A sobrinha da Helô

6 As habilidades da Sobrinha da Helô


Helena olhou para a mansão dos Leitão, saltando do carro de Tiago, se preparando para mais aquela prova de fogo. Não ia ser fácil o resto daquele dia.

Afinal, assim que ela e Tiago chegaram ao carro dele, estacionado há quilômetros do ex-casebre de Helô, eles se olharam de cima a baixo.

— E agora? – começou Tiago, olhando dela para ele mesmo e depois para o carro – na situação que está nossa roupa... vamos sujar todo o carro.

Helena que estava balançando a cabeça de modo afirmativo olhando para suas roupas e as dele, com o polegar e o indicador da mão direita brincando com os lábios, pensativa, virou a cabeça rapidamente para Tiago o encarando.

— Sério? Você acha que esse é o nosso problema? – Tiago a olhou interrogativo – Tiago, como é que vamos explicar a situação das nossas roupas? Ou tu acha que ninguém na sua casa vai notar?

— Bom...- ele começou olhando para as próprias roupas.

— E como você vai explicar a perda da carteira, celular, gravador... – ele revirou os olhos – e os calçados? E eu, os meus pertences e ...meu coturno ...?

— Sabe qual é o problema?

— Você ter tentado me matar me jogando na água? – ela respondeu rápido.

— Não. – ele a fuzilou com o olhar, e com as mãos na cintura continuou – O problema é não podermos falar a verdade porque alguém além de ser uma bandida usando a família para vingança, ainda é ladra e roubou carteira de um vigia que não tem lá muita índole pra reclamar.

Ele suspirou e deu as costas para ela. “Que manhã que não acaba mais”.

— Já vai desistir é? Primeiro contratempo e tu já corre?

— Não! Eu só não sou acostumado com isso. – ele se virou para ela – Ao contrário de você eu não vivo de mentiras.

— Ahã...acredito. Foca aqui Tiago, você não precisa mentir, tá? Só não pode me contrariar. Está me entendendo?

Ela fixou o olhar nele. Tiago manteve o olhar, pensando nas palavras dela. Fechou os olhos e balançou a cabeça confirmando. Helena foi até ele, e cruzando os braços enquanto o olhava firme, disse:

— A única coisa que você tem que lembrar é quais as verdades importantes a serem ditas. Não minta por mim, deixa que eu minto por nós. Você é péssimo mentindo.

Tiago a encarava incrédulo, não sabia como ela conseguia essa frieza.

— Você é a profissional. – ele disse olhando para o lado, evitando olhar ela nos olhos.

Helena sorriu simpática para ele.

— Isso. Então você vai concordar com tudo que eu fizer né?

Tiago voltou o olhar intrigado para ela bem a tempo de receber um soco bem no olho. A cabeça ricocheteando para trás com a força do soco, vindo o tronco para frente a seguir, quando ele colocou a mão direita no joelho e a esquerda sobre o lado esquerdo do rosto.

— VOCÊ É LOUCA ANIMAL? O que foi isso? – Tiago gemia, Helena tentava não rir, parecer piedosa – O que deu em você agora?

— Desculpa, mil desculpas, sério. – ela juntava as mãos a frente do rosto pedindo desculpas, Tiago já estava em pé, a olhando apenas com o olho destampado, a face contorcida de dor e dúvida do arrependimento dela – Por favor, eu não sei o que deu em mim. Deixa eu ajudar.

Ela se aproximou, ele deu um passo para trás, ela fez uma cara de lamento. Tiago se compadeceu. Tirou a mão do rosto e tentou mexer a face.

— Mas que loucura foi essa?

— Eu não sei, não sei...acho que tenho surtos violentos. – ela disse levantando os ombros e as palmas da mão – Vem aqui. Deixa ver como ficou.

Ele deixou ela se aproximar ainda cuidadoso. Ela pegou o rosto dele nas mãos trouxe mais próximo do seu, depois virou ele para um lado, para o outro, voltou a afastar ele, sempre com a mão no rosto dele.

