A teoria do caos
28 Capítulo XVIII - A ponta do fio
“O problema com as famílias, Arlo pensou, era que sempre havia alguma pergunta que ninguém queria responder por você, e isso era como um fio se soltando em um suéter. Você poderia puxar o quanto quisesse, mas no final, tudo o que você teria seria uma pilha de fios torcidos. "
— Sarah Sullivan, Tudo que está faltando
Aquela expressão era familiar. Izuku tinha o fogo nos olhos do pai dele, sempre havia tido, por mais que o ressentimento o fizesse ter ignorado isso por tanto tempo.
Respiração de fogo não havia nascido com Hisashi, Takashi sabia disso no fim, mas às vezes ele quase podia acreditar que aquele poder sempre havia sido dele e não algo que foi dado, provavelmente depois de ter sido roubado de alguém.
Hisashi, afinal, representava o fogo muito bem. Ele havia sido caloroso quando queria, mas no fim sua capacidade de destruir tudo em que tocava também estava lá, sempre o perseguindo, junto com a verdade sobre o que aquele fogo que ele usava pela comissão havia feito antes mesmo de chegar nas suas mãos.
(A única coisa boa que os dois tiveram a chance de fazer com as quirks deles foi naquele breve intervalo de ano em que foram vigilantes. Depois disso só havia sangue e cinzas. Para Hisashi, antes disso também.)
A relação de Takashi e Hisashi, perto do fim, havia se tornado extremamente complicada. Nem sempre havia sido assim.
Takashi lembrava de um tempo em que os dois haviam sido mais próximos do que ele e Inko jamais conseguiram ser, algo que nunca havia conseguido admitir para ninguém além de si mesmo.
Nos breves meses em que os dois se tornaram vigilantes, quando Inko recuou da atividade, Takashi sentiu que finalmente ele encontrava alguém que o entendia totalmente. Inko tentava, mas ela não poderia entender a escuridão que havia em Takashi como Hisashi, porque ela não a tinha. Inko, afinal, era a criança otimista e brilhante, tão parecida com o tio que nunca conheceram, enquanto Takashi era, como sua mãe sempre disse, o filho do seu pai.
Era uma escuridão bem particular, que nunca era igual em todo mundo, mas que quem a tinha conseguia a reconhecer em outras pessoas. Sua mãe a reconheceu em Takashi, por isso lhe contou as histórias.
Hisashi tinha essa escuridão também. Hisashi o entendia em uma camaradagem fácil. Ele foi a única pessoa além de Inko que Takashi poderia dizer que confiaria cegamente.
Por isso quando ele traiu essa confiança, Takashi sentiu mais do que o ódio e raiva, a tristeza de ter perdido algo que acreditou que possuía.
Com os anos o ódio diminuiu, mas a tristeza encoberta por raiva nunca foi embora. A verdade, que ele lhe contou por completo depois, não mudou isso.
Ele lembrava da última vez em que o viu. Havia sido a última viagem de Hisashi ao Japão, e a comissão os obrigou a trabalhar juntos. Hisashi, claro, aproveitou a oportunidade para ver a família.
Takashi nunca se aproximou da casa, os olhando de longe, enquanto o esperava.
Hisashi mudou o destino do filho naquela visita, mas nunca mais o veria novamente depois disso.
Na época eles não sabiam disso, mas diante da urgência de Hisashi, ele pensava se ele desconfiava disso, que não viveria muito tempo. E por isso ele lhe contou a verdade.
Naquela noite Hisashi saiu da casa e caminhou em direção onde Takashi estava na calçada, o esperando. Ele não sabia há quanto tempo Hisashi sabia que estava lá, mas pouca importava. Ele sempre havia sido bom em encontrar Takashi. Como quando se conheceram e ele o salvou de ser morto quando, logo no começo, mordeu mais do que poderia mastigar.
Takashi era tão jovem então, impressionável. A memória daquele desconhecido surgindo do nada e o tirando daquela situação e o arrastando quase morto para casa o tornou quase santo aos seus olhos. Era a primeira vez que alguém o salvava, ele sempre foi o salvador das situações.
Ele lembrava daquela noite bem, daquela última conversa.
Por anos ele se perguntou o que teria acontecido se ela tivesse acontecido de forma diferente, se ele houvesse entrado na casa de Inko com Hisashi, se os dois houvessem conversado tudo com ela.
