A teoria do caos
20 Capítulo XX - As promessas que fazemos e que nos quebram
Notas iniciais
“Eu sei que é ruim quebrar uma promessa, mas eu acho que é pior deixar uma promessa te quebrar.”
― Jennifer Donnelly, A Northern Light
O monitor piscou em segundos, a imagem do outro lado da tela sendo substituída por estática.
O doutor se aproximou do equipamento, naquele ponto era uma rotina. Não havia nada que pudesse ser feito para uma melhora da situação que já não tivesse tentado. Pelo menos até encontrar uma quirk correta para reverter todo o dano que All Might havia causado.
— Como está Shigakari?
— Chateado pelo o que acredita ter sido o fracasso da missão.
Fez um som de entendimento. Mesmo sem os olhos no rosto deformado, All for one o seguia no exato ponto onde estava. Benefícios de uma quirk bem conveniente conseguida anos atrás.
— E discorda?
— Ele conseguiu exatamente o que era esperado, mesmo que não soubesse que era isso que precisava.
Deu uma pequena risada. Sempre com as maquinações. Sempre um passo à frente.
—E ainda assim, algo está o incomodando.
Anos de convivência tinham suas vantagens. Embora aquela aliança dos dois fosse de mútuo benefício, havia coisas sobre os objetivos de All for one que nunca entenderia, mas era o mais perto de fazê-lo.
— O ataque à Tomura pelo noumu foi algo inesperado.
A situação também havia o pego de surpresa. Aquela cobaia em si não havia mostrado nada de diferente dos outros. Pensar que talvez ele tenha disfarçado a própria consciência era fascinante, levando em conta que o número de quirks forçadas nele havia sido maior do que o normal.
Era uma pena que não tinham como recuperá-la.
— Bem, era de se esperar algum progresso com eles.
All for one parecia ponderar algo profundamente.
— Admito que quando Tomura estendeu o pedido para criar esse noumu em especial não esperei muito. Nunca me intrometi no pequeno projeto pessoal dele, é importante que ele tome as próprias decisões. Penso se cometi um erro.
O doutor não esperava essa mudança súbita, ainda mais em razão do noumu. Era de se esperar um progresso do tipo com algum deles, depois de todos esses anos. A pesquisa de Han Su havia ajudado bastante. Era uma pena que boa parte dela havia sido destruída por Shimizu e o sobrinho, mas o pouco que conseguiu recuperar ajudou imensamente.
— Eu imagino — questionou cuidadosamente. — Que isso não seja apenas sobre o noumu? Isso é sobre a obsessão de Shigakari?
All for one sorriu com isso, o que no seu rosto era um tanto desconfortável de se ver.
—Há muito mais envolvido do que antes imaginei. Levando em conta quem eu tenho certeza que é o pai do garoto, Tomura sentir algum tipo de conexão não é de todo estranho.
O sorriso dele diminuiu, mas não sumiu totalmente. A expressão, mesmo no rosto deformado parecia distante.
—É instintivo se procurar família.
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Dois anos, sete meses e 5 dias atrás
Foi a promessa de uma quirk que atraiu Haru. O pior de tudo é que ele deveria ter desconfiado da verdade. Cinco anos se virando sozinho nas ruas, ele sempre havia se julgado tão esperto por ter sobrevivido por tanto tempo e ainda assim ele havia caído tão fácil, seduzido por aquilo que sempre quis mais que tudo na vida, se apegando a um desejo absurdo e infantil que apenas talvez com uma quirk ele pudesse ser aceito. Talvez até voltar para casa.
"Estúpido."
Quinze deles morreram na primeira noite depois da primeira injeção.
O eco dos pedidos de socorro abafados pelo sangue alojado em suas gargantas nunca sairia da sua cabeça. O sangue parecia ser incapaz de ficar onde deveria, escapando deles por todos os orifícios e poros, banhando o chão branco e estéril.
Haru revia a cena sempre que fechava os olhos, dos outros morrendo a passos de distância dentro daquela gaiola de vidro sem que pudesse fazer nada enquanto eles pediam socorro.
E Haru estava lá por conta própria, quando a maioria havia sido forçado, arrastado das ruas no meio da noite, como cães de ruas sendo pegos pela carrocinha. Cães sem dono, que ninguém sentiria falta.
Outros foram levados de abrigos, legalmente e pela mão, como cordeiros guiados para o abate.
E havia os que haviam sido vendidos pela família, como Yana e Izuku.
Haru se sentia tão inocente, tão estúpido. Ele não havia sido o único enganado, mas havia sido o que chegou mais longe nos testes. Não restava muitos deles agora.
Não restava muito tempo.
Haru sabia pela cor das suas mãos, ele reconhecia os sinais. Ele não era mais tão estúpido agora. Talvez tenha sido a convivência com Izuku nas últimas semanas que o tornou mais perceptivo. Que o fez ver a verdade.
A princípio nenhum deles o levou muito a sério. Izuku era terrivelmente otimista e por isso os menores o rodeavam mais pelo senso de segurança. Yana havia se agarrado nele desde o primeiro dia e, por alguma razão, ele havia conseguido que eles não separassem os dois em celas individuais.
Izuku era um dos mais novos também e sempre parecia ter a cabeça longe, conversando coisas aleatórias que só servia para irritar os demais. Ou talvez fosse o ar dele de bem cuidado, diferente deles. Izuku não era um deles, ele não tinha como saber como era.
Demorou algum tempo para Haru perceber a verdade. Aqueles olhos observavam tudo, armazenando informações. Notava como ele fitava os monitores quando os levavam, como ele sentava nos pontos cegos das câmeras, como ele sabia exatamente o que dizer aos médicos para conseguir algo. Os olhos dele sempre seguiam uma das mulheres no laboratório e notou ela retribuindo o olhar algumas vezes. Era sutil, mas Haru ultimamente sempre estava o observando e por isso conseguia ver.