Tiago observava ela. Apesar de tudo que passaram até ali o rosto estava intacto. E ela assim, cuidadosa, com o semblante calmo, sem o olhar de zombaria, parecia uma pessoa agradável.

Helena deu seu sorriso mais meigo para Tiago, olhando-o nos olhos. Ele respondeu com um sorriso rápido.

— Acho – ela disse passando suavemente o polegar pelo local do soco – que nem vai dar para perceber o hematoma se ....

Ela ela deu outro soco em Tiago, na boca. Enquanto o tronco virava para o lado direito, a dor se espelhou por toda a boca junto com o gosto de sangue. Helena não parecia nada agradável agora.

— SUA.... – Tiago tinha a mão esquerda sobre a boca agora, verificando o sangue saindo dela, para depois cuspir um pouco dele, enquanto segurava todo o sortilégio de ofensas a ela – VACA.

Ele então a olhou, com o olho esquerdo já um pouco fechado. Ela estava há cinco passos dele, com uma mão na boca, meio aberta, e a outra sobre a barriga. A fúria o dominou, e sem pensar ele foi na direção dela, passos decididos. Helena se preparou, e quando ele chegou mais perto, ela se jogou para o lado direito e deixou os dois braços bem firmes atingirem as costelas esquerdas de Tiago, que caiu no chão, gemendo de dor.

— Puta que pariu – ele se contorcia no chão.

Helena fazia uma cara de pena com vontade de rir, enquanto se aproximava dele e o olhava no chão.

— É, acho que isso vai te dar uma dor genuína nas costelas. – ela então olhou pro céu – já deve ser quase meio-dia. Esperamos mais meia-hora para os hematomas ficarem mais visív...

Bum no chão. Tiago assim que se recuperou do torpor da dor, se encheu de fúria e sem nem pensar, passou uma rasteira em Helena que caiu perto dele, ralando os cotovelos.

— Ai – ela gemeu, olhou para Tiago, que tinha a mão direita sobre as costelas e a esquerda sobre o rosto, gemendo – é justo. – ela então olhou os cotovelos – É, isso vai ajudar também.

Agora ali estavam eles. Assim que deu a meia-hora de dor e os hematomas se mostravam bem visíveis, Helena puxou Tiago do chão para entrar no carro. Ele com muito custo se levantou, e aceitou ir na carona quando sentiu que não conseguiria se mexer muito para dirigir. Ela então deu a partida, e entrou pelo portão da mansão sentindo um pouco de frio na barriga.

Mentir para mentirosos era uma tarefa árdua. Afinal, mentira é a especialidade de Magnólia e corja.

Helena deu a volta no carro, descalça e foi dar apoio a Tiago, que abria a porta ainda gemendo, sem mexer muito a boca, que doía.

Ele a afastou com o braço direito e um grunhido. Ela voltou a se aproximar vendo que empregados vinham da casa até eles, espantados.

Helena olhou significativamente para Tiago, que nem precisou ouvir dela que era para fazer exatamente o que ela orientou antes sobre não desmentir ela e apenas evitar contar uma verdade que os prejudique, ele leu isso na expressão dela.

Os empregados, Leila e um copeiro, chegaram neles e logo se ofereceram para ajudar Tiago a entrar, enquanto Helena ficou para trás.

— Hei...

Helena os seguiu, rejeitada.

Mal entraram pelo hall da casa já se pôde ouvir um burburinho. Mag falava alto e alegre com alguém na sala. Quando Tiago entrou todos calaram a boca e o olharam assustados. Estavam ali em pé, cordiais, Magnólia, Hercules, Luciane, Vitória e Leticia. Todos em um circulo ao redor da ultima.

— Meu Deus, Tiago, meu filho o que te aconteceu!?

Magnólia se adiantou indo até o neto que nem abriu a boca, só gemeu quando ela tocou no rosto dele.

