Capitulo II

Demorei mais que o normal para dormir. Estava muito quente para um dia de inverno em Londres, abri as janelas a fim de deixar o ar entrar. Só depois consegui adormecer

Passado um tempo acordei com um susto. Havia um gato muito preto sentado em minha janela como se estivesse me observando, estava perfeitamente imóvel e se não fosse pelo balançar do rabo eu pensaria que estaria empalhado. Olhava-me fixamente e tinha os olhos pretos e profundos, mas eu poderia jurar que já os havia visto antes, eram-me muito familiares.

Então o gato percebeu que eu o olhava e – eu poderia jurar – piscou e pulou da janela.

- Gatos. – murmurei sozinha e fui fechar a janela.

Era terça-feira e acordei muito melhor que ontem – ainda lembrava o meu pesadelo constantemente – e havia quase esquecido por completo o incidente com o gato em minha janela.

Quando desci meu pai já havia saído e só restava minha mãe e Anita a mesa. Pelo visto meu bom humor matinal não iria durar muito. Sentei e coloquei um pouco de chá em minha xicara.

-Bom dia. – eu falei

-Bom dia. – elas responderam. E até Anita que costuma ser muito animada estava tristonha.

-Vinny, devia ir com calma com o queijo. Suas roupas quase não lhe cabem mais. – minha mãe falou sombriamente.

-Pode deixar mamãe. – respondi não por respeito ou educação. E sim por medo.

- E também trate de arramar esta juba que chama de cabelo. Parece até que quer parecer uma mendiga e não uma menina de família. – ela olhava-me com nojo. Amarrei os cabelos e engoli meu chá.

-Desejo-lhes um bom dia. – e me levantei.

-Já vai? – Anita me lançou olhos suplicantes. Eu sorri docemente.

-Mais tarde estou de volta. – e dei-lhe um beijo na bochecha. Mal sabia eu que não seria bem assim

O caminho para a escola não era longo e por isso eu recusava a carona de minha mãe e preferia ir a pé contemplando a paisagem. Andava distraída quando esbarrei em alguém.

-Desculpe. – falei e ergui os olhos. Traves olhava-me surpreso.

- Você? – falamos juntos.

- Sim, eu. – ele respondeu de repente mal humorado. Nem me dei ao trabalho de responder. Segui meu caminho e ouvi quando seus passos acompanhavam os meus. Olhei para o lado, era doloroso olhar para ele.

Seu uniforme vermelho imaculado. Agora já não usava o casaco de choche como na véspera, mantinha a touca, mas a tatuagem já era visível. Dizia: IMMORTAL quase em uma caligrafia grega. Desejei do fundo do coração que a diretora não o proibisse de entrar na escola com aquilo.

Ele olhou de repente para o livro em minha mão, fez uma cara confusa e suspirou olhou para frente e andou mais rápido. Será que ele odiava tanto assim “O morro dos ventos uivantes”? De repente ele parou, ele olhou para o lado e não sei o que viu, mas desviou tão rápido que se tornou apenas um borrão em minha frente.

- Para o chão! – ele gritou e me jogou no chão, eu gritei com o impacto em meu braço.

Ele me levantou e me manteve firme em seus braços, só então vi de que ele desviava. Flechas pratas vinham em nossa direção numa velocidade inacreditável. Corremos e nos escondemos em um beco. Eu ofegava loucamente e sinta que meu coração ia explodir.

- O que foi aquilo? – eu perguntei quando finalmente minha respiração se acalmou.

-Malditos. – ele só disse isso. Eu tentei arrumar meu uniforme, mas receava que minha camisa branca e vermelha estivesse perdida, e parti rumo à escola. – Aonde pensas que vais senhorita? – ele tinha uma expressão alarmada quase engraçada.

-A escola. E talvez quisesse se apressar, pois estamos muito atrasados. – disse saindo do beco. Senti que ele me puxou de volta e me apertou contra a parede ficando a centímetros de mim.

- Estais loucas? Perdeste o juízo? Não se lembras do que acabou de te acontecer? Esses anjos malditos não vão te deixar em paz! – ele falava muito próximo a minha boca, pude sentir seu hálito.

- Sinto que a única coisa aqui que não vai me deixar em paz é você! – e o afastei. – Além do mais – recuperei o folego – eles estão atrás de você!

- Não podes ir à escola hoje senhorita. – ele falou serio. Eu olhei incrédula para ele e depois ri.

- Acha mesmo que pode me impedir? – e então sai do beco. Uma flecha prateada passou na minha frente e novamente Traves me puxou.

- Estais a ver agora? – ele me deixou na parede e andava de um lado para outro. – Eles já sabem onde eu estou não vão me deixar em paz! Malditos sejam! – ele gritou.

- O que está acontecendo? – eu perguntei. Não estava entendo uma palavra do que ele dizia.

Mas ao invés de me responder ele me puxou para o outro lado do beco. Antes de atravessarmos ele abriu a bolsa e me entregou um casaco.

