A semana do inferno
2 Uma história entre um garoto e uma garota
Notas iniciais
BRENO
Não eram nem 7 horas e eu já estava no colégio. Bem, já era de se esperar eu acho. Estou no clube de luta, fui doutrinado à manter meu corpo sempre saudável, então acordo cedo até nos feriados e fins de semanas para meu treino matinal. Pratico Muay Thai e comando os calouros e até mesmo os veteranos do meu clube. Como estou no segundo ano isso é uma grande honra para mim. 50 flexões? Fácil! Um corpo saudável é igual a uma alma saudável, é o que dizem!!!
No momento estou no ginásio do colégio, não tem ninguém aqui exceto eu. Visto meu kimono e começo a praticar, exercícios respiratórios e musculares, para melhorar o circulamento do meu sangue. Quando pratico eu tento deixar minha mente limpa, para melhorar meu desempenho, mas por algum motivo hoje eu não consigo me concentrar. Eu sempre acabo pensando naquela pessoa, e no que ela fez à alguns dias perto do restaurante local. Naquela noite chuvosa, nos cabelos molhados dela encharcando ainda mais sua roupa, nos seus dedos finos e lábios redondos, da forma que ela olhava para mim, e falava comigo.
Balanço a cabeça. Eu já havia perdido a noção de tempo, estava todo soado e o sinal aparentemente já havia tocado. Todos já estavam à caminho das aulas, e eu ainda tinha que tomar um banho. Será que ela...? Não, espere! Não posso pensar nisso agora, tenho que me apressar! Vou até o vestuário me despir e tomar banho, evitando pensar demais sobre este assunto. Quando termino, me seco e coloco o uniforme normal do colégio. Sou um aluno regular, as minhas notas não são altas mas também não são baixas, o que me deixa tranquilo. Uma amiga minha me chamou para passar o fim de semana no acampamento com ela e outros colegas para homenagear o nosso amigo formando que irá mudar de cidade após a formatura. É realmente uma tristeza, não poder mais vê-lo. Eu normalmente não iria para esses lugares, por que sei que rola bebida e essas coisas, mas como é uma despedida de um amigo meu, eu aceitei.
Saio do ginásio e vou direto para a secretaria, porque como as aulas já começaram preciso pegar uma autorização para entrar na segunda aula. É um saco? É, mas é um sistema decente que obriga os alunos a obedecer o horário, então sem reclamações da minha parte. As reclamações vão vir da parte de outra pessoa.
Breno: Hmn, ér.... Então, bom dia!! A senhora pode me dar uma autorização para entrar na segunda aula? Acabei me distraindo e perdi o horário...
A recepcionista da secretaria levanta os olhos de sua revista, lentamente, até os olhos dela se encontrarem com os meus. Perigo. É isso que os meus instintos mais primitivos estão me dizendo. Ela está com sangue nos olhos, algo não está normal, eu não poderia ser a causa de tanto ódio assim.
Recepcionista: Hmnn, ah é, é? Você acha que pode simplesmente aparecer na minha frente pedindo uma autorização que você vai conseguir tudo o que deseja? Você sabe o horário, garoto. Vá para casa.
Ela volta a ler a sua revista. Eu estou boquiaberto com a atitude rude da moça. Tudo bem, eu chego atrasado de vez em quando, mas ela nunca me tratou assim antes... Bem, eu não vou para casa agora, seria uma vergonha para mim, que cheguei bem mais cedo que os estudantes regulares. Continuo no meu desenrolo.
Breno: Bem, er... Você não poderia me deixar passar? Só hoje? Eu preciso muito da sua ajuda, e só você pode me ajudar, sabe como é né?
A recepcionista guarda sua revista e se levanta para falar comigo, claramente sem paciência.
Recepcionista: Olha, meu anjo. É o seguinte. Eu vim para esta cidade com um grande sonho de ser um atriz profissional, fazer novelas e filmes para todos assistirem, me reconhecerem na rua e eu ser famosa. Ouviu? F-A-M-O-S-A. Acabou que o cara que me trouxe para fazer os testes me engravidou e me largou para trás sem absolutamente nada. Eu morei de favor por 2 anos até conseguir este emprego bosta de recepcionista aqui.
A recepcionista senta de novo na cadeira e da um sorriso bem falso para mim.
Recepcionista: Eu fui mãe solteira até agora. Agora moro em uma pensão qualquer, minha filha de 16 anos se diz homossexual e fala que eu sou a pessoa que ela mais odeia no mundo todo. Agora por favor, me diga novamente! Como é que eu posso ajudar você? Porque estou louca para transformar cada sonho seu em realidade, meu docinho.
A recepcionista para de falar e fica esperando minha resposta. Bem, fudeu. Não vai ter como ir pra aula hoje, eu desisto da ideia e me viro para ir embora, até que ouço uma voz muito familiar me chamando.