— Meu amor – Leticia se aproximou também, tocando no namorado, analisando o seu estado – foi outra briga com o Elio?

Tiago só mexeu a cabeça negativamente, o lábio inchado, sem vontade de falar. Helena se alertou ao ouvir a voz de Leticia, mesmo não conseguindo vê-la por conta das pessoas na sua frente.

— Não. O Tiago foi um herói me salvando de um bandido.

Falou Helena, encoberta pelos empregados que acompanhavam Tiago e deram espaço no corredor para que todos vissem a dona da declaração.

Tiago expirou aliviado, começando a entender a razão dos socos levados.

Helena, vendo o espaço dado, e a cara de verdadeiro e sincero ódio de Leticia para ela, caminhou devagar, com o olhar mais digno, sofrido e humilde que podia, pés ainda descalços a roupa suja de terra, gravetos e folhas, cabelo amarrado displicentemente, todo emaranhado. Ela foi até Tiago e, colocando uma Magnólia enojada de lado, o abraçou, fazendo ele gemer de dor nas costelas.

— Obrigada por ter sido meu herói. – Helena esticou-se na ponta dos pés e beijou carinhosa e levemente a bochecha esquerda de Tiago.

Ele quase sorriu, mas então notou que aquilo não era exatamente uma forma de Helena o agradecer ou mesmo o vangloriar, mas uma forma de perturbar Leticia, que dera um passo para trás, olhos lacrimejando de ódio, mão direita com as unhas cravadas na bolsa.

Helena segurou o braço dele, e olhou Leticia, docemente.

— Seu noivo foi...

Tiago olhava com rabo de olho para Helena, indignado, quando a feição dela mudou, arregalando os olhos, ela ficou muda. Ele podia jurar que ela ficou um pouco enrubescida.

Surgindo por trás de Luciane e Hércules, vinha Heloisa, que devia estar sentada no sofá, escutando os paparicos em Leticia. Helô olhava pra cena de Helena perto de Tiago com um misto de desconfiança e preocupação. Do seu lado, sempre apoiando a mãe, estava Edu, olhando para a cena curioso.

Helena largou o braço de Tiago, e olhou ao redor, pigarreando. Tiago notou que ela ficou sem fala diante de Helô e entendeu que ela de fato veio ali por ligações familiares fortes, no caso a mãe de sua noiva.

Todos se entreolhavam diante do silencio de Helena. Até que alguém se pronunciou fazendo até Tiago gemer, do temor daquela voz naquele momento.

— Por favor, não se cale. Conte-nos mais detalhadamente sobre o heroísmo do meu futuro genro.

Tião disse isso se levantando do mesmo sofá da esposa, provavelmente, e, surgindo entre Heloisa e Edu, que olharam significativamente para Helena, indo em direção de Leticia, a quem abraçou pelos ombros.

— Ai gente, mas antes coloca o minino num sofá, ele tá tremendo aqui em pé. O pobre tá que não se guenta. Olha só Leila, traz um bife fresco e umas compressas de gelo pro Tiago.

Falou Luciane se adiantando e quebrando com aquele silencio e clima pesado na sala, pegando Tiago com o máximo de cuidado que conseguia, o levando até o sofá. No qual ele sentou feliz, e agradecido a madrasta. Mas não por muito tempo, Leticia logo se jogou do seu lado esquerdo e Magnólia foi para o seu direito, resmungando que o que Tiago parecia precisar mesmo era de um médico, pedindo que Leila ainda ligasse para Bruno.

Helena sentia o nervosismo de encontrar Helô, justo quando fazia cena para Leticia ficar com ciúmes, depois da noite anterior, se esvair, crescendo no lugar o ódio com Tião ali, na sua frente. O que a movia sempre, a deixando com desenvoltura, o desafio e o ódio.

Heloisa e Edu viram todos indo se juntar ao redor de Tiago, até Tião, que não se afastou muito de Helena, mas voltou um pouco a atenção ao garoto. Helena tinha os olhos fixos nele. Então Helô se aproximou dela, preocupada.

