A teoria do caos
23 Capítulo XXIII – Uma fúria feita de gelo
“Cuidado com a fúria de um homem paciente.”
— John Dryden
Existiam poucas coisas na vida com as quais Akira se importava de verdade, e pessoas menos ainda. Ela mal viu seu pai durante toda a sua infância, ele sempre estava ocupado demais servindo heróis com suas invenções. Seu irmão mais velho havia sido alienado por sua culpa, há anos os dois nem mesmo se viam. Mei havia sido a única da família que não havia conseguido empurrar para fora da sua vida.
Ela nunca quis ser uma heroína, crescer ao redor da indústria de heróis havia a assegurado disso. Ela nunca teria o complexo de salvar pessoas que Hisashi Midoriya tinha, ou o talento nato em tudo que Takashi possuía.
Ter se tornado vigilante foi praticamente um acidente. Não havia a glória de Takashi, que havia tomado as ruas durante a noite para ajudar as pessoas que os heróis não ajudavam, ou de Hisashi que havia entrado nisso para proteger as duas pessoas que havia jurado tomar de conta, negando a natureza para qual havia sido criado.
Akira só odiava heróis que só tinham olhos para fama e dinheiro. O bastante para invadir suas contas e distribuir essa renda entre pessoas que realmente precisavam. E teve o azar de ser pega por isso, provando que não era tão boa quando pensava.
A única razão de não ter sido presa, era sua quirk promissora, todo o potencial que a comissão tinha visto. Porque tudo sempre acabava no potencial.
— Bem, no final das contas, nenhum de nós conseguiu se safar dessa.
Por ter potencial, Keigo Takami estava ali também. Nas mãos da comissão, desde tão criança que a vida antes disso bem poderia ter sido um sonho. ‘Resgatado’ de uma situação difícil, treinado e manipulado para sempre se sentir grato por tudo.
Akira não era Hisashi, ela nunca conseguiria ter total confiança no que Takami faria.
— Você é um herói com visibilidade, vai ficar bem. Não podem se dar ao luxo de você morrer fácil assim.
Diferente dela. Akira era dispensável.
— Já sabe como vai conseguir entrar na liga?
— Vou dar meu jeito.
Não seria tão difícil entrar. Ela já havia feito isso várias vezes e nunca havia sido exposta, como Takashi.
O difícil seria sair de lá viva.
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Hitoshi estava tendo uma semana estranha.
E diante de tudo que havia acontecido nos últimos tempos, isso era algo absurdo, mas não menos que a verdade.
Primeiro, ele havia se tornado um vigilante. Um real vigilante, saltando em prédios feito uma perereca desenfreada. Hitoshi era um criminoso agora. Ele poderia ser preso.
E ainda assim sua mãe o havia colocado de castigo em razão de uma orelha furada. Era como estar vivendo em duas realidades completamente diferentes de uma hora para outra.
Não bastasse isso, ele estava treinando com seu maior ídolo da infância, aprendendo a utilizar o instrumento que simbolizava ele. Se Hitoshi pudesse voltar no tempo e avisar a si mesmo que isso iria acontecer, tinha certeza de que seu eu de antes não acreditaria. Lá estava, Hitoshi Shinsou, com sua ‘quirk de vilão’, no curso de heróis e sendo treinado pessoalmente por Eraserhead.
Se ao menos ele pudesse se desenrolar da ferramenta de captura no momento.
Sentiu seu rosto esquentar, tentando sair do embolo que havia criado enquanto olhava discretamente para os outros dois no centro do tatame, tentando não ser visto na situação vergonhosa.
Pausou por alguns segundos, observando o quanto eles eram rápidos. Os movimentos eram parecidos também e definitivamente Izuku estava se segurando quando treinava com Hitoshi, se a leve careta que Aizawa-sensei fez ao segurar um chute seu dizia qualquer coisa.
Antes de entrarem no ginásio Izuku parecia nervoso, preocupado, mas tudo isso havia sumido com uma súbita realização no rosto dele, que sinceramente Hitoshi teve medo de perguntar a razão. Seja o que fosse, ele não estava nenhum pouco hesitante no combate agora, apesar do medo prévio de entregar seus movimentos como Nora.
Para alguém tão pequeno, ele tinha bastante força. Com certeza isso ajudava quando tinha que segurar o peso do próprio corpo e escalar, como havia o visto fazer noite passada.
Ainda assim, pela forma como ele foi jogado no chão pelo herói no momento, aquilo não era o bastante. Momentos antes havia passado pela mesma coisa, então não estava com nenhum pouco de inveja.
Aizawa-sensei conseguia ser bem brutal.
— Vamos parar por hoje.
Hitoshi jogou seu peso no tatame com um suspiro, ainda enrolado. Viu Izuku relaxar com uma careta discreta ao se erguer do chão, segurando suas costelas.
Em segundos ele estava ao seu lado o ajudando a se desenrolar. Bufou irritado quando percebeu que o maldito estava segurando um sorriso com sua situação.
—O quê?
—Eu não disse nada.
