A teoria do caos

7 Capítulo VII – Convergindo


“Um atrator é um ponto para o qual todo objeto que passar passar suficientemente próximo de sua órbita converge”

Teoria do caos

—Deku?!

—K.kacchan!

Ochaco tinha tido possivelmente um dos dias mais estranhos de sua vida. Excitante, revelador, assustador, mas acima de tudo estranho.

Estranho era uma palavra que definia esse momento também. O que não devia ter sido uma surpresa, já que ela estava falando ali dos dois caras mais ‘peculiares’ que havia conhecido na vida. E ao que parece eles se conheciam. E se conheciam bem.

—O que eles estão fazendo?

Kirishima murmurou ao seu lado, parecendo fascinado.

Por um segundo ela achou que o garoto explosivo ia tentar esganar — ou explodir — o sujeito fofo que parecia ter bebido café demais. Ele havia rosnado – por Deus, rosnado de verdade, não sabia que pessoas podiam fazer isso – e encurralado o outro na parede do corredor em duas passadas largas. Era como ver uma cena de dorama acontecendo na vida real, com direito a pernada na parede.

Kirishima parecia pronto para intervir – o cara legal que ele era -, quando os dois estranhos começaram a mover as mãos em uma velocidade que não achava ser possível, em uma conversa que envolvia sinais e mais rosnados de “Deku!” e explosões e pedidos estressados de “Kacchan!”.

—Eu não faço ideia. – Admitiu. — Queria uma quirk de legenda agora.

Isso tinha que existir, certo? Ela tinha visto um cara com uma cabeça de corvo hoje, não era possível que não existisse um com legendas embutidas?

Os dois ouviram um arfar escandalizado quando o loiro começou a repetir o mesmo gesto na cara do garoto menor com uma ênfase explícita.

—Esse sinal eu entendi! – Kirishima falou feliz. – Ele mandou ir...

Ochaco tapou a boca dele antes que saísse, corada até a raiz dos cabelos.

—Eu entendi também.

O sujeito fofo fez um bico e respondeu com outro gesto que...é, ela entendeu esse também. O garoto explosivo pausou, parecendo aturdido e indignado com isso, como se receber um palavrão em resposta fosse um absurdo.

Então ele gritou, agarrou o outro pela nuca e os dois saíram pelo corredor, ainda trocando gestos e indignados “Kacchans!” e “Dekus”.

Os dois ficaram ali, paralisados no corredor até Recovery girl meter a cabeça na porta para lhes dar uma bronca pelo barulho e os mandar para casa.

—Que...dia.

Tinha que concordar com Kirishima.

Que dia.

—Sabe. – Kirishima comentou enquanto seguiam para os portões, esperando conseguir chegar a tempo de pegar o próximo trem. Os dois não moravam na mesma prefeitura, mas perto o bastante, descobriram, para pegarem o trem juntos. Ochaco ficava feliz de ter aparentemente conseguido um amigo tão interessante, e esperava que os dois passassem. Assim como os outros dois garotos peculiares. – Eu nunca usei minha quirk como hoje?

—Como assim?

—Digo, foi diferente. Eu não percebi tanto na hora, mas ela parecia tão...mais forte? Argh, não consigo explicar. – Ele choramingou frustrado.

Ochaco ponderou isso. Agora que ele tinha falado, ela também nunca tinha usada a quirk dela em tantas pessoas ao mesmo tempo, ainda mais exausta como estava. Certo que havia apagado logo que chegou na enfermaria, e ainda se sentia um pouco enjoada, mas ainda assim era impressionante.

—E...e, na hora eu nem pensei! – o outro garoto ergueu as mãos para o ar. – Eu só fui.

Assentiu, ela entendia isso.

—Você se moveu sozinho. Por instinto. – Ela coçou a cabeça. – É bem diferente, né? Foi como passar de um limite por necessidade.

O outro assentiu entusiasmado, os olhos bem abertos. Kirishima era como um raio de sol, realmente. Era uma pessoa que ficava feliz de ter conhecido hoje. Eles haviam se esbarrado quando voltava do prédio do departamento de suporte, por acaso, e o encontrou perdido sem achar a sala do teste.

Ochaco tinha encontrada tantas pessoas interessantes hoje, e nem tinha entrado na U.A! Pelo menos, não ainda, esperava.

—Obrigada por salvar minha vida, Kirishima. – Ela parou e se curvou. – Eu não tinha agradecido ainda!

Kirishima arregalou mais os olhos, e então balançou os braços sem graça, e se curvou também.