Sônia: Ei, Breno!!! O que está fazendo indo embora? Pode entrar.
Sônia é a diretora do meu colégio. Ela sempre me ajudou, sempre me apoiou e por causa dela que hoje existem um conselho estudantil, um ginásio e até mesmo salas para clubes. Ela conquistou tudo isso para nós com manifestos e reuniões. Ela é a diretora que impulsionou nossos estudos maravilhosamente. Ela é a causa do colégio ser tão bom. Ela abre o portão para mim e a recepcionista fica com uma cara de cú.
Sônia: Você estava treinando, não estava? Pode entrar, não tem problema não, eu conversarei com seu professor mais tarde. Quando eu cheguei no colégio e vi o ginásio já destrancado eu sabia que era você. O zelador só chega às 10 horas e apenas vocês dois tem a chave do ginásio.
Breno: Muito obrigado, Sônia!
Eu a abraço e ela cora.
Breno: Você sempre foi de muita ajuda para mim, não vou esquecer não em!
Eu sigo meu caminho e passo pela recepcionista que provavelmente receberia uma advertência da diretora e não deixo de sentir um pouco de pena dela. Eu não imaginei que ela teria um passado fodido assim, mas fazer o que né? Sigo direto para a minha sala sem demora. Ainda são 7:24, só poderei entrar às 7:50.
Todas as salas do segundo andar são feitas para o segundo ano. São 6 salas no total, e as turmas são 2001 até 2006. Eu estudo na turma 2003, a sala que fica mais próxima do bebedouro, então eu já me encaminho até a porta e me sento em uma cadeira que um estudante engraçadinho deixou ali por algum motivo.
Demorei um pouco para perceber que eu não estava sozinho ali. Havia uma presença, logo a uns 4 metros a minha direita. Sentada em uma cadeira na frente da sala da 2004 estava a menina daquele dia, a menina do restaurante. Eu sabia que ela estudava aqui no colégio, é claro. Eu também sabia o seu nome. Ela se chama Hari, é uma das estudantes modelos do colégio. Ela é considerada uma das meninas mais bonitas do segundo ano, também. Sua presença é tão onipotente que todos os meninos, TODOS os meninos, que já se quer pensaram em pedir para sair com ela, desistiram só de olhar os seus passos largos pelo corredor e seus cabelos voando de um lado para o outro. Mesmo assim, ela ainda se declarou para mim em uma noite chuvosa, logo eu que não acho que tenho nenhum atrativo em especial. E eu não sei direito como me sentir em relação a isso, porque nunca pensei de verdade em ter uma relação com alguém, ainda mais com nossa musa Hari. Bem, posso confirmar que os boatos de que “quando uma menina se declara para um menino, esse menino pensará nisso o dia todo, mesmo que ele não goste dela” são puramente verdadeiros.
Eu olho para Hari, e percebo que ela está me secando completamente com seus olhos, o que me faz virar o rosto rapidamente e começar a corar. Qual é o problema com ela? Ela esta me olhando tão intensamente que fiquei até com vergonha! Me forço a olhar de novo para ela e ela ainda não parou, mas não posso perder. A encaro. Ela está com seu uniforme escolar, uma blusa branca de botões com os botões de cima sem abotoar, a dando um decote honroso. Um batom roxo forte, deixando seus lábios ainda mais bonitos. Uma mini-saia que ela adora usar, deixando suas pernas torneadas ainda mais aparentes. Viro para o lado de novo, é impossível me manter encarando ela. Eu penso até em descer as escadas e esperar o horário por la mesmo, até que ela fala comigo.
Hari: Como você é rude, Breno.
Olho para ela envergonhado, mas ainda não entendo o porque dela ter se sentindo ofendida com algo, porque eu realmente não fiz nada a ela.
Hari: É de senso comum, uma gentileza, uma educação, a pessoa que chegar depois cumprimentar a todos que já estavam no ambiente.
Breno: B-bom, bom dia...
Hari, que ainda me encarava, ergueu uma das sobrancelhas como se falasse “é só isso?” . Bem, o que mais ela quer de mim? O clima entre nós está no mínimo estranho, não me sinto a vontade de ficar batendo papo com ela agora.
Breno: O-oque foi?... Eu já te cumprimentei, isso não é o suficiente? Para de encarar, vai...
Hari da de ombros.
Hari: Eu não estou falando nada. E também, eu posso encarar quem eu quiser. Eu só estou curiosa sobre aquele dia... Você não contou a ninguém ,certo?