Se ele tivesse conseguido perdoar Hisashi, ele estaria vivo agora? Talvez os 3 agora estariam juntos, cuidado de Izuku. Eles teriam fugido para longe, desafiando o destino do próprio sangue.
Takashi observou a televisão, a câmera focada em seu sobrinho por alguns segundos, e tudo o que ele conseguia ver era Hisashi naquela noite, ouvir as palavras dele. Ele reconhecia aquele olhar. Havia fogo e raiva velada sempre presente e Takashi nem mesmo sabia a quem era direcionado ao certo. A comissão, que aos olhos dele havia causada tanta tragédia em sua família? A sociedade no geral, que havia criado seus monstros?
Izuku não estava ali porque queria ser um herói, ou pelo menos não pela razão a qual queria ser um herói inicialmente.
Ele estava dando um recado.
E Takashi tinha muito receio de quem iria entender isso.
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Kirishima piscou os olhos, confuso, pensando que havia ouvido errado.
Pela cara dos outros não.
Por um momento, depois do anúncio da heroína, ninguém conseguiu dizer nada.
Então o caos começou, na arquibancada e dos alunos.
Ela ignorou o caos e deu uma risada, lançando seu chicote no ar e continuando os anúncios como se não houvesse lançando uma bomba
— Daqui a pouco vamos continuar com os eventos recreativos antes de começar o torneio. Quem participar do torneio pode ficar de fora dos eventos recreativos! Agora que pararam o show de vocês, aqui estão as combinações!
Não havia sequer tempo de absorver a primeira informação e já vinha outra, os nomes surgindo no painel no mesmo segundo.
Grupo A
Primeira luta: Midoriya V.S Kaminari
Segunda luta: Honenuki V.S Ando
Terceira luta: Todoroki V.S Shiozaki
Segundo round A: Vencedor da primeira luta V.S Vencedor da segunda luta V.S Vencedor da terceira luta.
Grupo B
Primeira luta: Yaoyorozu V.S Watanabe V.S Awase
Segunda luta: Tokoyami V.S Shinsou
Segundo round B: Vencedor da primeira luta V.S Vencedor da segunda luta.
Grupo C
Primeira luta: Uraraka V.S Bakugou
Segunda luta: TetsuTetsu V.S Kirishima
Terceira luta: Hatsume V.S IIda
Segundo round C: Vencedor da primeira luta V.S Vencedor da segunda luta V.S Vencedor da terceira luta.
Kirishima viu o nome deles antes mesmo de ver o seu, quase esperando que o seu estivesse também com eles, e não sabia ao certo se era decepção ao alívio por não o encontrar, mas mais abaixo junto com o de um dos alunos da classe B, o mesmo que havia escapado das armadilhas dos robôs com ele.
Ele virou rapidamente para o lado. Uraraka olhava para o painel com os olhos arregalados. Kirishima olhou dela para Bakugou, que ameaçava Midoriya escondido atrás de Todoroki.
— Uraraka…
Bakugou parou, olhando o painel, então para Uraraka por cima do ombro.
Os dois se encararam e Kirishima e os outros sentiram a tensão no ar. A maioria dos alunos da classe A olharam para Uraraka com preocupação.
Muitos provavelmente achando que era azar ela cair justo contra Bakugou de cara.
A cara dos dois se retorceu e Uraraka deu um sorriso, batendo a mão no punho.
Com isso a tensão evaporou e Bakugou bufou.
— Eu não vou facilitar para você, cara redonda. Melhor vir com tudo.
— Eu não esperaria menos.
Kirishima realmente não tinha motivos para se preocupar com esses dois.
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— Parece que você vai primeiro, Izuku.
A expressão de Izuku estava mais estranha do que normal enquanto fitava o painel, saindo de trás de Todoroki.
— Não deixe ele fritar seu equipamento e vai ficar bem. — Mei bateu no ombro de Izuku, e emboscou Todoroki com Hiro, os dois interessados em ver a nova adição por perto. Todoroki olhou na direção deles alarmado (ou o máximo que ele conseguia com a falta de expressão dele.), dando um passo para trás, mas não parecendo querer se afastar de onde Izuku estava.
Shinsou sentiu um pouco de pena dele quando Mei puxou uma fita métrica de algum lugar, mas melhor Todoroki do que ele.
