A roda de histórias da Cigana Escarlate
3 Revoada de Corvos
Notas iniciais
Em tempos passados, quando o clero reinava com mãos de aço, haviam aqueles com poder para ditar as regras, e por consequência; aqueles que eram fracos e obrigados a segui-las. E também haviam aqueles que se rebelavam contra os fortes para ser quem eram, e sofriam demasiado por isso caso descobertos. Em cada época, cada século, sempre há algo mal visto pelos homens. Algo que é visto por olhos cegados pela ignorância e pelo ódio. Nessa época a bruxaria era mal vista, era tida como algo profano, errado e diferente. No entanto haviam pessoas que possuíam a coragem e a força pra praticá-la. Essas pessoas eram os verdadeiros feiticeiros.
Seren não temia a igreja ou a morte, pois sabia que Grande Mãe a protegeria de todo o mal. A jovem feiticeira possuía cabelos ruivos alaranjados como o pôr-do-sol, olhos vívidos da cor de safiras e um temperamento gentil e doce como a chuva-de-prata. No local onde residia curava enfermos e feridos e deixava que as pessoas lhe pagassem com o que possuíssem. Independente do que fosse; um pouco de trigo, uma galinha ou até flores, Seren aceitava como pagamento e sorria com franqueza. Sorria pelo pão em sua mesa, sorria por ver uma criança respirar normalmente devido à sua ajuda. Bastava isso para alegrar seu dia. Sorria também por que aguardava pelo dia em que seu amado viesse ao seu encontro. Mas ela temia esse dia, pois sabia que com a chegada dele poderia sofrer outra vez. Séculos se passaram à sua procura, mas os deuses haviam lhe alertado; um perigo o acompanhava. Algo que nem ela poderia prever.
Eles vieram com o entardecer. A carruagem seguia imponente pela estrada de terra. O cocheiro avisou aos ocupantes que fariam uma pausa e os criados comprariam mantimentos para a longa viajem. Naquele exato momento, lanternas eram acesas, mercadorias e especiarias eram exibidas nas barracas como se fossem joias e um cheiro delicioso começava a emergir no ar primaveril. Curioso com o local de aparência amigável, o jovem nobre decidiu descer do veículo e caminhar um pouco pelo pitoresco vilarejo, talvez comprar algum livro ou provar um alimento desconhecido, pensou. Sua irmã mais jovem o acompanhava. Ambos tinham olhos âmbar e cabelos claros. Paradis beirava seus 18 anos, e a pedido da irmã mais jovem estava em viajem para visitar a capital do reino. Ange era uma mulher feita. E apesar de gentil, sentia ciúmes excessivos do irmão mais velho, bastasse que qualquer moça viesse lhe dirigir palavra para que a jovem dama sentisse um ódio ardente dentro de si. E foi exatamente esse ódio que sentiu ao ver aquela singela troca de olhares.
Paradis olhou de soslaio apenar por olhar, não evitando uma expressão de surpresa ao notar a jovem que lhe sorria. Para ele era como ter tido um vislumbre do rosto de um anjo. Teve a impressão de ter visto o brilho das estrelas em seus olhos. Decidiu dizer algo para aquela mulher tão singular, mas fora interrompido bruscamente por sua irmã que lhe puxara o colete, lhe indicando um corvo negro pousado sobre o chapéu de um comerciante. Os poucos segundos focado no local onde lhe era apontado foi suficiente para que Seren sumisse dali. Abismado, o jovem nobre continuava a caminhar com a irmã, olhando em todas as direções possíveis, imaginando que a moça estaria sorrindo para ele de algum lugar. E a mais jovem ao seu lado, sempre que imaginava vê-la fazia seu irmão olhar para o lado contrário. Decepcionado e quase desistindo da busca, notou que havia uma pequena aglomeração na praça principal. E com razão, havia música, o tamborim emanava passos de guerra, a flauta doce parecia soprar harmoniosa com o vento e a harpa parecia que tinha vida e cantava. As pessoas dançavam uma espécie de quadrilha, divididos em pares. Os irmãos aguardaram pela próxima música para poderem participar, quando o momento veio entraram na roda. Houve um ponto no meio do coral de instrumentos em que os casais trocaram de pares. E foi nesse momento que seus olhos se encontraram pela segunda vez. No instante em que seus dedos se entrelaçaram Paradis sentiu uma sensação que lhe era familiar e maravilhosa ao mesmo tempo. Não soube explicar, mas sentia como se um arrepio confortável lhe percorresse o corpo; como se finalmente tivesse recuperado algo perdido.
Paradis pensou que a visita à capital poderia esperar algumas semanas.
Seus dias se passaram, eram alegres e tenros como a jovem que o acompanhava. Durante o dia Seren lhe levava em meio aos bosques, onde eles passavam toda a manhã e tarde. Ela lhe contava histórias, lhe presenteava com canções e beijos doces como o mel. Durante a noite dançavam em meio à música do mercado e se amavam pelo resto dela até adormecerem. Em meio aos lençóis suas respirações também dançavam. No entanto, esses dias não foram eternos. A cada dia que se passava Ange passava cada vez menos tempo com o irmão e mais tempo com o povo que ali vivia. E com isso seu ódio pela mulher que havia lhe roubado o precioso parente crescia cada vez mais. Até que chegou o dia, a moça ouvira por acidente um ensaio da declaração que ele faria àquela mulher; queria levá-la consigo e se casar com ela. Tomada pelos ciúmes e pelo ódio pensou na forma mais perversa de se livrar de Seren.
Não tardou muito desde o envio daquela carta, os inquisidores chegaram
Houveram boatos de que uma bruxa estava se apossando do coração de um rapaz
Provas foram encontradas, e uma imensa fogueira foi erguida na praça principal
A maioria que um dia fora tratada, medicada ou curada pela jovem feiticeira apedrejou-a enquanto era levada ao seu destino. Imaginaram, talvez, que haviam sofrido algum tipo de maldição; tal como uma condenação. Aquele povo antes com amor, olhava para Seren com uma amargura tão profunda que chegava a penar. Pesava em seus ombros como uma cruz. Cortaram seus cabelos, acoitaram-lhe as costas, magoaram seus ouvidos com palavras de rancor que não deveriam existir. Para finalmente lhe darem o verdadeiro castigo. Enquanto as chamas lhe queimavam a pele e o que restou de seus cabelos arruivados ela buscou por Paradis na plateia. Quando o encontrou, sorriu para ele. Sussurrou um eu te amo fraco e se tornou cinzas. Nesse momento, a multidão calou-se de espanto e horror ao vislumbrar a revoada de corvos em que as cinzas se tornaram. Ela voou para longe dali, até sumir no horizonte. As chamas da fogueira se apagaram bruscamente e o céu azul tornou-se tempestuoso. Uma forte chuva começou a banhar amargamente os espectadores, o céu parecia chorar.
Enquanto as pessoas corriam por abrigo o jovem Paradis permanecia no mesmo local. Estava absurdamente confuso, o ódio em seu coração deu lugar a duvida. Uma única pergunta rondava sua cabeça.
O que eu fiz?
Ele perguntou às nuvens
Tudo o que as nuvens fizeram foi trovoar em resposta
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