Capitulo XIV

Coloco as roupas de volta no armário o mais rápido que posso, e em silencio. A porta trancada desde o momento que Cássia atendeu o meu telefonema.

Olho-me no espelho e confiro se está tudo em ordem. Um jeans colado cinza e uma bota de salto alto preta com uma camiseta também preta. O cabelo solto, o delineador perfeito e o batom vermelho. Eu vou à festa.

Não sei como vou pular a janela com esse salto, mas darei um jeito. A última coisa que quero hoje é ficar no mesmo ar que Dante.

Coloco a bolsinha nos ombros com algum dinheiro e o bilhete de Robert, sim agora mais do que nunca tenho certeza que o bilhete é dele. Vou até a varanda e como quem pisa em ovos coloco meu pé para fora da sacada, agarrada a pequena escada na parede. Devagar desço cada degrau e no ultimo eu pulo o mais silencioso que posso.

Quando corro pelo lado da casa abaixo-me e na rua corro até a esquina, onde Cassia já me espera.

Lá está o carro vermelho. Entro ofegante.

– Não tinha me contando que era um m3. – falo meio assustada e quando olho para ela me assusto mais ainda. – Cassia?

– Esqueci-me desse detalhe. – ela sorri e seus dentes branquinhos aparecem.

– Onde estão seus óculos?

– Lentes. – ela ri e passa marcha acelerando.

– Nossa você está tipo uau. – falo chocada. – Não tinha percebido que seus olhos são azuis.

– Ninguém nunca percebe. – ela sorri sem graça.

– E seu cabelo, também não imaginava louro.

– Eu prendo sempre.

– Por quê? – falo, ela está linda.

– Não gosto de chamar atenção pelos motivos errados. – ela ronca o motor. – Mas sim, me conte o que levou a senhorita perfeita a fugir de casa?

– Não sou perfeita. – falo.

– As melhores notas da aluna mais bonita. Não, perfeita nunca. – ela ri sarcástica.

– Fugi por que ninguém manda em mim. – falo.

– Uau. – ela ri. – Tudo bem então, quer dizer que você terminou com o gatão moreno?

– Nunca tivemos nada.

– Hmm, o que ele fez? – ela acelera mais.

– Pior que não fez nada além de ser gostoso. – falo com raiva e ambas rimos.

– Bem, então vamos ouvir uma musica e dedica-la as garotas que são enganadas pelos gostosos. – rimos e colocamos uma musica eletrônica.

– É aqui? – falo boquiaberta. Em uma mansão enorme com varias luzes e muitas pessoas, é onde estacionamos.

– Sim. – saímos do carro.

– Quanta gente. – falo impressionada. A grama do jardim está totalmente suja de copos e pessoas. Algumas bebem e outras se beijam de um jeito constrangedor.

– Precisa ver lá dentro. – ela pega em minha mão e então percebo que ela está mais alta que eu e vejo sua roupa, uma saia bem curta e um top, seu corpo escultural suspenso em um salto 15 cm.

A música era de estourar os tímpanos e todo mundo gritava. Quando entramos muita gente acenou para Cassia e ela retribuiu. Um garoto chegou em nós e entregou um copo de cerveja para ela, que bebeu em um segundo.

– Philipe! – ela o abraça e ele retribui.

– Quanto tempo Cass, nunca mais a vi em minhas festas. – eles gritam por causa da música.

– Mas eu vim! E trouxe alguém. – ela me puxa e me joga em cima dele, quase derrubando o copo vermelho que ele segura. – Essa é minha amiga Vinny.

– Muito prazer Vinny, sou Philipe ao seu dispor. – ele beija minha mão. Ele é lindo.

– O prazer é todo meu. – falo.

– Tudo bem, vamos deixar o prazer para mais tarde. – Cassia me puxa e ri. Olho para trás e leio seus lábios “vejo você mais tarde”. Ok, respondo rindo de Cassia que me leva para o quintal da casa.

Mais pessoas e mais luzes e mais DJ’s. Uma piscina enorme e cheia de bolas e pessoas está bem no meio. Cassia passa e fala com todo mundo, até que chegamos ao bar man.

– Um limite para mim e... – ela olha para mim. – um renascer para minha amiga. – ele confirma e ela sorri. Ele entrega as bebidas e brindamos.

