A saga sorcière - Desterro
2 Uma nova fase
Paul
– Ok me desculpe, eu me esqueci de que não podia contar – me encosto na parede – Fala sério Cássia, sou seu amigo agora, por que não me conta o que aconteceu?
– Ai meu Deus Paul você não entende? – ela solta um suspiro de frustação – Estou tentando, mas ainda não descobri porque ele não se lembra de mim. Deve ter batido muito forte com a cabeça, eu não sei...
–Hum... – puxo Cássia pelo braço para se sentar no banco do corredor comigo – Você se lembra de tudo mesmo?
– Sim lembro – pausa – Depois que o socorri, apliquei o feitiço de cura nele e em você, depois liguei pra minha mãe e disse para levar vocês pra casa.
– Tá, e porque eu consigo me lembrar de Sebastian me controlando?
– Sebastian deve ter se esquecido de apagar sua mente dos acontecimentos, aliás, ele não teve tempo porque o matei.
Ela olha para o nada por algum tempo e ficamos assim, parados. Depois que eu desmaiei após Sebastian sair de meu corpo eu não me lembro muito dos ultimo acontecimentos, só consigo lembrar de uma floresta muito densa, chamas e mais chamas, e é claro a presença de Sebastian em mim.
– Cássia – consigo tirar ela de seu transe – Tem algo a mais nessa história, não sei o que é, mas vamos descobrir.
– Por favor... Não, ele está muito melhor assim – ela coloca as mãos sobre as têmporas – Olha, é melhor assim, ele não vai se lembrar de que você fez mal nenhum a ele.
– Chega, pra mim chega – dou um salto do banco e encosto perto da janela do corredor – Você sabe que não fui eu ok? Mesmo que eu odiasse o Sam antes eu nunca faria uma coisa dessas. Essas coisas... Tudo isso é muito estranho pra mim, o fato de bruxas existirem, magia e essa bagunça toda. Estou tentando organizar isto ao máximo na minha cabeça, e você não está ajudando em nada falando que eu fiz algum mal pro Sam. Foi o Sebastian.
Não estou certo disso , mas enquanto estava sobre o controle de Sebastian tudo o que ele pensava em fazer contra Sam eu sentia prazer, eu queria realmente o Sam morto, mas uma parte de mim sabia que não era certo. Talvez seja a parte que não estava controlada, uma parte de mim que nem eu mesmo sabia que existia.
– Tudo bem me desculpe Paul – ela se aproxima de mim e vejo que seus olhos estão marejados – Eu só quero o Sam de volta.
Então se aproximo mais dela e lhe dou um abraço, um abraço sincero de amigo. Pela primeira vez eu soube o que é ter amigos de verdades, a se preocupar com o próximo e querer que nada lhe aconteça, porque por mais que a pessoa seja rude, ignorante ou malvada, ela nunca se sentirá bem sem amigos. Eu era assim. E então com um sentimento que até poucos dias atrás eu não sabia que existia, aquele amor de amigo, digo para mim mesmo:
– Eu também.
Continuamos ali, abraçados. Cássia chorando baixinho e eu a consolando, enquanto a chuva de leve anunciava sua chegada com pingos na janela. Espero que traga junto novas esperanças.
***
Depois de acompanhar Cássia até a sua casa, ainda estava cedo para ir embora. Então resolvo ir a casa de Sam para conversar com ele, para que ele saiba que eu sou seu amigo e não quero ser mais aquele menino rude, que o odiava sem sentido algum.
Quando chego em frente a sua casa vejo que a bicicleta dele está encostada na varanda, com as marcas das batidas das vezes que eu o derrubava da bicicleta. Aquilo me dá um aperto no peito, como eu puder ser tão ruim com ele?
Subindo os degraus, um cachorro me encara e depois vem todo contente pra cima de mim, latindo, pulando e dando voltas . Não sei o motivo de tal alegria daquele cachorro , mas me animou e me encorajou a apertar a campainha. Depois de alguns instantes uma mulher linda de cabelos escuros, com um sorriso no rosto abre a porta.
– Pois não querido?
– É... – não acredito que ela me chamou de querido, apenas minha mãe me chamava assim – Sam.
– Sim, meu filho.
Ela solta uma gargalhada e depois de alguns segundos decido interrompe-la.
– Queria falar com ele, ele está?
– Sim, entre querido – ela me puxa pelo braço para dentro da casa e depois fecha a porta.
Fico imóvel sem saber o que fazer , pois a mãe de Sam foi para a cozinha e me deixou sozinho com um homem me olhando do sofá.
– E ai rapazinho, tudo bom?
O homem se levanta e vem em minha direção, logo depois ele aperta a minha mão sem eu a ter levantado para cumprimentar. Ele também esbanja um grande sorriso, incrível como eles são tão felizes, o Sam não sabe a sorte que tem por ter um pai.
– Sim, tudo bem – agora ele solta minha mão – Estou aqui esperando o Sam, eu acho.
