais em resposta e puxou a ponta da trança, olhando com curiosidade. Aya tentou não rir com a expressão dele. Nessas horas lembrava porque todos haviam ganhado detenção sem reclamar muito no dia anterior.

Era indubitável o ponto fraco de todos eles ser Deku.

Não era a toa que todos estavam treinando para o festival juntos, apesar de nenhum deles ter realmente interesse real nele, exceto por mostrar as invenções.

Claro que treinar sua quirk com alguém que realmente entendia o que fazer para ajudar era um bônus.

— Eu gostei também, mas não sei muito como fazer isso.

— Oh.

Ela assentiu, em entendimento. Pensou em perguntar quem havia feito então, mas se controlou. Deku era uma pessoa bem reservada para alguém que parecia tão amigável. Parando para pensar, ninguém além de Hatsume sabia muito sobre ele ou a família dele.

Maijima-sensei havia chamado Tako e ela dias atrás e pedido para ficar de olho nele, sem nenhuma explicação. Observar machucados e mudanças de comportamento.

Sempre que pensava nisso Aya sentia um gosto desagradável na boca, tentando ignorar as implicações disso.

— Se quiser, posso fazer seu cabelo.

— Sério!?

— Sim, é só pedir.

Apesar da bagunça que causava, ficar de olho em Deku não era nenhum sacrifício.

Naquele ponto ela já pensava em todos eles como família.

E família protegia uns aos outros, era o que havia aprendido.

— Bom dia, pessoas! Deku! Parecendo bem, hein? Acho que vou roubar você daqueles alunos da classe A, ser mais um do seu harém.

— Hiro!

Se ao menos eles não dessem tanto trabalho.

....................................................

O festival seria em 3 dias, quando o inverno veio de forma brutal. Não no sentido literal, mas tão selvagem quanto.

Naquela noite, várias coisas importante aconteceram. Algumas, inevitáveis, outras fruto de acontecimentos prévios, como uma grande bola de neve que se acumulou e desceu penhasco abaixo, destruindo e mudando tudo pelo caminho.

Para Izuku Midoriya, aconteceu após a patrulha, quando terminava o dossier, se preparando para colocar em prática um plano cuidadosamente preparado nas últimas semanas. Naquela noite, ele iria até Naomasa, com um pedido em mente, e algo como moeda de troca para que ele se motivasse mais ainda.

Não era como se esconder as informações que divulgaria servissem de alguma ajuda à longo prazo, mas sabia que teria que ser cuidadoso em como falaria elas.

Naquele ponto, curiosamente, ele não havia encontrado muito sobre Touya Todoroki. As informações não eram nada além do que Shoto havia lhe dito, sobre o acidente com a quirk, que havia sido forçada além do limite, até o corpo ceder completamente.

Izuku nem mesmo sabia porque havia insistido que havia mais, ele só queria ver se alguém do hospital havia notado alguma coisa, ele só queria ter esperança que pelo menos uma pessoa havia tentando ajudar Touya. Não havia sido a primeira vez que ele havia ido parar no hospital, a saúde frágil e uma quirk tão autodestrutiva.

Quando ele encontrou as denúncias, abafadas e ignoradas, ele conseguiu se sentir aliviado que pelo menos alguém, mesmo que não tivesse tido sucesso, havia tentado ajudar.

Foi quando ele buscou o nome de quem havia acusado que sentiu sua respiração presa pela surpresa: Dr Shinsou havia sido o médico que havia denunciado. Abaixo da assinatura dele, antes mesmo de ver o nome, havia outra que reconhecia bem.

Izuku soltou o ar devagar, lendo o relatório de denúncia com cuidado. Izuku devia ter quatro ou cinco anos na época, sua mãe não era uma enfermeira regular quando tinha essa idade, então devia ter sido um favor à Dr. Shinsou.

Minimizou a página da denúncia, lendo as outras, todas ignoradas.

Puxou a certidão de óbito e viu, ainda mais mistificado, que novamente ela havia sido assinada por Dr. Shinsou. Sua mãe novamente estava ali, como testemunha junto a outra enfermeira que não conhecia, mas que ao pesquisar descobriu que tinha uma quirk de cura, que era rara hoje em dia. Ao olhar o nome do hospital, viu que não era o de Musutafu, mas outro, e que Dr. Shinsou havia pedido demissão logo depois disso. Sua mãe, ele lembrava, havia largado totalmente a profissão por volta dessa data, até anos depois, quando retornou ao trabalho. Guardou o nome do dono do hospital, para pesquisar depois. Depois de tantas denúncias ignoradas pela junta do hospital, ele precisava investigar isso.