“Eles se conhecem.”
Haru notou como ele lidava com o psicopata que vinha o ver no meio da madrugada. O mesmo que havia ameaçado desintegrar vários deles e que agora nem mesmo os olhava, fixo em Izuku. Os dois sentavam no chão de lados opostos do vidro, até mesmo os médicos se afastavam dele, o medo evidente depois que o viram desintegrar um dos homens que tentou o fazer ir embora antes que terminasse a conversa.
E apesar de tudo isso não havia medo em Izuku.
Ele não sabia o que se passava na cabeça do garoto mais novo, o que ele estava planejando quando abaixava a cabeça para o outro garoto e o ouvia atento. Para qualquer um ele parecia submisso, mas Haru tinha apenas a sensação de que não era o garoto mais velho que estava no comando daquele jogo.
Haru não entendia, mas ele tinha uma certeza cega naquele ponto que se alguém conseguiria sair vivo dali seria Izuku.
Conseguia sentir os olhos dele naquele momento, seguindo o movimento das suas mãos enquanto quietamente desmanchava a camisa puída entre os dedos em movimentos sutis e calmos.
— No que está pensando, Haru?
Yana dormia recostada nele, como sempre. As últimas idas ao laboratório haviam custado ao corpo pequeno. Era impressionante o quanto ela havia durado, ultrapassando as expectativas de todos.
"Ela é uma sobrevivente. Eles dois são."
—Hum. Nada em particular.
Os olhos de Izuku ainda estavam nas suas mãos. O cabelo dele, cortando rente dias atrás após algum exame que preferia nem pensar, deixava a mostra a expressão analítica.
Haru sorriu um pouco.
“Você sabe no que estou pensando.”
—E você?
—Eu? No que vou fazer quando sairmos daqui.
Haru pausou e olhou o outro. Izuku fitava Yana com suavidade.
"Eu me pergunto se um dia alguém me olhou assim."
— Minha mãe vai amar Yana.
“Zuko, não diz isso-”
— E você pode vir comigo também, se quiser.
“Droga, Zuko.”
Suspirou e continuou seu trabalho.
—Tem muita coisa que quero mostrar a vocês. E vai adorar o gosto do Katsudon da minha mãe.
“Você é um bom sujeito, Zuko.”
Ele continuava tagarelando, montando o cenário dos sonhos em sua mente. Sobre uma casa no fim da rua, um parque próximo e uma praia com uma orla. Sobre uma oficina dentro de um porão e coisas que explodiam em suas mãos. Sobre uma mulher de cabelos verdes e um abraço caloroso.
Um cenário impossível, que sumia entre suas mãos manchadas. As mesmas mãos que indicavam quando os outros estavam prontos para serem trocados de laboratório.
Indicando o que eles estavam prestes a se tornar.
—Izuku.
O outro parou, ainda sem o olhar.
— Sabe, quando você disse que ia ser um herói eu não levei muito a sério, achei que era lunático, para ser sincero.
Deu uma risada sem graça. Izuku ainda fitava suas mãos.
— Mas agora eu acho que realmente consegue ser, justo por ser um lunático, Zuko.
Deu um suspiro, dando um segundo nó, um sorriso mais verdadeiro no rosto.
—Vai ser bom ter alguém como nós entre eles. Mostrar que existimos. Que talvez a gente não precise morrer como ratos. Que somos mais do que...como você chama?
Os olhos verdes estavam nos seus e notou que eles brilhavam com lágrimas. Apreciava isso. Nunca imaginou que alguém se sentiria assim por ele, mesmo que já tivesse percebido que aquele sujeito se sentiria assim por qualquer pessoa.
Izuku não devia estar naquele lugar. Yana e ele não mereciam.
—R.relíquias.
—Isso, relíquias. Um nome bonito.
Esticou as pernas e virou o rosto para o outro, encostando a testa no vidro.Izuku ergueu a mão e tocou no vidro, os olhos desesperados. Ele abriu a boca, mas o impediu de falar.
“Eu não quero me tornar um monstro.”
—Heróis ajudam pessoas e eu preciso de um favor. Preciso que me prometa uma coisa.
Izuku hesitou, mas assentiu.
“Me deixe ter isso. Me deixe ter escolha em alguma coisa na minha vida agora.”
Sorriu, enterrando o medo e seu instinto de sobrevivência fundo. Colocou a mão na do outro através vidro.
— Não interfira.
“Me deixe ir como eu mesmo.”
Ele viu a negação nos olhos dele, o conflito, mas Haru no fundo sabia qual seria a resolução. Izuku havia visto assim como ele a verdade, ele enxergava a situação melhor do que qualquer um dos outros.
Izuku sabia que havia destinos piores do que aquele.
“Zuko, desculpe por isso.”
Quando os médicos chegaram pela manhã o corpo de Haru estava pendurado pelo pescoço na grade do teto da cela, no ponto cego das câmeras.
Min Han Su olhou furiosa para o garoto na cela ao lado, sentado e olhando para o nada, uma das cobaias dormindo em seu colo.
—Por que não disse nada?! Podia ter pedido ajuda!
A resposta dele foi apenas o silêncio.
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Dias atuais
“Zuko? Não deixa eles me fazerem um monstro. Promete?”
Izuku tentava não pensar neles.
Pensar neles sempre o lembrava que ele havia sido o único que havia sobrado e que ele mesmo havia se encarregado disso quando destruiu os tanques com os noumus naquele dia. Ele havia feito uma promessa a Yana, como havia feito uma a Haru.
Izuku sentia essas promessas como correntes espinhosas fixas em seu pescoço, o cortando sempre que se movia. Ele havia aprendido a respirar com elas, como havia aprendido a viver com as escolhas que fez enquanto estava preso naquele laboratório.
Ele tentava não pensar, mas ali, olhando para Takashi, tudo havia voltado com uma claridade torturante.
