A resistência
2 Piloto e assassino: o início da equpe.
Marc bicou sua xícara de chá e saboreou o sabor da camomila. Seu anfitrião fez o mesmo, e após, assentou a xícara sobre o pires e colocou sobre a mesa.
– Será que posso escutar sua proposta agora, Sr. Brasseur?
– Por favor, Rory, me chame apenas de Marc – degustou mais um pouco do chá, e voltou a falar – durante os últimos meses nós temos tido relatos de atos terroristas de baixo escalão acontecendo em todo o país, você sabe, não é?
– Sim, estou sabendo... O que tenho a ver com isso?
– Desde as primeiras notícias de terrorismo, eu já enxergava o que estava para acontecer. Quando era chefe de investigações da ITCP, trabalhei em uma missão de espionagem a terroristas islâmicos. Eles estavam desenvolvendo uma arma nuclear orgânica. Era um vírus que seria espalhado através de bombas pela Europa e América do norte. Esse vírus é na verdade uma doença que consome o corpo da pessoa infectada em minutos...
– Onde quer chegar, Marc?
– Essa bomba, se for concluída, irá destruir todo o nosso continente, Rory. E nesse momento, são poucos os países europeus que não estão sofrendo com repressões terroristas. Os Estados Unidos estão livres, e estão investigando, mas não podemos depender somente deles.
– Isso é besteira, cara. Não quero me envolver, acabei de cumprir minha pena honestamente.
– Escute, Rory! Não estamos seguros, o exército francês está sob ordens de se manter passivo. A situação está boa para agir enquanto a população não se arma contra o exército e terroristas. Uma guerra civil é eminente.
– E o que eu ganharia colocando meu pescoço na frente?
– Tenho bons meios de pagar pelos seus serviços. E você ainda estará agindo em defesa de um bem maior.
Rory coçou os curtos cabelos negros. Era um homem branco e não muito velho, de olhos da mesma cor do cabelo. Não era muito alto, mas compensava com músculos bem definidos. Possuía uma cicatriz que atravessava toda a maçã da bochecha direita, cicatriz essa que adquiriu ainda em La Santé.
– Eu realmente estou precisando de grana, cara.
– Muito bem, o trabalho é perigoso, deixo você ciente logo. Preciso de você para ser o líder da minha equipe.
– Por que o líder? Não sou bom em liderar pessoas, eu apenas as obrigo a fazer a força.
– Você se sairá bem. Está dentro ou não?
Rory suspirou.
– Parece que não tenho muita escolha. Não é tão fácil um cara como eu conseguir emprego.
– Essa é sua chance, como disse, você se sairá bem. Agora preciso que você saiba de algumas coisas: você liderará a equipe, mas acatará meus comandos; a equipe não será só você, então cuide para que não haja mortes desnecessárias, afinal, seremos companheiros; e por fim, seu pagamento, e do resto do time será efetuado por missão bem sucedida.
– Duas dúvidas, Marc. Já que tocou no assunto, como ficará o pagamento?
– Você, por ser o com maior responsabilidade, receberá 10 mil euros a cada missão.
O homem se ajeitou na cadeira.
– E de quantas missões estamos falando?
– De quantas forem necessárias. E sua outra dúvida?
– Bem, você está falando em “equipe” desde que chegou aqui. Quem mais estará nesse esquema?
– Você os conhecerá aos poucos. No momento, nem mesmo eles sabem que foram selecionados. São pessoas talentosas de todo o mundo, que acompanhei durante semanas.
– Não sabem que foram selecionados? Você acha mesmo que isso dará certo?
– Acho, alguns deles estão na mesma situação que você, Rory.
– Tudo bem... Por onde começamos?
– O primeiro da lista eu avaliei de perto – retirou um papel dobrado do bolso de sua camisa e colocou sobre a mesa – procure-o o quanto antes.
Rory analisou o endereço e nome no papel durante alguns segundos.
– Se ele é de Paris, porque você mesmo não o procura?
– Você falará com ele, Rory, sem mais. Vamos, estou partindo de volta para Paris agora.
Retornaram para Paris ainda naquela noite, e logo ao chegar, Rory recordou-se dos maus momentos dentro de La Santé. Passaram pela prisão, àquela hora com pouca luz e adormecida, e o ex-detento pediu para apressarem-se.
Rory ficaria em um hotel, mas não quis dormir. Resolverei isso logo. Pensou ele, antes de sair do quarto e pegar um taxi até o endereço no papel.
Era uma casa comum, aparentemente de família. Rory tocou a campainha e aguardou. Repetiu o processo duas vezes, até uma senhora atende-lo.
– Boa noite, senhora, desculpe incomodá-la a essa hora. Mas aqui é a casa de Francis Savoye?
– Oh meu Deus. O que o Fran aprontou dessa vez?
– Nada de grave, eu sou um amigo dele apenas. Será que posso falar com ele?