Izuku ficou algum tempo olhando a imagem de Touya Todoroki, intrigado.

Isso era um desenvolvimento ao qual não esperava e que teria que retornar mais tarde.

Havia muita coisa sobre sua mãe, ao que parecia, que não sabia ainda.

....................................................................

Para Naomasa, o inverno chegou quando Noraneko saltou no beco ao seu lado. O mesmo vigilante que havia esperado e temido encontrar nas últimas semanas, agora que tinha uma desconfiança de sua identidade, mas não possuía uma forma de comprovar isso.

Ele ponderou em algo direto, uma interrogação sem mais margens de enrolação, que era algo que Nora fazia tão bem. Porém, antes de abrir a boca, o outro o cortou e prendeu totalmente sua atenção, o deixando sem palavras.

— A criatura em USJ se chama Noumu.

Naomasa ficou alguns segundos, paralisado e estarrecido. Até se recuperar.

— A liga entrou em contato com você, então?

—Isso não importa agora.

Ah, a irritação usual.

— Lembra do desaparecimento das crianças sem quirk anos atrás?

Naomasa o puxou pelo ombro para mais dentro do beco, longe dos outros. Algo lhe dizia que aquilo seria muito importante. Nora nunca dava informações pessoalmente se não era, ainda mais sem nenhuma piada como de costume.

— Foi você, não foi? O dossier sobre o caso de anos atrás, eu notei como era similar.

Noraneko pausou, tenso, mas no fim ele assentiu.

O que provava algo: se Nora realmente era Izuku, ele tinha 12 anos quando fez aquele dossier. Com todas aquelas informações, que não deveria ter, se não tivesse intimamente envolvido com a situação.

— Você era uma delas, não era?

Noraneko virou o rosto em confusão e Naomasa apertou os punhos dentro do sobretudo, sentindo uma repentina vontade de fumar no momento.

—Uma das crianças que sumiram.

Uma pergunta direta como aquela, com sua quirk, não teria como mentir. Não responder, no entanto, era uma confirmação para Naomasa. Quando Noraneko falou, a voz era cuidadosa.

—Não era só às crianças, várias pessoas, com quirk, sem quirk, sumiram e ainda estão sumindo. E faz parte da mesma coisa. Experimentos. As crianças sem quirk eram algo a mais, um DNA limpo para se trabalhar, mas não foram as únicas.

Naomasa pensou em o desmascarar naquele momento, mas escolheu colher as informações. Era muito mais do que haviam conseguido sobre a liga em todas aquelas semanas.

—E esses...noumus? São elas?

Noraneko desviou a cabeça, e quando respondeu sua voz estava mais vazia.

— Não, elas estão todas mortas.

A resposta o pegou de surpresa e apertou ainda mais o punhos.

— Mas elas foram o começo. Eu disse no dossier, que Dra. Min Han Su tinha um projeto de causar mutações, mas não era esse o objetivo principal dela. Ela estava buscando um sócio.

— Dr Tsubasa.

— Dr Tsubasa era um degrau, o objetivo era maior. E os Noumus foram o produto final disso, o que a pesquisa dela ajudou a criar.

— Qual era o objetivo? Como sabe de tudo isso?

— Nas ruas, pessoas estão sumindo. Todos os dias. Mas mais que isso, os rumores estão crescendo. Algumas informações são difíceis de se conseguir, mas vasculhando se percebe que em comum há alguém que oferece quirks ou remove quirks.

Naomasa sentiu seu sangue gelar. Infelizmente ele sabia o que isso implicava.

— Como não está dizendo que é uma lenda, deve saber de quem eu estou falando.

— Ele está morto.

A resposta saiu ríspida. Toshinori havia matado esse monstro, anos atrás.

— Ele não está. Os Noumus são o produto dele, pessoas que ele captura, modifica e coloca quirks e mais quirks, até que eles não se tornam nada mais do que marionetes. Aquela criatura em USJ, era mais um vítima dele.

—Não pode ser.