“Dessa vez, vou fazer uma escolha diferente.”
Izuku não ia perder mais ninguém.
— Eu não sei como conseguiu isso.
Os olhos do noumu, de Takashi, o seguiam enquanto preparava o quarto. Os túneis abaixo da torre levavam até o sistema de esgoto e não era o lugar mais agradável, mas era o mais seguro no momento para todos. Deixar Mei perto de Takashi já havia sido um risco e seu coração acelerava só de pensar em como podia ter dado errado.
— Manter sua consciência. Provavelmente a mesma razão dos experimentos da Min não terem dado certo comigo. Algum tipo de imunidade?
Jogou os colchões empilhados e olhou os mantimentos ao redor. Taka não havia bebido ou comido nada, apenas havia ficado sentado perto da parede o seguindo com os olhos enquanto os gatos o usavam como travesseiro.
— Akira disse que depois da terceira quirk você estaria acabado, mas deve ter pelo menos cinco em você pelo o que vi. O que há de diferente? Não que esteja reclamando, menos trabalho para desfazer isso.
Suspirou e o olhou. Ele havia se movido, o rosto virado em sua direção. Os olhos verdes inteligentes no rosto monstruoso.
“Zuko? Não deixa eles me fazerem um monstro. Promete?”
O destino era cruel.
Sentou no chão do lado do outro, se encostando nele pesadamente. Era familiar estar assim, mesmo naquela situação.
—Eu vou dar um jeito.
Se Izuku havia aprendido algo nos últimos anos havia sido isso: passar por cima de situações impossíveis.
— Eu prometo, Taka.
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Akira parou o carro no acostamento. Por alguns momentos cogitou em não voltar para casa, mas sentia uma necessidade quase dolorosa de verificar Mei no momento.
Sempre que via Izuku daquela forma a imagem da sua irmã ficava sobreposta a dele.
“E se fosse eu, Takashi?”
Talvez ninguém sentisse sua falta por muito tempo. Ela havia se exilado tanto de todos que agora vivia apenas na beirada da vida da sua família. Como um fantasma.
“Mei sentiria minha falta.”
Por algum tempo.
“Mei sempre se distrai fácil.”
A dor nos olhos de Izuku estava presa em sua retina. Não conseguia escapar dela.
“Teria feito alguma diferença se eu tivesse dito a verdade?”
Ela quase havia falado naquela noite. Em diversos momentos ela quis dizer a Izuku sobre seu pai, sobre sua família, sobre a razão de Takashi ter aguentado aquelas quirks sem quebrar.
Mas ela havia feito uma promessa.
Um barulho abrupto no teto do seu carro a fez reagir de imediato, pegando a arma e apontando para o teto.
— Hey, sem me matar, Hatsume-san.
Soltou o ar em irritação e o rosto do outro surgiu na janela, os olhos quase fechados em um sorriso.
— É perigoso ficar parada assim no meio da estrada a noite, Hatsume-san.
—Takami.
O outro saltou do teto, as asas abertas o fazendo pousar suavemente.
—Hawks, na verdade. Estou em serviço.
Revirou os olhos avermelhados e abaixou a arma.
—O que quer aqui?
A expressão dele era idiota, um sorriso falso e largo. Naquelas horas ela lembrava o quanto Takami ainda era jovem. Comparado a ela, ele ainda era apenas uma criança.
Uma criança que a comissão havia abocanhado e não soltado mais.
Que eles estavam arruinando como fizeram com ela.
—Perguntar se quer dar uma volta.
—Takami-
Ele colocou as mãos na frente do corpo em defesa.
—Sem estresse, senhora. Sem voos, entendido.
O sorriso dele morreu.
—Eu soube do ataque em U.A.
—É, a imprensa está em polvorosa.
A expressão dele estava totalmente séria agora, notou as asas tensas e as mãos em punhos nos bolsos.
—Não foi a imprensa que me falou do ataque.
—Não foi...A comissão.
Ele assentiu e Akira sentiu um peso aumentar em seus ombros.
Ela não tinha certeza da razão da comissão ter falado com ele sobre isso, mas podia ter uma ideia.
—Acho que realmente devemos conversar.
Ele pareceu relaxar com a concordância. Seu lábio se curvou e se não o conhecesse bem não teria notado em como ele estava nervoso.
—O garoto está bem?
Preocupado, na verdade.
“Não, ele não está.”
— Ele sabe como se virar.
Takami deu uma pequena risada.
—Como o pai dele, pelo jeito.
Ela não respondeu, ou acabaria dizendo que isso não era uma coisa boa. Os dois sabiam, afinal, qual havia sido o destino de Hisashi. Takami mais do que qualquer um.
Ele estava lá quando aconteceu.
No fim de tudo, Akira Hatsume não havia sido a única que havia ficado presa a uma promessa a um homem morto.
Keigo Takami também tinha suas correntes de Hisashi para arrastar.
—Quer uma carona?
Ela o fitou de cara feia e ele alçou voo com uma risada. Se preparou para o seguir no carro, mesmo que soubesse que ele arrumaria algum poleiro alto para conversar. Sua perna nunca agradecia por isso.
“As coisas que você deixou em minha responsabilidade, Hisashi.”
Izuku tinha que ter tido o costume de pegar strays de algum lugar.
……………………………....
Mei não estava feliz.
Suas escapadas haviam sido bloqueadas nos últimos dias e isso a fazia se sentir extremamente inquieta.
E se Izuku resolvesse sair sem ela? Sem seus bebês e back up? Ele não estava com uma cabeça muito boa para sair. Sem ela e distraído ele podia muito bem se machucar ou se revelar ou… pior.
Isso lhe dava uma sensação estranha e tornava sua necessidade de mexer as mãos ainda mais forte.
Ela jogou o terceiro rastreador na bancada e procurou a caneca térmica, grunhindo infeliz ao ver que estava vazia.