-Seus cabelos denunciam-na. Ponha este agasalho e fuja. Não vá para casa, pelo menos não por enquanto. Eu desviarei a atenção deles e depois lhe explico tudo está bem? – ele puxou o gorro do casaco para cima, cobrindo meus cabelos ruivos berrantes.

- Como posso saber se posso confiar em você? – era verdade, eu não conhecia aquele garoto. Não podia confiar nele tão facilmente assim. Ele refletiu por um momento.

- Não pode. – ele suspirou e então olhou nos meus olhos. – Espero que fique viva desta vez. – e correu pela rua.

No momento em que saiu da segurança do beco vi que ele corria em zigue-zague e muito rápido. Não perdi tempo em sair de minha segurança também, mas tomei o caminho oposto.

Só então percebi a gravidade do que acabara de ocorrer. Eu quase fui morta! E não sabia nem o por que. Não vi quem nos atacou e muito menos quero ver. Sentia uma vontade desesperada de ligar para Wing, mas não queria mete-la naquela confusão.

O que será que ele queria com Traves. Só me passava as piores hipóteses pela cabeça, algumas delas iam entre máfia e dividas em jogo. Andei sem rumo alguns minutos pensando para onde poderia ir, uma vez que era perda de tempo tentar ir à escola agora que já passara o horário de entrada.

Decidi ir à margem do rio, havia lá um café muito agradável e discreto talvez pudesse me esconder lá. Meus planos foram cancelados quando senti de novo alguém me puxar para um beco. Eu gritei.

- Quer calar a boca?! – Wing disse alarmada cobrindo minha boca com a sua mão. Eu respirei aliviada.

- Que bom que era você! – eu a abracei. – Mas espere um minuto, como sabia onde eu estava?

- Isso não interessa no momento, mas sim com quem você estava! – ele tinha os olhos mel assustados e grandes. – vamos conte-me tudo!

Assim que terminei de lhe contar, ela sentou no chão e colocou a cabeça entre os joelhos e as mãos por cima da cabeça.

- Vai começar tudo de novo. – ela sussurrou.

- Começar o que? – perguntei de repente assustada sentando-me ao lado dela.

- A perseguição. – ela olhou com os olhos cheios d’agua. Eu não sabia o que aquilo significava, mas senti cada nervo meu enviar um sinal de alerta ao meu cérebro e cada parte do meu corpo estava arrepiada.

- O que é a perseguição? – perguntei confusa. Ela então olhou para cima e depois para mim.

-Precisamos tirar você de vista primeiro. Depois lhe respondo tudo que quiser. – ela me puxou e fomos andando pelas ruas de Londres.

Chegamos à casa de Wing. Era uma casa muito bonita, toda branca com varias colunas na frente. Havia um lindo jardim com rosas de todas as cores e a grama aparada e verde. Havia também um jardim atrás da casa deixando a casa ainda mais em evidencia por causa do contraste verde que as arvores davam.

Dona Cho nos esperava no hall de entrada, uma senhora de uns cinquenta e tantos anos de idade, cabelos pretos e lisos presos em um coque alto, vestia seu habitual uniforme preto e assim que viu os olhos alarmados de Wing entendeu o que eu ainda não havia entendido.

-Eles a encontraram? – ela perguntou, mas não parecia uma pergunta e sim quase uma afirmativa. Wing só confirmou com a cabeça. Dona Cho lançou-me um olhar de compaixão que me deixou constrangida.

-Arrume roupas limpas para Vinny e também um banho. – Wing se dirigia a dona Cho. – Quer alguma coisa para comer Vi? – ela perguntou eu neguei com a cabeça. – E depois prepare chá para nós. – Dona Cho assentiu com a cabeça e saiu da sala.

Já havia vindo à casa de Wing varias vezes é claro, mas nunca deixava de surpreender-me com a beleza da casa. Era grande e, assim como na fachada suas paredes eram de um branco impecável. A sala era grande e tinha uma enorme TV, os sofás aconchegantes e cheios de almofadas. Em cada canto havia um vaso cheio de flores sempre muito novas e cheirosas.

-Acho que precisa de um banho. – ela me avaliava e eu também. – enquanto isso, eu ligo para sua casa para pedir que durma por aqui hoje. Temos muito que conversar. – ela pegou o telefone e discou. – Já sabe o caminho não e? – ela sorriu.

- Sei sim. – e então percebi o que havia de diferente nela. Ela já não parecia minha amiga de 16 anos de idade, parecia muito mais adulta. Seus cabelos pretos e muito lisos que até ontem estavam nos ombros, agora tocavam o fim de suas costas. Seu corpo de menina havia desaparecido e agora uma mulher de corpo perfeito estava ali parada em minha frente. Ela percebeu que eu a avaliava.

- Te explico tudo depois. – ela sorriu calorosamente. – Agora vai.