Empurrou a mão do outro quando ele deu uma batidinha na sua cabeça.
— Gatinho enrolado no novelo.
— Vai a merda.
— Shinsou.
Aizawa-sensei havia terminado de guardar o equipamento, olhando os dois de forma avaliativa. Imediatamente se ergueu do chão, a coluna ereta e tentando disfarçar o nervosismo.
— Seu combate corpo-a-corpo pode melhorar. Não fique decepcionado por não ter pegue o jeito com a ferramenta de captura ainda. Eu não perderia meu tempo se não tivesse certeza de que iria dominar isso.
Sentiu seu peito aquecer. Izuku tocou seu ombro e o viu sorrir discretamente em sua direção.
—Midoriya, imagino que tenha um plano em mente?
A expressão do outro ficou séria. Às vezes Hitoshi esquecia do pequeno detalhe que Izuku não tinha uma quirk, e por isso teria uma imensa desvantagem durante o festival. Sabendo de tudo o que ele fazia como Nora, era fácil esquecer disso.
— Algo do tipo.
Aizawa-sensei o mediu de forma intensa com a resposta evasiva, então assentiu devagar.
—Maijima disse que pediu permissão para treinar com os membros da sua sala algumas vezes nas próximas semanas, imagino que esteja envolvido com seu plano?
O sorriso de Izuku mudou, para algo assustadoramente predatório no momento. Parece que era essa a resposta que Aizawa-sensei esperava e temia, pelo suspiro cansado que ele deu.
— Bem, acho que esse festival vai ser interessante, pelo menos. Shinsou, chuveiro. Midoriya, se tiver um momento?
Hitoshi olhou para o outro de forma discreta, que apenas deu de ombros como resposta. Ele quase podia o enganar com a falsa indiferença, se não soubesse que ele estava sem dúvida surtando por dentro pensando se o herói havia notado algo.
Tentou parecer calmo e o assegurar que tudo ficaria bem com os olhos enquanto saia para os banheiros, mas pela careta do Izuku não conseguiu.
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Izuku tinha sentimentos mistos em relação à Eraserhead e a relação estranha que os dois tinham desde aquela fatídica noite anos atrás.
O herói era perceptivo e pragmático, mas não tinha problemas em utilizar truques para conseguir o resultado desejado. Como ele bem lembrava com a ameaça de expulsão que havia recebido na primeira avaliação física. Ele não se importava com a opinião que outras pessoas podiam formar dele, se o trabalho fosse feito. Ele não tinha problemas de ser tachado como o vilão da situação.
Izuku admirava isso.
Izuku temia isso também, porque era uma característica que o tornava imprevisível. E por isso, vazar alguma informação a ele sobre a sua situação estava fora de questão, mesmo tendo certeza de que parte da motivação daquele treino era tentar extrair algo dele.
Tentar esconder o que sabia fazer em termos de combate para alguém como Eraserhead, como já havia provado, só o traria mais suspeita. Algo que não precisava no momento.
Caso houvesse perguntas, era de conhecimento de todos que Izuku gostava de fazer análises. Ter um estilo de luta baseado em outros não seria algo tão estranho, porque era a verdade. Não era à toa que havia tantos movimentos do próprio Eraserhead em Nora. Era seu ponto forte, de acordo com seu tio: analisar, imitar, adaptar. Então, se ele perguntasse, Izuku poderia alegar que observava as lutas de Nora pelos vídeos postados.
Era o truque mais antigo, que seu tio o havia ensinado bem: “A melhor forma de esconder algo, pode ser à plena vista.”
Porém, não foi sobre isso que o herói perguntou.
— Suas costelas estão machucadas. Já estavam antes de vir aqui.
Sua mente pausou com um arranhão. Não era isso que estava esperando. Olhou o outros, mistificado.
— Estou bem? – O herói fez uma expressão que deixava claro que não acreditava nisso. – Digo, não é nada demais.
—Então se eu pedir para mostrar, não vai ter nenhum hematoma cobrindo parte do torço?
Izuku deu um passo para trás, colocando uma mão nas costelas com uma careta.
“Hawks, seu desgraçado.”
— Ah, hn. Foi só um acidente.
Izuku ficou ainda mais mistificado quando outro pausou com uma expressão estranha no rosto, o analisando de forma intensa.
— Midoriya, o seu combate corpo-a-corpo é muito desenvolvido. Naomasa comentou que disse que seu tio o treinou.
A pergunta sem relação com assunto o deixou ainda mais cauteloso.
— Sim?
— Ele ainda costuma fazer isso? Seu tio está em casa?
Se encolheu mais e notou a expressão do herói se fechar.
— Ele está.
A resposta saiu mais ríspida do que desejava. Era difícil controlar o que estava sentindo, o que pensar em Takashi o fazia sentir. Era o principal motivo de temer quando a liga finalmente entraria em contato. Do jeito que as coisas estavam se movendo na madrugada, pelos rumores sobre recrutamento, ela sabia que seria em breve. Seu temor em parte era porque ainda não tinha certeza de como iria cumprir o prometido para conseguir entrar no grupo. Afinal, como ele faria para entregar a si mesmo? Mas o principal problema é que ele não sabia como reagiria à Shigakari depois do que havia sido feito à Takashi.
