A saga de Leoni
1 O começo
- Leoni, esse é o seu dever. Essa foi a sua benção, essa será sua maldição. De você foi tirado o livre arbítrio, seu propósito de vida é servir a mim e a minha causa.
O homem encoberto em um capuz negro esvoaçante não parava de falar, eu não entendia nada do que estava acontecendo. Estava em um local parecido com o meu quarto, porém tudo estava destruído.
Minha mesa de cabeceira pendia de uma forma estranha no ar, minha cama exalava um certo cheiro de enxofre e o que era para ser o teto, mostrava um céu repleto de estrelas escarlates
- Você pode não entender agora, mas tenha certeza, você não nasceu por mero acaso , eu lhe marco com meu signo e ele te acompanhará até o momento certo, o momento que você erguerá seus punhos em meu nome.
Após despejar palavras em cima de mim, ele tocou a minha testa e tudo começou a girar e em seguida estava no meu quarto, com o suor dando um toque frio a todo meu corpo, acordando de mais um pesadelo repetitivo.
Apalpei o criado-mudo a procura dos meus óculos e o ajeitei no meu rosto, disposto a começar mais um dia cansativo.
O relógio marca 17:45, estava quinze minutos atrasado pra caralho, meu primeiro dia na escola nova e já seria a estrela...
Minha mãe gritava do outro lado da casa "Anda logo, filho! Sempre a mesma coisa, que inferno!" realmente, era sempre a mesma coisa. Ela sempre gritando comigo e me mandando fazer algo, alcancei minha calça jeans jogada pelo quarto e fui até o espelho, meu reflexo mostrava um semblante pálido, um garoto de seus 16 anos, um metro e oitenta, rosto arredondado, cabelos castanhos e compridos, olhos claros e um leve aspecto de "estou-cansado-para-tudo". Um pouco diferente dos padrões do local aonde vivia.
Me vesti entre gritos e xingamentos da minha mãe, tudo muito cansativo...
Após colocar uma camiseta qualquer, peguei minha carteira e meu celular e me dirigi a porta.
- Inferno, é sempre a mesma coisa, você não aprende, sempre chega atrasado pra tudo...
- Caralho mãe, eu já sei, você já falou, me deixa em paz.
Sai batendo a porta do apartamento e gritando, estressado com esses dias repetitivos, tudo na minha vida parecia chato ultimamente.
A caminho da escola senti uma sensação horrível, como se algo estivesse me seguindo.
Ao chegar na metade do caminho vejo um dos poucos amigos que tenho, Denis...
- Leoni, cara. Feliz aniversário velho, tudo de bom pra ti e que você consiga pegar todas aquelas gatinhas que tu vive atrás. — disse Denis dando um longo sorriso para mim.
E percebo que se não fosse pelo Denis eu nunca lembraria que estava fazendo 17 anos nesse dia.
- Obrigado cara, e você sabe que não to atrás de ninguém. — um leve sorriso forçado em retribuição e continuamos nosso caminho.
Caminhando para escola com Denis percebi que a sensação de mais cedo não desapareceu, olhei pra trás algumas vezes só por precaução e nada...
Finalmente cheguei na escola, olhei para o celular; 19:15.
Fui a procura dos horários de cada aula, enquanto me direcionava até lá uma tontura repentina invadiu meu corpo e tudo começou a escurecer. Novamente estava no lugar do sonho.
O homem encapuzado estava a minha frente e não demorou para começar a falar.
- O momento chegou, você finalmente saberá tudo que esta predestinado a você, meu caro Leoni.
Ele sabia meu nome, algo estava estranho. Isso não era como os sonhos, isso era tão... real.
- Tudo será explicado a você com o tempo. Vamos tomar as providencias para que você me acompanhe até Astéria.
Astéria? O que diabos é uma Astéria? Em todas as aparições desse homem coisas sem sentido eram vomitadas em cima de mim, minha cabeça dói.
- Aeon, venha cá.
O homem gritou, parecia estar chamando alguém. Uma criatura angelical começou a sair do chão e se ergueu na minha frente, ao perceber os detalhes da "coisa" que estava de prontidão em minha frente vi que ela tinha uma asa negra inclinada e uma outra branca, ao lado oposto, caída.
O que diabos estava acontecendo? Minhas pernas congelaram, meu coração acelerou e minha visão se deslumbrou
- Pois não, mestre Melchior.
Melchior... O nome do homem era esse, e parecia ser alguém importante.