—Obrigado por me salvar também! Foi a coisa mais máscula e viril que já vi!

—Viril?! – cuspiu e o garoto gargalhou.

Já na estação, foi quando ela pensou, lembrando dos outros dois.

—Diz, Kirishima, o que acha de a gente aprender língua de sinais?

O sorriso do outro brilhou mais que o sol em resposta.

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Aizawa estava irritado. Ele não esperava que o segurariam tanto na sala de controle, mas tinha que admitir que as coisas não haviam saído como esperado naquele ano.

Geralmente a maioria dos alunos passava por pontos de vilão, e um ou outro ganhava alguma coisa por salvar alguém. Em alguns anos havia algum candidato mais altruísta no teste que se destacava, ou alguém que fazia uso da quirk com criatividade sem igual. A última pessoa que havia ganhado uma pontuação memorável com salvamento no teste havia sido Mirio Togata, e hoje o garoto era um dos três melhores alunos da U.A, e tinha mais chances de se tornar o herói número um do que muitos heróis que já estavam em campo, o que talvez explicasse o interesse repentino do loiro idiota herói número um nele.

Esse ano as coisas aconteceram um pouco diferentes. Ele não sabia o resultado da teoria, mas eles nunca tiveram tantos pontos de resgate para distribuir. Eles nunca tiveram um aluno ganhando uma quantidade maior de pontos de resgate do que de destruição de robôs. Eles nunca tiveram a possibilidade de um aluno passar apenas com pontos de resgate, sem ter destruído um só vilão.

E eles com certeza nunca tiveram, desde All Might, um aluno passando no teste com uma pontuação maior de 100, quase batendo o recorde da escola.

Então, é, se justificava sua demora, mas não era menos irritante. Ele havia esperado quase três anos por isso, e saber que a criança que havia o perseguido por anos estava tão perto, e ser segurado, era frustrante. Quantas vezes ele não tinha imaginado que um dia seria chamado para ver o corpo de Midoriya naqueles anos? Retalhado e destruído como o das outras crianças que haviam encontrado.

E não só o pirralho estava vivo, mas se fosse confiar no loiro idiota, estava bem, e debaixo do seu nariz por meses.

Então ninguém o culparia por estar ansioso, por finalmente ter o fim daquele mistério a seu alcance. Porém, quando Aizawa entrou na sala de Maijima, o outro herói estava sentado corrigindo testes, e não havia nem sinal de uma criança na sala.

—Onde está?

Maijima coçou o queixo e deu uma risada sem jeito.

—Ele fugiu pela janela.

—Ele o quê?!

—Em minha defesa, ele é rápido. Não me olhe assim Aizawa. – O outro levantou os braços em defesa. – Eu não tinha como saber que o medo de falar com o professor ia o fazer fugir.

Aizawa pausou. Medo?

—E também, não me preocuparia. – O outro apontou para os papéis. – Eu não sei sobre a teoria, mas eu tenho certeza que o garoto vai passar. Tem alguns alunos bons esse ano. Bem....peculiares também.

Aizawa quase suspirou, porque ele sabia bem disso. Mais do que queria saber.

Medo, hum? Ele daria uma olhada na ficha de Midoriya.

Era hora de descobrir mais dessa história.

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Katsuki havia esperado anos por aquilo. Ele havia ponderado sobre sua reação e sempre esperou que a raiva fosse absoluta, mas estava cansado demais no momento para isso.

Houve raiva, com certeza. E ameaças de explosões. E como a pessoa frustrante que Deku era, ele não pareceu amedrontado por isso, mas havia de alguma forma o arrastado para um Cat Café, como se fossem bons amigos que se reencontravam por acaso.

O maldito.

Ainda assim, ele aproveitou o momento para o observar enquanto o idiota fazia o pedido conversando com o atendente. Ele havia crescido, era óbvio, mas ainda era menor que qualquer garoto da idade deles que conhecia, como sempre foi. Os olhos ainda continuavam grandes demais, e ele ainda tinha aquela expressão ausente de vez em quando que o irritava, como se não estivesse ali todo o tempo. E o entusiasmo. O maldito entusiasmo de um coelho hiperativo que misturou café com energético.

Porém, Katsuki não era um idiota, e apesar de aparentemente a personalidade do nerd estar a mesma, ele havia notada as diferenças. A tensão nos ombros que não iam embora, como ele olhava para a porta da loja com frequência, os olhos catalogando as saídas, a forma como ele havia se livrado do agarre dele tão facilmente, algo que não era fácil de fazer. Havia notado também a massa muscular, de alguém que estava acostumado a treinar, como ele.