— Você está bem? – Helô chegou já tocando o cabelo de Helena, medindo ela de cima a baixo até encontrar os machucados no seu cotovelo – Ah, olha isso aqui. A gente precisa limpar isso.

— Deixa assim, Helô. Antes ela tem que terminar a história dela. – disse Tião se aproximando das duas, mostrando que não perdera nenhum momento Helena do seu campo de visão.

— É mesmo, menina, você ainda tem que explicar essa história de Tiago chegar aqui cheio de hematomas e você inteira. – Magnólia gritou do seu canto, colocando a atenção da sala na direção da sobrinha da Helô.

— Não! – disse Heloisa firme – Aqui não é só o Tiago que precisa de cuidado, ela precisa cuidar também dos ferimentos dela. Vamos limpar isso no banheiro, Helena.

— Nem pensar. Ela vai primeiro se explicar. – disse Tião puxando o braço de Helô que já ia levando Helena.

Helena então respirou fundo. A irritação a dominara. Quando ela ia dar uma resposta para Tião e demais, sentiu alguém se aproximar pelas suas costas.

Pedro, com um pedaço de bife, acompanhado de Leila que trazia compressas de gelo para Tiago, veio pelo corredor, parando logo atrás de Helena, de frente para Tião e Helô, que o olhava triste e assustada.

Helena sentiu tantas coisas naquele momento que não sabia explicar exatamente qual era mais forte. Sentiu o nervosismo de pela primeira vez ter na mesma sala Pedro e Helô, e de quebra Tião, sua mãe e seus dois prováveis pais. Estava em família. Os Leitão, os Martins e os Bezerra. E então tinha a tristeza. A tristeza porquê dessa família só três ou quatro ela não desprezava. E ainda tinha uma dor que não sabia explicar nem o que era, que é a de ver Helô tão debilitada e frágil naquela situação.

Claramente alguma coisa a fez se afastar de Pedro, que agora a tratava de modo distante, sem com isso deixar de se importar com ela. Afinal, Helena notou o olhar reprovador dele para a mão de Tião segurando Heloisa. Edu foi quem fez o que Helena e Pedro tentavam com o olhar, afastou a mão do pai sobre o braço da mãe.

— Heloisa tá certa. Não é só Tiago que passou por uma situação traumática, tem que cuidar da Helena também. Aqui – Pedro pegou a mão de Tião e colocou o bife nela – vai cuidar do seu amado genro, que eu cuido da minha... – Helena arregalou os olhos, Helo que estava com a cabeça baixa o olhou de rabo de olho e Tião apertou os olhos de raiva sobre o Leitão – amiga.

Pedro pegou Helena pelos ombros e retirou ela da sala, para um banheiro. Helô olhou com raiva para Tião, e foi se sentar em um sofá bem distante dos demais, com Edu do seu lado.

— Eu não acredito nisso. Esse cretino vem na minha casa e ainda acha que pode mandar. Desgraçado nojento. – dizia Pedro, olhando para as feridas no braço de Helena, que estava torpe – É.. acho melhor é você tomar um banho e depois nós limparmos mais profundamente, e daí enfaixar ou...

— Não! – Helena falou firme – Deixa assim. Melhor ...só, deixa que eu cuido disso sozinha. Você pode sair, por favor?

Pedro se ergueu, deu um passo atrás a olhando pensativo e triste e concordou com a cabeça.

Assim que ele fechou a porta atrás dele, Helena colocou as mãos sobre a pia, a segurando firme, e abaixou a cabeça, enquanto tentava controlar as próprias emoções. Se olhou no espelho e viu que os olhos pareciam querer chorar. “Não! Você não vai chorar por ninguém dessa família. Você não passou tudo o que passou pra ficar de frescura agora, Helena, isso só vai te derrubar. Não importa os problemas que os outros construíram para eles, você tem os seus...que no final das contas é o de todos os outros: Tião. Então vai lá, e por você, por Pedro, Heloisa e Edu, ...não que eles importem, mas pisa naquele desgraçado.”