- Esse é Leoni, o campeão dos Astérians, você ficará encarregado de coloca-lo em forma para o combate e fornecer todas as informações e preparações necessárias para que ele esteja pronto quando finalmente acontecer.
Ao falar isso um brilho obscuro surgiu sobre os olhos de "Melchior".
Finalmente tomei coragem pra falar algo, assim que levantei e fiz menção de abrir a boca, a criatura de nome Aeon se virou a mim.
- Não fique inquieto meu querido pugilem, tudo será explicado no seu devido tempo, perguntas não serão necessárias no atual momento.
Melchior fez um sinal para Aeon que imediatamente começou a vociferar palavras em uma linguagem estranha.
- Per data potestas ad me per Melchior absoluta magister omnis terrenas creaturas, annuntians vindicem Astérians, suscipiens gloriosa et potens torris Melchioris dominus et magister omnium, qui inhabitat carnalis mundi.
Após todos esses dizeres esquisitos Aeon apontou para meu peito com o dedo e um ardor absurdo começou a surgir.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH!
Uma dor descomunal junto de um ardor tomou conta do meu torax.
Falei entre gritos e soluços:
-P-P-PARE COM ISSO, PARE!
A sensação de "ardor" aumentava cada vez mais.
Ao olhar para meu peito percebo que o lugar que deveria estar uma parte da minha camiseta estava totalmente queimado e uma marca se formava aos poucos naquela região.
Imediatamente o homem chamado Melchior começou a falar:
- Seu destino foi selado, volte ao seus que logo você vai entender o real significado dessa marca. Leoni, esse é o seu dever. Essa foi a sua benção, essa será sua maldição. De você foi tirado o livre arbítrio , seu propósito de vida é servir a mim e a minha causa.
Tudo voltava a girar, tudo ia se deslocando e um quarto totalmente branco começava a tomar forma.
- L-Leo, filho.
Reconhecia a voz estridente da minha mãe antes mesmo de abrir os olhos, fui cegado pela luz ofuscante do que parecia ser uma sala de um hospital.
- O que aconteceu, mãe ?
Ela parecia estar profundamente abalada, com olheiras e uma cara péssima em relação ao normal.
- Você desmaiou no seu colégio, seu amigo, aquele Denis, te trouxe em casa.
Repentinamente lembrei do "pseudo-sonho" que tive e olhei para o peito, nada diferente do normal.
- Como diabos isso aconteceu ?
Imediatamente um médico entrava pela sala, um homem meio idoso, cabelo grisalho e com rugas em todo o rosto esticou a mão para mim, nos cumprimentamos e ele começou a falar com uma voz rouca e cansada :
- Prazer, sou o Dr. Hélio.
- Sou Leoni, o que aconteceu comigo ?
- Calma lá rapaz, vamos com calma, primeiro vou ter uma conversinha com a sua mãe. Senhorita Eva, poderia me acompanhar ?
O tal de Hélio saiu com minha mãe para uma salinha, isso me deu tempo para pensar sobre o sonho.
O que diabos foi aquilo? Por que esses sonhos se repetiam comigo?
Não tive muito tempo de raciocinar, minha mãe entrou chorando com o médico em seu encalço.
- Rapaz, precisamos conversar...
O médico me olhou com uma cara de preocupação e disse sem delongas.
- Você foi diagnosticado com uma anomalia na região do seu peito, uma leve incisão no seu pulmão. Não é nada fatal, mas eu gostaria que você viesse aqui uma vez a cada três meses para checar se está tudo ok.
Fiquei atordoado, não pelo fato de ter uma incisão no meu peito ou por ver minha mãe chorando igual a uma criança, mas sim por "Melchior" ter marcado justamente a região do meu pulmão. Após alguns segundos pensando, recuperei o foco e olhei para o doutor.
- Essa foi a causa do meu desmaio?
- Sim, lhe faltou oxigênio.
Fiquei aliviado de ter uma explicação para isso, não era algo tão complexo assim...
Olhei para minha mãe e vi ela se desmanchando em prantos.
- Para com isso mãe, pelo jeito não é nada grave. Vamos pra casa.
O médico olhou para mim com uma cara impaciente.
- Não garoto, você vai passar a noite no hospital, precisamos fazer uma análise do seu quadro ainda...
Abri a boca para retrucar e dizer que estava bem, mas antes disso o médico fechou a cortina da maca e começou a falar com minha mãe.
- Senhorita Eva, se acalme por favor. Seu filho está bem, só iremos fazer uns testes para checar o que pode ter causado essa incisão, vá para casa e descanse.
Minha mãe passou pela cortina e já parecia muito menos "chorosa" mas ainda lagrimas caiam de seus olhos.