– Ele não está, querido. A essa hora ele deve estar arriscando a vida naqueles rachas. Como eu queria que ele saísse dessa vida...
Rory virou as costas e deixou a senhora falando sozinha, mas sentiu-se mal e se virou para ela.
– Obrigado, vovó. Até mais.
E voltou a caminhar até a calçada. Sacou o celular e caminhou enquanto procurava um número na agenda.
– Sim, Rory?
– Fui até a casa do cara. Ele não está. Sabe alguma coisa sobre os rachas de carro que ele participa?
– Claro que sim. São algumas corridas clandestinas que acontecem de dois em dois dias próximo ao teatro de la Ville, às margens do rio Sena. Francis é um garoto loiro que dirige um Renault Clio branco.
Rory pegou um novo taxi e solicitou que ficasse no teatro de la Ville. Caminhou a margem do rio durante alguns minutos e avistou de longe alguns carros roncando o motor. Não identificou nenhum Renault Clio. Então se juntou ao monte de espectadores que estavam ali em volta dos carros e motoristas. Algum tempo depois, um carro com as descrições de Marc entrou na curva com um drift, e cruzou a bandeirada de duas belas mulheres que o aguardavam. Rory pôde ver de relance que o motorista batia com a descrição do chefe, mais uma vez. Aos poucos outros carros também chegaram ao local, derrotados por Francis.
O garoto desceu do carro e acenou para as pessoas, como se fossem seus fãs. Enquanto era rodeado por mais algumas formosas mulheres.
– Calma, calma. Tem Savoye pra todas vocês – disse ele, sorrindo, enquanto abraçava duas garotas.
– Ei camarada, preciso falar com você – disse Rory, que se meteu entre as muitas garotas ao redor de Francis e cutucou seu ombro.
– Parceiro, se quer um autógrafo, terá que aguardar. As gatinhas sempre vêm primeiro.
Rory respirou fundo. Idiota, terá de ser do jeito doloroso.
– Olha amigão... – no exato momento que Francis virou o rosto para olhar, Rory acertou-o em cheio com um soco que certamente quebrara seu nariz.
– Seu maluco – gritou o garoto, enquanto as garotas se afastavam dele e de Rory, e os outros motoristas olhavam apreensivos.
– Eu disse: “preciso falar com você.” – Rory levantou Francis, que até então ainda estava caído no chão e o empurrou para dentro de seu carro, onde entrou logo em seguida, no banco do motorista e partiu em disparada.
– Para onde você está me levando, cara? Eu te dou o autógrafo, dou até meu dinheiro, mas não me mate, por favor.
– Não tenho a mínima intenção de te matar, nem de pegar seu dinheiro. Só quero conversar.
– Você é algum amigo da minha avó? Se for cara, saiba que eu estou pra sair das ruas, só estou fazendo uma grana antes...
– Filho, cale a boca e me deixe falar. Não me interrompa novamente, ou eu corto sua língua.
Francis engoliu em seco. Seu olhar era de fraqueza, e Rory estava se perguntando por que Marc o escolheu. Mais parecia um garoto irresponsável e baderneiro do que alguém que tivesse alguma utilidade. Dirigiu e parou em uma área deserta, o que não era difícil encontrar, já que passava da meia-noite.
– Me desculpe pelo nariz, garoto. Meu nome é Rory Neggers.
O jovem o olhou ainda receoso.
– Não tenha medo, já falei que não farei nada contigo. Meu chefe quer contratá-lo para um serviço.
– E... Que serviço seria esse?
– Ele te explicará amanhã. Quero saber se você tentará fugir se eu deixa-lo ir pra casa.
– Juro que não, Sr. Neggers – disse Francis, com tom amedrontado.
– Ótimo, espero que não fuja mesmo. Meu chefe é ótimo em encontrar pessoas. E eu sou ótimo em eliminá-las.
Na manhã seguinte, Francis, agora com um curativo no nariz, recebeu a visita de Marc, como esperado. Ele o convidou para entrar e tomar o delicioso café de sua avó.
Marc degustou o sabor forte da bebida, enquanto explicava para Francis, tudo aquilo que já havia explicado para Rory no dia anterior. Francis apenas gesticulava a cabeça para cima e para baixo ao decorrer da explicação de Marc, e parecia bastante interessado no plano dele. Era jovem, e já havia servido a aeronáutica francesa durante alguns anos, mas sempre sonhou com mais emoção do que voos de demonstração e corridas clandestinas. Concordou com as exigências que lhe foram impostas, não tinha muito que dizer ou questionar, sabia que Marc não sairia de sua casa sem um “sim”. E ele o deu.
– Tudo bem, se é para um bem maior, eu ajudo na sua equipe, senhor. Mas se é uma equipe, precisa de um nome, não é mesmo?
– E já temos um, agente Savoye. Bem-vindo à resistência.
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