– A vida! – falo.

– As reencarnações. – ela ri e tomamos em um gole.

– Muito bom isso. – falo.

– Esse é só o primeiro. – ela ri e pede mais dois.

– Vamos com calma Cassia. – falo preocupada.

– Calma? – ela ri e entrega a segunda rodada. – Philipe ficou afim de você.

– Como? – deixo meu copo no balcão e peço outro.

– Vamos Vinny, você também ficou afim dele que eu vi.

– Ele é lindo, não posso negar.

– Então?

– Deixamos a festa rolar? – falo pegando o terceiro copo.

– Sim, mas espero que não seja por causa do moreno. – ela estreita os olhos.

– Não! – quase grito. – Ele é assunto encerrado.

– É? – ela ri.

– Sim.

– Então prova. – ela ri e aponta. – Philipe está vindo.

– Como quiser. – falo.

– Curtindo a festa meninas?

– Muito. – respondemos juntas.

– Que ótimo. – ele diz.

– Minha amiga Vinny queria que apresentasse algumas pessoas para ela Philipe, ela anda muito carente de amigos. – ela me empurra, caio sobre seus braços.

– Jura? – ele fala bem perto de mim, segurando-me.

– Uhum. – respondo, me recompondo e segurando a sua mão. – Por onde começamos?

– Vinny! – Cassia fala. – Antes leva com você. – ela me entrega um copo vermelho.

– Qual o nome deste? – falo.

– Seduzir. – ela ri e acena se misturando na multidão.

– Cassandra como sempre muito discreta. – ele ri.

– Estou começando a perceber. – falo vermelha.

– Melhor para mim. – ele ri e toma um gole de sua bebida. – Vamos?

– Vamos.

Conheço metade das pessoas e a maioria já me deu um pouco de suas bebidas para experimentar, e está claro que estou quase bêbada. Nem sinal de Cassia, por outro lado Philipe se mantem inabalável dançando ao meu lado.

As luzes são hipnóticas e a batida da musica entra em meu corpo e pulsa de dentro para fora. Estou louca.

– Você é sem sobra de duvida a garota mais linda que eu já vi na vida. – ele diz auto ao meu ouvido, estamos na pista de dança e mais alguém me passa seu copo e eu tomo sem pensar duas vezes.

– E quantas ruivas você já viu? – falo ao seu ouvido rindo.

– Não muitas, admito. – ele me gira e põe a sua frente de modo que fico de costas para ele e ele me abraça.

– Está tentando me seduzir? – falo virando e colocando meus braços por cima de seus ombros.

– Não, se você não quiser. – seus olhos são cinza e hipnóticos, acho que estou vendo coisas ou ele tem mesmo um arco-íris nos olhos. Puxo seus cachos e dou-lhe um beijo, ele retribui de bom grado.

– Quer uma bala? – ele diz mostrando uma pequena bolinha azul.

– De que é? – falo pegando e colocando na boca.

– Sabor felicidade. – ele ri e me suspende no ar me beijando.

As luzes estão fora de foco e a todo gira em câmera lenta, a sensação que eu tenho é de que nada pode me deter, eu sou inabalável, não tenho problemas e nem preciso me preocupar com nada. Nunca me senti assim e não quero parar.

– Cass! – grito quando a veja e corro até ela a abraçando. – Eu te amo! – ela ri.

– Tudo bem Philipe o que você deu a ela? – ela pergunta.

– Balinhas sabor felicidade. – nos rimos.

– E está sentindo felicidade Vinny? – ela pergunta.

– Muito. – rimos sem motivo.

– Que bom que está em boas mãos, vou me divertir e Philipe cuide bem dela. – ela ri e vai embora.

– Quer subir? – ele aponta para cima.

– Por que não? – e ela pega em minha mão e me leva.

– Esse é meu quarto. – ele abre a porta e revela um enorme quarto com uma cama box e lençol de veludo e cetim.

– Atrativo. – falo e ele ri.

– Não quero tentar nada com você se você não quiser princesa, pode ficar calma. – ele fica perto de mim, ajeita meu cabelo para trás da orelha e me beija.