Kaminari o olhou de onde estava com os alunos e acenou para eles com uma expressão que imaginava ser culpa no rosto. Apesar de Izuku ter ganhado as duas primeiras provas, Kaminari parecia bem confiante, provavelmente porque Izuku não tinha uma quirk. Shinsou conseguia o entender, ele também ficaria, tinha que admitir, se não conhecesse Izuku.
— Pelo menos não sou eu. — Shinsou acenou de volta com Izuku. — Pobre diabo.
— Eu gosto dele. — Izuku falou entre-dentes, sorrindo e acenando. — Ele é melhor do que você dá crédito.
— Não digo que ele é ruim, mas que você é uma praga.
Izuku não negou, mas o olhou de forma ofendida pelo canto do olho.
— Pare de acenar antes que ele venha até aqui. — Shinsou o puxou de costas com urgência quando notou que o outro realmente parecia estar ponderando isso. — E traga os outros e o drama do trio da sala.
Os dois olharam por cima do ombro para a direção onde Bakugou havia ido, a gata pendurada nele, algo que ele não havia percebido ou ignorado em favor de se provocar com Urakaka como dois lutadores de MMA, Kirishima entre os dois. Shinsou queria ficar longe daquele hospício.
Izuku fez um som interessado. Ele queria o drama, o merdinha.
— Nem pense nisso.
Izuku fez uma expressão de decepção, mas logo sua expressão ficou contemplativa.
—E você e Tokoyami, hum? Quer ajuda?
Shinsou pausou um momento e então negou. Tanto tempo perto de Izuku e Mei tinha que ter dado em algo. Ele iria criar seu próprio plano, apesar de seu futuro ser obscuro.
“Literalmente, considerando as coisas.”
Olhou em direção ao seu colega de aula que o fitava de volta, dando um breve aceno, bem longe do drama como ele. Shinsou decidiu que gostava dele só por isso.
Seus olhos continuaram passando no painel, procurando Mei. Ela ia contra Iida. Ele não duvidava nada que ela conseguisse ganhar, se quisesse realmente. O que era um mistério. Nenhum dos alunos estavam ali querendo realmente ganhar, ele tinha certeza.
Hiro surgiu atrás dos dois, deixando Mei ainda torturando Todoroki, que parecia cada vez mais confuso, gelo se formando em seu rosto de consternação.
— Eu contra Yaoyorozu e o tal Awase. Porque claro que eu pego uma luta de trio de cara. — Hiro coçou a cabeça. — Ah cara, eu não posso só desistir agora. Satou iria arrancar minha cabeça.
— Por quê? — Shinsou perguntou intrigado. Todos do departamento de suporte olharam em direção à Yaoyorozu, que olhava o painel em meio aos outros alunos.
Os olhos deles estavam brilhando.
— Ela tem uma fama no departamento de suporte. — Hiro explicou. — Imagina você poder criar seus próprios materiais?
— Ela se daria muito bem no departamento de suporte. — Izuku assentiu rapidamente.
Shinsou não sabia o que pensar da sua colega de sala ser aparentemente uma deusa para os alunos de suporte.
Shinsou olhou para Nara que parecia distraído, como sempre. Ele estava indo contra o cara da classe B, um dos alunos que entraram por recomendação, mas não parecia preocupado.
Ele nunca parecia preocupado com nada.
— Todoroki e Shiozaki. — Shinsou continuou e procurou Todoroki, que parecia ter desistido de fugir, mas também não parecia estar ouvindo nada do que Mei estava falando, apenas olhando para o nada. Ele o entendia. — Eu não a conheço bem. Kirishima está indo contra o outro cara da classe B que entrou depois.
— Quirks parecidas, isso vai ser interessante também.
— E Bakugou e Uraraka. Talvez porque eles são amigos…
—...Ele vai com tudo. Kacchan não sabe fazer de outro forma. E acho que ela não iria gostar se fosse de outra forma.
Shinsou ponderou e assentiu. Ele estava certo. As pessoas ignoravam o fato de Uraraka era amiga de Bakugou por uma boa razão.
— Muito bem! — Midnight cortou as conversas. — Agora daremos um intervalo para as atividades. Quando anunciarmos o retorno, os alunos que fazem parte do primeiro grupo devem se preparar e os adversários da primeira luta do grupo A se encaminharem para a sala de preparação! Por enquanto, se divirtam com a demais atividades…
— Se divertir, como se fosse fácil. — Shinsou resmungou e virou para falar com Izuku, que estava com uma expressão distante, passando os dedos na cabeça do gato em seu ombro. Ele parecia com o olhar longe.