O herói abriu a boca para falar algo, mas pareceu mudar de ideia. Talvez por sua expressão arisca no momento.
Eraserhead passou a mão no rosto e suspirou.
— Midoriya.
O tom dele era quase suave enquanto ele se abaixava mais, para fazer contato visual com Izuku. O ato foi tão repentino e inesperado que sentiu sua raiva evaporar em pura confusão. Uma mão grande tocou seu ombro e Izuku piscou lentamente, olhando da mão para o herói, ainda mais mistificado.
— Se precisar falar comigo, sobre qualquer coisa, eu sempre vou ouvir. Eu vou ajudar.
Izuku abriu a boca, mas não conseguiu responder a isso, então apenas assentiu devagar. Eraserhead soltou o ar e colocou uma mão na sua cabeça.
“Takashi fazia isso.”
Takashi costumava colocar a mão grande em sua cabeça e bagunçar seu cabelo, treinar com ele e falar no seu nível, como se fossem iguais.
Izuku sentiu culpa imensa no momento, pensando se estaria substituindo seu tio pelo herói. Prendeu o ar e sentiu seu corpo paralisar. Seja qual for a expressão que fez, o herói pausou seu movimento e ajeitou sua postura.
—Certo. – Os dois se olharam sem jeito. – Quando terminar aqui, vá para a enfermaria. Vou escrever um passe e avisar Maijima.
— Eu estou bem.
— Não foi um pedido.
Izuku assentiu mudamente e tratou de sair dali o mais rápido possível.
Quando Shinsou o olhou de forma expectante ao entrar no vestiário, soltou o ar e balançou a cabeça.
—Eu...não tenho ideia do que acabou de acontecer. Mas não vou ser preso?
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Izuku Midoriya era brilhante, mas sua mente racional, ao que Hitoshi percebia, o impedia de entender certas nuances sociais que para muitos poderiam ser óbvias.
Em resumo, para alguém tão inteligente, ele era bem idiota às vezes. Ele já havia percebido algo parecido com Hatsume e, tinha que admitir, com Todoroki também. E não era estranho que entre as pessoas mais próximas do seu círculo em U.A ele era o mais estável?
Hitoshi ouviu cada vez mais alarmado Izuku recontar a conversa, aos olhos de Izuku, estranha e sem sentido que havia se passado no ginásio enquanto eles saiam juntos pelo corredor.
— Izuku, realmente não entendeu o que ele estava querendo saber?
O outro piscou em sua direção, confuso.
Era tão óbvio que Aizawa-Sensei estava pensando que Izuku estava sofrendo abuso do tio. E realmente, pensando de forma racional, não era uma conclusão tão absurda a se tomar, com apenas parte dos fatos conhecidos. Izuku aparecia frequentemente machucado devido as suas atividades como Nora, era muito familiar com violência, ninguém sabia de certo onde ele morava e seu tio parecia um assunto delicado. Sem falar que apenas um idiota não perceberia da necessidade gritante de terapia.
Hitoshi ficava um tanto preocupado ao perceber o quanto ele parecia mistificado com um adulto estar preocupado com ele ao ponto de perceber que estava machucado. Como se fosse algo completamente bizarro. Se perguntava o quanto o tio dele poderia ter o deixado sozinho nesses anos para que ele se tornasse assim?
Antes que pudesse falar algo, o outro já tinha seguido em direção a enfermaria. Hitoshi suspirou, pausando no corredor e olhando as costas de Izuku.
“Por que eu tenho que ser o mais normal deles? É exaustivo.”
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— E então?
Shota olhou o café como se ali dentro daquela xícara pudesse encontrar todos os segredos do universo, uma expressão intensa e ombros tensos.
Hizashi fez uma careta com isso. Ele conhecia o bastante do amigo para saber daquela expressão no rosto dele: preocupação e fúria.
— Ruim assim?
— Midoriya estava escondendo um machucado. Recovery Girl me disse a pouco que havia trincas nas costelas.
—Shit. E você acha que foi...?
—Ele disse que foi um acidente. Quando perguntei sobre o treinamento dele com o tio, ele ficou completamente defensivo. Ele se encolheu quando toquei na cabeça dele, Hizashi.
Isso soava um alarme vermelho na sua cabeça. Conseguia entender a preocupação de Shota. Maijima já havia dito que não era a primeira vez que Izuku Midoriya chegava machucado na aula, mesmo que ele fosse tão bom para esconder, ele ainda era uma criança em uma escola cheia de heróis. Essas coisas tendiam a vir à luz em algum momento, e o fato de ele não perceber isso era ainda mais preocupante.
— Então é realmente possível.
— Não seria a primeira vez que alguém usa treino como desculpa para abuso.
Hizashi grunhiu, porque isso lembrava do segundo grande problema.
Os dois foram interrompidos por uma batida na porta da sala. Hizashi saltou de onde estava sentado na mesa de Shota e, do outro lado, estava o dito segundo grande problema. Todoroki o olhou, com a mesma expressão em branco de sempre, fitando entre os dois professores na sala.