Puxo pela gola da camisa até a cama e o jogo lá. Subo em cima dele e o beijo, ele pega em minhas pernas e eu acaricio seu cabelo.

Alguém bate na porta. Ignoramos. Bate de novo.

– Vá embora. – ele grita e sorri para mim, agora por cima.

Um grande baque. A porta está quebrada no chão e Dante nos olha.

– Acho que quero ficar mais um pouquinho. – ele vai para cima de Philipe e dá um soco, ele cai no chão.

– Dante para! – grito. Philipe levanta e tenta revidar socando o ar já que Dante se abaixa e dá um soco em seu estomago.

– Levanta seu mauricinho. – ele dá um chute. Philipe já cospe sangue e muita gente já se aglomerou na porta para ver o espetáculo. Que ótimo!

– Quem é você? – Philipe fala levantando e cuspindo o sangue.

– Alguém de quem você vai se lembrar pelo resto da vida! – ele tenta dar um soco mais quem leva a melhor é Philipe que acerta em cheio o rosto de Dante.

– O que é isso?! – Cassia entra no quarto e vai para meu lado.

– Dante para! – ele deu outro soco em Philipe, mas é inútil que eu grite. — Dante nos pegou juntos. – respondo.

– Vem, vamos embora. Eles que se resolvam. – ela me puxa e deixa os dois para trás.

Assim que chegamos do lado de fora eu sinto o ar fresco e vejo como estou com calor. Não há sinal de bebida em meu corpo desde o momento que vi Dante parado bem na porta.

– Está tudo bem? – Cassia pergunta enquanto eu olho para trás.

– Sim. Me leve para casa. – falo seguindo-a até o carro.

– Victoria. – alguém grita.

– Eu conheço essa voz. – falo e viro para ver quem me chamou. – Robert? – estreito os olhos para ver melhor, pelo visto ainda resta bebida.

– Você está bem? – ele me abraça.

– Sim. E com você? – falo preocupada de repente.

– Sim, melhor agora. – ele olha para casa. – Como veio parar aqui?

– Longa historia. – falo.

– Vamos Vinny? – Cassia buzina a abaixa o vidro.

– Vem, eu te deixo em casa. – ele fala.

– Vou com ele. – falo.

– Tem certeza? – ela diz.

– Tenho sim, qualquer coisa eu te ligo. Obrigada. – falo me afastando do carro.

– Tudo bem. – ele levanta o vidro e acelera.

– Meu carro não está longe. – ele vai à frente, eu o sigo.

– Como sabia que eu estava aqui? – falo tirando os sapatos e correndo para acompanha-lo.

– Vi o convite em seu quarto quando fui lá hoje. – ele destrava o carro há poucos metros.

– Então é verdade.

– O que? – ele pergunta.

– Você tem ido me ver quase todas as noites.

– Como sempre. – ele diz dando de ombros.

– Como assim?

– Sempre vi você dormir, todos os dias por vários anos. – ele sorri e abre o carro.

– Vinny! – mais alguém grita meu nome e dessa vez não preciso nem virar para saber quem é.

– Por favor, vá embora! – falo

– Eu posso explicar. – ele diz e quando olha para Robert vejo fúria em seu olhar.

– Você não vai fazer nada contra ele! – grito e me coloco a sua frente.

– Você não vai com ele. – ele diz pegando em meu braço.

– Me solta! – grito e bato com os sapatos em sua mão.

– Você a ouviu. Largue. – Robert diz no meio de nos.

– Me obrigue! – Dante diz me puxando. Robert o empurra.

– Entra no carro e me espera lá. Não vou demorar. – Robert diz se colocando em minha frente.

– Não. – respondo. – Eu vou com você e não há ninguém com poder o suficiente para me impedir. – pego em seu braço e o puxo. – Vamos.

Entramos no carro e Dante continua parado do meio da rua, sangrando e estatelado. Uma lagrima escapa, mas não dura muito tempo. Robert acelera deixando Dante para trás.

– Me leve para sua casa. – falo olhando para a janela.

– Tem certeza? – ele pergunta.

– Absoluta.

– Tudo bem então.