E respirando fundo mais duas vezes, se controlando, Helena ligou a torneira, jogando agua sobre um cotovelo, e esfregando para tirar o sangue seco e pedregulhos, depois fez o outro cotovelo. Pronto, agora estavam menos sujos. Ela notou que algumas feridas pareciam mais profundas e voltavam a sangrar e fez uma careta para o espelho. “Porquinho e suas rasteiras. Mas já passei por coisa pior”. Helena girou a cabeça estalando vários nós no pescoço e, colocando uma toalha para segurar o sangue no cotovelo do braço direito, que era o que mais sangrava, saiu do banheiro para a sala.

Pedro que não saiu de perto da porta do banheiro foi até ela para escolta-la a sala.

Lá chegando, Heloisa se levantou, apreensiva. Helena não resistiu, foi até ela.

— Olha isso, ainda está sangrando.

— Vai passar logo. Não se preocupa. – Helena falava isso esperando que ela realmente não se preocupasse.

— É, vai sim. Você parece ser muito forte mesmo para uns arranhões te derrubarem. – Heloisa falava a admirando.

— E ela é mesmo. – Pedro chegou colocando as mãos sobre os ombros dela.

— Que cena linda. Mas agora... – começou Tião saindo do seu lugar ao lado de Leticia no sofá, que segurava o bife no lado esquerdo de Tiago, quando Luciane o interrompeu.

— Gente, olha isso – Luciane chegou abriu caminho até Helena e Heloisa – essas duas... desculpa querida, mas eu mal te vi na festa ontem. Disseram que você marcou a noite. – Luciane falou dando um sorriso e olhando ao redor – E, agora, vendo bem você do lado da Helô, vocês são muito parecidas.

— É... – disse Helô com sorriso um pouco orgulhoso.

— Menina...Ó, serião, parecem mãe e filha de tão parecidas. Ela parece mais tua filha que a Leticia, né não Cucu?

Hercules se aproximava da esposa, empurrado por Magnólia. Leticia preferiu nem olhar a cena, paparicando Tiago.

— Calma aí também né Lulu. Ela tá bem menos que isso. Agora – ele apontou o copo de uísque para Helena – conta logo menina como meu filho se saiu salvando a sua vida hoje.

Helena olhava todos tentando manter a calma. Controlando a labareda no seu interior, evitando olhar para Tião, que ela sabia, estava com a boca meio aberta depois do que Luciane falou. Num olhar furtivo ela notou que o cérebro dele estava mastigando a ideia que a nada colaborativa Luciane soltara. Heloisa a segurava pelo braço, carinhosa, e Pedro fazia questão de ficar entre Tião e elas.

— Ah, claro. – ela respirou fundo “Foca” — Eu não sei o que seria de mim sem a bravura do seu filho hoje. Tá que no final das contas o bandido levou tudo que queria e ainda deu um malho nele, mas ele foi impressionante.

Helena se soltou. A melhor defesa é o ataque, foi pro afronte. Ela largou a toalha na mão de Heloisa e foi até Hercules.

— E como foi isso? – Hercules questionou, abraçando a cintura de uma Luciane muito atenta.

— Bom, primeiro o bandido chegou em mim, eu estava sozinha, e daí Tiago notou a situação, chegou por trás e surpreendeu o cara, caíram no chão – Helena andava pela sala tendo toda a atenção dos presentes sobre ela, até Tiago mantinha o olho sem bife sobre ela – o cara montou no Tiago, deu um soco. O Tiago empurrou ele pro lado, montou no cara e deu ...bom, tentou dar um soco mas o cara se livrou logo dele. Daí os dois se levantaram, o cara veio pra cima do Tiago que desviou bem na hora de um soco – Hercules sorriu com orgulho – pra logo levar um soco bem na boca. Foi pego desprevenido, coitado. Bem nessa hora o cara aproveitou e acertou um soco bem forte na costela do Tiago que caiu no chão gemendo. Daí eu fui tentar socorrer ele e o cara me jogou pra longe, fazendo eu me machucar.