Esse Shota não precisava arranjar um treino como desculpa para uma conversa. Mesmo que Hizashi duvidasse que ele fosse conseguir arrancar algo dele também, pela cautela com que ele avaliava os dois.
— Aizawa-Sensei.
—Todoroki.
Shota terminou de beber o café e fez um sinal para que saísse da sala, pedindo ao garoto que se sentasse na poltrona. Todoroki parecia que ficaria mais à vontade sentado em uma cerca elétrica do que estar naquela sala no momento.
Hizashi sussurrou uma boa sorte e fechou a porta.
Olhou mistificado, no entanto, ao perceber que a maçaneta e boa parte da porta estava coberta de gelo.
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— Acorda! Deku de merda!
Izuku se ergueu de supetão, atirando por reflexo a primeira coisa em direção a voz muito perto do seu rosto. Ouviu um xingamento e o som de uma explosão.
— Bakugou!
Abriu os olhos para uma cena muito complexa para fazer sentido naquele momento.
— Kacchan? Por que tem penas na sua cabeça?
— Eu vou te matar, Deku!
Kirishima estava o segurando por trás, se desculpando pela bagunça de forma incessante.
— Eu agradeço se não perturbar meus pacientes na enfermaria, Katsuki Bakugou. Midoriya, se puder descer dessa cama. E os dois tentarem não destruir mais travesseiros também.
Recovery Girl, para uma senhora tão pequena, conseguia ser bem intimidadora o olhando assim.
Só então notou que estava de pé no colchão, um segundo travesseiro preparado para seguir o primeiro na cara de Bakugou. O impacto havia empurrado o outro para longe, a explosão jogando penas para todos os lados.
A senhora olhou ao redor e apontou a bengala na direção deles: — Vocês vão limpar isso.
Até mesmo Bakugou teve o bom senso de não discordar.
Izuku bocejou, se sentindo bem disposto, finalmente. Nada doía em seu corpo, o que era uma raridade. Saltou da cama, olhando a bagunça ao redor. Recovery Girl estava cuidando de alguma papelada, enquanto alguém dormia em uma das camas. Kirishima acenou de forma amigável.
— O que está fazendo aqui, Kacchan?
O outro garoto grunhiu algo, por princípio, já empurrando uma vassoura em sua direção. Kirishima suspirou, respondendo por ele.
— Uraraka usou demais a quirk de novo.
Izuku olhou para uma das camas ocupadas, onde a garota da quirk de gravidade parecia estar dormindo.
— Nesse ponto ela deve ter vomitado em metade da sala.
—Ew.
— E você? Alguma explosão?
Izuku se perguntava como os rumores do que acontecia no laboratório já podiam estar tão conhecidos pelo restante dos alunos.
— Treinamento.
O outro pausou, segurando uma pá. Bakugou continuava calado, varrendo o chão com a força do ódio, como sempre, mas notou que ele acompanhava a conversa por leitura labial.
— Não sabia que o treinamento físico de vocês era tão duro.
— Festival. – Bakugou respondeu. – O gremlin está treinando para o festival.
Izuku esquecia às vezes como Bakugou o conhecia tão bem. Os dois trocaram um olhar e Bakugou bufou, jogando a vassoura em direção à Kirishima quando terminou.
— Eu vou ganhar primeiro lugar, Deku. Vou chutar sua cara no chão.
— Ei, ei Bakugou! Não precisa dessa agressividade.
Izuku sorriu de forma predatória.
— Não se eu ganhar primeiro, primeiro.
— Eu vou ganhar primeiro-primeiro, primeiro, seu merdinha.
— Vocês dois precisam relaxar.
— Calado, Kirishima.
Izuku pausou, piscando longamente. Era a primeira vez que ouvia Bakugou chamar qualquer pessoa pelo nome, não por algum apelido. E ele parecia bem mais relaxado do que de costume.
E desde quando Bakugou visitava por vontade própria alguém?
— Eu vou acabar com você, Deku. É bom vir com tudo que tem, seu gremlin maldito.
Essa semana realmente estava estranha.
— Se não se calarem, saiam daqui. – A voz da heroína os interrompeu. – Você não, Midoriya. Ainda não terminei com você.
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Shoto estava tendo uma semana estranha.
Em casa, Endeavor estava cada vez mais brutal. A princípio pensou que pudesse ser em razão de algum caso que ele estivesse envolvido, não seria a primeira nem última vez que ele descontaria os problemas no treinamento dele. Porém, Fuyumi havia o alertado sobre a visita que haviam recebido, e como isso poderia piorar o humor dele nos últimos tempos.
Shoto havia sido alertado sobre as visitas para a permissão dos dormitórios, como um herói, tinha certeza de que Endeavor havia recebido a informação até antes dos outros pais, então Shoto não conseguia entender o que podia ter causado o problema, ele sempre havia dito que U.A o faria se tornar o herói que deveria ser. Ainda assim, Fuyumi parecia mais preocupada que o normal e havia a visto no telefone com Natsuo mais de uma vez durante os últimos dias, os dois discutindo quietamente alguma coisa.