E a cicatriz.

Katsuki reconhecia aquele tipo de cicatriz. Ele sabia que o nerd tinha uma igual nas costas de quando tinham dez anos e havia acionado sua quirk por acidente enquanto eles se embolavam no lixão na praia. Ele lembrava do cheiro de carne queimada, e das bolhas e úlceras surgindo. Semanas depois ele havia visto a cicatriz, uma mão desenhada nas costas cheias de sardas, feita de tecido danificado. Havia sido a última vez que havia brigado seriamente com o nerd, e passou meses sem nem tocar nele. A cena o perseguiu por muito tempo.

Aquela cicatriz no rosto do nerd lhe lembrava isso. Alguém havia segurando o rosto e pescoço dele, e acionado alguma quirk destrutiva. Podia ver o tecido danificado na orelha direita, e imaginou que debaixo do cabelo crescido devia haver mais, mas o maior dano era no pescoço. Perto da carótida. Perto demais da carótida.

Quando sentiu as duas batidas de leve em sua mão olhou para cima e encontrou os olhos ridiculamente grandes. Ao que parece havia se perdido enquanto pensava, até parecia o Deku agora.

—Tch. – Puxou a mão para longe do outro.

Deku não pareceu ofendido, ele continuou o fitando do outro lado da mesa, gatos em seu colo e um sorriso idiota no rosto.

As mãos dele se moveram: ‘Você okay?’

E não devia ser tão estranho o que isso o fazia sentir. As únicas pessoas que falavam em sinais com ele desde que se graduara no curso eram sua intérprete na escola e seus pais. Na escola ninguém havia feito um esforço em aprender, e por isso havia ficado bom em leitura labial. Não gostava de usar o aparelho auditivo sempre, sabendo que em alguns anos não serviria mais. Se iria ser um herói, tinha que se adaptar a situação logo.

Mas ali estava o nerd, depois de todos aqueles anos, conversando com ele assim, como se nunca tivesse ido embora.

—Onde diabos você estava?!

Algumas pessoas olharam para a mesa, devia ter falado muito alto. Era difícil controlar o tom quando estava com raiva assim. Deku pausou, os olhos desviando dos seus para o gato em seu colo.

Estava pronto para pular no pescoço do outro quando ele ergueu as mãos novamente.

‘Primeiros dois meses, aqui. Depois outros lugares. Voltei para aqui.’

Nunca uma resposta parecia tão frustrante. Respirou fundo e encarou o nerd, que o fitava com a mesma intensidade. Havia olheiras abaixo dos olhos dele, e lembrava daquela expressão dele também, ansiosa, de quem não havia dormido. Quase lunática.

‘Quando?’

O nerd pausou, olhou para o gato, e então o fitou com um pequeno sorriso.

‘Você sabe’

As flores, claro que ele sabia.

O que levava a outra pergunta.

‘Como?’

Não precisou se explicar. O nerd coçou a cabeça e fez o gesto de escalada com as mãos. Olhou incrédulo, ele não podia estar falando sério? O quarto da tia Inko era no terceiro andar!

—Mas que porra...

‘Palavra feia.’

—Vai se foder!

O maldito riu. E era cada vez mais difícil não o esganar.

Mas se fizesse isso não teria suas respostas.

—Okay. – Respirou fundo, tentando controlar sua voz. – Certo. Dois meses, e não visitou tia Inko. – O outro desviou os olhos. – E agora as escondidas. Que merda, Deku? Todo mundo pensava que estava morto, e minha velha...merda.

‘Por quê?’ Mudou novamente para sinais, sabendo que se falasse mais ia acabar gritando.

‘Eu...’ Ele pausou com a mão no ar, parecendo incerto. ‘Não posso dizer’

—Deku...- rosnou e o outro balançou os braços em frente ao rosto repetindo o mesmo gesto.

Não agora!’ pausou. ‘Perigoso.’

‘Perigoso? Para quem?’

‘Mãe’ Pausa ‘Você. Todo mundo. Perigoso.’

Aquela conversa estava o deixando cada vez mais frustrado.

—Você vai me contar.

‘Vou. Não agora. Sempre conto.’ O maldito sorriu e desviou os olhos.

—Tch. Nerd maldito. Vai visitar a tia pelo menos? – ele assentiu seriamente. – Escalando? – ele assentiu novamente coçando a cabeça. Katsuki queria gritar, ou esganar ele novamente. – E a velha.