Olho pela janela do carro. De madrugada tudo parece mais frio e mais sombrio, não há pessoas nas ruas e isso deixa tudo com um ar de filme de terror. A música já não abafa meus pensamentos e eu infelizmente consigo pensar nas horas anteriores

Fui idiota e estupida, eu sei. Mas Dante foi triplamente pior, me enganou da forma mais suja que pode existir. Sei que em nenhum momento ele disse que gostava de mim ou queria ficar comigo, mas no fundo, bem no fundo eu sentia que, sei lá, talvez ele gostasse, talvez ele estivesse ali por mim, Vinny.

Errei mais uma vez em relação a ele. Dante só se importa com sua missão e no quanto isso vai ajuda-lo a se promover, talvez agora ele vire um Arcanjo. Passando por cima de mim e de minha total estupidez.

Enxugo minhas lagrimas e fungo baixinho. Robert apenas dirige e nada pergunta. Estamos entrando no cemitério.

– O que estamos fazendo aqui? – pergunto assustada. Ele ri.

– Onde os mortos se encontram. – ele entra passando pelo meio do campo de grama verde, muito parecido com um campo de golfe se não fosse pelas lapides pregadas ao chão, cada uma com um corpo a sete palmos.

– Você mora aqui? – meus olhos arregalados. Nunca entrei em um cemitério, principalmente de madrugada.

– Não exatamente aqui. – ele aponta para o fim do campo onde há uma pequena floresta fechada. – Lá.

– E o que tem lá?

– Você verá. – ele aumenta a luz do farol e continua floresta adentro.

Estacionamos em uma pequena cobertura, ao lado de um chalezinho de madeira, com algumas plantas na frente e na beirada da janela, a porta com maçaneta prata e com uma chaminé de onde saia fumaça. Um lugar que seria lindo se não fosse aos fundos de um cemitério.

– Não vai descer? – ele pergunta batendo a minha janela. Ele abre e pega minha mão ajudando-me a sair. – Deixa que eu seguro. – então pega meus sapatos. – Por aqui. – me guia.

Se do lado de fora estava frio e triste, dentro do chalé me sinto confortável e quente. A lareira ajuda um pouco no quente. Os móveis todos de couro marrom, não há TV apenas uma mesinha central com vários livros, e o sofá ficam de frente para o fogo que ardia incansável.

Esfrego as mãos espalhando o calor por meu corpo e quando menos percebo vejo um casaco sendo colocado por cima de meus ombros.

– Obrigado. – falo.

– Não tem por que. – Robert diz sorrindo. Seu sorriso é caloroso e jovem, e é muito familiar para mim.

– Sua casa é muito bonita. – falo sem deixar de admirar o lugar, rustico e romântico ao mesmo tempo. Tão diferente da casa branca na qual eu moro.

– Anos e anos tentando acertar cada detalhe. – ele diz. – Não quer sentar?

– Uhum, meus pés estão me matando. – falo sentando bem de frente para a lareira.

– Também, com isso aqui. – ele suspende meus saltos. – Até meus pés pediriam socorro. – rimos juntos, ele deixa o sapato no chão e senta ao meu lado.

– Obrigado. – digo olhando para a lareira.

– Pelo o que?

– Por me trazer para cá, por me receber e sempre ser tão gentil comigo. – falo vermelha, não sei se por vergonha ou pelo calor do fogo.

– Essa é sua casa. – ele diz pegando em minha mão.

– Não. – suspiro alto. – Não é.

– Claro que sim Victoria.

– Ai é que está o problema Robert. – olho para ele. – Não sou Victoria. Meu nome é Vinny. – ele solta minha mão e põe as suas sobre seu rosto por alguns instantes e depois relaxa as mãos, senta no chão e encara o fogo.

– Planejei essa casa por horas e horas incontáveis com Victoria. – ele não pisca. – Cada mínimo detalhe, onde seriam os quartos dos nossos filhos e o nosso. Cada móvel, cada toalha de cada cor. – ele sorri e olha para baixo. – Eu sei que você é Vinny Louis, sei que você nasceu em uma época diferente e sei também que tem uma história.

– Então... – ele me interrompe.