Não bastasse isso, os professores estavam estranhos. Aizawa-sensei havia o assinado para terapia, mesmo quando os outros alunos já haviam tido a conversa obrigatória, e ainda o chamado duas vezes na sua sala durante os intervalos para conversar. Shoto não sabia o que ele teria para conversar com seu professor que não já estivesse sendo conversado em aula.
Isso com certeza nunca havia acontecido antes e, tendo estudado em casa a vida todo com tutores, ele não tinha certeza se era um comportamento típico de professores. Teria que perguntar à Fuyumi, ela saberia dizer.
Porém, todos esses pensamentos, até mesmo a conversa unilateral na sala de Aizawa-sensei, havia fugido da sua mente naquele momento.
Ele não havia tido intenção, realmente, de ouvir parte de uma conversa claramente pessoal. Foram apenas alguns segundos, enquanto se preparava para bater na porta e ouviu o sobrenome de Izuku e pelo contexto ele não pode não ouvir o restante. Não quando sentiu seu sangue gelar em suas veias, ao ponto de ter congelado parte da porta por acidente.
Era algo que vinha ganhando espaço na sua mente, desde que havia o visto mancando pela primeira vez no caminho para a escola. Shoto reconhecia os sinais nele mesmo.
Shoto não havia entrado em U.A para fazer amigos, mas Izuku era diferente, não era? Izuku havia o ajudado antes de U.A. Ele o havia apresentado um refúgio de tudo.
Izuku que sorria de forma amigável para todo mundo, mas Shoto sabia, ele reconhecia nele mesmo aquele sentimento. Ele estava lá há tanto tempo, que era quase uma segunda camada da sua pele: raiva. Não como Bakugou, que sempre parecia furioso com tudo, mas uma raiva contida, constante, pronta para explodir em algum momento.
E por Deus, Shoto iria se tornar um herói. Se ele pudesse salvar uma pessoa pelo menos, talvez ele pudesse finalmente se achar digno disso. Talvez ele pudesse ser algo a mais do que aquele estigma que Endeavor havia o tornado.
Shoto havia dito a Fuyumi que salvaria Izuku, antes.
Ao que parece, a única coisa que havia mudado era de quê.
— Izuku Midoriya.
Shoto ignorou os outros alunos, provavelmente colegas dele, que haviam pausado no portão quando chamou Izuku. O viu abrir um sorriso.
— Shouchan?
— Precisamos conversar.
O outro abriu a boca. Provavelmente para negar. Ele vinha fugindo dele desde USJ, de todas as perguntas sobre a cena estranha que Shoto havia presenciado no plaza.
Shoto não sabia o que faria se fosse o caso, mas tinha certeza de que não desistiria fácil assim. Ele havia tomado sua decisão. Talvez houvesse algo claro na sua expressão sobre isso, porque o olhar intenso o avaliou, antes de soltar um suspiro longo.
— Okay.
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Os membros mais caóticos da classe de suporte estavam no portão, discutindo algo que Hitoshi não sabia se queria saber, em nome da sua sanidade. Procurou os cabelos verdes ao redor, porque ele sempre estava no meio quando o caos estava em ascensão, mas era difícil ver Izuku quando todo mundo parecia maior que ele.
— Ei, Shinsou! Perdeu Deku por alguns minutos. Ele saiu com aquele seu outro colega, que parece uma bengala de natal.
Hitoshi se engasgou com a água que bebia. Essa imagem agora não sairia nunca mais da sua cabeça. Hatsume e Izuku realmente se mereciam.
Hiro passou uma mão em seu ombro: — Shinsou, o homem que eu procurava. O que acha de começar a planejar aquela nossa pequena vingança no cara que quebrou o coração do Deku?
Hitoshi com certeza estava precisando da distração.
— Me conte seus planos.
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Cercado de gatos e com chocolate na sua frente, era difícil de pensar em todos os problemas do lado de fora. Shoto era uma criatura simples, seu afastamento social por tanto anos havia o tornado ignorante sobre como lidar com pessoas, mas ele estava aprendendo. E, o mais importante, ele podia ser perceptivo em algumas questões. Por exemplo, ele sabia como agir para não deixar Fuyumi preocupada, ou até onde puxar com Endeavor sem risco de as coisas saírem do limite. Ele entendia que Shinsou era a pessoa mais pacífica de se estar perto na sala, que não faria perguntas ou tentaria preencher o silêncio com conversa.
Shoto sabia que em ordem de tirar alguma coisa de Midoriya, ali era o melhor ambiente, assim como ele sabia se eles eram tão parecidos, para se conseguir algo dele, teria que dar algo em troca. Mais que tudo, ele teria que dar a verdade.
— Eu ouvi Aizawa-sensei comentando sobre o treinamento com seu tio.
Midoriya ergueu os olhos de onde brincava com um gato em seu colo, a expressão cautelosa.
— Foi por acidente.