Ela disse a ultima frase erguendo os braços, mostrando os cotovelos e fazendo cara de coitada. Magnólia se irritou mexendo-se no sofá.

— Mas então, o meu filho não brigou com o cara, ele levou uma surra. – disse um Hércules indignado.

Tiago a fuzilava com o olhar. Ela contou uma história de bundão sobre ele. “Tanta dor pra ser o otário da história no final.”

— Bom, para mim foi bem heroico. Ele podia ter corrido, mas encarou o cara.

— E onde ocorreu esse assalto? – perguntou Tião com o olhar fixo em Helena.

— Ah... – Helena fez cara de pensativa – foi há uns duzentos metros. Acho que pouco depois que os muros daqui acabam.

— Sim, justo quando não tem mais as câmeras de vigilância da casa. – Tião rebateu.

— Bom, por que o bandido ia querer nos atacar em frente a câmeras de vigilância da casa, correndo o risco de os seguranças virem nos socorrer? – Helena devolveu.

— Certo...

Ele engoliu a resposta. Pedro e Helô, já um do lado do outro começavam a se irritar com o interrogatório de Tião, Leticia a fuzilava com o olhar, assim como Mag. Tiago estava com os olhos pregados em Helena, na espera de alguma pergunta ou resposta ferrar com os dois. Os demais estavam absortos na história. Vitória inclusive estava de boca aberta, sentada em uma poltrona.

Helena engoliu a vontade de sorrir da breve vitória, e fez cara de dor, olhando para os cotovelos, tentando parecer frágil.

— É, de fato nosso Tiago parece ter aparecido em muito boa hora. Mas – Tião voltou a falar – eu não entendi é porque vocês dois estavam juntos tão longe da mansão?

— É, Tiago. O que você fazia com essa aí? – perguntou Leticia pressionando o bife na cara dele, que gemeu pra não responder.

Ele viu então Helena respirar fundo e fechar os olhos. “Fudeu, nem ela sabe o que responder.”

— A culpa é minha. – Helena falou colocando a mão sobre o peito – Eu sou de uma cidade de interior. Não vi o perigo na situação. Hoje cedo, como eu estava ainda muito irritada com a cena de ontem, fui tentar conversar com Tiago, e me enfiei no carro dele assim que ele estava saindo da garagem. – Pedro e Helô franziram a testa, ele imaginando que ela se referia a cena que ele presenciou naquele mesmo corredor, e ela imaginando que se tratava do ocorrido durante a festa – Ele disse que não queria conversar, brigamos de novo, e assim que ele parou eu sai do carro irritada. Fui andando e então o cara me abordou.

— E ele estava armado? – perguntou Vitória interrompendo até o raciocínio de Tião.

— Bom, ele não apontou, mas parecia ter uma arma sobre a roupa.

— Então ... Tiago, mesmo depois que você saltou do carro dele se manteve perto de você até que notou o meliante?

— Eu acho que sim, Tião, mas só notei ele quando já estava acontecendo a briga. – Helena falou em tom frágil, tentando sensibilizar os outros.

— E isso aqui perto?

— O que é Tião, não tá vendo que a garota passou por uma situação pesada hoje? Vai ficar aí enchendo ela de pergunta como se ela é que fosse a criminosa?

Pedro se alterou, indo até ele.

— Não briga com o meu pai. – gritou Leticia do seu canto.

“Garota abusada!” Pensou Helena a olhando feio, por gritar com Pedro.