"Por que o café sempre acaba?"
— Um rastreador resistente a eletricidade e ao calor. É, mas o que mais? Era uma quirk em USJ. Que tipo de quirk? Água também. E frio. Eletricidade principalmente. Impulsos elétricos constantes pararia a comunicação?
Ela não conseguia parar de pensar e pela primeira vez via isso como uma desvantagem.
Mei Hatsume estava preocupada.
Era uma conclusão instigante.
Grunhiu vendo o café caindo no recipiente da máquina com afinco.
Desistindo de pegar a caneca tirou o recipiente da máquina e se preparou para beber dali mesmo, apenas para ele sumir da sua mão.
Akira a olhava de forma exasperada. Quando ela tinha entrado na sua oficina?
— Mei. São 3 da manhã. É tarde.
— Na verdade é cedo.
Akira pareceu respirar fundo. Mei não entendeu a razão. Não havia nada demais acontecendo.
— Café. Meu.
Akira ergueu mais a jarra fora do alcance dela. Por que Akira estava sendo tão malvada?
— Sabe o que mais? Se dormir agora, amanhã te levo para ver seu amigo.
Pausou e a fitou em desconfiança.
— Fácil assim? Por duas horas de sono?
— 8.
— 4.
— 6. Ou te desmaio, sabe que posso fazer isso.
Como Mei disse: malvada.
— Meu café antes.
— Não.
……………
— Não.
Izuku piscou lentamente e olhou para cima. Quando Hichan havia chegado ali?
— Você abriu a porta para mim faz uma hora, Midoriya. E não, não vou deixar comer isso.
Olhou para seu cereal com a testa franzida. Talvez tenha dissociado um pouco, mas não havia nada de errado com cereal.
— Exceto que ninguém com sanidade coloca café no cereal.
Pessoas eram estranhas. Hichan conseguia ler seus pensamentos? Era algum aspecto da quirk dele?
— Por tudo o que é mais sagrado...Você está falando em voz alta, Midoriya.
Fazia sentido.
— Que horas são?
Notou o outro sentado oposto a ele na mesa. Hichan parecia cansado, como sempre. Ele removia térmicas de uma sacola plástica.
— 8 da manhã. Aqui, meu pai mandou isso quando falei que vinha.
Hichan estendeu uma térmica. Izuku se sentia mais desperto de repente.
— Shinsou-san? Ele deixou você aqui?
Hichan rolou os olhos.
— Não sou um idiota, ele me deixou na estação. Eu disse que ia me esperar lá.
— Men-ti-ro-so.
Hichan era bom em revirar os olhos. E a sopa era uma delícia.
— Devia me agradecer, me livrei da escolta policial, ele não vai estar feliz quando sair do controle.
— Escolta?
— Acredito que todos os alunos em USJ devem estar tendo.
Hichan o observava comer com uma cara peculiar, avaliativa. Izuku sabia que ele queria perguntar alguma coisa.
—Midoriya.
“E lá vamos nós-”
—Eu estava no plaza quando aconteceu.
Izuku pausou e respirou fundo.
—O que aconteceu?
O outro garoto desviou os olhos de forma desconfortável.
—Sua interação com...a coisa. O monstro.
A palavra deixou um gosto amargo em sua boca e mordeu a língua para não o corrigir. Ele não queria soltar informações demais. Izuku nem mesmo queria que Mei, em quem confiava totalmente, soubesse. Ela saber havia sido inevitável, mas era o fato que a aproximava demais da situação de Izuku e Akira. O mínimo que devia à Akira era tentar não meter a irmã dela nesse aspecto da sua vida.
Quanto mesmo pessoas estivessem envolvidas nisso melhor.
“Ainda assim.” A voz de Kacchan lembrou. “Ainda assim, se quer mesmo resolver isso, sabe que vai ter que meter mais gente no meio, nerd.”
A verdade era terrível.
“Você não idiota, sabe o que tem que fazer.”
—Ele parecia reconhecer você. E sua reação-
—Hitoshi.
O nome fez o outro pausar. Izuku não sabia como estava sua expressão, mas sentiu que Shinsou estava ainda mais desconfortável. Izuku suspirou e fechou a térmica. Ele se sentia tão cansado no momento.
—Quem mais estava lá?
—Todoroki.
—Ele viu?
—Provavelmente.
Shouchan era menos mal. Ele realmente gostava de Todoroki, havia algo nele que o fazia se sentir...em casa. Os dois tinham muito mais em comum do que conseguia entender, mas já havia notado que o outro adolescente era um pouco propenso a chegar à conclusões erradas. O que poderia ser bom ou ruim nessa situação, dependendo de que atitude ele fosse tomar com elas.
Ele apenas agradecia que não tinha sido Kacchan. Kacchan não largava um osso por nada e Izuku, infelizmente, não segurava a língua perto dele.
— Midoriya-
— Hitoshi, eu vou ser bem sincero com você, eu não vou contar o que está acontecendo. E não porque não tem as moedas para desbloquear esse nível de amizade, porque depois do que aconteceu e de tudo que sabe, você tem.
O rosto do outro corou levemente com isso.
“Ele parece tão jovem, assim.”
Izuku se sentia tão velho nessas horas.
—Eu não vou contar porque quando abrir essa porta não vai conseguir mais fechar, e o outro lado é feio demais. Acredite em mim, não vai querer se meter nisso.
Esperou alguma resistência, mas o que recebeu foi silêncio. Hitoshi recolheu a térmica, que agora via como uma oferenda para as perguntas, e assentiu a cabeça.
—Se-
Ele pausou e seu rosto fez uma expressão engraçada. Izuku quase sorriu com isso. Hitoshi parecia o tipo de sujeito que não era bom em expressar os sentimentos livremente. Quando se é muito machucado, você tende a criar máscaras. As pessoas assim não podem usar a verdade contra você, se tudo o que sabem é falso.