Ele olhou para Izuku, olhou de verdade.
Ele estava pálido e havia sangue em seu rosto. Bakugou havia entrado com ele e se postado atrás dele como um guarda estranho. Todoroki estava seguindo cada passo dele, mas sem a hostilidade de antes, mas sim com conflito. Algo havia mudado. Mei havia notado também, pela forma como ela havia se posicionado perto dele, o cobrindo da visão dos outros de forma casual.
De todos ali no momento, as pessoas que melhor conheciam Izuku deviam ser Mei e Bakugou e os dois pareciam estranhos, o que não era um bom sinal.
Shinsou virou o rosto, lendo a tensão que saia dele. Abaixou seu rosto e falou baixo, enquanto Midnight os dispensava e ele tomavam o corredor para fora da arena. Todoroki, dessa vez, os seguiu junto com o departamento de suporte como uma sombra silenciosa e Shinsou viu Bakugou seguindo Izuku com o olhar.
Algo realmente havia acontecido.
— Está preocupado que não vá ganhar no fim das contas? — Sua voz saiu em tom de brincadeira, baixo, mas havia curiosidade verdadeira ali.
Ele sabia o quanto aquele festival era importante para Izuku, mais do que até ele havia lhe dito, pela forma como estava se jogando nele.
Izuku pareceu pensar nisso, mas negou.
Shinsou ia perguntar qual era o problema então, mas Hiro os interrompeu, passando o braço ao redor dos ombros dos dois de onde veio correndo do final da fila.
— É uma pena que o tal do Monoma não entrou, ia ser hilário ele com um de vocês dois.
Shinsou pausou e pensou. Monoma não teria uma quirk para pegar do Izuku e quanto a ele e Shinsou, se ele pegasse a quirk de Shinsou, ele não tinha ideia do que poderia acontecer.
Ele olhou para Izuku, uma piada na ponta da língua, mas a expressão dele não estava como sempre que alguém lhe dava um problema com uma quirk. Ele havia ficado ainda mais retraído, a testa franzida ao ouvir o nome do outro. A interação de mais cedo e a do laboratório lhe vieram à mente.
— Você não gosta muito dele, gosta?
Izuku o olhou parecendo surpreso com a pergunta e começou a negar. Então pausou e deu de ombros.
— Não é isso.
Shinsou ergueu uma sobrancelha e ele pareceu desconfortável.
— Ele...me lembra alguém.
— Você mesmo? — Izuku o olhou alarmado com isso. Shinsou ficou ainda mais curioso. — Eu pensei nisso mais cedo.
— Não. — Izuku fez uma careta com isso. — Claro que não. — Shinsou revirou os olhos com a negação veemente.
— Então quem?
— Hum. Meu tio.— Izuku deu um sorriso que Shinsou havia aprendido bem, como se tivesse falando uma piada interna. — Ele podia irritar alguém até a morte também.
Shinsou ergueu uma sobrancelha.
— Como você?
Izuku o olhou de forma venenosa em resposta.
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Tem alguns segredos que você espera levar para o túmulo, mas nem sempre se é possível.
Akira mordeu a unha, olhando o vídeo no celular, a transmissão ao vivo sobre o festival, ignorando o que deveria estar fazendo no computador. Há algumas semanas ela finalmente conseguiu contato com alguém que parecia ter envolvimento com a liga, dando seu nome como uma informante. Com seu rastro de atividades ilegais ao longo dos anos e seu afastamento da família, não era difícil de montar um perfil, ainda mais se era com alguém que a conheceu na época em que era uma vigilante.
Ela entraria na liga, em uma hora ou outra. E uma vez lá dentro ela sentia que não teria mais volta. Aquele seria seu último trabalho para a comissão, de uma forma ou de outra.
Para Takami seria mais complicado, mas ela sabia que ele daria seu jeito. E então seria mais alguém para Akira vigiar. Mais um dos problemas de Takashi.
Ela olhou para a figura na tela, onde se passava no intervalo alguns dos melhores momentos das outras etapas antes de começarem as lutas. O rosto de Izuku estava surgindo em todo momento. O nome Midoriya estava no painel, não Shimizu como ele havia se matriculado em uma tentativa pueril de se proteger. Como se no momento em que ele pisou de volta no Japão tudo não tivesse ido pelos ares.
