A teia
1 A ligação
Notas iniciais
– Você tem um cigarro? — Foram as palavras que interromperam os pensamentos furiosos de Nora assim que ela sai da boate.
A boate era a Disco, uma das mais badaladas de São Paulo, a fila de espera era enorme, e era frequentada pela elite da cidade.
– Oi? Desculpe.
– Você tem um cigarro? — A garota pergunta novamente.
– Não, não fumo — Nora responde e depois sai andando pela calçada até se afastar um pouco do barulho.
Nora tinha 19 anos, estudava publicidade, morava com o pai, um empresário ocupado, sua mãe tinha os deixado quando ela tinha poucos meses. Nora era reclusa, isso não a impedia de ter muitos amigos, só limitava a profundidade das suas amizades, os que de fato podiam falar que conheciam Nora era Camila sua amiga há 4 anos, e seu ex-namorado, que Nora conhecia desde criança.
Ela pega o celular e corre pela lista de contatos 3 vezes até parar no nome Henrique. Henrique e Nora haviam terminado há poucos meses, por mais que eles tivessem conversado e fosse uma separação "sem ressentimentos", Nora se sentia desconfortável em falar com ele, mesmo assim ela respira fundo e aperta para ligar.
Tom de discagem.
Caixa postal.
Ela liga de novo e no segundo toque.
– Alô — atende Henrique com voz de sono.
– Tava dormindo né? — Nora força uma risada.
– Nora? É, bem — Henrique olha a tela do celular — são 3 da manhã.
– Desculpa Rick, mas eu não tenho pra quem ligar...queria saber se você podia me buscar? roubaram minha bolsa, eu vim com a Camila, mas ela foi embora com um cara sem me avisar.
– Nossa calma — Rick levanta da cama e vai procurando seus sapatos — mas você ta bem né?
– Sim, e não, minha carteira tava na bolsa, meu dinheiro tava lá, por isso não posso chamar um táxi, sorte que o celular tava no sutiã. Desculpa te perturbar com isso.
– Imagina, sério, me fala onde você ta que eu te pego sem problema.
– Na disco, do lado de fora, o pior é que eu nem queria vir, a Cami que me arrastou pra cá e me abandonou depois.
– Ei relaxa — Rick fala rindo enquanto pega a chave do carro e sai do apartamento — eu chego aí em 15 minutos.
– Não vou sair daqui — Nora fala irônica e desliga.
Fábio levanta da cama e acende um cigarro.
– Algum problema? Não gostou?
– Não seja boba — ele fala sem se virar — eu tenho algumas coisas do trabalho me perturbando.
– Preciso me preocupar?
– Claro que não, são problemas meus, quer uma bebida?
– Não.
Fabio vai até o bar do quarto mesmo assim e pega um uísque, leva até a mulher na cama enquanto pega seu celular.
– Preciso ver uma coisa do trabalho, já volto.
Ele caminha até a varanda e desbloqueia o celular e digita uma mensagem.
"Tudo certo pra hoje a noite?"
Após alguns segundos o celular vibra.
"Melhor impossível"
Fabio volta para o quarto e deita na cama.
– Resolveu seu problema?
– Ainda não, mas não importa, você me acalma, por isso gosto tanto de ficar com você.
– Se gosta tanto assim devia largar sua esposa e ficar só comigo.
– É complicado princesa, já falamos disso, a Claudia piraria e tem os meus filhos, o Henrique poderia até entender, mas a Sofia ainda é muito nova, sem falar a ajuda financeira do meu sogro que eu perderia.
– Eu sei Fabio, só que cansa ser "a outra".
– Só mais um pouco de paciência princesa, por favor, se o trabalho de hoje der certo, as coisas ficaram mais faceis.
Ao chegar na frente da boate, Henrique para o carro e olha em volta procurando Nora, como não a acha liga para ela.
Tom de discagem.
Caixa postal.
Ele tenta de novo mas acontece a mesma coisa, então ele sai do carro e vai até o segurança.
– Oi, eu vim buscar uma amiga, era pra ela estar me esperando aqui fora você a viu? Morena, 1,65, cabelo cacheado no ombro?
– Posso até ter visto mas tem muita gente entrando e saindo se você não reparou.
– Posso ver se ela ta aí dentro?
– Claro, se você tiver convite, só tem um problema, ta esgotado, então da licença.
Henrique se afasta xingando baixo e continua ligando para o celular de Nora enquanto desce a rua em direção a esquina, quando está duas casas depois da boate, ouve o toque do celular da amiga, a música Ana Julia, o som vem de um beco escuro entre dois prédios.
Um calafrio percorre sua espinha e ele vai andando devagar na direção do som.
– Nora? Ta aí?
Ele vê o celular da amiga no chão e quando se abaixa pra pegar vê que a tela está quebrada.
– Nora? — Dessa vez ele grita ao se levantar, e vê que não tem ninguém em volta — Mas que merda Nora.
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