Ele não estava mentindo. Naomasa queria que ele estivesse.

"Oh, Toshinori."

Noraneko se moveu ao seu lado, cruzando os braços e os apertando com força. Naomasa percebia agora que as mãos dele estavam trêmulas, apesar da voz estar tão controlada. Retornou ao que ele havia acabado de dizer.

"Aquela criatura em USJ, era mais um vítima dele."

Naomasa lembrou de como achou Midoriya quase defensivo sobre o monstro de USJ. Havia algo ali, tinha certeza. Faltava alguma peça para montar a figura, mas sabia que havia algo a mais sobre a situação.

— Shigakari o chama de Sensei.

Naomasa retornou a conversa com isso.

— Shigakari? Então eles são bem familiares um com o outro?

Noraneko pareceu hesitar. O suficiente para estreitar os olhos. Se sentiu observado e viu que as mãos dele se moviam de forma nervosa.

—O que sabe sobre ele? Shigakari?

— Sei algumas coisas, outras....outras são especulações.

— Especulações?

Noraneko assentiu devagar.

—Ele está sendo usado, não passa de uma marionete. Não se engane, Shigakari é perigoso, mas até onde eu sei ele não tem um plano concreto além de querer destruir All Might. Ele odeia tudo, ele quer se vingar do que a sociedade fez com ele, como ela roubou dele.

— Do que está falando?

— Eu estou falando que Shigakari é um produto da sociedade. E ele odeia a sociedade por isso. E isso faz dele alguém manipulável, mas não menos perigoso. O subestimar não é uma boa ideia. Isso é o que eu sei.

—E as especulações?

Mais hesitação, mas no fim o ouviu suspirar.

—Eu vou dar um nome, é uma desconfiança, não tenho certeza. Talvez consiga investigar mais a fundo do que eu e descobrir quem ele foi antes de se tornar quem é.

—Então está dizendo..

Noraneko o interrompeu com um sinal de mal.

— Antes disso, preciso de um favor.

Naomasa se calou. Isso fazia mais sentido. Tantas informações dadas de forma gratuita assim, não podia ser por nada. Viu o outro tirar algo do bolso, um pen drive.

— Eu disse antes e volto a dizer que confio em você, detetive. Eu espero não estar errado.

— O que é isso, Noraneko?

— Isso é um dossier. Sobre um herói que abusou e está abusando da família, mas ninguém faz nada. Tem tudo o que consegui, incluindo o depoimento da mulher dele. Ela aceitou fazer parte da investigação e fazer o que preciso pelos filhos.

Naomasa estendeu a mão, aceitando o objeto.

"Não pode ser...será?"

— Jogar essa informação para o público, por mais que eu queira, não é o ideal. Ele ficaria manchado, mas a comissão iria abafar o caso de alguma forma e de quebra, em uma situação como essa, o público perderia ainda mais o respeito pelos heróis. Depois de USJ, seria um desastre. Então, por mais que eu odeie isso, a estratégia tem que ser mais cuidadosa, por isso preciso de ajuda.

—Quem é o herói?

— Endeavor.

Como desconfiava. Seria uma coincidência que estava justo investigando ele?

— O ideal seria usar isso para que ele deixasse a família dele em paz, com a ameaça de ter o nome dele manchado. Já que ele se importa mais com status e ranking do que com a família.

A última parte saiu com um som amargo e claro de fúria, a primeira emoção visceral da noite inteira. Parecia que ele estava se esforçando para se controlar, algo que nunca fazia. O que mostrava o quanto isso era importante para ele.

— Eu estou confiando em você, detetive. Para fazer a coisa certa. Eles...já sofreram o bastante.

— Eu vou.

Prometeu, o que não seria difícil. O objetivo de Noraneko, mesmo que não soubesse, não era diferente do de Nedzu. Eles pensavam de forma igual. E isso não era um tanto assustador?

Noraneko suspirou, então se moveu e Naomasa sabia que ele sumiria em segundos. Era sua chance de falar algo. De tentar desmascarar Midoriya. Eraserhead teria sua cabeça se soubesse que havia postergado a segurança do garoto em troca de todas essas informações.

Mas quando Noraneko falou, antes de escalar a parede e sumir, toda a sua reação sumiu.

— Investigue o nome Tenko Shimura, filho de Kotarou Shimura.

