A roda de histórias da Cigana Escarlate
6 O Sátiro e a Dríade
Notas iniciais
As guerras líricas ocorreram por conta de um único homem, que tinha poder para fazer tudo o que quisesse. Menos o certo. Na época dourada não havia discriminações ou preconceitos, havia paz, até o dia em que nosso povo começou a construir a hierarquia que possuímos hoje. Poder em mãos erradas pode causar desordem, inimizades e, sobretudo, a dor. E quando isso aconteceu podem ter certeza que o resultado não foi dos mais agradáveis, nosso reino já havia sido estruturado. Graças aos elfos e outras criaturas amigas que traziam os mais diversos conhecimentos para aqueles antes de nós. O Estado venerava o Deus Sol, único e onipotente, apesar da discordância de divindades entre os povos nunca havia sido um problema. Até a ascensão daquele homem. Teros, o primeiro de seu nome, fora eleito como representante do Grande Sol. Foi quando tudo começou.
A história e os registros foram apagados, não há provas materiais, mas há o conhecimento daqueles que lá estavam e passaram essa informação para suas crianças. Devo enfatizar; essas informações não foram obtidas aqui, e não devem circular livremente como o vento. Caso contrário, estaremos em sérios problemas, os tempos em que vivemos são perigosos meus amigos. Precaução nunca é demais. Bem, o que sabemos é que a podridão de nosso mundo nasceu com os leões. A casa Leoni fora uma das primeiras fundadas e são muitos os segredos que até hoje ocultam por baixo de cadáveres descuidados. Tudo havia sido planejado, desde a nomeação “divina” de Teros às mortes que ocorreram depois. Dizendo-se interprete de Deus ele passou a alienar toda a população das cidadelas e assim executar seu plano; a expulsão e a extinção dos povos não humanos. A Cabeça do Leão sabia que se estes interferissem sua farsa seria descoberta, então foi dito aos inocentes que aquelas criaturas eram demônios que planejavam destruir suas almas e corromper suas mulheres. Os humanos que não cultuavam o Sol também sofreram. Seus Deuses foram blasfemados e insultados, e então os povos começaram a ser perseguidos. Os elfos rumaram para o grande oceano, levando com ele todo o conhecimento e magia que antes haviam sido compartilhados. As cidades começaram a perecer e cada vez mais o povo era manipulado, transformado, hipnotizado por mentiras vãs e tolas assim como aquele que as pregava. Um ódio sem fim contra as criaturas mágicas ardia, fossem nas batalhas, fossem na chama de suas tochas obscuras pela ignorância. Então começaram as guerras líricas, dizem que esse nome foi dado por que graças aos avisos de Deus, o eu lírico das mensagens divinas, uma grande tragédia foi evitada. Isto é mentira! Farsa das mais tolas! Foram nomeadas de Guerras líricas por que quando os sacerdotes pregavam atrocidades para o povo as liras eram tocadas como se cantassem uma espécie de feitiço sombrio para manipular a mente e o coração daqueles que ali estavam! Devido ao encantamento sombrio das liras feitas que a guerra surgiu, e os povos arderam, sofreram. Todos os nossos aliados perderam a credibilidade em nossa espécie, julgaram nosso povo fraco e inútil. Diziam entre si, “Que raça tola é esta, que acredita cegamente sem questionar nos ensinamentos de um mentiroso?”. E por séculos e até hoje somos chamados assim, a raça tola.