- F-filho, você já se sente melhor? Meu deus, protege meu filho...
-Para com isso mãe, eu já te disse que não foi nada. Obedeça o que o médico disse e vá pra casa descansar, eu vou ficar bem, sério.
Minha mãe me deu um abraço, fiquei feliz e meio desnorteado por isso. Não era muito comum demonstração de afeto entre a gente, pelo menos não por mim.
-E-é, obrigado mãe. Se cuida.
Vi minha mãe indo embora e um aperto atingiu meu peito, não era nada relacionado a incisão, era uma "dor no coração".
Após minha mãe sair, o médico perguntou algo sobre como foi meu dia, respondi tudo e depois ele me disse para repousar e assim fiz.
Fiquei uns bons quarenta minutos refletindo sobre tudo que eu vi no "sonho" e a única conclusão a qual cheguei foi que eu precisava de um psicólogo.
Passados mais quarenta minutos o sono finalmente me atingiu e de certa forma eu já sabia o que esperar...
Tudo escurecia, e a minha suspeita se confirmava. Já estava ficando monótono sempre o mesmo sonho, Melchior pairava na minha frente.
- Finalmente retornou a nós, pugilem.
Ele falava com um sorriso torto e macabro.
- O que você quer? Isso já esta me deixando louco, por que você sempre aparece nos meus sonhos?
Aeon agora aparecia por trás de seu mestre e ambos gargalhavam de uma forma aterrorizante.
- Hoje será o dia que você passará a transitar em nosso mundo, vou te explicar tudo no caminho, me acompanhe.
Estava realmente perplexo com tudo isso, estranhos apareciam em meus sonhos e me diziam sobre algo que eu não entendia muito bem, o que diabos era isso ?
O ser de nome Aeon tinha se aproximado de mim em um piscar de olhos e tocou a minha marca com seu dedo longo e pálido.
-AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHH!
Não só meu peito queimou, minha pele parecia estar se desprendendo do corpo e fui obrigado a me jogar no chão.
-AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
A queimadura não parava, meus gritos ecoavam por todo o local e Aeon parecia estar se divertindo com a situação, parado na minha frente com um sorriso desdenhoso na face.
Minhas entranhas começaram a se revirar e senti meus olhos saltarem de suas respectivas orbitas, foi então que pelo canto do olho vi Aeon sacar uma espada de lamina brilhante e fazer cortes aparentemente aleatórios no ar.
- Fique feliz, meu amigo. Você passou e agora está liberado a sua transição ao reino dos combatentes carnais, Astéria.
Conforme Aeon ia terminando sua fala, a dor desaparecia por completo, arrisco dizer que meu corpo parecia muito mais "saudável".
Melchior sussurrou umas palavras e fez movimentos com as mãos e repentinamente um espelho gigantesco surgiu na minha frente.
Meu espanto foi grande, tão grande a ponto de me fazer perder o equilíbrio e cair de joelhos.
Eu estava completamente equipado com uma armadura metálica na cor prata, o símbolo que eu carregava no peito estava estampado no peitoral da armadura.
- O-o que é isso? O que diabos você fez? POR QUE VOCÊ NÂO PARA DE APARECER PARA MIM?!
A única coisa que me deixava mais assustado do que essa armadura aparecendo magicamente
no meu corpo após essa dor infernal era o sorriso maquiavélico no rosto de Aeon e Melchior.
- Acalme-se, Leoni. Tudo será explicado para você em Astéria, me acompanhe e você certamente lutara por nossa causa.
Melchior falava coisas sem sentido e minha vontade era de simplesmente acordar daquele maldito sonho e parar de ter essas visões perturbadoras
- N-Não. Não vou a lugar nenhum com você, você é apenas uma ilusão, um sonho. DESAPAREÇA!
Gritei, mas de nada adiantou.
Melchior percebendo minha relutância em segui-lo, olhou para Aeon e disse :
- Faça.
Aeon, que estava posto ao meu lado, começou a sussurrar algumas palavras na linguagem estranha que eu já o tinha ouvido falar e tudo escureceu...
Uma leve canção começou a tocar, um som mágico que parecia acalmar meus ouvidos e pouco a pouco tudo ao meu redor ia tomando forma.
Acordei em algo que parecia um salão de entrada de um castelo antigo, absurdamente grande.
Candelabros de ouro pendiam sobre o teto gigantesco, estatuetas com carrancas feias e deformadas, milhões de portas que levavam a milhões de quartos, uma escadaria e com toda certeza o detalhe que mais chamava atenção, uma estatueta de aparentes 10 metros de Melchior com alguns dizeres cravados em uma placa no solo.