Toshinori teria realmente algumas notícias difíceis e seguidas para receber.

..................................................

Para Keito, aconteceu quando foi visitar o quarto de Inko.

Sem saber que o filho dela havia a visitado minutos antes, ele conferiu os sinais dela e sentou na cadeira ao lado para conversar, como de costume.

Segurando a mão da sua amiga de longa dele, ele contou sobre as confusões que o filho dela estava se metendo e sobre como o seu filho parecia tão fascinado por ele, sempre que abria a boca para contar sobre Izuku. Ele ponderou se ele ao menos percebia isso e sobre como a situação era engraçada.

Era algo normal, que sempre fazia.

A diferença, de todas as noites em todos esses anos, foi que quando apertou a mão de Inko, ela apertou de volta.

.............................................................

Para Fuyumi, aconteceu quando Shoto chegou da escola quase hipotérmico. Ele havia a tranquilizado, aparentemente ele havia treinado por muito tempo na escola, só precisaria descansar. Era um efeito colateral da sua quirk, ele disse.

Fuyumi sabia que esse efeito só existia porque ele escolhia não usar sua quirk completa, mas não falou nada. Apenas o deixou descansar, o olhar preocupado. Natsuo não estava atendendo suas ligações, sabia que havia preocupado seu irmão nos últimos dias, mas ela não sabia mais o que fazer.

Fuyumi, sem perceber, estava chegando em um ponto em comum com sua mãe, chegando a um limite levado não por estar no olho do furacão como Rei, mas por permanecer de lado, observando.

A diferença é que onde Rei quebrou, Fuyumi teria uma reação mais inesperada.

Quando retornou para o quarto de Shoto para ver se estava bem depois do jantar, ela encontrou o quarto vazio. Com seu coração acelerado ela seguiu os sons até a área de treino, onde nunca ia. Seus passos hesitantes se tornaram mais resolutos, chegando na porta ela respirou fundo e abriu.

Em dias comuns, Shoto conseguia levar o treino bem, mesmo não querendo. Mesmo quando seu pai parecia mais brutal, ele sempre saia andando daquela sala, sem dar satisfação e sem ceder ao que havia prometido a si mesmo.

Aquele não havia sido um dia comum.

E quando viu seu irmão no tatame, tremendo de hipotermia, sem conseguir se erguer e ainda assim sendo forçado, Fuyumi Todoroki fez algo que nunca havia feito antes na vida.

— Chega.

A voz saiu tão baixa, a garganta apertada, mas ainda assim Shoto a ouviu. Notou os olhos dele nos seus. Seu pai não parou.

Ele nunca sabia quando parar.

— Chega! CHEGA.

Fuyumi Todoroki gritou, entrando na área de treino, com seus óculos tortos, braços fracos e uma quirk que não servia de nada.

Seu pai pareceu tão surpreso que realmente parou, olhando incrédulo enquanto ela se metia entre os dois. Talvez, vendo na sua memória, uma cena similar de anos atrás. Fuyumi, afinal, parecia muito com a mãe.

— Ele não está bem. Ele tem que descansar. Por favor.

Seu pai se recuperou o bastante para a fazer recuar um passo apenas com um olhar, mas não saiu da frente de Shoto.

— O que está fazendo?! Eu disse para nunca entrar aqui.

— E.eu sei! Mas ele precisa descansar, ele...

— SAIA.

Fuyumi podia sentir seu corpo inteiro tremer. Quando seu pai deu um passo em direção a eles, mesmo com tudo isso, ainda assim ela teve uma única certeza naquele momento: ela não sairia dali sem Shoto.

—Não.

—Fuyumi, vai.

Ela ignorou seu irmão atrás dela, ainda tentando se levantar. Era a primeira vez que ouvia a voz dele em pânico em muito tempo. Ela sabia que devia estar machucando Shoto com aquilo, o quanto ele estaria lembrando da mãe deles, mas ela apenas não podia não fazer mais nada.

— Fuyumi! Vai!

Fuyumi não teria certeza, se quando seu pai se aproximou, se ele estava tentando a intimidar ou se realmente teria coragem de encostar nela. Ela tinha certa esperança que a leve hesitação foi algo que realmente viu, e não imaginou.

Ela nunca saberia, porque no momento em que ele se aproximou mais, uma barreira de fogo surgiu entre os dois.

