A substituta
20 Será que eu posso gostar de você?
Um senhor, amigo da minha tia, veio correndo nos avisar que o Castiel, estava no meio matagal dançando, enquanto um porco se aproximava pra atacá-lo. Ele disse que tentou avisá-lo, mas ele ficou acenando e demorou pra perceber, quando viu o porco saiu correndo. Eu sabia por experiência que ele tinha um senso de direção horrível e devia ter se perdido. Logo iria anoitecer e ele não ia conseguir enxergar nada por ter cegueira noturna. Eu precisava encontrá-lo!
Entrei em casa e preparei uma mochila, coloquei todo tipo de objeto que iria precisar como roupas, lanternas e até mesmo comida e água. Andei pelo caminho onde ele tinha sido visto e tentei me basear sobre o conhecimento que eu tinha sobre ele.
Quando eu estava subindo a montanha havia dois caminhos.
Por qual ele iria? Pensei. O caminho mais claro!
Me lembrei por experiência própria que ele só dorme com luzes acesas. Andei pelo caminho mais claro, em um trecho vi vários lixos, ele com certeza evitaria, fui pro lado mais limpo.
—Castiel! — Comecei a chamar por ele.
Vi uma pegada que devia ser dele, ele tinha pisado no cocô de vaca. Pelo menos eu estava na pista certa, com certeza ele deve ter ido pro rio lavar aquilo.
Quando cheguei à margem do rio chamei por ele novamente.
—Castiel! Castiel! —Gritei alto, minha voz ecoou.
—Estou aqui! — Ele estava deitado em uma pedra, me encarou irritado. —Por que está procurando por mim? Eu morri?
—Castiel! —Eu disse aliviada e corri até ele. — Fiquei preocupada, você foi perseguido por um porco. — Ele me olhou espantado.
—O povo já sabe? — Ele arregalou os olhos. Eu me sentei do lado dele. — deve ter sido aquele vovô que estava acenando. E cadê o porco? — Ele me olhou disfarçando.
—O porco já voltou pra fazenda.
— Eu ia voltar na hora que eu quisesse, mas como eu estava sujo e suado, lavei os sapatos e esperei secar. — Ele calçou os sapatos. —Estou com sede, vamos.
— Pensando nisso eu trouxe isso. —Tirei a garrafa de água e dei pra ele, ele ficou olhando pra mochila.
—O que tem aí? Por que está tão grande?
—Trouxe muitas coisas pra te procurar, roupas de frio, toalha, kit primeiros socorros, comida... — Fui tirando item por item, ele riu.
—Como me encontrou? — Eu pensei um instante.
—Fui capaz de fazer isso, pensando como você. — Ele deu um sorriso levemente comovido.
—No fim vejo que você não é tão ingrata. Vamos. —Nós nos levantamos.
À medida que fomos andando a noite caiu, Castiel vestiu a blusa de frio que eu levei e amarrou outra na cabeça, ele pegou a lanterna porque quase não enxergava o caminho.
—Lynn, mais devagar.
—Ok. —Eu parei pra ele me alcançar. — Olhando melhor, você percorreu uma longa distância correndo do porco. — Ele me encarou.
—Eu não estava fugindo dele, só estava evitando. Acha que tenho medo de porcos? Ele estava sujo e por isso eu o evitei.
—Claro... —Olhei pro lado segurando o riso.
De repente algo se mexeu no meio do mato e nós olhamos assustados.
—Será algum animal da montanha? —Eu disse. — Nem estamos mais na montanha.
—Será que... Existem coelhos aqui? — Ele disse assustado.
—Por que coelhos? — Eu perguntei apertando os olhos.
—Odeio coelhos. — Ele disse sério.
—Mas eles são fofos.
—Já foi mordida por um? —ele disse alto, eu me assustei. — Se não foi, não pode falar nada. —Ele disse num tom agourento. —Uma vez fui me aproximar de um porque parecia fofinho e calmo, mas fui mordido. —Ele levantou o dedo indicador —Coelhos são perigosos!
—Então você foi mordido aqui... —Eu peguei no dedo dele.
—Você Lynn. — Ele puxou o dedo. — Você parece gentil, mas é tão perigosa quanto um coelho.
—Pareço um coelho? —Arregalei os olhos.
—Sim! Você é a garota coelho. —Eu olhei brava pra ele. —Vamos logo!
Recomeçamos a andar, caminhamos por mais um tempo até chegar perto das casas, finalmente longe da montanha. Tinha um banco de madeira próximo a uma árvore, Castiel quis sentar pra descansar. Me sentei ao lado dele.
—Que lindo. Olha a quantidade de estrelas. —Eu disse encantada olhando pro alto.
—Mal consigo te enxergar, então como acha que posso ver estrelas?—Ele disse monotonamente.
—Mas consegue ver a lua? —A lua estava cheia. Ele apertou os olhos olhando para o céu.
—Bem ali. —Ele apontou pra ela.
—Então a única estrela que consegue ver é a lua. — Ele riu.
—A lua não é uma estrela. — Olhei pra ele incrédula.
—Aquela coisa tão brilhante não é uma estrela?