Ele pausou.

—Ah, mas vai sim. Vai visitar a velha.

‘Quando for seguro.’

—Quando?! – algumas pessoas olharam e tentou abaixar o tom. – Quando vai ser isso?

‘Em breve.’ Pausa ‘Espero.’

‘Respira Katsuki, respira.’

— Onde está morando?

‘Hosu’.

—Sozinho?

Ele negou: ‘Tio’ Novamente não sabia que cara estava fazendo, mas ele acrescentou rapidamente. ‘Ele é bom. Gosto dele’

Menos mal. Pelo o que sua velha tinha falado do tal Takashi pensou que o sujeito tinha torturado o nerd.

Não estava obtendo muitas respostas, e pela cara do outro o ameaçar não iria adiantar.

— Você é um desgraçado frustrante Deku.

O maldito teve a ousadia de rir. Escapou de morrer pelo o atendente chegar no momento com seu chá e um café estranho para o nerd. E novamente notou a paranoia dele cheirando o café, e achou que viu ele jogando algo dentro e observando.

Os olhos verdes o notaram, e não sabia a cara que estava fazendo, mas ele pareceu defensivo, os lábios se movendo com um bico ridículo.

— O quê?

—Tch.

Se possível, o nerd estava mais frustrante do que anos atrás. Sua terapia para controle de raiva pelo menos tinha servido de algo, não havia tentado o matar ainda.

Sentiu novamente as duas batidas na sua mão, e o nerd desviou rapidamente quando tentou bater nele por isso.

Ele o olhou curiosamente e bateu no ouvido. Dizia muito dos dois que entendeu de imediato.

— Moderada no direito, severa quase profunda no esquerdo.

Ele fez o gesto do aparelho. Revirou os olhos e puxou o que havia restado da coisa da bolsa. Lembrava bem demais da sensação de mais cedo. Do som agudo e insuportável, da dor absurda.

—Quase me matou eletrocutado no exame.

O nerd o fitou com os olhos arregalados e pegou o aparelho agora inútil com uma expressão preocupada. Os lábios dele começaram a se mover rapidamente e o ignorou, sabendo que ele devia estar em um dos surtos dele planejando algo.

Nessas horas quase agradecia por não estar com o aparelho.

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Izuku sabia que Kacchan devia estar ignorando boa parte do que falava sobre as melhorias que faria no aparelho dele. Os dois caminhavam juntos até a estação, apesar de pegarem trens diferentes.

Foi fácil voltar ao velho habito de falar e usar sinais ao mesmo tempo, quando criança era quase automático fazer isso. E não se importava que ele estivesse o ignorando, estava falando mais para si mesmo, e era melhor do que as perguntas que não podia responder.

Havia ficado surpreso de Kacchan não ter o explodido. Ele parecia...diferente. Não sereno, isso era impossível, mas mais controlado. Os olhos dele eram menos raivosos e mais centrados. Ele parecia menos arrogante. Maduro. Os dois haviam sentado e tomado café juntos com gatos ao redor, e ele não havia explodido sua cara nenhuma fez, apesar de mostrar a frustração com suas meias-respostas.

E ele havia salvo alguém hoje. Em um exame. Não sabia de todos os detalhes ainda, mas ele havia salvo alguém em uma competição.

—Argh, para com isso maldito.

Olhou para o outro confuso. A voz dele estava diferente também. Pausada de forma significante, que tornava óbvio que ele não podia ouvir a si mesmo. Conhecendo Kacchan ele devia falar pouco também, apenas o bastante para treinar a oratória.

—O quê? – perguntou confuso, novamente usando sinais e a voz. Notou como ele lia seus lábios também. – O que tem?

—Sua cara. Essa. Essa cara.

—É a minha cara.

—Não seja. Argh.

Não conseguiu segurar o riso com isso. Não sabia que expressão estava fazendo, mas o outro revirou os olhos.

O notou fitando o aparelho algumas vezes, com o olhar pensativo, como se ele quisesse perguntar algo. O que era estranho, Kacchan, havia notado, não restringia perguntas.

Ele estava ponderando algo. Analisando. E de uma coisa tinha certeza, ele era um gênio.

E isso o assustava no momento. Havia coisas que não era seguro ele saber.

Seu trem estava quase saindo.

—Tenho que correr.

O outro deu de ombros como se não se importasse. Ele parecia bem confiante que iriam se ver na U.A, sabia que se não passasse ele o mataria naquele ponto.