Seu pai arregalou os olhos surpreso e Fuyumi gritou, sentindo as chamas chamuscarem sua blusa. Ela olhou para trás e Shoto havia se erguido, mas parecia prestes a desabar de novo. Os olhos dele estavam focados no fogo que ele havia formado, em uma expressão de pavor tão grande que sentiu seu coração se partir.

O fogo se extinguiu rapidamente e notou no quanto ele estava tremendo. Dessa vez ela sabia que não era pela hipotermia.

— Shoto!

Ignorando seu pai ela correu até ele, o rodeando com força com os braços, quase caindo com ele. No silêncio que seguiu, cortado apenas pelos os sons da respiração acelerada dele, prestes a entrar em um ataque de pânico, o som da porta se abrindo violentamente foi ensurdecedor.

Natsuo, ainda segurando uma sacola de viagem de lado, olhou para a cena, a expressão se retorcendo em fúria e sua presença tomando toda a porta.

Fuyumi não sabia se sentia aliviada ou com mais medo ainda quando em passadas largas ele estava ali na sua frente, as costas cobrindo os dois completamente. A temperatura caiu rápido e sentiu, como de costume, sua quirk reagir a isso. O chão do tatame se tornou gelo, mostrando o quanto ele estava furioso. Seu pai era o único que fazia Natsuo perder o controle da quirk dele assim.

—Fique longe deles! Fique LONGE!

—Natsuo!

A voz do pai deles era severa, surpresa. Ele parecia mais incrédulo do que antes. E furioso. Shoto sucumbiu de vez ao ataque de pânico e Fuyumi focou nele, os dois indo ao chão.

Ela sabia que Natsuo não tinha chance nenhuma em um confronto físico com o pai deles, eles nunca haviam chegado a isso, e esperava que aquela não fosse a primeira vez. Os confrontos verbais já eram brutais o suficiente.

—NÃO SE METAM NISSO. NÃO TEM NADA COM VOCÊS.

— INFERNO QUE NÃO! FIQUE LONGE DA MINHA FAMÍLIA.

— É MINHA FAMÍLIA TAMBÉM!

Sua família!?

Ela conhecia bem aquele tom. Em outra época, ela teria tentado o parar, manter a paz. Mas Shoto estava tentando respirar, em pânico depois de usar a quirk dele, depois de tanto trauma.

Ela não estava ligando para paz nesse momento.

— Não somos sua família, Endeavor.

—Natsuo...

A voz dele saiu em tom de aviso e Fuyumi fechou os olhos. Se ele tocasse em Natsuo, se tentasse tocar em Shoto de novo, ela não iria ficar parada.

—Você não sabe quando parar, não é? Vai parar apenas quando matar ele, como matou Touya!

Silêncio. Apenas as respirações forçadas. Shoto apertou sua mão com força.

— Vai encostar em mim também? Eu não sou uma criança. Ou a mãe. Talvez seja melhor bater em alguém que vai revidar nessa casa.

Fuyumi não abriu os olhos.

Ela sabia que Natsuo havia ganhado ao ouvir o som da porta se fechar de forma violenta, levando o calor com ele.

Soltou a respiração que havia prendido e soltou um soluço. Shoto ainda estava tentando respirar, e quando abriu os olhos encontrou os dele, arregalados, confusos com toda a situação.

Por alguém ter finalmente intervido.

Fuyumi se sentiu a pior irmã do mundo naquele momento.

Sentiu os braços de Natsuo ao redor deles, a voz agora calma, ajudando Shoto mais do que ela, que estava quase entrando em pânico também.

Os três ficaram assim por muito tempo, o gelo ao redor da sala de treino, via agora, tomando as paredes até o teto, e ela nem mesmo sabia se havia sido ela ou Natsuo ou mesmo Shoto que havia causado isso.

O frio era quase calmante, estar presa em um planeta de gelo, ali dentro, onde nada podia chegar.

Mas infelizmente não poderiam ficar ali para sempre.

Natsuo pegou Shoto nos braços, seu irmão ainda chocado demais para protestar, e a ajudou a se levantar. Ela sabia que ele teria saído de casa, ele sempre saia depois de uma confrontação com Natsuo como essa.

— Fuyumi, eu vou levar Shoto comigo. Você...você tem que vir junto. Por favor, Fuyumi.