Se estava lá, ele havia mudado os registros. Era uma provocação. Ele queria que soubessem de quem ele era filho.
Ele estava provocando a comissão sem nem mesmo saber que aquele nome provocaria alguém bem pior. E ele não sabia, porque Akira não havia contado.
Akira tinha aquele segredo de família nela, quando Izuku, quem deveria mais saber, estava no escuro. Hisashi havia lhe dito o momento de contar, mas ela começava a duvidar que ele estivesse tão certo sobre isso. Muito havia mudado.
Ela olhava para aquela tela, vendo o filho de Hisashi, o qual ele havia dito para a comissão que havia abandonado por não ter uma quirk e utilidade, passar na cara deles que ele não precisava de uma, que eles estavam errados. O via explorar as fraquezas daqueles filhotes de heróis como se apontasse as rachaduras em um casco do que a comissão mais se orgulhava.
Se mostrando perigoso. Como o pai dele, como o tio dele.
Para a comissão isso poderia parecer uma ofensa, ou se eles percebessem sobre Nora, uma oportunidade.
O que Izuku não sabia, era que para alguém que reconhecesse algo a mais nele, que reconhecesse aquele nome Midoriya pelo o que realmente era, isso seria algo ainda pior: seria um convite.
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Izuku guardava muito segredos.
Ele se sentia enrolado neles, como um gato preso em um novelo. Havia tantos nós que ele não sabia se conseguiria mais sair dali.
Ele sentou em uma das barracas no estádio, comendo soba frio com Shoto, vendo os outros alunos brincando com os gatos, e ele só conseguia pensar em todos esses segredos. Em Takashi no seu quarto subterrâneo enquanto os heróis procuravam pelo noumu que quase matou seus alunos, em Yagi Toshinori, de quem estava fugindo para não soltar o que sabia sobre ele. Sobre Noraneko, sobre seu pai, sobre Endeavor.
Ou o filho de Takashi que ele escondeu do mundo, mas que de alguma forma veio parar ali, na mesma cidade em que ele estava, na mesma escola que Izuku.
Em outro universo eles poderiam ter crescido juntos ou se dado bem.
Ali, o vendo, ele só conseguia pensar em Takashi e sentir seu estômago embrulhar, em como queria arrancar essa informação da sua cabeça para não se sentir um traidor com seu tio. Porém, não era apenas isso. Era a quirk dele que estava o deixando intrigado, algo lhe dizendo o quanto isso era importante, como um quebra cabeça que estava faltando algumas peças.
Ele tinha medo de o montar.
Monoma olhou em sua direção, de onde conversava com uma das colegas de classe. Como ele parecia estar querendo todo esse tempo, sentindo o olhar de Izuku nele. Parecia uma segunda natureza, se analisarem, percebendo um animal parecido e perigoso por perto. Ele já havia sentido algo assim antes, claro.
Monoma não desviou o rosto dessa vez, os olhos intrigados, um sorriso em seu rosto, como se esperasse que Izuku fosse se sentir desconfortável com isso.
Izuku quase conseguia rir. “Que adorável.”
Sorriu de volta e acenou, apenas para ser um merdinha, e viu o outro garoto desviar o rosto rapidamente.
O costume de fazer jogos mentais poderia ser genético, mas Izuku ainda tinha dois anos de experiência convivendo com um mestre disso.
“Você vem com as maçãs e eu já voltei com a torta.” Pensou com certo humor.
— Família pode ser uma desgraça. — Izuku murmurou, mais para si mesmo.
Ao seu lado, Shoto pausou e então assentiu de coração.
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Segredos, Inko pensou enquanto ouvia o nome do seu filho ser citado pela mulher na televisão, eram a base da formação da sua família. Eles tinham tantos, que ela não sabia mais onde as verdades e mentiras começavam e terminavam.
Ela foi poupada de muitos deles, mas ainda havia tantos outros que pesavam sobre sua mente nesse exato momento.
Alguns que apenas ela sabia.
Ali, deitada e vulnerável, ela conseguia pensar em todos eles, sabendo que em algum momento eles viriam à tona, por mais que quisesse os levar para o túmulo um dia.