Ele era bem familiar com isso.
“Essa sociedade machucou você também, hein, Hichan?”
—Midoriya, eu preciso que me prometa uma coisa-
“Heróis ajudam pessoas e eu preciso de um favor. Preciso que me prometa uma coisa.”
— -Se precisar...de ajuda, peça. Eu...pensei que você tinha morrido quando levaram você do plaza, não foi muito...agradável. Se...se precisar de mim, eu posso ajudar. Você me salvou uma vez, sabe. Eu só-
Izuku sentiu seus olhos arderem por isso. Hitoshi se esforçou para o olhar durante o discurso e viu a sinceridade nele, mesmo com o desconforto. Talvez o que dizem é verdade, amizades fortes se fazem em momentos de desespero.
A desgraça une as pessoas.
— Hichan.
Interrompeu o outro com um leve sorriso.
— Você vai ser um ótimo herói, já te disseram isso?
A expressão do outro se tornou incrédula e desconfiada, e então vulnerável de uma forma que aflorou uma conhecida fúria em si. Uma fúria que Takashi tantas vezes temia por ser problemática.
Izuku odiava um sistema que causava isso em pessoas como Hitoshi. Um sistema que matou seu pai, Yana e Haru e os outros, machucou sua mãe e Takashi, que criou Shigakari.
Um sistema que cria tanto lixo e não se responsabiliza por ele.
— Eu-
Antes que Hitoshi conseguisse terminar a porta se abriu com estrondo e Mei entrou em toda a sua exuberância, parecendo mais descansada que os dois e arrastando uma sacola com coisas.
— Ohoho! Vocês estavam fazendo bebês sem mim?
Hitoshi se engasgou com o cuspe, a cara escandalizada.
— Isso é cereal com café? Quero.
— Pelo menos alguém aqui entende meus gostos.
Hitoshi grunhiu e pareceu fazer uma prece em voz baixa.
Quando os dois foram embora horas depois Izuku se sentia menos à deriva.
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Bakugou não sabia como aquilo havia acontecido, mas quando as aulas retornaram ele se viu indo para U.A com aqueles dois. Eles pareciam mais quietos, mas ainda terrivelmente otimistas em sua opinião para o horário. Otimistas ao ponto que se perguntava o que diabos estava fazendo ali.
Talvez fosse o fato de eles estarem se esforçando para usar os sinais, mesmo que ele estivesse com o aparelho, ou como eles dois eram quem estavam com ele em U.S.J quando foi parar naquela zona. Como o nerd costumava dizer?
“A desgraça une as pessoas.”
Olhou desconfiado o carro da polícia os seguindo. Ele não precisava de proteção!
— Morar sozinha deve ser muito interessante!
Voltou a focar na conversa a contra-gosto. Sua velha havia o obrigado a trazer bolinhos para ‘dividir com seus novos amigos’. Bakugou quase explodiu o pacote na cara dela, mas não valia a pena a retaliação que viria. E a cara do seu pai,que havia feito os bolinhos, quando percebeu o que faria o fez pausar. Aquele homem tinha um jeito de fazer Katsuki aceitar as coisas que era bem efetivo.
Uma ameaça de lágrima em Masaru e sua mulher e filho se comportavam.
Quando chegou na estação apenas jogou o pacote na cara de sorridente sem dizer nada.
Ainda assim se obrigou a pegar um durante o caminho.
Seu pai sabia cozinhar como ninguém, porque se dependesse da velha eles morreriam envenenados. Katsuki aprendeu com ele a se virar.
— Nem tanto. É bem solitário.
— Por que escolheu, então?
Bochechas coçou a cabeça e terminou de mastigar, um sorriso sem graça no rosto.
— Minha família mora longe e ia ficar caro a ida todo dia. Então alugamos esse apartamento. É bem pequeno e apertado e o saldo mensal tão apertado quanto, porque não temos muito dinheiro, mas…mas eles se esforçam muito. Quando eu finalmente for uma heroína vou pode ajudar os dois!
Ela deu de ombros, o sorriso ainda no rosto.
Sorridente trocou um olhar preocupado com Bakugou. Grunhiu e desviou os olhos para o bolo nas mãos.
Katsuki era observador. Ele havia notado algumas vezes como bochechas comia pouco na escola, achou que era algo de garotas, o que era bem ridículo de fosse. Alguém treinando para ser uma heroína tinha a obrigação de comer bem. Ontem na casa dele, ele reviu isso. Bochechas era uma traça, ela só perdia para rabo de cavalo, que devorava mais comida do que acreditava que cabia em alguém. Pela quirk dela, se havia ouvido bem.
Bochechas tinha um apetite. E ver como ela devorava esse bolinhos também apenas mostrava isso. Se perguntava se ela havia pelo menos tomado café naquela manhã.
Katsuki lembrava dos Midoriya, de como Deku também tinha que pular lanche na escola às vezes para guardar dinheiro. Tia Inko trabalhava vários turnos, Deku fazia serviços na vizinhança por dinheiro e ainda assim eles sempre pareciam apertados, com as aulas extras e tendo que salvar para a escola no futuro. U.A era cara. Deku cedo aprendeu a se preocupar com isso.
Para Katsuki, quando era bem criança era um conceito estranho, já que ele sempre teve o que quis, sua família tinha essa vantagem.
“Que inferno, o que é isso agora?”
“Sentimentos, Kacchan. Não reconhece? Preo-cu-pa-ção.”
“Vai pro inferno, voz do Deku.”
Katsuki tomou o saco da mão de sorridente, enfiou o bolinho lá dentro e empurrou ele para a garota sem dizer nada.
—O que-
—Calada.
Grunhiu e apressou o passo. Ignorou o sorriso gigante do outro garoto com isso, que ficou para trás assegurando bochechas que os bolinhos eram dela. Os dois correram e o alcançaram já no portão.
Os três não falaram mais disso.