- Maravilhado com a visão, garoto?
A voz rouca de Melchior ecoava pelo salão, me virei rapidamente e o vislumbrei totalmente diferente do velho de antes.
Melchior agora tinha uma aparência robusta, o cabelo continuava grisalho, porém com um aspecto mais vívido. Músculos estavam substituindo cada centímetro do seu corpo, digno de um bárbaro que só se vê em historias em quadrinhos.
- Um pouco diferente, não acha?
Ele disse em um tom sarcástico olhando para o próprio corpo.
Estava me conformando que tudo isso não passava de só um sonho e resolvi me controlar, é apenas um sonho, uma hora eu teria que acordar.
- Me explique o porque de vocês continuarem a aparecer em meus sonhos.
- Finalmente resolveu aceitar ?
- Você é um sonho, vou a um psicólogo assim que terminar essa alucinação idiota...
Melchior gargalhou da forma assustadora que costumava, sua nova aparência só o tornava cada vez mais assustador...
- Hah! Isso é muito mais que um sonho, logo você entenderá. Vamos as explicações.
Ainda estava um pouco aflito com tudo isso, mas me prestei a ouvir o que o homem iria dizer...
Melchior pigarreou e tornou a falar.
- Filho, você está em Astéria. Você pode considerar isso como uma extensão do mundo que você vive, Astéria fica em outro plano e humanos não conseguem pisar aqui sem a minha devida permissão... — fiz menção de interromper mas Melchior pareceu ler minha mente. — Obviamente, você só permanece aqui por causa disso... — disse ele apontando ao meu peito.
-E o que exatamente é isso? — disse com um ar de curiosidade involuntária.
-Você parece estar se interessando pelo assunto, garoto. -disse ele forçando uma leve gargalhada.
- Só quero saber o que se passa, mesmo eu não acreditando nisso... — realmente não tinha porque perguntar isso, eu não acreditava em absolutamente nada do que estava acontecendo e iria a um psicólogo assim que acordasse.
- Pois bem, veremos o que você faz depois de você saber a verdade. Essa marca é o meu símbolo, ela te permite transitar entre o mundo real, Astéria e eventualmente você vai conseguir permanecer em Ether...
Não sabia o que diabos ele queria dizer com Ether, mas preferi não interromper.
Ele novamente dando a entender que leu minha mente, continuou.
-Ether é a "arena", estamos em um jogo. Existem três "reinos" e são eles: Astéria, o plano existencial que é aonde os escolhidos da terra permanecem, ou seja, você.
- Jogo? Reino? Pare com isso, sua alucinação idio... — Aeon me acertou com a palma de sua mão, uma dor "real" me atingiu.
- Cale-se, a próxima vez que você ao menos pensar em ofender o mestre Melchior, farei questão de te calar para sempre. — Aeon, que sempre se manteve calmo estava visivelmente alterado.
Me assustei com a reação do "anjo", fiquei encolhido esperando Melchior se pronunciar.
Melchior ficou alguns minutos me observando, pigarreou e continuou como se nada tivesse acontecido.
- Como eu ia dizendo, você provavelmente já ouviu falar de céu e inferno, certo? Pois bem, eles não são como descritos na bíblia, são reinos paralelos a terra. Eu seria o "Deus" retratado na bíblia, porem eu não governo o Céu e nem tenho controle sobre os seres do Inferno.
Astéria é o tão esperado paraíso, que vocês terráqueos costumam perseguir a vida toda. — ele fez uma cara cansada e apontou para uma das milhares de portas e tornou a falar — Estou cansado, e creio que você também está, não espero que você consiga digerir todas essas informações de uma vez só... Assim que você acordar, Aeon te passará o resto das informações para que você entre no jogo e também seja apresentado aos outros pugilem.
Quanto mais ele falava, mais o cansaço entrava em meu corpo e em alguns segundos tudo apagou e me vi novamente na cama do hospital, completamente revigorado.
Hélio aparecia correndo em minha direção com uma expressão de preocupação em seu rosto e ofegando cada vez mais.
Assim que o médico começou a falar, tudo começou a desfocar e um calafrio tocou até o ultimo centímetro do meu corpo e a voz de Aeon saiu da boca de Hélio.
- Foi decidido por nosso mestre que você será treinado sozinho, não existira outro pugilen trabalhando conosco, mas nos foi informado que alguns dos seus estão do lado dos Vacers, os "infernais", pelo histórico desses insetos, eles vão tentar atacar você antes que você tenha chance de descobrir quem é, então tome isso.