O outro virou o rosto levemente. Shoto não sabia no que ele estava pensando no momento, era sempre difícil de entender com Midoriya, e agora sabia a razão.
— Okay?
Shoto moveu as mãos no pelo do gato na mesa, os olhos firmes no do outro.
— Então ele treina você.
Midoriya franziu a testa, mas assentiu devagar.
— Endeavor me treina também.
Houve uma leve mudança no rosto dele quando citou o nome de Endeavor. Shoto enfatizou a palavra treinar e esperou. A expressão dele fez algo engraçado, mas não houve outra resposta.
Shoto se sentia frustrado. Fuyumi com certeza saberia o que fazer naquele momento. Talvez repetir o que ela lhe dizia faria o truque.
— Izuku, não é certo seu tio machucar você.
Midoriya fez um som estranho, paralisando onde pegava a xícara. Os olhos verdes se arregalaram e ele pareceu realizar alguma coisa. Teve quase certeza de o ouvir murmurando o nome de Shinsou e de Aizawa-sensei.
—Souchan, meu tio não me machuca. – Antes que Shoto pudesse o interromper e dizer no quanto não acreditava nisso, Midoriya agarrou seu pulso, o fazendo pausar. – Espera. Disse que Endeavor treina você. Endeavor machuca você, Shoto?
— Ele me treina. Seu tio treina você.
— Isso não implica que ele me machuca. Mas você pensa que sim. – A expressão de Midoriya estava cada vez mais estranha. – Porque é o que você conhece.
Piscou devagar, sem entender como aquela conversa estava mudando de rumo tão rápido. Mas ele estava disposto a contar a verdade, não era? Só assim Izuku saberia que poderia contar também, que eles eram iguais. Shoto, em essência, era uma boa pessoa. Era algo que mesmo sua infância difícil não havia arrancado dele. Ele sempre tentaria salvar as pessoas, da forma que pudesse. Sem perceber, naquele ponto da vida, ele era um melhor herói do que seu pai jamais foi em todos aqueles anos.
Não foi difícil tomar a decisão de contar tudo.
Em outro universo, Shoto Todoroki havia feito isso, com semanas de diferença e por motivos diferentes. Havia sido uma daquelas decisões que havia mudado o curso da sua história para sempre, que havia o feito se tornar o herói que sempre deveria ser.
Nesse universo, aquele momento havia chegado. A diferença é que dessa vez não seria apenas a vida de Shoto que mudaria por isso.
— Izuku, já ouviu falar de casamentos por individualidade?
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Quando Izuku era criança, sua mãe costumava dizer que ele incapaz de sentir raiva. Ele era uma criança muito pacífica para isso, mesmo quando as outras crianças o jogavam no chão e diziam que sua mãe uma hora iria cansar dele, Izuku nunca revidava, nunca se deixava entregue a esse sentimento.
Sempre que ela comentava sobre isso Izuku apenas sorria, porque aquilo estava bem longe da verdade. Sua raiva sempre estava lá, como uma segunda camada abaixo da sua pele, contida. Diferente de Bakugou, ela fluía fria e a espreita, e desde que havia segurado o corpo de Yana, sempre presente. Sempre que olhava para Takashi agora, ela se movia abaixo da sua pele, em seus ossos.
“Se acautele com a raiva do homem calmo.” Era o que seu tio falava, quando o via passar horas de frente aquele mural de fotos, silencioso e vigilante. “Pois ela é mais repentina e destrutiva do que qualquer coisa.”
Sua mãe estava errada, a raiva era algo familiar.
Como agora, ela circulava fria em seu corpo, um acúmulo dos últimos dias, de todas as coisas que estavam acontecendo, o apertando em uma fúria gelada que tornava difícil de respirar.
Izuku sentia sua mão tremer, mesmo a que ainda segurava o pulso de Shoto sobre a mesa. Ele não conseguia o soltar.
Shoto continuava o olhando, a expressão a espera, com certeza esperando Izuku confessar seu segredo de volta. E ele devia ter se dado conta dessa confusão. Olhando em retrospectiva, as ações de Eraserhead eram óbvias e, realmente, não era uma conclusão tão absurda de tomarem, levando em conta os sinais que Izuku mostrava. A diferença, é que Izuku sabia, que com toda a vida difícil que levou nos últimos anos ao lado do tio, ele nunca o machucaria de propósito. Takashi, que o abraçava quando acordava gritando, que havia limpado seu vômito e lhe dado banho em dias que estava inútil. Takashi que havia sacrificado tudo por ele, quase morrido por ele, que havia se tornado um Noumu por sua culpa.
Takashi, que sempre deixou claro que não era um herói, mas que salvado a vida de Izuku mais vezes do que podia contar.
E então, havia Endeavor. O herói número 2. Reconhecido e famoso e um maldito abusador, que espancava o filho e dizia que era treinamento, que havia abusado da esposa até ela perder a cabeça, que não via os outros filhos, que havia sido o responsável pela morte de um deles. E todo em nome de um número em um ranking que não significava nada.