Izuku correu, o aparelho na mão e um sorriso no rosto. Apesar de tudo havia sido um dia bom.

No ultimo momento virou antes das portas se fecharem, usando mãos e o tom de voz mais alto possível.

— Senti sua falta Kacchan!

As portas de fecharam com o olhar mortificado do outro e o grito raivoso.

Izuku sentou no banco rindo.

Havia sido um dia bom, definitivamente.

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Shinsou não sabia o que dizer aos pais quando chegou.

E eles não insistiram, vendo algo em seu rosto que mostrava que queria ser deixado em paz no momento. Foi para o quarto, tomou banho e se enrolou com seus gatos. Em algum momento sua mãe entrou e deixou algo para comer na sua mesa, seu pai o fitou por algum tempo da porta antes de sair. Ouviu os dois falando algo baixo.

Shinsou os ignorou, como queria ignorar o mundo ao redor, e todo aquele dia.

Em algum momento ele teria que se levantar, como sempre fazia.

Naquele momento ele só se enrolou com seus gatos, fechou os olhos e não quis pensar em nada.

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Mei havia chegado na casa vazia quase correndo.

Como sabia que seu pai não devia estar em casa, e sua irmã ainda não havia retornado naquela hora da agência, não se incomodou em pausar e foi direto a oficina.

Aquele havia sido um grande dia. Nunca, em toda a sua vida, havia encontrado alguém que pudesse conversar sobre seus bebês no mesmo nível. Até mesmo seu pai não conseguia a acompanhar na maioria das vezes.

Era como falar uma língua que ninguém conhecia, era frustrante. Até mesmo sua irmã não conseguia a alcançar na maior parte do tempo. Sua oficina era sua zona conhecida. Ali não se sentia em um avião acima de todos, sem tripulação e sem saber como descer.

Hoje ela havia conhecido alguém dentro do avião.

—Melhor dia, melhor dia oh ho. – comentou ao redor, separando seus bebês que queria mostrar. – Um rival, finalmente um rival!

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Então ele fugiu.

—Isso não tem graça. – Aizawa suspirou. Aquela história estava o deixando estressado cada vez mais. E Hizashi ainda ousava rir dele.

Se preparou para a patrulha da noite, depois de algumas horas de frustração tentando descobrir informações sobre a criança problemática que era Midoriya.

Sempre poderia ver o endereço dele na ficha de submissão dos exames. Se não fosse uma quebra na privacidade, digo.

Aizawa olhou para o papel dobrado com o endereço e tentou não corar. Ninguém precisava saber.

Relaxa, Shouta. Maijima parecia bem certo que o carinha vai estar com a gente logo. Então vai poder o sufocar com amor paterno.

—Hizashi...- avisou em tom ameaçador. O outro o ignorou, como sempre.

Vai ter bastante concorrência com o herói número um.

Desligou na cara dele.

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O trem havia chegado já a noite em Hosu. Ao invés de ir para casa desceu em um dos esconderijos que havia espalhado. De Takashi, na verdade. Ele tinha pelo menos um em cada prefeitura, mas não arriscava visitar os outros, como medo de encontrar alguém por lá.

Se trocou rapidamente. A armadura era de tecido negro, e havia colocado Kevlar nas partes vitais, já que não tinha o bastante para todo o corpo. Os óculos também eram resistentes com visão noturna, e seus fones tinham conexão com o canal da polícia e das agências mais próximas. Em Hosu haviam duas, de Ingenium, que era o único herói que parecia realmente se preocupar com a população daquela prefeitura, e de Endeavour, que tinha certeza que só estava ali para ganhar atenção e aumentar seu número de missões.

Pelo menos ele estava fazendo algo bom, mesmo que o motivo não fosse dos melhores.

Dito isso, ele não gostava nada do herói número dois. Havia se encontrado com ele duas vezes, e nenhuma dos encontros foi agradável. Em um deles teve que reconstruir sua armadura depois, sua única sorte é que sabia fugir e conhecia aquelas ruas como nenhum deles conhecia.

Escalou o prédio mais próximo. Suas luvas tinham garras retráteis e aderência, suas botas vermelhas tinham facas retráteis nas solas. O som preencheu seus ouvidos junto com o ar da noite, e fitou a cidade abaixo, sentindo seus ombros finalmente relaxarem.

Era como chegar em casa.

Toda a história de vigilantismo havia sido um acidente, mas agora...ele não sabia como parar.

Ele não queria parar.

Manual para Ingenium. Situação na rua 37.

