A represa
6 Até que a morte nos separe.
A morte, o maior e mais esperado medo de toda a espécie humana. Desde o dia que você nasce, cresce, estuda, trabalha, se aposenta e passa por todas as dificuldades e desafios que a vida lhe oferece, a morte é a temida.
Todos tem medo da morte, mas por quê? Por levar o sofrimento embora e trazer o alívio de não se preocupar mais com o amanhã, ela é culpada por trazer sofrimento aos vivos. Pequenos e indefesos vivos, cheios de sentimentos e preocupações.
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Era um domingo frio, eu estava atrás de meu pequeno prédio jogando meus cigarros na caçamba de lixo. Era difícil fazer aquilo, pois quando cheguei na cidade, achava que era meu único meio de continuar, mas precisava fazer aquilo. Seria ainda mais difícil se acostumar, mas em alguns dias ruins já valeria à pena.
Eram 9h da manhã e estava quase 3°c, era quase irritante aquele frio tão intenso congelando sua cara, o sol todos os dias começava a aparecer por volta do meio-dia, e por quê? Ninguém sabia. Estava claro mas também escuro. O sol atrás de milhões de nuvens como se nem estivesse lá.
Mas hoje era um dia bom, um dia tranquilo. Era aniversário de Amy. Eu tinha uma surpresa para ela, mas ela não gostava de presentes ou aniversário, bom, nem eu, mas mesmo assim, ela iria amar. Fui até a casa dela (embaixo do tapete tinha uma chave reserva) então entrei o mais silencioso possível. Ela ainda estava dormindo, me deitei ao lado dela e apenas fiquei a encarando. Ela parecia tão tranquila, sua franja caindo sobre seus olhos, nada de se preocupar em seus sonhos.
Sua vida não era particularmente difícil, seus pais quando saíram de seus problemas bancários, na verdade tinham feito um grande investimento e mandavam uma grande e gorda "mesada" para ela sendo que ela mora sozinha. Mas mesmo assim ela trabalhava. Era apenas 2 vezes por semana e pagava melhor que no mercadinho onde eu trabalhava. Ela era professora de artes na escola, ela dava aulas para crianças, ela não gosta de crianças mas diz que ela encontra paz em dar aula à eles.
Sua tranquilidade dormindo logo se transformou em um susto quando ela acordou e me viu deitado ao seu lado. Não pude conter uma risada e um grande grito:
—FELIZ ANIVERSÁRIOOOOOOO!!
Ela me encarou com sua cara esquisita pensativa. Poderia ser "que susto você me deu" ou "porra eu já falei que não gosto de surpresas" mas sua expressão mudou como se ela fosse gritar, mas se conteve, deu um pequeno sorriso e disse tão falsamente:
—Como você entrou aqui? Tipo essa é minha casa sabe? :) É bem estranho você entrar aqui, tipo, DO NADA!! SEU CARALHUDO QUE SUSTO DA PORRA EU JÁ FALEI QUE ODEIO SURPRESAS QUEM VOCÊ PENSA QUE É PRA ENTRAR NA MINHA CASA COMO SE JÁ FOSSE SUA, EU TAVA DORMINDO SEU MERDA...
Sua reação foi todas que pensei e mais um pouco. Eu simplesmente abri um sorriso enorme e fui concordando com ela enquanto ainda me xingava e abracei ela enquanto ela socava minhas costas porque eu estava prendendo ela em meu braços e comecei a rir e ela também, ela queria estar brava mas não conseguia e dizia:
—Não tem graça.
—Então para de rir.
—Eu não to rindo disso, eu to rindo de outra coisa.
—Que outra coisa?
—Vai se fuder.
—Que linda, acha que me ofende.
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—Se veste logo.
—E você vai ficar aqui me encarando até eu acordar e levar um susto e você me obrigar a sair de casa 9:30h da manhã de domingo ou vai sair pra eu poder me trocar?
—Realmente acho que nesse momento da minha vida minha necessidade de ver você se trocar supera qualquer outra coisa. — Eu digo rindo saindo do quarto, como se não fosse óbvio que eu ia sair do quarto.
Ela saiu usando muitas roupas, o que era normal, porque estava muito frio. Ela me olhou irritada e revirou os olhos:
—Onde você vai me levar?
—Surpresa.
—Você é muito irritante.
—Mas você vai AMAR.
—MAS QUE PORRA ME CONTA LOGO!
—Você tá falando muito palavrão hoje meu deus, a gente vai na igreja, feliz?Ta, mentira, ninguém suporta igreja.. Você já nadou na represa?
—Hm, não. Nunca pensei em nadar lá, sei lá tipo, é um rio, só que é uma represa, acho que nem pode nadar lá.
Abri um sorriso e dei as costas à ela. Fomos até a represa, as nuvens refletiam claramente nas águas, e encontrei o sol, não pude evitar e disse baixinho:
—Achei você.
—O quê?- Disse Amy como se eu tivesse falado com ela.
—Nada.
Bom, quando fez um "não" com a cabeça como se eu fosse louco e olhou para a represa tinha um barco. Um barco lindo, uma lancha para ser exato. Tinha um cara lá que ia dirigir e ela estava de costas para mim, mas eu sabia que sua boca estava aberta em um "O".
—Já pensou em ver o final dessa represa, pra onde ela vai? Dar uns mergulhos nela?
Seu movimento foi rápido e brusco, ela me abraçou tão forte que eu não sentia minhas costelas e minha respiração parou. Ela sussurrou um obrigada e senti seu sorriso em meu pescoço. Ela me soltou e saltou em direção a lancha e eu a segui. Ela parecia tão feliz.
Naquele momento senti algo que nunca pensei sentir de novo, e mesmo se sentisse, não poderia ser boa coisa, mas também não poderia ser pior que a da última vez.
Uma pontada em meu coração.
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