— Deixa filha, deixa. Deve ser mesmo difícil de entender que eu apenas quero o bem dessa família. – Tião então abotoou o terno – Ainda mais quando a pessoa não quer enxergar quem é realmente seu amigo. – ele olhou para Helena e depois para Pedro – Mas vai lá, me responde, se eles foram atacados aqui perto, por que essas roupas do Tiago, e os dois parecendo que levaram um banho de rio?

Ele olhou com ar vitorioso para Helena, que teve que se controlar para não rir. Mas ela tinha mesmo era que fazer sua grande cena. Colocando a mão na boca, e soluçando, ela falou com a voz embargada.

— Ele nos sequestrou.

Tiago fechou o olho que estava arregalado depois da pergunta de Tião “Meu Deus isso não acaba mais”.

Heloisa foi até ela e a abraçou, tornando a comoção de Helena ainda mais verídica.

— Ele...ele ... – Helena falava com a mão na boca, para todos ali – ele pegou o Tiago do chão e me indicou o carro do Tiago. Mandou a gente entrar. Eu...- ela parou colocando as mãos no rosto vendo a cara de ódio de Tião, que a fez ter vontade de rir – eu não sabia o que fazer. Entrei, tinha que ficar com Tiago.

— Meu Deus. – Heloisa a abraçou.

— E então ele levou vocês para um rio e os jogou lá? – completou Tião irritado.

— Não... – ela voltou, tirando as mãos do rosto – ele nos levou a um lugar abandonado perto do rio. Nos colocou... – ela soluçou de novo, havia lágrimas de verdade no seu rosto, Tiago estava pasmo – em um bote, nos empurrou e mandou que remássemos com as mãos até muito longe. Assim que não vimos mais ele, tentamos voltar e o barco virou. E novamente Tiago me salvou, me levando até a margem do rio.

Ela olhou Tiago agradecida. Ele revirou o olho direito.

— E de onde veio as roupas que Tiago está vestindo?

— O bandido, ele assim que chegou na casa abandonada – Helena tentava passar estar mais serena – ele mandou eu tirar meu coturno e Tiago tirar tudo. O cara pegou os nossos celulares, o coturno, a roupa do Tiago, pegou uma bolsa, não sei, acho que ele já usou aquele lugar antes, e assim que nos viu longe saiu correndo.

— Nossa, mas que história mais estranha menina. – falou Magnólia.

— Eu já ouvi piores. – disse Pedro em defesa de Helena, se aproximando dela e de Helô.

— É, eu também. – disse Heloisa, fixando o olhar em Mag que o desviou para Tiago.

— Bom, o importante é que nosso Tiago está bem, não é? De fato, não há como negar, por mais estranha que seja essa história, quem mais poderia fazer esses machucados no Tiago? Tem que ser muito forte para enfrentar o meu neto.

Tiago gemeu.

— Bom, acho que agora não há mais nada o que fazer a não ser levar esses dois para a delegacia. Um crime desses não pode ficar impune. Tenho certeza que alguma câmera deve ter pego os movimentos desse assaltante, alguma testemunha pode ter visto vocês.

— Você tá louco, Tião? – Heloisa foi até ele – Depois do interrogatório que você acabou de fazer, ainda quer levar a Helena para a delegacia? Ela precisa é descansar!

— Você é quem não está raciocinando bem, Helô. Num caso assim, quanto antes for comunicado, antes se pega os autores do crime.

— Ele tá certo, tia. – Helena falou, respirando fundo, jogando a cabeça para trás e estufando o peito – É bom eu fazer isso o mais cedo possível. Afinal, a imagem do meliante ainda está fresca na minha cabeça.

— É mesmo? – Tião voltou a apertar os olhos na direção dela, desconfiado.

— Sim, era um tipo pouco menos baixo que Tiago, parecia ter mais de quarenta anos – Tião apertava mais os olhos a cada novo detalhe que descrevia um dos seus capangas – um pouco encorpado, não muito, meio cheinho igual a Magnólia – a velha deu um pulo no sofá, Helena continuou – olho castanho, cabelo castanho com um pouco de entradas, nariz de tamanho médio, fino, sem barba, vestia um casaco cor amarelo queimado, assim...