Izuku quase podia rir, porque o herói número um que ele queria tanto bater, estava ferido e quase incapacitado e Izuku duvidava que continuaria em primeiro lugar por muito tempo, mas nunca seria por mérito do Endeavor. Ele teria o primeiro lugar dele em breve. E havia destruído a família dele por isso.
“Ele queria voltar para casa.”
Endeavor não merecia a família que tinha. Como a família de Yana, que havia a vendido, como as famílias da metade dos seus amigos que agora estavam mortos, sem nunca ter tido um funeral. Sem nunca ninguém procurar por eles, porque eles não eram nada mais do que objetos, algo descartável, algo para ser usado e esquecido.
Shoto apertou seu pulso.
— Você está bem?
A voz dele estava confusa, como se fosse algo estranho Izuku estar assim depois de tudo o que contou.
Izuku deu uma risada quebrada.
—Não.
Shoto o olhou com preocupação e Izuku se perguntava como ele havia conseguido sair desse jeito de como foi criado. A cicatriz dele, que havia lhe dado um senso de companheirismo desde a primeira vez que o viu, parecia ainda mais evidente. Parecia ainda mais familiar.
— Shoto, meu tio não é como Endeavor. Eu dou minha palavra. Obrigado por se preocupar, eu sei que foi difícil ter que contar tudo isso.
A expressão dele se tornou perdida. Como se Izuku fosse algo particularmente confuso e isso não fosse a verdade que esperava. Provavelmente não era.
— Mas seus machucados-
— Isso...é outro motivo. Ninguém está me machucando em casa, eu prometo.
Izuku hesitou, soltando o outro devagar. Havia uma mancha vermelha onde havia apertado com muita força.
— Você é uma boa pessoa, Shoto. Vai ser um grande herói. Estava tentando me salvar, não era? Foi a mesma coisa com a confusão com Kacchan.
O outro desviou os olhos, focando a mesa. Izuku testou suas próximas palavras com cautela, ainda sentindo a raiva borbulhando.
— É por isso que não usa sua quirk de forma completa, não é?
Segurou o pulso dele de novo rapidamente, notando a tensão imediata e defensiva. Os olhos dele se tornaram mais frios e cautelosos.
— Eu não vou usar a quirk dele, nunca. Vou ser um herói só com a da minha mãe.
“Isso é bem mais complicado do que pensei.”
— Shoto, quirks não funcionam assim. Você não tem a quirk do seu pai e da sua mãe. – O outro se ergueu rapidamente, mas Izuku não o deixaria ir assim. O puxou de volta para sentar-se, os gatos fazendo sua parte e se sentando em cima dele. — Não vamos falar disso se não quiser. Por hora.
Ele relaxou, minimante.
— E do que quer falar?
A voz saiu desconfiada, cautelosa. Izuku sabia exatamente do que queria falar e o que iria fazer.
— Eu tenho uma pergunta. E um pedido.
Ainda mais cauteloso: — O quê?
— Primeiro, se quer ficar livre do Endeavor. Sair da casa dele, de uma forma que ele nunca mais vai poder se aproximar de vocês.
O outro pareceu surpreso com isso, mas não fez menção de se erguer. Apenas o olhou, mistificado, como se tivesse falado alho impossível e, por isso, difícil de compreender.
— E o pedido?
“Se acautele com a raiva do homem calmo.”
Em outro universo, o passado de Shoto Todoroki chocaria Izuku, e ele lhe daria apoio e o ajudaria a começar a aceitar sua quirk como sua.
Nesse universo, Izuku havia visto de perto o resultado desse tipo de abuso, perdido pessoas por ele. Ele havia sofrido de perto da negligência desse tipo de herói.
Nesse universo, isso havia se tornado pessoal.
— Permissão para foder com a vida dele no processo.
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Rei Todoroki não costumava receber muitas visitas, exceto por Fuyumi e, raramente, Natsuo. Ela sabia quem ela queria que viesse a visitar, mas não achava que merecia isso.
Ela passava noites acordada pensando naquela madrugada. Ouvindo o barulho da chaleira, ouvindo os gritos de desespero. Quando a colocaram naquele lugar, ela nem mesmo resistiu. Era o mais seguro, só assim ela nunca mais machucaria seus filhos. Shoto, seu Shoto, estaria seguro dela. Pelo menos dela.
Então, ela não esperava visitas de Shoto. Ou de muita gente. Ainda mais no meio da madrugada. Ou vestido daquela forma.
A pessoa estava apenas lá, pendurada na janela, no quinto andar. Uma janela que estava sempre trancada. Uma janela com alarmes de segurança.
Dizia muito da disposição dela que não apertou o botão de emergência ao seu lado de imediato, mas apenas piscou, imaginando se estava sonhando ou alucinando. Não seria a primeira vez. Ela só não entendia a razão de sonhar com uma pessoa assim.
— Por que estou alucinando com alguém vestido de gato?
Ouviu um som estranho, parecido com uma risada vindo de janela. A alucinação entrou no quarto, em passos mansos. A postura relaxada e amigável.