A partir daquele dia, os dois garotos passaram a convenientemente trazer extra no lanche ou comprar comida em excesso.
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Todoroki estava na esquina do cat cafe quando saiu de lá, como parecia estar se tornando uma rotina. Notou os policiais na outra calçada. Um deles o fitou longamente quando se aproximou e então seu rosto se acendeu em reconhecimento antes de ele começar a falar no comunicador.
Controlou a risada ao pensar em como eles devem ter o procurado nos últimos dias.
Todoroki estava os ignorando. Havia pó de donuts no queixo dele e pelo de gatos no uniforme. Os olhos dele tinham a mesma expressão em branco de sempre, se não conseguisse notar os pequenos detalhes. A testa franzida em concentração, certa expectativa nos olhos.
Os detalhes que diziam que Izuku iria ter que responder perguntas.
Os detalhes também lhe diziam que Todoroki estava mancando de uma perna e quando ele se moveu para caminhar ao seu lado, notou curativos nos punhos dele. Ele podia até pensar que havia sido resquícios de USJ, mas sabia que Recovery girl não teria liberado um aluno machucado.
E, mais que tudo, notar aquilo havia se tornado uma rotina também.
Isso lhe deixava um gosto amargo na boca e terrivelmente alerta, ainda mais pelas reações dele sempre que perguntava sobre o assunto.
— Todoroki.
Falou o sobrenome mais para si mesmo, mas o outro respondeu, saindo da concentração em que estava, provavelmente esperando chegar a alguma conclusão antes de fazer as perguntas. Shouchan, ele havia percebido, era uma pessoa direto ao ponto. Ele não tinha muita aptidão social para caminhar de forma cuidadosa em assuntos delicados.
Era engraçado como Mei, de certo modo, tinha coisas de Shouchan e Kacchan.
— Souchan, seu pai-
Deixou a pergunta no ar, mesmo já sabendo qual seria a resposta. Ele já sabia desde o primeiro momento em que ele havia se apresentado. Notou o outro ficar tenso, e isso o deixou ainda mais alerta.
—Endeavor.
Izuku assentiu com a resposta. O olhar de Todoroki foi um pouco mais frio em sua direção, cauteloso. Izuku ponderou o que falar, mas no fim deu de ombros e optou em ser sincero.
—Eu sinto muito.
Olhos heterocromáticos piscaram surpresos com isso, os dois parando perto do portão de entrada. Havia heróis por todo lado, com certeza por isso não havia ninguém da imprensa por perto. Carros de polícia na calçada.
Izuku se sentiu ainda mais desconfortável, por alguma razão.
“A razão é que tu é um criminoso.”
Ah é.
—Sinto muito?
Todoroki repetiu devagar e então assentiu.
— Por ter um pai herói, pela pressão.
— Não, pelo seu pai ser um babaca. Deve ser difícil viver com ele. Shouchan? Está tudo bem?
Todoroki se engasgou com o nada. Bateu nas costas dele e temeu um pouco ter irritado o outro assumindo algo errado, mas relaxou quando viu que ele parecia incrédulo, mas não chateado.
— Vamos nos atrasar!
Pegou o cotovelo do garoto mais alto e o puxou para dentro do portão, controlando a vontade de sair correndo da polícia.
“Perguntas evitadas com sucesso.”
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O clima na sala 1-A naquela manhã era sombrio.
Havia uma cadeira vazia na sala, a qual os olhos de todos passavam. Mineta não era nem de longe o colega favorito de ninguém, mas havia algo terrível em se perder um colega, ainda mais tão cedo.
Aizawa sempre foi a favor dos seus alunos entenderem o perigo da profissão no início, isso evitaria perdas desnecessárias mais tarde, mas ele nunca imaginou que a vida deles começaria assim. De forma tão brutal.
— Aizawa-sensei. O senhor está bem para já estar de volta?
Como se isso fizesse alguma diferença quando eles precisavam dele mais do que nunca.
— Vamos começar. Tenho anúncios à fazer.
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Escolta, polícia no campus, a implementação de dormitórios depois do festival de esportes, algo que estava sendo trabalhado com os pais. Izuku ficava feliz de ser do departamento de suporte nessas horas, morar dentro da escola ia acabar com sua...eh, carreira.
— O festival vai ser televisionado, mas não aberto a todo o público, apenas àqueles que receberem convites especiais.
Hichan não parecia incomodado com isso. Izuku ficava satisfeito com ele ser televisionado pelo menos, caso não acabaria com seu propósito principal em participar. Ele tinha um pronto a provar, para pessoas específicas, que nunca receberiam um convite.
“Vai ser bom ter alguém como nós entre eles. Mostrar que existimos. Que talvez a gente não precise morrer como ratos.”
Por enquanto as mudanças afetariam mais as classes de heróis, os principais alvos. Izuku estava seguro assim.
— Não faria sentido cancelarem o festival?
Aya, assim como todo mundo da sua sala, parecia ter recebido Hichan como um deles completamente. Provavelmente por ele conseguir controlar Izuku e Mei tão bem.
— Isso acabaria provando que os vilões ganharam. O festival vai mostrar a força da U.A. Foi o que Sensei falou.
— E mostrar também a quirk dos alunos, que no caso da sua faria você perder o efeito surpresa lá fora. O festival é o momento perfeito para os futuros heróis serem analisados e suas quirks dissecadas, se criando um contra-ataque para elas que seja uma vantagem quando eles finalmente se tornaram heróis. Não me olhem assim, eu quero o festival para ir para o curso de heróis, mas essa é verdade.
Os outros o olharam sérios. Aya balançou a cabeça.
— Você é assustador às vezes, Deku.
— Falando em assustador, eu queria falar com vocês em relação a algumas coisas que escrevi sobre as quirks, Satou, Nara, Jimin, eu andei pensando-
— Jovem Midoriya!