Ela ouviu o nome Todoroki e sentiu Keito apertar sua mão. Touya Todoroki e o que aconteceu naquela noite era um segredo deles dois, um segredo que às vezes ela conseguia sentir naquele quarto, em certas madrugadas, em que não sabia se era sonho ou não. Principalmente nas últimas semanas. Ela pensou a princípio que fosse Izuku, até ele finalmente falar. A voz grave, os sussurros quebrados, como a mente dele parecia estar. E Inko não sabia se havia ajudado mais naquela época ou piorado tudo. Ela não se arrependia, nunca se arrependeria, mas ela não sabia.
(E em outro universo, Touya Todoroki nunca conheceu Inko Midoriya em um hospital, ao acaso. A diferença que isso fez foi maior do que qualquer um deles poderia imaginar.)
(Ela não perdia a ironia. Izuku estava visitando Rei Todoroki e o filho dela, que ela acreditava estar morto, estava visitando Inko. )
O segredo sobre Touya era apenas mais um, entre muitos. Era como puxar a ponta de um fio que nunca parecia ter fim.
E Inko sabia, que quando se começasse, tudo o que estivesse por cima da teia iria cair.
E, o que fazia tudo pior, era que, se Hisashi havia falado a verdade, quem estava em cima dela era Izuku.
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5 anos, dois meses e 3 dias atrás
Hisashi sabia que havia uma grande probabilidade que aquela seria a última vez que veria sua família.
Esse pensamento estava em sua cabeça enquanto observava Izuku a noite inteira; seus maneirismos e olhos especialmente analíticos. Eram verdes como os da mãe, mas a expressão neles eram a réplica da de Takashi, absorvendo tudo ao redor de forma cuidadosa, como só alguém que já havia visto o lado feio do mundo poderia fazer.
Izuku só tinha 10 anos, ou já tinha 10 anos, dependia de que ângulo ele olhasse. Para toda a merda que passou nos últimos anos, que estava em cada movimento do seu corpo e mentiras veladas que contou a noite inteira? Ele era jovem demais para isso.
(Como Hisashi havia sido quando sua casa queimou, quando a heroína da família não apareceu para os salvar, quando um vilão o adotou jogando com sua cabeça para acreditar que o devia a vida, quando na verdade a quirk que agora Hisashi usava havia sido o que havia feito sua família queimar.)
Izuku era velho demais em comparação ao que Hisashi lembrava. De alguma forma, ele esperava ver algo do garotinho de 2 anos que deixou para trás, que apagou o máximo de rastros enquanto trabalhava para a comissão de heróis. Eles sabiam que ele tinha um filho em algum lugar, que não tinha uma quirk e por isso ele não queria ter nada com ele ou com a esposa, que também tinha uma quirk fraca, bem diferente da do irmão poderoso.
Era uma boa história para os manter longe, para aquela gente tudo, afinal, era sobre poder e ordem. Era a razão por eles provavelmente ainda estarem procurando onde Takashi escondeu o filho, averiguar se ele teria uma quirk tão poderosa quanto a do pai.
Hisashi olhou pela janela do quarto e viu uma figura lá embaixo, na calçada. O reconhecimento o fez pausar, surpreso.
A silhueta era impossível de não reconhecer e, mesmo que fosse a pedido da comissão, ele ficava surpreso de Takashi ter aceito fazer aquele trabalho com ele no Japão.
Ele não ficava tão surpreso de ele estar no Japão, mesmo que Inko provavelmente não soubesse disso. Ele sempre havia sido bom em ficar de olho na irmã sem que ela soubesse.
Takashi não falava com Hisashi há anos, mas ele sabia que ele não falava com Inko por mais tempo ainda. Apenas um desses era para manter alguém seguro.
“Não que eu não mereça.” Suspirou, dando uma última olhada no filho antes de sair pelo corredor, a bolsa de lado. Parou na porta do quarto de Inko, tocando a porta, mas não entrou.
“É melhor assim.”
Ela ficaria segura, por um tempo. Os dois, mesmo que isso significasse que não veria mais daquele brilho de intuição que Izuku havia herdado da avó paterna que nunca conheceu, ou o sorriso que era todo da mãe, que fazia qualquer um acreditar que tudo ficaria bem. Para tudo o que ele havia herdado de Hisashi, que ele tinha a capacidade de se tornar, ele tinha muito mais de bom dentro dele. Ele queria ser um herói.