Hélio, ou melhor, Aeon, tinha um colar em forma de um cruz, com uma raposa prateada rodeada de cinzas encravada em um ponto no meio do rosário, o anjo parecia manusear o colar com uma cautela grandiosa, como se fosse algo maior que sua própria vida.
- Pugilem, guarde isso como se fosse sua vida, esse rosário carrega nosso símbolo e também nossa gloria, além do mais, sua proteção. — Disse o ser, com um sorriso misterioso no rosto.
Assim que estendi a mão e toquei o crucifixo, o tapa que Aeon tinha me dado mais cedo ardeu e uma onda de ódio transpassou todo meu corpo, atirei o crucifixo ao longe em um acesso de fúria.
- Vocês simplesmente me tiram do mundo real, me torturam, me causam sofrimento e querem que eu aceite presentinhos? Fodam-se vocês, existindo ou não, sumam daqui. — Estava tremendo de raiva, por um momento temi que Aeon me batesse novamente, mas isso não impedia a minha raiva de sair por minha boca.
Aeon me olhou com um misto de desprezo e reprovação, balançou a cabeça de um lado para o outro e disse:
-Você não é o que procuramos, mestre Melchior se enganou...
-Garoto, acorde. — ele me chacoalhava freneticamente, despertei de algo que parecia ser um transe.
Hélio repetia com sua voz rouca, palavras que pareciam não fazer sentido...
-N-não, eu estou bem, foi apenas um pesadelo ou algo do tipo.
As palavras saíram meio que me obrigando a acreditar que foi apenas um pesadelo, e não que eu estava realmente ficando insano...
Hélio me olhou de uma forma curiosa, após alguns minutos de silêncio, disse:
-Moleque, você é estranho...
Uma voz do outro lado da sala, parecia assustada.
- Hélio, vem rápido, é urgente.
O médico deu uma ultima olhada para mim e se dirigiu a um outro lugar, não pude ver exatamente para onde.
Ao olhar pelo quarto, uma janela reluzente pareceu se materializar aonde antes só tinha uma parede, misticamente, o que meus olhos me mostravam passava totalmente da realidade que me fizeram engolir até então.
Homens deformados, sem braços e com um aspecto totalmente deteriorado erguiam algo, ou melhor, alguém.
Por mais que eu tentasse fechar meus olhos, pois sabia o que viria a seguir, algo me impedia, minha mente dizia que eu precisava ver.
Uma espada de lamina dupla surgiu na mão de uma daquelas "coisas" deformadas, e tudo ocorreu em um instante, a espada partiu aquela pessoa no meio e consegui ouvir dois gritos, um do interior da minha alma e o outro da sala ao lado.
Um objeto em chamas voou até a janela, e em um ato inconsciente, pulei de minha cama e tentei agarrar, e como um flashback, Aeon estava a minha frente, asas erguidas em um formato deslumbrante, Melchior também estava ao lado, gritando palavras na língua que tinha usado em Astéria, aparentemente ela "fechava" a janela, pude ver um brasão com três coroas de um vermelho-sangue estampadas enquanto uma espada negra atravessava a coroa do meio.
Antes de pensar em qualquer coisa, a voz daquela mulher veio em minha mente e eu a reconheci de prontidão, o desespero tomou conta do meu ser, o grito era de uma mulher chamada Elza Cavaleri, melhor dizendo, minha mãe.
Demorou um pouco mais que o necessário para perceber que estava completamente desesperado, lagrimas caiam sobre o chão e um grito se abafou em minha garganta, percebi que já não estava mais no meu mundo, mas sim em Astéria, o simples pensamento em relação a esse maldito lugar me fazia tremer... de raiva. Após a cena que presenciei minha mãe sendo cortada ao meio por monstros, duas certezas entraram em minha mente: Astéria era real e também a culpada pela morte do único ser que me amava verdadeiramente.
Estava em algo que parecia um centro de treinamento ou qualquer outra merda desse tipo, nada mais conveniente...
Fui até a espada mais próxima e a segurei de maneira firme, o contato com o aço fez a imagem de minha mãe voltar para minha mente, de uma forma tão nítida que podia jurar que consegui ouvir o grito novamente, um sombrio pensamento me atingiu : "só os fortes sobrevivem"
Cortei o ar meia dúzia de vezes com movimentos cima-baixo com a arma e de alguma forma, isso me acalmou. Olhando ao redor percebi que era um pouco mais do que um simples centro de treinamento, espadas pendiam de seus respectivos suportes, lanças com a minha estatura eram postas em fileiras, escudos reluzentes, armaduras prateadas, brasões semelhante aos que Aeon me entregou, todos com raposas prateadas em seu interior, elmos com um brilho que você só acha em filmes da era medieval, punhais e todo outro tipo de armas que qualquer homem não civilizado poderia sonhar.