—Ela só reflete a luz do sol. Apenas algo como o sol, que emite luz própria é uma estrela. — Pensei um instante naquilo.
—Mesmo usando a luz de outras estrelas a lua tem sua utilidade. Mais do que a luz do sol que é emitida de dia, a luz da lua que ilumina a noite é mais útil, não é? — Olhei pra ele.
— Lynn, o dia só é claro por causa do sol, inútil. —Ele segurou um riso.
—Ah, é mesmo. — bati na cabeça, que comentário mais sem nexo foi esse meu.
— Dia ou noite, o sol é uma estrela. — Ele disse calmamente olhando o céu.
—Eu devo ser como a lua, que usa a luz de estrelas como você.
—Mas a lua não é completamente inútil. Não importa quantas estrelas existam, eu só consigo enxergar a lua. —Eu olhei pra ele comovida, ele continuava olhando pro céu.
—Castiel... —Eu disse baixo. — Só consigo enxergar uma estrela agora. —Disse olhando pra ele.
—O que? Mas você disse que havia várias.—Ele não havia percebido o meu olhar.
—E há, mas só uma brilha tão lindamente. —Realmente ele era tão perfeito. —Só consigo enxergar essa estrela.
—Existe uma estrela assim? — Ele tentava achá-la olhando por céu.
—Sim, muitas pessoas amam essa estrela. —senti meus olhos encherem d’água enquanto eu falava. — Será que eu estaria errada, por ser uma das pessoas que gostam dessa estrela?
—Você precisa de permissão pra fazer algo assim? —Ele deu um sorriso debochado. —Pergunte a estrela, com certeza você consegue enxergá-la.
—Sim. Estou olhando para a estrela. Tudo bem se... Eu gostar de você?
Fiquei com os meus olhos fixos nele, e ele admirando o céu. Senti meu coração bater mais forte nesse momento. De repente uma luz de farol o iluminou, por impulso ele olhou na minha direção e flagrou meu olhar, eu virei meu rosto rapidamente pra estrada.
Será que ele percebeu? Me perguntei quase em pânico por dentro. Mas pelo canto do olho vi que ele olhava fixamente pra mim.
A luz do farol que tinha nos iluminado era de um carro, abriram a porta e uma garota loira desceu.
—Ambre? — Castiel disse se levantando.
—É mesmo a Ambre? — Me levantei também.
—O que estão fazendo? — Ela perguntou brava. — Achei que você estivesse ocupado.
—Por que está me perseguindo? — Castiel disse irritado.
—Você não atende seu telefone, e o que aconteceu de tão urgente pra você vir nessa roça? — Ela veio andando brava na nossa direção. — O que está acontecendo? — Ela caiu e quando foi se apoiar no chão colocou a mão no cocô de vaca, depois começou a gritar.
Castiel dirigiu o carro dela de volta pra casa, minha tia limpou a mão dela e eu lavei seus sapatos. Em seguida ele foi trocar de roupa, Ambre havia trazido algumas peças pra ele. Assim que terminei com os sapatos fui levar pra ela. Íamos os três embora juntos pra casa.
—Obrigada Tay. — Ela os calçou. — Parece que o clima entre vocês era sério, do que estavam falando? —Eu olhei pros lados sem graça.
—Sobre estrelas.
—Estrelas? — Ele desdenhou. — Então não era nada importante. Achei que o Cast estivesse te ofendendo.
—Ele nunca me ofende. —Senti um tom de lealdade na voz.
—Ah é? Bom quando ele fala de você, sempre usa um tom rude.
—Hum? Ah, às vezes eu perturbo ele. Desculpe. —Ela se aproximou um pouco mais de mim.
—Por favor, não leve o que eu direi de maneira errada, mas eu e Cast estamos tão ocupados que não temos tempo pra ficarmos juntos. E se você tomar todo o tempo dele ficarei irritada. Deixe-nos sozinhos às vezes. —Eu olhei corando pros lados.
—Entendo, terei mais cuidado agora. —forcei um sorriso.
Castiel apareceu todo arrumado, ela foi toda fofa pro lado dele, mas ele parecia irritado.
—Se formos agora, chegaremos cedo lá. —Castiel disse. —Taylor, vamos.
—Tay, você vai? —Ela me lançou um olhar. Eu fiquei em duvida.
—Castiel, vou com a minha tia depois. —Eu disse vacilante.
—Venha conosco. —Ele usou seu tom autoritário. Eu fingi um bocejo.
—Estou com sono, não posso ir. Vá você.
—Isso aí. — Ambre segurou o braço dele. — Ele está cansado, deixe-o.
—Estou indo, tenha uma boa viagem. — Me virei pra entrar em casa.
—Tay. —Castiel chamou, eu olhei pra ele com alguma esperança no olhar. —Traga as minhas roupas e volte amanhã. —Ele me olhou sério.
Depois se virou e saiu andando com a Ambre pendurada no seu braço. Fiquei olhando eles se afastarem. Me sentei em baixo do pé de manga e olhei pro céu.
A estrela está tão longe...
O meu coração doeu mais forte dessa vez. No começo era tão imperceptível, depois fazia cócegas em mim até chegar a ser suportável, agora realmente doía.
Fale com o autor