A tatuagem da contorcionista.

1 Bem-vindo a Le Cirque.


Você entra em um pátio aberto iluminado, cercado por tendas listradas.

Caminhos sinuosos ao longo do perímetro levam para fora do pátio, convertendo-se em misteriosos pontilhados de luzes cintilantes

Uma contorcionista num traje preto com brilhos se retorce sobre uma plataforma ali perto, dobrando o corpo em posturas impossíveis.

*

Ela se apresenta como Tsukiko, mas não esclarece se é nome ou sobrenome.

É pequena, mas não minúscula. Os cabelos longos e negros estão arrumados em um delicado coque. Veste um casaco escuro grande demais para ela, mas sua postura é tal que parece se alongar como uma capa e o efeito é bastante elegante.

Ao retirar o casaco, percebe-se que ela usa um pequeno vestido transparente. Parece mais uma faixa de seda preta mantida no lugar por um corpete bem apertado do que um vestido.

E não é exatamente o pequeno tamanho da roupa que chama a atenção, mas a tatuagem que ondula sinuosamente por sua pele.

À primeira vista é difícil dizer o que seja; respingos de marcas pretas que circundam seus ombros e pescoço, terminando pouco a cima do decote na frente e desaparecendo atrás dos laços do corpete preto. É impossível dizer até onde vai aquela tatuagem.

Com um exame mais detalhado, pode-se perceber que o turbilhão da tatuagem é mais do que simples marcas pretas. É uma cascata fluente de símbolos alquímicos e astrológicos, sinais antigos representando planetas e os elementos, registrados com tinta negra na pele clara. Mercúrio. Chumbo. Antimônio. Uma lua crescente aparece na nuca; um hieróglifo egípcio perto da clavícula. Há ainda outros símbolos: runas nórdicas, caracteres chineses. São incontáveis tatuagens, mas todas se mesclam e fluem num gracioso desenho que a adorna como uma joia incomum e elegante.

Quando interrogada sobre tais marcas apenas responde: “É parte do que fui, do que sou e sempre serei.”

Caminha até a sala de jantar, deixa os sapatos na entrada e vai descalça até perto do piano, que recebe a melhor luz dos lustres e dos candelabros.

De início fica apenas parada, calma e relaxada, enquanto é observada com curiosidade, logo fica claro qual é o seu estilo de entretenimento.

Tsukiko é contorcionista.

Tradicionalmente, contorcionistas se retorcem para frente ou para trás, dependendo da flexibilidade de sua coluna, e seus truques e apresentações são baseados nessa diferença. Tsukiko, porém, é uma das raras contorcionistas cuja flexibilidade é a mesma nas duas direções.

Ela se movia com a graça de uma bailarina.

Tsukiko é uma artista habilidosa. Acrescenta floreios perfeitos, mantem posições e faz pausas por tempos ideais. Embora se retorça em posições inimagináveis, que parecem dolorosas, seu sorriso angelical não se altera.

No fim da noite ela volta a sua postura normal, calma e relaxada. Agradece o pequeno público a sua frente, caminha devagar até a entrada onde volta a calçar seus sapatos e veste seu casaco.

Mostra seu belo sorriso pela última vez ao se despedir e então desaparece pela porta.

É hora de ir. O show acabou.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!