Izuku olhou em direção a voz, um sorriso se abrindo em seu rosto. Yagi-san estava na sombra das pilastras, acenando e o chamando até lá.
— É o homem estranho do hospital.
Izuku franziu o cenho com isso. Era estranho como Souchan, Kacchan e Hichan não sabiam quem era Yagi, mesmo ele sendo um professor da sala de heróis. Mesmo que ele fosse um professor apenas de teórica, naquele ponto os alunos deviam o reconhecer.
— Vou lá ver o que ele quer.
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Hitoshi observou de longe Midoriya conversando com o velho estranho. Havia algo familiar nele, provavelmente porque agora que estava atento, notava que ele estava sempre pelo campus.
Seja o que for que eles estavam conversando conseguia notar que Midoriya não estava feliz. O homem tocou no ombro dele com uma expressão em conflito antes de voltar ao corredor, acenando na direção deles com simpatia.
Quando Midoriya virou. Sua expressão que tinha um sorriso plástico se fechou momentaneamente, a testa franzida gravemente, antes de ele se recompor.
Era interessante como estava ficando bom ele ler Midoriya.
Quando ele estava perto o bastante na mesa, abriu a boca para perguntar, mas Hatsume passou na sua frente.
— Problemas?
Os dois trocaram um olhar, e tentou não ficar desconfortável em como eles pareceram se comunicar tão bem assim. Se aqueles dois fossem heróis, eles seriam uma dupla fantástica.
— Ele questionou meu endereço, por eu não ter comunicado a mudança. Parece que alguns professores tentaram verificar se eu estava bem e encontraram a casa vazia.
Fazia sentido. Midoriya estava em USJ, mesmo não sendo da classe de heróis. Se perguntava se ele teria que ficar nos dormitórios também. Tinha a sensação que ele não ficaria feliz com isso, mesmo que, pelo o que sensei havia falado, eventualmente todos os alunos teriam que se mudar.
— Você se mudou, Deku?
— Meu tio tem algumas casas na cidade, eu acabo dormindo e ficando na que for mais perto de onde estou.
O colega dele deu de ombros com isso e Hitoshi suspirou. Era surpreendente como aqueles sujeitos pareciam engolir tudo o que Midoriya falava. Tinha a sensação que não era por eles serem ingênuos, mas sim espertos demais.
Espertos o bastante para ficar longe dos problemas do Midoriya.
Como Hitoshi acabou ficando.
— Hichan, naquele dia, você não reconheceu Yagi-san, mas ele é professor do curso de heróis.
— Qual classe?
— Estudos Fundamentais dos heróis, se lembro bem.
— Tenho certeza que apenas All Might ensina essa classe.
Midoriya franziu o cenho, os olhos verdes avaliativos, indo para onde o homem havia sumido.
— Hum. Talvez vocês vão ter uma base teórica depois, ele é um herói aposentado, afinal.
Havia algo nos olhos dele que lhe dizia que estavam longe de ouvir o último sobre essa história.
— Ei, Izuku, sem Catchan hoje?
— Meu tio precisa mais dele do que eu hoje, Hiro-chan.
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Katsuki esperou que Deku iria estar no meio da balbúrdia com os extras do lado de fora da sala, mas não havia visto sinal do gremlin o dia inteiro.
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— Ele disse que estava em um hotel com tio, porque tiveram problemas com a casa.
— Ele passou o endereço?
Yagi negou.
— Ele disse que já saíram de lá.
Isso era uma esquiva, se Aizawa conhecia uma. A criança problema nem mesmo disfarçava.
—Falei que ele precisa atualizar o endereço o quanto antes e que esperasse uma visita da U.A em breve.
—Então com isso fica faltando Kirishima, Todoroki e Bakugou. Uraraka falei com os pais dela essa manhã, eles concordaram que até os dormitórios ficarem prontos é uma boa ideia ela ficar com um herói, Kayama se ofereceu. Os Bakugou e Kirishima estão programados para amanhã, acredito que vocês dois devam ir. Todoroki eu mesmo vou com Aizawa.
—Diretor?
Fazia sentido. Endeavor era denso, mas melhor não arriscar ele fazer alguma ligação entre Toshinori Yagi e All Might. Além do mais, a situação de Todoroki era extremamente...preocupante. A mera possibilidade da desconfiança deles estar correta lhe deixava com um gosto amargo na boca.
— E Midoriya?
— Midoriya é uma situação peculiar, que deve ser percorrida com cautela. Ele não é do curso de heróis, mas temo que o vilões possam ter adquirido um… interesse nele depois de USJ. Com a análise médica de Recovery Girl e a esquiva dele em relação a sua situação familiar, o cenário não parece muito seguro.
Dois alunos com suspeita de abuso e nenhum deles havia percebido até algo assim acontecer. Um deles na sua sala.
E o ano estava apenas começando.
Aizawa, a contragosto, já havia tomado sua decisão em relação a isso. Ele imaginou se fosse inevitável, desde que o conhecera anos atrás, que acabaria assim.
— Dependendo do que acharmos, eu tenho uma proposta em relação a Midoriya.
………………..
— Meu instinto diz que tem algo muito, mas muito errado com a situação dele.
Mesmo com Takashi sentado, Izuku tinha que subir em um banco para alcançar seu crânio. Ele ajustou a placa de proteção cuidadosamente, cobrindo o encéfalo a mostra. As ferramentas estavam espalhadas pelo chão enquanto trabalhava, Catchan ocasionalmente surgindo em seu ombro quando precisava de algo.
Franziu os lábios e suspirou. Takashi o fitava com os mesmos olhos inteligentes de sempre, ocasionalmente fazendo um som que gostava de pensar que era um incentivo.
— Talvez seja porque não gosto de Endeavor. Sabe quantas vezes semana passada ele queimou a casa de alguém nos becos tentando pegar um vilão? Seis. Ele não parece dá a mínima para o que tem ao redor dele.