– Deixe-me continuar... – Ele novamente olha para o fogo. – Quando tudo acabou há muito tempo atrás eu não me conformei que não poderíamos ter a vida que sonhamos, eu busquei meios que nem eu sei como de continuar a viver por sua causa. Eu não sou mais humano, mas também não deixei de ser um. É como se o tempo houvesse parado para mim, mas eu paguei um preço muito alto por isso.

Gerações e gerações deixando você reencarnar e alcançar a idade em que nos conhecemos só para perder você de novo, e de novo, e de novo. – eu o observo silenciosa e atenta, lagrimas escorrem tanto de meus olhos quanto dos dele. – Quando você me conhecia depois de algum tempo você sempre voltada a gostar de mim e me amar, às vezes no primeiro momento em que nos conhecíamos ou um pouco tempo depois, mas sempre ficávamos juntos. – ele suspira. – Pelo menos até os anjos interromperem.

Dessa vez foi diferente. – seus olhos estão vermelhos. – Eu não esperava encontra-la, eu nem a reconheci. Mas então eu olhei em seus olhos e toquei em você. – ele sorri sem graça. – Vi minha Victoria no fundo de seus olhos, escondida na floresta de seu olhar, também vi que ela não estava sozinha. – ele olha levanta e senta ao meu lado, olha nos meus olhos. – Desde o primeiro momento que a reconheci vi que vocês duas competiam dentro de você. Você, Vinny, é tão diferente de minha Victoria e ao mesmo tempo tão parecida. Eu, mesmo estado longe de você sempre dava um jeito de ficar por perto e tentar decifra-la, admito que também tive esperanças de que me reconhecesse e que voltasse pra mim, mas uma coisa inesperada aconteceu. – ele fecha os olhos e suas lagrimas são mais intensas. Seus olhos azuis se abrem intensos para mim. – Eu me apaixonei pela segunda vez, por você.

– Robert eu... – ele coloca o indicador sobre meus lábios.

– Por algum tempo eu senti como se estivesse traindo minha Victoria, mas afinal era você. A reencarnação dela. É tudo tão confuso. – ele chora intensamente. – No final, já era impossível ficar longe de você assim como foi impossível deixar Victoria para trás. – eu enxugo suas lagrimas e aperto sua mão.

– Robert. – começo. – Quando te vi pela primeira vez é muito óbvio que achei que era a coisa mais bonita que já havia visto, mas pensei que era assim para todas e não dei muita importância. Tudo aconteceu rápido demais para mim e tornou-se um embaralhado de informações, nas quais perdi muito tempo tentando aceitar e entender tudo.

Tenho muitas memorias de Victoria e sei o quanto o amor de vocês era intenso e verdadeiro. Você sendo um criado e ela uma moça rica da época, não posso dizer que gostava muito dela sendo do jeito que você sabe que ela era. – ele sorri. – Mas com as memorias eu passei a sentir sempre um calafrio quando ouvia seu nome e não sei explicar o que é isso.

Não posso suportar quando penso que você pode estar sofrendo ou em perigo, é como se parte de mim morresse aos poucos e dói, dói muito. Tentei negar isso, não pensar nisso por muito tempo, mas é inevitável. Eu sei que a minha parte Victoria ama você e ela exerce poder sobre mim, consequentemente eu o amo também. – ele se aproxima e eu me afasto um pouco. – Mas como você disse dessa vez é diferente. Eu tenho vontade própria e tenho uma vida, estou dividida entre o que eu era e o que eu sou. Entre quem eu amo e quem eu amei. – suspiro alto, é difícil dizer mais preciso. – Entre você e meu anjo da guarda, Dante.

– Você sabe que nunca poderá ter nada com ele não é? – ele diz.

– Sim, eu sei, mas eu não consigo evitar e é sim, muito, muito confuso. – levanto e viro de costas. – É diferente com o que você sente. O seu amor de vidas pela Victoria, é algo que não morre e é normal que esteja apaixonado pela copia dela, mesmo que um pouco diferente. Já eu sinto como se ama-lo fosse uma obrigação a seguir e com Dante é tão mais fácil, apenas acontece.

– Então me deixe deixar acontecer. – ele me vira e tenta me beijar, eu viro o rosto.

– Preciso de um banho, e de um tempo. – falo sem graça.

– Claro. – ele se afasta e enxuga as lagrimas. – Eu mostro onde estão as toalhas.