Uma voz atingiu meu ouvido como uma flecha
-Maravilhado com a visão, garoto?
A voz de Melchior fez com que toda a calma que estava no meu corpo desaparecesse por completo e em um frenesi de fúria, agarrei a espada e corri em direção ao velho, porem, ao direcionar meu olhar a "coisa", a espada escorregou de meus dedos e transformar toda a fúria em total descrença.
-Não tão maravilhado quanto eu esperava. — disse o homem, forçando um sorriso com uma voz que demonstrava exaustão.
Não sabia o que diabos tinha acontecido com o homem robusto que eu vi dias atrás e imediatamente senti algo próximo a pena...
Melchior estava com seu braço direito totalmente dilacerado por cortes e ferimentos, tão escurecido quanto a noite, de um aspecto morto, e suas pernas não se encontravam em estado muito melhor, igualmente dilacerada e negra, porem pedaços caiam e se desvaneciam como sombras conforme o velho caminhava.
-Sinto muito por tudo, garoto...
A voz de Melchior me tirou do transe e a fúria voltou em um impulso, aperta as mãos e me dei conta que a espada não estava mais ao meu alcance, fechei meus punhos e parti em direção a ele.
Por um momento escutei um "crac" e segundos depois Aeon estava parado em frente a Melchior, segurando meu punho, ao perceber o anjo pulei para trás tentando ganhar distância e o vi virando em direção ao seu senhor.
-Mestre, o que você planejava fazer transformando a mão do pivete em uma manopla? Se eu não estivesse aqui, isso teria te machucado.
Melchior me olhou de forma piedosa.
-Acredito, meu caro amigo, que o garoto se sentiria melhor.
O anjo olhou com desprezo para mim e voltou-se a seu mestre.
-O senhor tem que pensar no que é o melhor para o mundo e não para uma simples criança
Aeon parecia me odiar sem motivo aparente.
Melchior tornou a falar.
-Receio, Aeon, que o melhor para o pugilem. — Melchior refletiu um pouco e percebi que a cada palavra dita por ele era um esforço enorme.
-Não, pugilem não, Receio que o que seja melhor para Leoni, seja também o melhor para o mundo. -Melchior falou depois de uma significativa pausa.
Aeon olhou para o velho com uma leve impaciência e disse enquanto saia pela porta ao final do salão:
-Como quiser, milorde...
Melchior me encarou por alguns segundos e disse:
-Vamos continuar de onde paramos. — Após dizer isso, ele fez um circulo no ar com a mão do braço esquerdo e senti um peso extra em minhas mãos, ao olhar para elas vi o motivo do "crac", uma densa manopla de prata se formou ao redor de minha mão e uma leve sensação de poder percorreu meu corpo, junto com um sorriso.
Passado alguns segundos, meu sorriso se transformou em preocupação e então em pavor. Como um relâmpago, o desespero tomou conta de mim, me ajoelhei e comecei a chorar, lagrimas caiam aos montes e momentos que não passei, momentos que não vivi e toda a desfeita que fiz a ela, todas as brigas, todas as gritarias mas não apenas isso como também todo o apoio que me deu e todas as vezes que esteve ao meu lado. Senti uma pontada no peito, ouvi um soluço e percebi que estava gritando a dor percorria meu intimo como uma serpenta, estava ficando insano. Ergui meus punhos com a pesada manopla e comecei a desferir golpes atrás de golpes no chão, gritando com toda a força dos meus pulmões, tentando expulsar a dor a cada soco lançado contra o chão, mesmo assim, após longos e dolorosos minutos, notei que infelizmente a dor não ia sumir nem se socasse até o nascer do sol.
Melchior, que se manteve quieto até então pigarreou e murmurou “Venha” em uma voz extremamente exausta, como se tivesse lutado a maior das maiores batalhas.
Continuei estático no chão, encostei a palma de minha mão contra meu rosto, abafando as lagrimas que queimavam minha alma como a pior das chamas, no pior dos incêndios.
Minutos se transformaram em horas e adormeci em um transe, desejando estar
novamente em casa, mas "casa" não mais existia e a única pessoa que me acolheria foi partida ao meio.