Chegou a um ponto dos conflitos onde os próprios humanos começaram a digladiar entre si, por causa da fome, da doença e da guerra. Foi nesse momento que aqueles que sobreviveram, cansados de uma batalha perdida viraram as costas para o povo humano e nunca mais foram vistos. Muitos deles estão ocultos nas matas mais densas e nos bosques mais profundos, muitas florestas queimadas e suas dríades morreram agonizando em meio às chamas. E em um desses lugares em meio à confusão, num lugar afastado havia numa planície, uma única árvore de pé, à beira de um lago. Era o tipo de local onde a maior vontade era deitar-se ali em meio à grama verde e macia e ler um livro, ou simplesmente dormir, esquecendo assim problemas e empecilhos. Ventos frescos e suaves e um céu azul calmo como um sonho. Era nesse local que residia uma das dríades, espírito da sorveira, restantes. Havia resistido bravamente às chamas e sua aura mantinha aquele local vivo. Não possuía nome ou família, mas um dia possuíra amigos, amigos levados pela brasa e pela destruição. No entanto, esta lutava todos os dias para manter-se viva, manter-se alegre e assim manter sua esperança. A sorveira não iria se entregar à morte tão fácil, pois sua determinação era tão grande quanto sua bondade. Iria permanecer firme até o final, quando homens passavam escondia sua presença e se embrenhava em meios aos ramos folhosos para ocultar também a si. Sempre era uma experiência preocupante, mas de fácil execução. Passava seus dias cantando e dançando com o vento, e eles terminariam em paz se não fosse pelo sátiro.
Num amanhecer quente uma mancha amarronzada surgiu no horizonte, vinha caminhando em passos vacilantes. Arrastava seus cascos no chão com pesar, sangue seco misturado a suor e lama tornava sua barba espessa e áspera. Ferimentos castigavam seu corpo robusto emagrecido pela fome e luto gritava no seu olhar escurecido pelo cansaço. “Venha aqui” A ninfa gritava, “Me deixe ajuda-lo” correu em sua direção. Ao alcançar o fauno à sua frente um golpe foi desferido em sua face, tinha medo, tinha raiva, tinha pesar, tinha desespero, tinha tudo. A dríade, arremessada sobre a grama, ignorou a dor em seus lábios avermelhados e correu a tempo de amparar a figura encardida que sucumbia à exaustão de seu corpo. Com custo levou-o às margens da lagoa e lavou sua sujeira, tratou seus ferimentos conforme lhe era possível e deu-lhe de beber. Dia após dia, contra seus protestos e insultos a jovem cuidava do visitante. Mesmo indo de encontro às injúrias, maus tratos e safanões ela cuidava dele. Até o dia em que conseguia falar normalmente e andar sem apoio. “Por que luta tanto para cuidar de mim?” Perguntava irritado “Não vê que não quero sua ajuda?” nessas ocasiões ela se limitava a sorrir para ele e encarar o horizonte. Eles permaneciam um longo tempo assim, em silêncio e remoendo o passado. Houve um dia que ao despertar, deu por falta de seu amigo, e pela primeira vez em muito tempo chorou. Sentia sua cabeça transbordando de emoções; raiva, tristeza, medo, aflição e principalmente, solidão. Ela era seu maior inimigo, desabou sobre a relva contraindo seu peito. Tinha a impressão que pouco a pouco seu coração rachava, se partindo em vários pedaços que iam pouco a pouco caindo sobre o chão inundado por suas lágrimas. Sem que nada pudesse fazer soltou frases e frases aos tropeços como se a desgraça pousasse um véu negro sobre sua cabeça. Tudo desabou sobre si; o ódio dos humanos, a morte de seu povo, a perda de suas irmãs e daqueles que conhecia. A solidão lhe consumindo assim como o desespero, nunca poderia abandonar aquela árvore à qual sua alma estava agarrada. Tinha medo de partir e encontrar algo pior em seu caminho. Por causa disso nunca havia saído da planície, e quando a figura rabugenta apareceu precisando de cuidados uma imensa alegria brotou em seu coração; precisava tanto de um amigo!