— Nossa, mas então ele não estava com uma mascara? – Perguntou Vitória do seu canto.

— Não. – Helena respondeu adquirindo um ar misterioso – Ele parecia profissional. Acho que se Tiago não aparecesse ele só me levaria dali...e... – ela olhou para Tiago, parecendo pensativa – Agora, pensando bem, ele parecia mesmo era interessado no meu celular. O queria de qualquer jeito, não perguntou por mais nada, carteira, nada, só o celular. Estranho né?

— Espera, você está dizendo que o cara parecia interessado no que você tinha no celular? – Pedro se mostrou mais interessado.

Helena fez que sim, com cara de inocente.

— Vamos? – ela disse indo até Tião.

Ele estava parado, o queixo para a frente, furioso.

— Acho melhor não. Depois da descrição tão abrangente que você deu ...- ele saiu de perto dela e foi para perto de Tiago, fugindo do olhar vitorioso dela – vai ser perda de tempo. Nunca vão resolver isso. É melhor evitar o escândalo.

— E deixar o meu filho assim? – disse Hercules irritado – Com a cara toda amassada sem nem procurar quem fez isso?

Tiago não gostou muito do que o pai disse.

— Hercules, pensa bem, a sua campanha vai começar, você não vai querer a imagem do seu filho associada a de alguém que reage a um assalto. É negativo – Tião se aproximou agora de Hercules. – Sem contar, que tenho que preservar a minha filha. Como explicar essa proximidade com a sobrinha da Helô, ainda mais depois do que aconteceu na festa de ontem?

Todos na sala pareciam concordar com Tião. Pedro franziu a testa.

— Bom. Acho que já que está tudo esclarecido, o melhor é Tiago ir tomar um banho e esperar o Bruno para atender ele. Vocês – Magnólia disse para Heloisa, fazendo um sinal de “leva” com a mão na direção da Helena – podem levar a sua sobrinha, e cuidar dela.

Helena a olhou intrigada. “Será que Mag não sabe que tô morando na casa dela?”.

— Me desculpa, Magnólia, mas como você viu ontem, não tem mais a mínima condição de Helena ficar conosco. – Disse Tião, calando Helô.

— Bom, aqui é que ela não vai ficar. Ponha-se daqui pra fora, menina. – Magnólia disse a encarando, tendo como resposta uma sobrancelha erguida de Helena.

— Aí que você se engana, Magnólia. – Pedro a interrompeu – Helena é minha convidada nessa casa, vai ficar e ser bem tratada. Afinal essa ainda é a casa do meu pai, portanto também minha.

Magnólia era a fúria em pessoa.

— Isso é um afronte.

— Não me importa o que você acha disso, a Helena vai ficar aqui, sob minha proteção.

Pedro falou isso encerrando o assunto, e indo pegar Helena pelos ombros para leva-la da sala, não sem antes olhar para Helô, para responder com o olhar que ia cuidar de Helena, tendo como resposta um olhar grato, e um sorriso. Helena engoliu em seco.

— É Magnólia, parece que o pepino agora é seu. – Tião falou olhando Pedro saindo com a garota.

— Pai, vocês podem ir. Eu vou ficar aqui cuidando do Tiago.

— Não mesmo minha filha, você está muito debilitada, ainda mais depois de ontem a noite. – Tião então mirou Tiago, que já estava mais relaxado já que toda a situação acabou – O que me lembra por qual razão eu vim aqui. De fato eu queria conversar com você, Tiago, em particular.

— Mafff eu não conffigo falar com a boca afffim. – o moço respondeu temeroso, forçando dificuldade em falar.

— Para mim já é o suficiente.

E Tião o levou da sala, sob protestos de Luciane, Heloisa e Vitória, mas anuência de Magnólia e Hércules, até o escritório, onde começou um interrogatório particular.