Terminou o ajuste satisfeito, partindo para o visor. Com os ossos da face deformados, o globo estava saltado. Não havia umidade o bastante, ele devia estar em dor constante e sem poder fechá-los.
Izuku trincou os dentes e tentou se controlar, voltando ao trabalho.
— Eu sei que prometi não invadir a privacidade dos meus amigos, mas talvez eu tenha que quebrar essa promessa nesse caso. Vou observar mais um pouco, não me olhe assim. Prontinho. Agora, algo para se vestir.
………………..
Takashi ficaria decepcionado se soubesse que demorou tanto para pesquisar sobre Yagi.
Em sua defesa, ele se sentia tão seguro perto dele que empurrou a situação com a barriga o máximo possível.
Agora não conseguia resistir a curiosidade.
— O que me dizem? Vamos xeretar?
Olhou para os gatos. CatGum e Catchan pareciam bem insistentes em subir com ele enquanto os outros ficavam com Takashi. O gato preto enorme se esparramou em seu colo enquanto Catchan tomou seu espaço usual em sua cabeça.
Izuku suspirou com o conforto.
Os primeiros resultados já o deixaram alerta.
Não devia ser tão difícil encontrar informações sobre um herói, mesmo aposentado. E quando as informações vieram tarjadas ele teve certeza que esbarrou em algo grande.
— Hum. Okay. Café.
Aquilo iria demorar.
…………………….
Então aparentemente Toshinori Yagi era registrado como sem quirk até os 14 anos, quando subitamente desenvolveu uma e mudou os registros.
O quão interessante ainda que ele desenvolveu uma tão diferente das dos pais.
…………………………..
Pai retornou aos Estados Unidos e não voltou, mãe morreu quando ele tinha 13 anos. Um ano em abrigos e casas temporárias.
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Uma casa temporária listada, mesma época em que surgiu sua quirk.
Yagi viveu com uma heroína e Izuku sentiu sua alma sair do seu corpo.
Primeiro, porque a quirk dela era muito familiar com a que Yagi desenvolveu.
Segundo porque o sobrenome dela era Shimura.
— Oh.
Izuku abriu um novo dossiê.
……………………
Nana Shimura morreu quando Yagi tinha 16 anos.
No mesmo ano Yagi passou a viver com outro herói, que coincidentemente foi professor em U.A. Na mesma época em que All Might estudou lá.
— Hum. Mais café.
………………….
"All Might é o único que ensina essa classe."
……………
Izuku se sentia um pouco paranóico no momento.
……………..
Toshinori Yagi frequentou U.A. No mesmo ano em que All Might.
O fato de ter sido tão difícil de conseguir essa informação o deixou ainda mais alerta. Por qual razão eles tentaram apagar os registros de um aluno?
Não havia nenhum herói com uma quirk similar a dele, exceto por um. Que tinha um dos pais americanos. Que havia passado um tempo nos Estados Unidos antes de voltar ao Japão e debutar.
Que havia sumido drasticamente por meses anos atrás antes de retornar e a partir então reduzir suas aparências. Algo que podia ser causado por um ferimento grave. Grave o bastante para aposentar um herói.
— Ah, merda.
Agora que fazia a conexão era até um pouco ridículo.
All Might, o herói número 1, estava incapacitado. O símbolo da paz estava caindo.
Isso… Não era bom.
— Okay, sem pânico.
………...
Izuku estava entrando em pânico.
Aquele era o momento em que um atirador invadia sua casa para se livrar dele, por isso puxou seu computador para debaixo da mesa com ele, cercado por seus gatos.
Ele não devia ter escavado isso. Izuku não queria saber disso.
Como era o ditado?
A curiosidade matou o gato.
…………
Ele culparia o estresse ou seu pouco senso de autopreservação, mas se tinha alguém com o sobrenome do seu pai, que era uma heroína, ele iria querer saber sobre ela. Ainda mais uma heroína que cuidou de All Might.
Ele não queria pensar em All Might no momento.
Nana Shimura, marido morto, listado um filho que foi deixado para adoção e se perdeu no sistema.
E isso não era muito familiar?
A família estava praticamente extinta, depois de um incêndio que aconteceu no mesmo ano em que ela morreu. Primos, avôs, todos mortos. Mas de alguma forma seu pai havia sobrevivido. Ponderou se ele seria Kotarou Shimura, o filho perdido no sistema, mas uma foto da família lhe fez mudar de ideia.
Era estranho ver um clone seu em meio as crianças. Izuku sempre foi parecido demais com seu pai. Era uma imagem de jornal, listando um prêmio de jardinagem, de todas as coisas. Uma breve lida nas legendas e descobriu algumas coisas interessantes.
Uma delas que não havia nenhum Hisashi Shimura, mas que o garotinho, que era obviamente seu pai, tinha certeza, se chamava Isamu Shimura.
Não havia ninguém listado como sobrevivente do incêndio, mas bastou abrir o reporte do incidente para descobrir que nem todos os corpos haviam sido reconhecidos ou recuperados, algo que foi atribuído a violência das chamas.
Isamu Shimura. Izuku não tinha nenhuma dúvida que aquele era seu pai, desde as sardas na foto preto-e-branco até os cabelos escuros em desarranjo. Tirou um print da imagem e passou no scanner de rosto, pegando fotos escolares até chegar ao registro de quirks. Apenas para se sentir extremamente confuso.
— Oh.
Isamu Shimura, até o momento em que desapareceu aos 10 anos, não tinha uma quirk.
“— Não faz sentido ele não ter uma quirk! O pai dele e eu somos da quarta geração.”
“—Inko e Hisashi eram da quarta geração de quirks, ele deveria ter uma quirk.
—Se os dois fossem da quarta geração, sim.”
“— Por que sua quirk te machuca?”
“—Seu pai costumava se machucar com o próprio fogo.”
—Eu acho...que preciso de mais café.
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