Por esses motivos e outros que quando o sátiro surgiu em meio ás árvores próximas da planície ela correu desesperada ao seu encontro. Os dois rolaram sobre a relva e a jovem sorveira agarrou-se ao seu pescoço e chorou como uma criança. Rogou-lhe que não a abandonasse. Com a mão pousada sobre as costas da moça ele permaneceu estático até o momento que seu pranto começou a cessar e a autora deste desabou por causa do sono e do colapso de sua mente. Nesse momento pôde-se ouvir ao longe o som de uma trombeta de guerra, desesperado e com o delicado fardo nos braços o fauno correu e escalou a árvore à beira do lago ocultando-se em meio aos ramos folhosos. Manteve-se ali, em silêncio, não sabia se tinham sido vistos ou ouvidos. Atento a tudo não conseguiu identificar nada na sua linha de visão que fosse humano. Conseguia ouvir o som de combate sendo travado ao longe e começou a suar frio. Encarou o rosto adormecido e tristonho de quem ele protegia, então notou uma coisa; ela era importante! Aquela em seus braços lhe era querida e estimada, mas então uma onda de amargura lhe invadiu. Não queria passar por aquilo outra vez, não queria nunca mais ter aquela sensação. Durante muito tempo em meio aos galhos ele debatia internamente se não deveria larga-la ali e seguir seu caminho. Não queria de forma alguma se apegar, não queria criar laços e sofrer mais uma vez. “Vamos lá!” pensava “Apenas jogue-a daqui de cima, deixe que morra. Os homens vão querer leva-la para a capital e usá-la, não vai ser mais problema seu.” Porém uma segunda voz surgia em sua mente “Mas eu não quero que a levem, não quero que ela chore outra vez” E durante muito tempo ele debateu essa questão, com o rosto dela em prantos lhe vindo à mente muitas e muitas vezes.
O sol estava se pondo quando tudo se aquietou naquele local. A dríade despertou enquanto era recostada ao pé de sua árvore, olhou surpresa para a face perturbada que lhe encarava. Este retornou a expressão emburrada de sempre e lhe mostrou uma flauta de madeira clara, naquele momento apenas, ela notou as mãos calejadas e ainda com algumas farpas. “Foi por causa disto que eu havia saído esta manhã” Ela não pôde conter um sorriso choroso, ficaram ali, apreciando as estrelas enquanto a flauta soprava gentil e os dedos habilidosos de quem a tocava corriam pela sua extensão. Os dias foram passando e a amizade dos dois se tornava mais forte. Muitas vezes o fauno ia para a floresta com o amanhecer, quando o sol estava alto no céu ele retornava com flores e outros presentes. Juntos criavam formas de passar o tempo e se divertiram muito com todas elas, fossem jogos de adivinhação, corrida ou a criação de histórias e canções. Um dia quando o sol estava alto no céu ele não voltou, havia sofrido uma emboscada de um pequeno grupo humano e recebeu um golpe em sua cabeça. Quando recobrou sua consciência, os homens haviam desaparecido, todos eles. Estava confuso e tinha a boca seca, olhou ao redor tentando se situar, no momento em que isso ocorreu o rosto sorridente da amiga apareceu em seus pensamentos. Ele precisava voltar, tinha que voltar, enquanto ignorava a tontura e a fome tentava vagamente se lembrar do caminho percorrido. Foram necessárias algumas horas pra encontrar o caminho em meio à escuridão, o fauno não sabia, mas permaneceu inconsciente por muitos e muitos dias.
Quando finalmente conseguiu retornar à planície a dríade não estava mais lá.
Sentou-se sobre o tronco tombado da sorveira com a mesma sensação que nunca mais queria sentir. “Aconteceu de novo” Pensava “É minha culpa”. Mas eis que uma seiva brilhante e verde claro começa a escorrer do tronco seco, formou um disco transparente e brilhante. Ao tocá-lo com a ponta dos dedos ele percebeu o que era aquele cristal; era a alma da dríade. Levantou-se e caminhou na direção do sol levando o pequeno objeto consigo. “Meu querido amigo, se um dia o infortúnio chegar a mim, quero que saiba que pode ter esperanças. Se minha árvore não for queimada após minha morte ela irá produzir uma semente. Plante a semente, e quando ela germinar eu retornarei! Viva, sorridente, forte!” Sorriu lembrando-se daquelas palavras e dando continuidade a sua caminhada, enquanto isso pensava consigo “Há de chegar a época dourada outra vez”. Um dia quem sabe? Dizem que ele está vivo até hoje, apenas buscando por um lugar com paz o suficiente para poder trazer sua amiga de volta. Francamente falando; eu não sei o final dessa história, mas para mim esse lugar que o sátiro buscava já foi encontrado.

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