Está certo. Naquele dia, logo depois dela ter se declarado para mim eu a dispensei. Fiquei tão paralisado com o pedido que não pensei na hora de dispensar a diva do colégio, e ela ficou ainda mais que eu quando escutou o “não, obrigado”. Eu prometi a ela que não contaria, então eu realmente não contei a ninguém.
Breno: Não, não contei. Pode ficar tranquila, ninguém vai saber que você gosta de mim.
Hari: Não estou preocupada com saberem que gosto de você. Eu gosto mesmo de você, e talvez eu até devesse contar a todos os meninos deste colégio que sou profundamente comprometida com você. Estou preocupada com você contando que me dispensou, porque além de ser algo horroroso que você pode dizer para me difamar, não é algo bonito contar as suas intimidades com uma mulher para outras pessoas.
A ideia da Hari contando para os garotos que eu e ela temos algo me deixou super animado, mas não tanto quanto a ideia de eu e ela termos alguma intimidade. Espera , quê? Eu nem sei mais o que estou pensando, estou muito confuso sobre este assunto. É por isso que eu não queria ter essa conversa esquisita com ela desde o principio, droga!
Breno: Para de bobeira, olha o que você ta dizendo! Quer que as pessoas pensem que temos algum tipo de in-in-intimidade???
Digo isso totalmente corado, e quando Hari percebe o que falou ela também cora.
Hari: idiota!!! Eu não estava falando sobre essas coisas! Q-que absurdo, pensar que alguém como eu fosse dizer essas coisas...
Hari vira o rosto, olhando para longe no corredor e eu consigo escutar ela sussurrando algo.
Hari: Breno idiota...
Depois disso não trocamos uma palavra sequer pelos próximos minutos, até que eu me pego puxando o assunto novamente
Breno: Sabe... eu não esperava que você fosse fazer aquilo.
Hari olha para mim, não estava mais vermelha mas tinha uma expressão irritada.
Hari: Porque não? Acha que eu não posso gostar de alguém, só porque sou quem eu sou?
Ela mexe nos cabelos e posso ver que está usando um brinco grande de ouro(folheado, é claro). Eu me lembro deste brinco, aliás, fui eu que dei para ela quando estávamos no primeiro ano. Eu me lembro que foi em dezembro... a turma havia decidido fazer um amigo secreto com todos os alunos do primeiro ano, então todas as salas iriam participar de uma grande troca de presentes. Eu tirei a Hari, e não sabia o que dar à ela por ela ser tão popular e tals. Acabei comprando esse brinco porque achei que combinaria bem com a cor de sua pele. Quando eu entreguei para ela no dia, ela ficou com um rosto tão radiante e confuso. Ela me olhava diferente, eu percebi. Como se estivesse me analisando...
Breno: Ah, você ainda usa o brinco... Isso é legal da sua parte!
Hari toca em sua orelha para conferir que estava realmente usando eles, então vira para o Breno com o mesmo olhar que ele acabara de se lembrar: um olhar radiante e um pouco confuso.
Hari: Mas é claro, esse é um presente precioso. Sempre que eu os ponho na orelha, sinto como se fosse uma promessa para mim mesma... é algo que eu gosto de pensar, sabe? Uma espécie de ritual.
Ela olha para mim e percebe que eu não entendi direito aonde ela queria chegar, e logo amarra a cara de novo.
Hari: Não como se você entendesse algo sobre sentimentalismo. Grrr, você ta me tirando do sério hoje, garoto. Vou te amaldiçoar, em! Vai ser a segunda pessoa só hoje.
Breno: Me-me desculpe...
Eu olho para o lado. Acho que foi um comentário desnecessário da minha parte, mas ela não precisava ter agido assim. Eu não entendi muito bem aonde ela queria chegar nessa ultima parte, mas... Bem, como eu poderia entender? Ela fica com esse joguinho!
Hari: Breno, eu só queria te dizer que...
*triiiim*
O sinal toca. Já são 7:50 e é hora de entrar nas salas. Como de rotina, os professores abrem as portas para verificar o corredor atrás de alunos atrasados. Fernando, meu professor de matemática abre a porta da classe e me olha, nada surpreso. Ele volta para a sala sem me dizer uma única palavra, mas sei que devo seguir atrás dele. Olho para Hari e ela não está mais no corredor, ela já havia entrado para ter sua aula de português. O que ela queria me dizer ali no fim? Eu imagino. Estou cada vez mais curioso, mas como sei que ela irá na viagem também, decido deixar para perguntar depois.
Entro na sala e todos os meus colegas me olham, e logo depois desviam o olhar de mim para voltar à seus afazeres e conversas paralelas. Sigo até meu lugar perto da janela e abaixo a cabeça, a aula de matemática não é a minha favorita na real. E droga, não consigo parar de pensar nela... Até que uma mão de um amigo meu toca em meu ombro e me desperta para a realidade.
*to be continued*
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