A solidão encontra companhia
19 Capítulo XIX
Enquanto isso Rafaela estava em um bar próximo ao apartamento de Fabíola. Ambas estavam se divertindo na companhia uma da outra. Ainda assim, a chef não conseguia tirar da cabeça que Lara estava agora com Emma, imaginando o que estaria acontecendo.
— Você deve ouvir muito que é linda, né? — Fabíola disse em determinado momento olhando fixamente para a chef de cozinha.
— Mais ou menos. Eu só trabalho, ninguém me elogia lá. — Rafaela disse rindo.
— Por falar em trabalho… Você tem algo com aquela loira, né? — Fabíola perguntou rindo bebendo sua cerveja.
— Não, nada concreto pelo menos. — Rafaela respondeu sorrindo incomodada.
— Bom saber. — Fabíola respondeu olhando sedutora para Rafaela que sorriu maliciosamente para a advogada.
— Você disse que seria um encontro de amigas, só lembrando. — a chef respondeu ainda sorrindo.
— Amigas transam as vezes, sem compromisso. — a ruiva falou fazendo Rafaela gargalhar.
Ambas ficaram conversando e Rafaela esqueceu parcialmente o motivo que lhe fez beber aquela noite, até a advogada conseguir adentrar no assunto Lara. Rafaela expôs o que estava sentindo e todos os seus medos.
— Vamos? Quer ir ao meu apartamento? — Fabíola perguntou meia-noite e meia quando ambas já estavam um pouco tontas.
— Quero. Não pretendo trabalhar amanhã. — a chef disse.
— Olha que coincidência! — Fabíola disse entusiasmada. — Amanhã eu vou para Jericoacoara, uma cliente quer que eu vá numa reunião em seu lugar pra resolver a questão de um imóvel e me cedeu o lugar para ficar amanhã e durante o final de semana. Você não quer ir? — a ruiva perguntou e Rafaela ponderou.
— Eu pretendia não ir trabalhar só amanhã… — falou pensativa. — Mas vou, estou precisando desse retiro de três dias. — decidiu enquanto ambas caminhavam até o carro dela.
— Ótimo. — Fabíola comemorou.
[...]
— Emma, eu não posso… — Lara começou sem saber ao certo o que falaria. — Eu tenho sentimentos por outra pessoa. — falou de uma vez e Emma suspirou em concordância.
— Por que você aceitou meu convite então? — a médica perguntou curiosa. — A gente já transou, então eu imaginei que você saberia que esse encontro ou seria para mais uma transa ou pra algo do tipo. — falou indicando a mesa de jantar.
— Eu imaginei que fosse para mais uma transa. Eu não me importaria com nada casual agora, mas não uma promessa de nos conhecermos melhor. — a loira afirmou e Emma sorriu indicando que tinha entendido.
— Eu acho que seria estranho transar depois disso. — a médica disse constrangida rindo.
— Com certeza seria. — Lara falou acompanhando a risada e se servindo assim que a médica apontou para os pratos.
— Você já falou sobre esses sentimentos para a pessoa? — a médica perguntou durante o jantar.
— Já. Mas não vai acontecer nada, ela é uma grande covarde. — Lara disse tentando desconversar.
— Eu entendo de covardes. — Emma disse bebericando seu vinho. — Espera, essa pessoa é a Rafaela?
Lara arregalou os olhos e tentou analisar a expressão da médica para saber o que ela estava sentindo.
— Pela reação, acho que sim. — Emma disse sorrindo ironicamente. — Sinto muito. Ou não. Como experiente no assunto Rafaela, eu te sugiro seguir em frente. — a médica disse suspirando se levantando da mesa para levar os pratos até a pia. — Mas já entendi que ta muito cedo pra ser comigo, né? — perguntou brincando
— Pois é... Eu sei. — Lara disse indo ajudar a médica. — Ao que tudo indica, é a única saída.
— As vezes a gente quer se preservar e se impede de viver coisas que serão um mistério no futuro, mas tem a minha experiência, pode ser igual ou completamente o oposto. Cabe a você, arriscar ou não. — Emma disse enquanto terminavam de lavar as louças.
— Eu me arriscaria se ela ao menos permitisse. — Lara disse. — Vou chamar um motorista. Obrigada por me ouvir um pouquinho, eu estava precisando disso. — falou sincera.
— Foi um prazer. Não chama não, eu te levo. — a médica disse pegando a chave para sair de seu apartamento.
[…]
Rafaela havia transado a noite toda com Fabíola para no dia seguinte lembrar de avisar Vanessa que não iria nem naquele dia nem no fim de semana ao Perle du Nord. Ela voltou para o seu apartamento para arrumar algumas roupas numa mochila e depois buscaria Fabíola para irem para estrada. Checou seu celular e viu muitas mensagens de Lara que não estava com cabeça para responder e algumas ligações também da estagiária. Logo em seguida, saiu do seu apartamento para buscar a advogada sem querer pensar muito na loira pela qual estava apaixonada.
[…]
Assim que chegou ao Perle du Nord, Lara foi em busca de Rafaela, não a encontrando em lugar nenhum, foi bater a porta do escritório quando foi interrompida por Vanessa.
— Chefinha não vem hoje. — ela disse mostrando uma mensagem de Rafaela avisando que não iria por três dias ao restaurante, o que surpreendeu a loira.
— Isso é tão estranho. — Juán afirmou para as duas. — Ela nunca deixa de vir por tanto tempo, só quando viaja.