Subi as escadas em transe. Eu estava sonhando disso eu tinha certeza. É claro que podia jurar que hoje mais cedo estive tomando café com minha irmã e fui como todos os dias para a escola. O sonho começou a ficar mais estranho quando vi Traves e então BUM. Nada fazia sentido.

O quarto de Wing era o cômodo mais diferente da casa. Ao invés do branco que cobria a maioria das paredes, o quarto tinha as paredes de um tom lilás nauseante e tudo – absolutamente tudo – era rosa.

Tirei o casado de Traves e senti seu cheiro. Era como estar à beira mar, era um perfume diferente e eu nunca havia sentido antes. Fiquei ali alguns minutos cheirando o casaco de um completo estranho. Olhei-me no grande espelho do banheiro, soltei os cabelos que caíram sobre meus ombros, eram mesmo muito chamativos, queria entender o que estava acontecendo. Entrei no chuveiro, a agua parecia lavar não só meu corpo como também meus pensamentos.

Repassei repetidas vezes o confronto na rua logo pela manha e realmente não havia visto quem atirava as flechas. Voltaram os pensamentos sobre máfia e dividas, mas que tipo de mafioso usa flechas? E também havia as palavras de Wing. A perseguição. O que ela queria dizer com isso? E como assim me acharam? Eu não era mafiosa.

Enxuguei-me e vesti a roupa que Dona Cho havia deixado para mim em cima da cama de Wing. Era um vestido longo e florido e – graças aos céus – azul. Odiava rosa. Joguei-me na cama e fitei o teto. Minha cabeça martelava em busca de resposta e como sabia que não iria encontrar doía insuportavelmente.

Enquanto estava no meu momento de meditação ouvi um primeiro estalo, ignorei. Talvez fosse os inúmeros pássaros que havia no jardim de Wing. Depois ouve um segundo estalo, então eu sentei na cama. Ouve um terceiro e soube de onde vinha. Da varanda do quarto.

Caminhei devagar até a janela e a abri. Para minha surpresa a noite já havia caído então eu havia adormecido na cama de Wing.

- Quem está ai? – perguntei na varanda, tentando ver através da escuridão. Algo surgiu muito próximo de mim.

- Que bom que estais bem. – então me abraçou, fiquei parada imóvel. – Não acho que suportaria perder-te novamente. – e antes que eu pudesse perguntar sobre o que ele estava falando Wing surgiu na varanda.

- Seu porco imundo! Fora da minha casa! – ela gritou.

-Não. – ele me empurrou para trás dele. – Não sabes há quanto tempo espero por ela de novo.

- Pouco me importo com você. – ela cuspiu as palavras. – me importo com ela! Uma alma inocente que vem de eras em eras em busca de paz! E você não deixa! Desta vez eu não deixarei que a leve. – ela se posicionou em posição de luta. Nunca vi Wing daquele jeito e realmente senti medo.

- Ela é minha! – então eles avançaram um sobre o outro.

Não posso afirmar com toda certeza se o que eu vi estava certo, nem se ainda estava sonhando. Mas o que eu vi não pode ser mudado. Wing tinha grandes asas brancas e nas pontas das asas havia garras afiadas que cortavam sem quase encostar-se a Traves e ele curava-se tão rápido quando as garras o atingiam.

Não havia jeito de aquilo parar, então tomei toda a coragem que consegui reunir e postei a frente dos dois. Era uma luta de titãs.

-Parem! — gritei. Eles pararam.

- Victoria meu amor, vamos. Eu prometi proteger-lhe para sempre e farei. Sempre fiz. – ele acariciou-me o rosto. E então olhou para Wing – se não fosse esses anjos malditos ainda estaríamos juntos. – ele cuspiu as palavras. – Então vamos?

- Não vou com você. – eu afastei-me dele e mesmo com muito medo postei-me ao lado de Wing. Suas asas ainda abertas. – Quero explicações e acho que as mereço – disse olhando para Wing.

- Não te lembras de mim, minha amada? – Traves olhava-me assustado.

- não. – respondi vergonhosa. Só havia visto Traves por menos de 5 horas em toda minha vida.

- Ela não se lembra de nada Robert. – Wing respondeu, e parecia satisfeita.

- Droga! Malditos são os anjos! – ele gritou.

- Está ai mais uma prova de que ela renasceu para ter paz! Eu fui destinada a protege-la – ela sorriu. – de você!

-Isso já aconteceu antes. Podemos reverter isso. – ele agora caminhava de um lado para outro.

-Deixe-a em paz Robert. Se a ama deixe-a. Os anjos tentaram mata-la enquanto você estiver por perto. Com você longe ela finalmente pode completar sua vida. – suas asas baixaram.

-Os anjos não entendem de amor. – ele parou e me fitou. Seus olhos azuis estavam duros, pareciam diamantes da noite. – Eu darei um jeito de tomar-te de volta minha amada Victoria. – e então foi embora.

Notas finais
obrigado. e reviews são bem vindos.