Passos... O mundo girava e eu vi a figura de Melchior. Passos... Uma luz forte e então uma vila surgiu, ela fedia a guerra, sangue e morte. Conseguia ver milhares de trilhas sangrentas, parecia uma cidade urbana totalmente destruída, com algumas casas gigantescas , e para minha confusão, castelos e também estábulos. Fabricas se erguiam ao longo de toda a vila, soltando fumaça e fazendo um barulho infernal de metal indo contra metal. Homens, se é que posso chamar aquilo dessa forma caminhavam de um lado para o outro, caminhavam por toda a dependência da vila, alguns carregavam machados, outros espadas mas nenhum deles parecia gostar de um abraço. O mal estar veio imediatamente com a visão daqueles demônios, seus olhos lembravam muito a um abismo, totalmente negros e repulsivos, desencorajando até o mais sagaz dos homens. Um pedaço de pele acinzentado e liso cobria o nariz, ou melhor, aonde deveria estar o nariz. A boca se assemelhava tanto aos olhos quanto poderia, não havia lábios, apenas um buraco no qual centenas de dentes em um formato curvo saltavam para fora. Os braços eram coberto por cicatrizes e músculos, assim como todo o resto do corpo, sua pele era algo que lembrava um castanho vívido. Após essa aterrorizante visão, um nome ecoou pela minha mente “Abissais”.
Senti um calafrio e vi Melchior ao longe, contemplando os monstros com um cajado em sua mão e um olhar preocupado em sua face. Os monstros pareciam não enxergar a presença do velho ali, ou o ignoravam.
Fui caminhando de forma receosa até ele, ao chegar perto senti como se alguma coisa me empurrasse ao chão e tudo que pude fazer foi ser jogado contra o solo, com um baque.
Melchior percebendo a cena, olhou pra mim e disse:
-Perdão, não vi você ai, garoto. — A mesma voz exausta de antes.
Olhei para o cajado, cristais brilhavam por toda sua extensão e na ponta um grande globo azul parecia flutuar, emitindo uma aura hostil. Gravuras e algo que lembrava muito as runas que se via em jogos de RPG estavam plantadas ao chão, a mesma energia que me fazia querer recuar vinha também dessas "coisas".
Sem me dar tempo de fazer perguntas, Melchior se dirigiu a mim novamente
-Bem vindo a morada dos seres que mataram sua progenitora, os Vacers.
Melchior ergueu seu cajado e deu um sorriso, ouvi um estrondo e em seguida, sua voz.
-Ou o que restou deles.
Sua gargalhada ecoou por todo o local.
Ao olhar para a direção dos Abissais, milhões de espadas cruzavam os monstros, dilacerando-os, gritos de dor ecoavam por toda a região e Melchior fazia giros com seu cajado enquanto gargalhava, parecendo se divertir muito com a cena de monstros sendo dilacerados...
Por um momento, foquei minha atenção em um dos Abissais, ele era muito mais magro do que os outros, cabelos escuros, não muito alto e trajava uma armadura negra reluzente que cobria todo seu corpo, uma capa igualmente negra lhe caia sobre os ombros e o pouco de sua pele que ficava a mostra tinha a coloração muito parecida com a dos humanos, sua boca era normal e a única coisa que me fazia ter a certeza que o demônio fazia parte daquela escória era seus olhos que pareciam um grande abismo, e fiquei fascinado com o que veio a seguir.
O dito Abissal materializou uma espada extremamente longa e fina, com uma empunhadura negra e magnífica e foi aparando com perfeição todas as espadas que insistiam em chicotear em sua direção e em um piscar de olhos estava a cinco metros do "campo de força" que eu estava.
O "homem" sorriu e levantou sua mão esquerda, nas costas de sua mão estava o brasão, três coroas colocadas lado a lado enquanto uma espada negra atravessa a do meio.
Tudo na região que eu acreditava ser o campo que nos protegia, "derreteu" em uma cor que lembrava o negro que estava presente nos olhos desses monstros.
Olhei para Melchior, ele estava com uma expressão curiosa, como se isso tivesse superado suas expectativas mas não a ponto de coloca-lo em alerta.
O monstro começou a falar e me surpreendi com a delicadeza em sua voz:
-Olá, senhor Melchior, como tem passado? -o estranho mantinha um leve tom coloquial em sua fala, como se estivéssemos tomando chá em uma reunião de gente rica.
O velho de Astéria se pronunciou:
-Você não deveria estar cuidando de um lugar melhor, Mormon?
-De forma alguma, estou aonde deveria estar, mas... -o tal Mormon olhou em volta, chacoalhou sua espada e voltou a falar- parece que quem não deveria estar aqui é você, não?