A voz de Natsuo, percebia agora, estava tão trêmula quanto a dela, mas sabia que seria mais raiva do que medo. Quando era sobre o pai deles, Natsuo sempre teria mais raiva do que medo.

Fuyumi o olhou, os dois parados no corredor. Shoto não falou nada, cansado demais.

Ela mordeu o lábio, tomando uma decisão naquele momento.

—Leve ele para o quarto, ajude ele. Shoto, arrume suas coisas.

— Fuyumi?

— Vai ficar tudo bem, eu tenho...eu tenho um plano.

Fuyumi quase correu até o quarto. Ela jogou uma mala na cama, esvaziando as gavetas enquanto pegava o celular e o cartão, escondido atrás do porta-retrato deles na cômoda. O rosto de Touya parecia a fitar do papel, enquanto colocava o número e esperava chamar.

Quando a voz do outro lado, quase ríspida atendeu, soltou o ar, olhando Touya.

— Aqui é Fuyumi Todoroki. Se ainda estiver em aberto, preciso da ajuda que ofereceu, Aizawa-san.

.....................................................

Para Shouta Aizawa, o inverno chegou batendo em sua porta, 4 da manhã.

O inverno chegou com três crianças Todoroki entrando na sua sala.

Naomasa já estava no sofá. Nedzu chegaria logo.

Natsuo Todoroki estava carregando o irmão. Agora sem a raiva, a expressão dele estava cansada, enquanto levava o irmão até o quarto que Shouta o indicou. Ao olhar seu aluno, Shouta pensou que havia sido a decisão ideal chamar Chiyo-sama.

Ao olhar para seu aluno, Shouta Aizawa pensou muitas coisas.

Fuyumi Todoroki, com seus braços fracos, óculos tortos e quirk fraca, assumiu a frente, sentando no sofá, carregando o peso do mundo nas costas.

Como Inko Midoriya havia aguentado o peso de um prédio, uma mulher que naquele momento, ela nem mesmo conhecia, mas tinha tanto em comum.

Shouta Aizawa fechou a porta e respirou fundo.

—Vamos começar.

..........................................................

O inverno chegou para Enji Todoroki, por meio de um aviso da comissão ao chegar em casa e a encontrar vazia.

Ele não poderia falar ou se aproximar da sua família. Eles haviam sido movidos para fora da sua influência completamente.

Ele não perderia a licença de herói, ele não perderia seu público. Aos olhos da população, ele ainda era o herói número dois. Ninguém sabia de nada.

Pelo menos não agora, não em muito tempo. Um dia isso mudaria.

Enji Todoroki perdeu sua família para o inverno.

Sua reputação como herói, no entanto, ele perderia para o fogo.

....................................................

Quando o festival de esportes chegou, em uma manhã fria, o estádio se encheu de alunos e professores, com seus convidados e expectativas.

Yagi Toshinori havia descoberto que seu nêmesis ainda estava vivo e que, possivelmente, o neto da mulher que considerava uma mãe, estava com ele.

Shoto Todoroki havia saído de casa, com sua vida virada de cabeça para baixo dias antes.

Izuku Midoriya, havia recebido a notícia que sua mãe havia dado seu primeiro sinal de acordar depois de mais de dois anos.

Diferentes olhos estavam fixos em diferentes pessoas dessa vez. Diferentes objetivos estavam em jogo. Como uma bola de neve, todas as pequenas mudanças estavam se acumulando, e a bola continuava rolando morro abaixo, se tornando cada vez maior.

E ninguém poderia ter certeza de onde ela iria parar.

Notas finais
Esse, meus amigos, foi meu capítulo mais esperado e favorito de escrever até agora. Eu tenho muito o que dizer sobre ele, mas esperarei os comentários antes. Espero ter conseguido passar a complexidade da situação e dos sentimentos da família Todoroki bem. Ainda teremos muito sobre eles e sobre a repercussão do que aconteceu. Como podem ver, Izuku, apesar de querer foder Endeavor, tomou a decisão mais lógica e menos possível de dar erros, e também com menos chances de alguém se aproveitar da situação. Ajuda que Shoto não queria que sua família fosse exposta junto com Endeavor. Noraneko, no entanto, ainda vai infernizar ele mais um pouco. No próximo teremos a primeira parte do festival!