— Rei Todoroki, eu sou Noraneko. Eu sei que isso é estranho e que provavelmente vai querer chamar a segurança, mas por favor, me ouça por alguns minutos, não vou te fazer mal.
Noraneko. Ela tinha ouvido falar desse nome. Natsuo? É, Natsuo disse alguma coisa.
Ah sim, agora era lembrava.
— O vigilante?
— Culpado. Está bem mais calma com a situação do que pensei.
— Você é uma criança.
O vigilante parou no meio do quarto, parecendo ter sido pego de surpresa.
— Hum?
— Você, é uma criança.
Rei Todoroki não era uma idiota, mesmo com tantos achando que era. Ela já havia sido, se casar com aquele homem era a prova de que podia ter falta de senso, mas seus filhos tinham que ter puxado a inteligência de algum lugar, e não seria de alguém obcecado com rankings.
— Oh. Hum.
Ela sorriu levemente com isso. Aquela estava sendo uma noite estranha, sem dúvidas.
— Eu sou amigo do seu filho.
— Natsuo?
— Shoto.
Ela paralisou com isso, mais cautelosa. Conseguia sentir a dor pulsando em seu peito, forte como sempre.
— Vocês realmente se parecem.
— O que está fazendo aqui?
Rei sentiu seu rosto fechar. Um vigilante. Que conhecia seu filho.
— Se quiser ameaçar-
—Não! Não é isso. Somos amigos, dou minha palavra. Não que ela valha de alguma coisa para você porque não me conhece, mas-
“Como uma coisa tão pequena consegue falar tanto?”
O outro pareceu ponderar algo, até suspirar de forma derrotada e mostrar o rosto, devagar. Rei arregalou os olhos.
— Eu nunca fui bom em esconder essa identidade.
— Você é uma criança.
— Pensei que sabia?
— Não de certeza. Meu Deus, essa cicatriz? Quem fez isso? Você está bem? Estuda com meu filho? Shoto está bem?
O vigilante, a criança, pareceu pego de surpresa por sua enxurrada de perguntas. Rei sempre teve um ponto fraco por pessoas que pareciam estar com problemas, e aquele garoto se encaixava bem na categoria. Ninguém daquela idade deveria parecer tão cansado.
— Eu...Sim? Hum. Posso...posso sentar?
Ela assentiu rapidamente, apontado a poltrona ao seu lado.
— Eu vim aqui, porque quero ajudar Shoto. E vocês. Se me permitir.
Rei pausou, seu coração acelerado, imaginando o que aquele garoto poderia saber sobre eles para estar oferecendo aquilo.
Ela olhou o botão de emergência, e então o garoto sentado na poltrona, os pés nem tocando o chão. Rei Todoroki ponderou a situação, no que deveria fazer, mas sendo convencida pela curiosidade.
Como foi dito, Rei era inteligente, mas não constantemente conhecida por ter bom senso.
— Estou ouvindo.
Seria a primeira vez, de muitas, que Rei Todoroki receberia a visita de Noraneko.
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Era um dos truques mais antigos.
Ele lembrava de muitos anos antes, em uma época em que se ter uma quirk era perigoso demais, quando se expor não era uma opção, de como ensinou esse truque ao seu irmão.
All For One, como ele era agora lembrado, lembrava do sentimento que era um misto de horror e expectativa, de imaginar quando seu irmão se mostraria como ele quando precisaria se esconder também. Seu irmão, no fim de tudo, se mostrou completamente diferente dele, mesmo quando lhe presenteou com uma quirk, sem saber que no fim de tudo ele tinha uma todo o tempo.
Tudo isso havia ficado para trás, não era mais importante. Só o truque era, as mesmas palavras repetidas em sussurros naquela época. As mesmas palavras que seu irmão havia passado adiante, tinha certeza, que foi o que o levou a ter tanto trabalho não apenas com seus sucessores, mas também com Itsume.
All For One ensinou também à Isamu, pouco antes de lhe dar o novo nome de Hisashi: “A melhor forma de esconder algo, pode ser esconder à plena vista.”
Era o que Itsume havia feito. Era o que Isamu, Hisashi, havia feito, pelo jeito. Quando ele usou o nome Midoriya de forma tão aberta, imaginou que fosse um recado para ele, que havia sido proposital para o provocar, como todo bom filho rebelde. Usar um nome que o atingiria mais.
Agora, pensava se era exatamente isso que ele almejou que ele pensasse. Assim como seu irmãozinho, eles tinham usado seus ensinamentos contra ele mesmo. Isamu, Hisashi, teria sido um ótimo sucessor, melhor ainda do que Tomura. Era interessante como seus três arrependimentos tinham tanto em comum.
All for one não tinha como ter certeza no momento, como colocar a dúvida em confronto com provas, não com todas as amostras de Min Han Su destruídas anos antes, não quando o Noumu havia desaparecido. Não quando não confiava totalmente no doutor, mesmo ele sendo seu maior aliado, com essa informação no momento.
Ele só poderia cogitar, até ter uma fonte para confirmar isso.
Tomura não era o único que teria um interesse em Izuku Midoriya daqui para frente.
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