Em um piscar de olhos dois outros Abissais parecidos com humanos surgiram, um extremamente alto, com um elmo em forma de cabeça de um dragão que tampava toda sua face, a mesma armadura que o homem que derreteu a barreira, porém sem a capa. Sua espada estava nas costas, uma espada de duas mãos tão negra quanto poderia ser.
A segunda, uma mulher, cabelos morenos até a cintura e os olhos negros característicos dos monstros, estatura média. Não consegui observar se estava trajando uma armadura, pois estava usando um grande sobretudo que cobria todo seu corpo, do pescoço aos pés.
Sua arma não esta visível, a mim pelo menos.
O homem alto se dirigiu a Melchior enquanto sacava sua espada:
-O que você e seu cachorrinho estão fazendo aqui?
Cachorrinho? Eu estava apavorado demais para falar algo, mas eu não era o cachorrinho desse velho maluco, nem dele e nem de ninguém.
Melchior simplesmente ignorou e então a mulher começou a falar:
-Você vem até nosso reino, você mata as pessoas que aqui moram e ainda se dá ao luxo de permanecer aqui cercado por três Vacers?! Velho tolo, você não vai sair daqui tão facilmente quanto entrou!
Melchior deu uma longa gargalhada e disse de forma como quem não dava a mínima pra tudo isso.
-Pessoas? Vocês chamam a si mesmos de pessoas?!
Ouvindo isso, o grandalhão investiu contra Melchior e então o som de aço contra aço surgiu.
Aeon estava a frente de seu mestre, digladiando com o cara grande, usando a espada brilhante que já havia visto anteriormente.
O homem de nome Mormon se adiantou e investiu também contra Aeon enquanto vociferava:
-Dois contra dois me parece mais justo, se me permitem.
A longa e fina espada de Mormon chegou a tempo de ser aparada por Aeon, que assim que viu o homem investindo contra ele desviou o golpe do cara grande para o lado.
Aquele maldito aço cantava uma melodia sinistra, uma melodia de morte.
A mulher se sentou e murmurou:
-Mesmo sendo os lixos que são, três contra dois mancharia minha honra de guerreira...
Então ouvi de algum lugar que não pude identificar qual era uma voz, tudo parecia ter se silenciado para a dita voz se pronunciar, o aço que cantava parou sua melodia, o gemido de dor de Mormon que foi perfurado no ombro pela espada de Aeon e até mesmo as gargalhadas de Melchior cessaram.
-Eles não estão apenas com dois, Talita.
Um homem de minha altura, cabelos castanhos até os ombros e uma aparência de ter por volta de seus 40 anos, e diferente dos outros três, esse homem tinha toda sua feição idêntica a de um humano normal, exceto por uma sensação de que aquele ser em si era o abismo refletido nos olhos dos monstros.
O ser trajava um terno totalmente preto com o brasão dos Vacers em seu peito, calças sociais assim como os sapatos. Aparentemente esse homem não carregava uma arma.
Percebi que enquanto as palavras iam saindo da boca dele, seu olhar percorria por todo o perímetro, parando em mim.
Após todos os Vacers perceberem que o homem tinha chegado, eles se retiraram rapidamente da batalha e fizeram uma reverencia a ele.
Mormon começou a falar:
-Lorde Balthazar, perdoe-me por todo este rebuliço, meu senhor.
Balthazar olhou de uma forma bondosa para Mormon e passou a mão sobre seu ombro e imediatamente o ferimento que a espada de Aeon havia causado desapareceu.
-Você...
O dito lorde apontou para Aeon e vi uma espada negra idêntica a espada do brasão surgir.
Em um movimento leve, no qual o homem parecia deslizar sobre o chão, ele desferiu um golpe no exato local aonde estava ferido em Mormon, abrindo um extenso corte no ombro do anjo.
Melchior ergueu seu cajado e vi a espada de Balthazar ser apontada para mim enquanto ele pronunciava algumas palavras.
-Que tal se eu cortar o pescoço do seu querido amiguinho, Melchior?
Vi o desespero na face do velho e demorei segundos para perceber que lorde Baltazhar estava falando do meu pescoço.
Não tive tempo de ficar desesperado, Melchior em um instante estava ao meu lado vociferando palavras na língua que eu não conhecia enquanto tudo girava e a ultima coisa que pude lembrar foi do sorriso que o homem para qual os Vacers prestavam reverencias me deu, senti o abismo me engolindo.
Estava de volta em Astéria.
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