— Sim, fiquei preocupada também quando ela me avisou. — Vanessa disse. — Mas depois Fabíola me disse que passou a noite com ela e que ambas iriam para Jericoacoara bem cedo hoje, inclusive devem estar na estrada agora.
— Será que vai ficar sério as coisas entre essas duas? — Juán riu e foi para a bancada organizar materiais, enquanto Vanessa fez um gesto como se estivesse torcendo por elas.
Lara ouviu aquilo e sentiu um aperto no peito, tentou não demonstrar e foi se arrumar para começar a trabalhar.
O dia de trabalho foi intenso, mas não o suficiente para distrair Lara da imagem que se formava em sua cabeça de Rafaela em um lugar maravilhoso com uma mulher linda como Fabíola. Resistiu ao impulso de mandar mais uma mensagem para a chef, o que conseguiu com muita resistência.
[...]
— Que casa linda. — Rafaela disse assim que chegaram ao destino.
Ambas se ajeitaram em quartos separados da casa, pois apesar de terem transado na noite anterior, Rafaela havia decretado que aquela tinha sido a última vez, pois gostava de Fabíola e via nela uma ótima ouvinte e conselheira, o que possivelmente a faria se tornar uma ótima amiga.
Mal arrumaram suas coisas, já vestiram biquínis e foram limpar a piscina da casa que ficava de frente para o mar. Após essa tarefa, Fabíola recebeu as pessoas para a reunião, enquanto Rafaela, mesmo exausta foi andar pela vila. A chef já havia estado ali algumas vezes e visitou alguns lugares, quando, por fim, no final do dia se encontrou com a advogada e pararam em um bar na praia com Karaokê.
Rafaela estava disposta a esquecer um pouco sua vida, desligara seu celular e o deixara na casa antes de saírem. Fabíola por outro lado tirou foto de tudo que via para postar, enquanto em Fortaleza Lara utilizava o perfil da advogada para ver por onde a chef estava.
— Aquela mulher não para de olhar para você. — Fabíola comentou após alguns minutos no bar. Rafaela olhou discretamente para onde ela tinha indicado e viu uma mulher loira de cabelo curto, aparentava ter mais de 30 anos, alternando olhares entre a chef e seus amigos que estavam na mesa com ela. — Eu vou cantar, vamos ver se ela chega em você quando eu sair. — a advogada disse e sem dar tempo de resposta para a chef saiu da mesa indo para o palco escolher uma música para performar.
Rafaela olhou novamente para a loira que agora olhava para Fabíola e para o palco, mas antes que a chef desviasse o olhar seus olhares se cruzaram e Rafaela deu um sorriso de canto, momento em que a mulher saiu de sua mesa após um aviso aos seus amigos e andou até a chef.
— Que coragem deixar uma mulher como você sozinha, mesmo sendo o tempo de uma música só. — ela disse assim que chegou até a mesa da chef.
— Uma mulher como eu? — Rafaela perguntou curiosa indicando a cadeira a sua frente para a loira sentar.
— Você sabe exatamente o que quero dizer. — ela disse sem rodeios e Rafaela sorriu. — Sou Alice e você dispensa apresentações, de vez em quando vejo você pela internet.
— Gosta de cozinhar? — Rafaela perguntou rindo esporadicamente dos desafinados que Fabíola dava, mas incentivando a advogada com o polegar para cima.
— Não muito, mas tenho que ter uma certa cultura gastronômica local, pois trabalho com turismo e seu restaurante é praticamente um ponto turístico para os curiosos. — falou e Rafaela sorriu constrangida. — Quer dar um passeio na praia? — Alice perguntou.
— Vamos. — Rafaela falou e viu Fabíola terminando a música, voltando para a mesa. — Fabíola, essa é Alice. Nós vamos andar um pouco pela praia, estou sem meu celular.
— Tudo bem, deixei uma chave reserva da casa no vaso grande. — a advogada disse já com um sorriso malicioso.
Assim que saíram do bar Alice sugeriu irem para umas pedras já próximas ao mar. Ao chegarem Rafaela ajudou a loira a subir até o alto de uma das pedras e ficaram sentadas uma de frente para a outra sob a luz do luar.
— A lua está linda. — Alice comentou distraída. — Mas me diz, o que a grande chef Rafaela faz na pequena vila de Jericoacoara? — perguntou em tom de brincadeira.
—Precisava de um retiro. — Rafaela disse simplesmente se deitando sobre a pedra. — Vida muito corrida, quase não sobra tempo para pequenos prazeres para mim mesma. E você?
— Sou da Holanda, mas me mudei há mais de 10 anos para Jericoacoara, tenho uma pousada. Em resumo a minha vida é esse retiro que você quer. — falou confirmando que tinha mais de 30 anos como Rafaela pensava.
— Atrativo. — Rafaela disse sedutora e percebeu quando Alice olhou para sua boca.
— Notei que você falou que está sem celular, não tem medo de estar incomunicável com uma estranha? — perguntou brincando.
— Não, você parece bem inofensiva. — Rafaela devolveu fechando os olhos apreciando o vento do litoral tocar seu rosto.
— Será? As vezes eu sou bem violenta. — Alice disse e Rafaela ainda de olhos fechados sentiu as unhas da loira percorrendo com suavidade seu braço, a chef abriu os olhos, se ergueu e tomou a iniciativa do beijo.
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