E saber a verdade, o saber o que estava por vir, fazia Hisashi querer entrar de volta naquele quarto, pedir para ele arrumar suas coisas e tirar os dois dali, os levar para longe. Ou segurar Izuku pelos ombros e dizer em como ele seria um herói, o maior de todos, mas que o preço seria alto demais.
O futuro que ele ouviu da boca enrugada de Itsume Midoriya em suas última palavras havia sido obscuro.
Saiu pela porta e a sombra ainda estava no mesmo lugar.
Takashi não havia mudado muito em aparência, mesmo com os anos, mas de alguma forma a sua aura havia ficado ainda mais perigosa.
E tudo o que ele queria naquele momento era lhe dar um abraço, mas sabia que não seria bem vindo.
Da última vez que eles se viram, Takashi havia tentado o matar e ainda assim Hisashi não sentia medo. Ou o culpava. Hisashi, afinal, havia perseguido os rastros da mãe dele em nome de um monstro e a encontrado para ele, como o bom filho que era para dito monstro na época. Takashi pensava que Hisashi havia matado sua mãe ou a entregue para a morte. Ele nunca ouviu a história inteira.
Ninguém matou Itsume Midoriya. Quando a encontrou ela já estava em seus últimos momentos. O corpo envelhecido rapidamente em uma cama de hospital, como uma indigente. Olhos verdes o fitando em expectativa.
“Pensei que não viria em tempo, Isamu.” Ela havia dito, puxando a máscara de oxigênio no rosto.
Ele nunca havia a visto até aquele momento na vida, mas ela estava esperando por ele. E por alguma razão ele vacilou naquele instante do papel de bom filho quando ela sorriu em serenidade, para a pessoa que havia ido ali para a levar para a morte ou algo bem pior.
Sentado do lado da cama daquela senhora, a ouvindo falar tudo aquilo que não deveria saber, ele entendeu a razão pela qual All for One havia procurado Itsume por tanto tempo. Ele queria algo que havia deixado com ela, sem saber que ele havia deixado mais do que o que pensava. E que ela não tinha mais nada para dar para ele, ela havia se assegurado disso, estava na sua cara enrugada.
E ainda assim ela guiou Hisashi para a direção da coisa que All for One mais desejava e para outra que ele nem sabia que tinha, sem nenhum receio que Hisashi usaria a informação para destruir tudo o que ela havia lutado para proteger. Não depois de ela ter lhe mostrado o que aconteceria se fizesse. Ela sabia que, naquela época, ele já estava vacilando.
E no processo Hisashi ganhou duas coisas importantes: informações sobre o que estava por vir e uma família. Só uma dessas coisas era boa, e uma destruiria a outra. Hisashi odiava um pouco Itsume Midoriya por isso.
Olhando para Takashi, que tinha os olhos da mãe, ele se perguntava qual deles, Inko ou Takashi, estava com a quirk que All for One deixou com Itsume Midoriya e que ela havia passado adiante.
Essa não era como a outra quirk que All for One perseguia, o poder que um dia foi do irmão dele. A quirk que ele havia passado para Itsume e que tanto queria de volta só seria tirada por um poder semelhante que a colocou lá em primeiro lugar. Havia apenas uma forma de ela ter conseguido passar adiante e era um filhos estar com ela.
Um deles tê-la pego.
Quirks, Hisashi sabia, podem ser uma herança híbrida dos pais. Qual dos dois, ele se perguntava, havia herdado mais do pai do que Hisashi sabia?
“Não importa agora. Talvez eles nem mesmo saibam.” Hisashi ponderou. “E é melhor nem saber no momento.”
Ele já tinha toda a informação que precisava, mesmo que não quisesse. Itsume Midoriya havia se certificado disso e lhe contado tudo, sabendo que Hisashi nunca a trairia. Sabendo mais do que ele mesmo naquela época.
Takashi o olhou de relance e começou a caminhar, sem olhar para a casa da irmã.
Hisashi não tinha a mesma força e deu uma última olhada para trás.
Até o final daquela semana ele iria embora do Japão e contaria tudo a Takashi. Era sua última chance, ele sentia isso. E então o peso passaria para outra pessoa. Akira, Inko, e agora Takashi, com partes da verdade entre eles. E um dia Izuku saberia também, sobre tudo.
Eu quero ser um herói.
“Você vai ser. ”
E se Itsume Midoriya estava certa, o mundo ou se salvaria ou queimaria por isso.
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