Digo sem jeito, por que realmente eu não sabia se alguém iria chama-lo ou eu iria atrás dele. O pai de Sam aperta meus ombros com um sorriso.
– Gostei do seu senso de humor – ele se vira para a cozinha – Sara vai levar o garoto lá em cima, ou quer que eu leve?
– Tudo bem amor – ela grita da cozinha – Deixa comigo já estou indo, e já levo os Brownies.
Logo em seguida ela aparece com duas bandejas de Brownies, uma ela dá para o marido que a beija, e depois logo se retira para a sala e liga a Tv. A outra bandeja ela aponta para mim.
– Vamos pegue, eu mesma fiz – ela arrebita um pouco o nariz com um tom brincalhão – São os melhores da cidade!
Pego um Brownie e realmente são muito bons. Então com uma mão segurando a bandeja e a outra meu braço, ela me leva até a escada e para me entregando a bandeja.
– Leve para o Sam, vocês podem conversar lá em cima, ele deve estar no quarto – ela se vira, mas parece que esqueceu algo – Ah! Segunda porta a esquerda!
Subo as escadas, que não são muitos degraus, apenas dois lance de dez, eu acho. Me deparo com a segunda porta da esquerda e bato.
– Entra mãe! – Sam grita do outro lado
– Desculpe te decepcionar mas sou eu – digo abrindo a porta com um sorriso torto.
– Paul? – ele se levanta da cama e fica parado me olhando.
– E Brownies – digo mostrando a bandeja.
– É claro – ele pega a bandeja de minha mão e coloca sobre uma cômoda, logo depois ele puxa uma cadeira de sua escrivaria – Senta ai.
– Obrigado.
Não pude deixar de olhar para o seu quarto, cheio de pôsteres de filmes e um mural com fotos dele com sua família quando era criança em cima de sua cama. A esquerda perto da escrivaria , encontrava-se um prateleira com muitos livros, fiquei admirado, e a direita seu guarda roupa com mais pôsteres colados, mas desta vez era de bandas.
– Então? – ele olha confuso para mim – O que houve?
– Nada , é que – me ajeito na cadeira para dizer – Olha Sam, pode parecer estranho pra você ouvir isso depois de tudo que te fiz mas vim te dizer que não vou mais te perturbar, te bater ou te xingar, isso é passado, agora quero ser seu amigo, sem ressentimentos é claro, e se você quiser.
Então ele levanta seu braço esquerdo me mostrando a pulseira em seu braço, e sorri.
– Tudo bem, sem ressentimentos.
Ficamos no seu quarto jogando conversa fora, falando um pouco sobre nós. Eu mencionei que amava esportes e Sam que amava livros. Ele me explicou um pouco sobre seus livros e seus autores preferidos e eu sobre meu esporte e meu atleta preferido. E com essas simples conversas que estava começando a nossa amizade.
– Paul? – Sam está deitado de barriga pra cima na cama e jogando sua bola de baseball pro ar – O que você sabe sobre a aluna nova, aquela de cabelos ruivos?
Eu estava deitado no chão perto da cama de Sam, porque estávamos cheios de comer Brownies e estávamos descansando. Mas então me levanto rápido, mas sem saber o que dizer.
– Ela é minha amiga – caramba estraguei tudo.
Não era pra eu dizer aquilo de maneira nenhuma, a Cássia vai me matar.
– Sério? – ele também levanta e se senta na cama me olhando fixamente.
– Pois é – não tem jeito vou ter que dizer a verdade – Conheço ela a algum tempo.
Quanto tempo? – ele se inclina um pouco para frente, com certeza ele quer informações, mas não era a hora certa.
Para fugir daquela situação e não acabar contando tudo, porque eu e Cássia combinamos que iriamos descobrir uma maneira dele se recordar e lembrar. Então pego meu celular e finjo estar preocupado com as horas.
– Bom Sam, tenho que ir minha mãe está me esperando para... – rápido inventa uma desculpa – lavar... a louça... é lavar a louça.
Sam se levanta e pega a bandeja da cômoda e vai até a porta.
– Tudo bem, eu te levo até lá embaixo.
– Não – pego a bandeja de sua mão – Tudo bem eu levo, afinal foi eu quem trouxe né? Alias você tem que terminar de ler seu livro, me disse que estava muito ansioso com o final.
– É verdade – ele estica sua mão – então até mais Paul.
Aperto sua mão e quando estou quase fechando a porta quando ele coloca seu pé.
– Espera, qual o nome dela?
– Cássia, ela se chama Cássia – digo isso na esperança que ele se lembre.
– Obrigado – agora Sam me abraça com apenas um braço porque o outro está segurando a porta – Amigo.
Desço as escadas, levo a bandeja até a pia da cozinha, ia lavar porém a mãe de Sam não deixou. Agradeço pelos Brownies, me despeço e vou embora com um largo sorriso no rosto. Pela primeira vez eu tinha um amigo. Um amigo de verdade.
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