—Entendido. Estou enviando alguém.

Izuku cantarolou, pegando seu bastão e saltando para o próximo prédio na escuridão. Já sabia que não deveria passar perto da rua 37. Perto do porto havia movimentação suspeita há semanas, hora de visitar as docas. Talvez descobriria algo para Naomosa.

Hoje a noite está agitada, estejam todos seguros.— Ingenium falou pelo rádio, e podia ouvir o som característico do movimento dele. – Todos vocês.— A voz do outro se tornou estranhamente divertida e pausou, ainda cantarolando. – E se o gato invadiu a frequência de novo, se vier para a agência se entregar tem um novelo de lã te esperando.

Izuku quase cai do prédio.

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Ele voltou para casa quase duas da manhã, ainda assim era mais cedo que o usual. Havia tido outro encontro com Ingenium, o que era sempre divertido. Naquele ponto o homem parecia não levar muito a sério a tarefa de o capturar.

Teve cuidado para evitar qualquer encontro com Endeavour e principalmente Eraserhead. Ele era fã do herói, mas isso não o tornava menos perigoso e o mais provável de acabar o levando em custódia.

Havia Hawks também. Mas esse nunca nem tentou, ele parecia achar mais divertido jogar sardinha para ele quando o via. Os dois haviam se encontrado várias vezes naquele mês, e em nenhum momento o outro fez algum esforço para o parar, apesar de saber que ele conseguiria.

Agradecia por All Might não ter aparecido por ali desde que retornou. Temia o herói o fitar com desaprovação e acabar se entregando por conta própria.

Foi direto para casa, saltando para o prédio com facilidade. Ficava em um dos bairros mais isolados, e parecia decrépito por fora, por dentro era outra história. Ele não sabia como Takashi havia conseguido isso, mas todo o prédio era dele, mesmo que a maioria dos apartamentos estivesse abandonada. Eles usavam apenas o andar mais superior e o mais inferior, e abaixo dele havia a área subterrânea, que era onde guardava qualquer coisa que envolvesse suas atividades e as de Takashi.

Saltou pela janela, indo direto para sua oficina que ficava no andar mais superior. Ainda cantarolando começou a remover a armadura, pensando no que faria para comer, e pronto para passar algumas horas tentando encontrar alguma pista das atividades de Takashi pela internet.

—Oh ho, interessante. Kevlar?

Izuku deu um grito agudo que nunca pensou que poderia sair de si e se virou, bastão em punho.

Ela estava ali, o fitando com olhos em zoom, sentada na mesa da sua cozinha com várias invenções a mostra.

As duas da madrugada.

—Hatsume!

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Yagi fitou a cidade abaixo. Ele lembrava de Nana, dos dois saltando entre os prédios no meio da noite. O vento em seu rosto, a risada dela enquanto apostavam corrida entre os prédios.

—Tomou sua decisão então, Toshinori?

Tocou no vidro da janela, vendo o próprio reflexo esqueletal o fitando de volta. Viu também o reflexo de Sir Nighteye, o observando.

—Hoje eu vi algo surpreendente. – Se virou, sentando em uma das poltronas do escritório. Sir fez um som de interesse e sorriu. – Três candidatos, crianças, se arriscando para salvar uns aos outros em uma competição.

Os olhos analíticos o fitaram por trás dos óculos sentado na mesa.

Ele parecia menos tenso do que da última vez que tinham se visto, quando conheceu jovem Togata ali mesmo naquele escritório. Muito havia sido dito, segredos trocados, mais nenhuma decisão havia sido tomada de ambas as partes ainda.

—Isso me fez pensar. Nessa nova geração.

Yagi olhou a janela novamente. A sua mente lhe veio jovem Midoriya, a expressão convicta enquanto dizia que iria ser um herói sem uma quirk. Que a sociedade precisava de um, e ele seria ele.

— Deixar o futuro nas mãos deles não parece tão ruim.

Em um universo, Yagi havia encontrado um garoto embaixo de uma ponte que havia se provado a ele da forma que precisava no momento. Um encontro que havia mudado seu próprio destino. O herdeiro do poder que foi lhe dado por Nana.

—Vou esperar a decisão do Jovem Togata.

Nesse universo, esse encontro debaixo da ponte nunca aconteceu.

Notas finais
Dou um meme para quem adivinhar quem fez essa cicatriz na cara do Izuku. P.S: Tem alguém acompanhando essa estória nessa plataforma? Vou deixar de postar aqui por um tempo, mas volto! ♥