A redenção de Nathalie
2 Um rosto para a admiradora prejudicada
Notas iniciais
Os dias foram passando e a data do aniversário de Adrien estava bem distante, ao contrário do Natal, que se aproximava rápido demais para que Nathalie pensasse novamente em um novo presente do chefe para o filho. E, possivelmente, ela não teria novamente a sorte de um presente cair em seu colo.
− Seria engraçado se alguma menina entregasse aqui outro presente de bom gosto para o Adrien – pensou Nathalie, com um semi-sorriso no rosto. Mas logo deixou a diversão de lado, ao ouvir o chefe a chamando.
− Nathalie, eu autorizei Adrien a receber hoje um pequeno grupo de colegas da escola aqui. Certifique-se de que tenham algo para comer e uma sala livre de distrações, para que façam o trabalho escolar rapidamente e saiam o quanto antes. Eles não podem passar das 20h aqui. Mantenha Gorila avisado. Não quero gente correndo pela mansão, tampouco entrando em lugares que não lhes dizem respeito. Não quero sujeira, não quero barulho e principalmente, não quero ser incomodado em hipótese alguma!
− Sim, senhor Agreste – respondeu a assistente, partindo imediatamente para tomar as cabíveis providências.
Logo chegaram à mansão Adrien, Nino, Alya e Marinette. Entraram conversando animadamente, mas tão logo deram os primeiros passos para dentro da sala, diminuíram o volume de suas vozes. Nathalie foi ao encontro deles, para seguir as informações.
− Gente, acho que vocês já conhecem a Nathalie, assistente do meu pai. – Adrien faz as vezes de anfitrião.
− Boa tarde – cumprimentou a mulher, seriamente.
− Boa tarde – respondem os jovens, em conjunto.
− Nathalie, você conhece o Nino, mas não sei se lembra da Marinette e da Alya – apresentou Adrien, apontando para cada um. – Da Marinette você deve se lembrar do concurso do chapéu. Ela foi a vencedora! – concluiu o loiro.
Nathalie nem se esforçou em parecer simpática, mas olhou para Marinette e notou seu rosto fortemente ruborizado pela mera citação de Adrien. Ela olhava para o chão, tentando disfarçar o largo sorriso nos lábios, enquanto Alya a cutucava com o cotovelo e piscava para a amiga. E nada disso passou despercebido a assistente.
− Nós vamos lá para o meu quarto, fazer o trabalho de geografia. Meu pai deixou – Adrien apressou-se em informar para evitar mal entendido, como se ignorasse que Nathalie sabia de cada evento que ocorria na mansão e na sua vida.
− Claro. Mas seu pai ordenou que, ao invés do quarto, vocês usassem a sala de leitura, no térreo. Antes, porém, vocês farão um lanche na sala de jantar. Eu os acompanho.
− Eu preciso ir ao banheiro – disse Nino.
− E eu preciso pegar meu livro que esqueci no quarto. Venha, Nino, você usa o banheiro da minha suíte. – Adrien e Nino seguiram para o piso superior.
Marinette e Alya permaneceram no hall, aguardando. Nathalie se manteve próxima, mas distraída com as anotações nas planilhas intermináveis de seu tablete. Ainda assim, não pôde evitar ouvir a conversa sussurrada entre as duas meninas.
− Mari, para de babar, fecha a boca. Os meninos vão descer e estranhar sua cara de boba com esse quadro. – Alya empurrava o queixo da amiga, para fechar sua boca.
− Ai, Alya, olha que quadro lindo, com esse Adrien gigante! Dá vontade de arrancar e levar para meu quarto! Mesmo não cabendo em nenhuma das minhas paredes. – ria Marinette.
− Aff, você acha mesmo essa foto bonita? Dá pra ver claramente o tédio no rosto do Adrien.
− Não, Alya, essa expressão não é tédio. É tristeza. Dá até aperto no coração. Mas ele ainda assim está lindo!
− Amiga, você ainda vai ter um treco e morrer de amor – Alya ria e fingia abanar Marinette.
“Oh, então a menina é apaixonada por Adrien?” divertiu-se Nathalie com o pensamento. Enquanto ouvia, não pôde deixar de pensar em como era engraçada essa fase da adolescência. Os amigos confidentes, os amores aparentemente impossíveis, os dramas amenos aos quais os jovens reagem como se vivessem constantemente em “...E o tempo levou”. Ela já foi adolescente e passou por tudo isso. Viajava em lembranças, até ser acordada pelo diálogo revelador das meninas.
− Ele ficaria mais lindo ainda se estivesse com o cachecol que eu fiz – dizia Marinette com o olhar ainda vidrado na foto.
− É. O SEU cachecol. Até hoje não sei por que você não tirou essa história a limpo.
− Porque Adrien ficou feliz com o fato do presente ser de seu pai. E vê-lo feliz já me basta.
Nathalie se assustou com a revelação da verdadeira dona do presente que ela roubou em nome do patrão. Mirou as garotas, mas notou que não havia expressão de rancor em Marinette. E isso a fez sentir-se envergonhada, por lembrar o desvio do presente. E da dedicatória que foi parar amassada no lixo. A culpa lhe deu um nó na garganta.
− Só que eu não posso fazer as luvas e a touca para combinar. Seriam o presente de Natal, mas perdi o mote. Preciso pensar em algo. É minha chance de me aproximar do Adrien, com algo mais íntimo do que trabalho de geografia.
− Seja lá o que você vai fazer para o Natal, por favor, assina! Como o chapéu de penas. Já chega de cartões e presentes sem assinatura. E nada de post-it, porque essa coisa não gruda direito.
− Essa lição eu aprendi. – As duas amigas riram.
Agora, além da vergonha e da culpa, Nathalie também sentia certa pena de Marinette. Tirou da menina a possibilidade de fazer um pequeno agrado ao seu colega. Ela até imaginou a cena de Adrien a agradecendo, a abraçando e ela, obviamente, vermelha como uma joaninha. E ele gostou tanto do cachecol.
− Voltamos. Vamos comer? – Adrien falou descendo as escadas. – Er... Nathalie?
− Ah, sim... me acompanhem. – A assistente voltou de seus pensamentos e os guiou à sala de jantar.
Quando todos estavam alimentados e devidamente acomodados na sala de leitura, Nathalie voltou para sua mesa. Olhou para o bloco de post-it e sentiu um aperto no peito. Não conseguia parar de pensar no rosto sereno de Marinette, sem nenhum sinal de raiva, e nas palavras da garota: “vê-lo feliz já me basta”. Nathalie também queria ver Adrien feliz. E queria ver Gabriel feliz, ou pelo menos não bravo. Nathalie não teve nenhuma má intenção quando deu o presente de Marinette ao Adrien, creditando ao seu pai. Não o fez nem em benefício próprio. Por que então se sentia tão mal? Por que, depois de tanto tempo, agora seu estômago revirava sempre que as palavras de Alya ecoavam em sua mente? “O SEU cachecol!”.
E ainda estava perdida em pensamentos, quando ouviu uma doce voz chamando seu nome.
− Senhorita Nathalie. Oi. – Era Marinette.
− Menina, o senhor Agreste pediu que os convidados de Adrien não ficassem circulando pela mansão. – disse com rispidez − Eu fui bem clara em minhas orientações...
− Mas eu estou acompanhada do... do... – apontou para trás – não sei o nome. O Gorila ali.
− Ah! Sim. Desculpe. Mas o que você quer? Precisa de algo? – perguntou nitidamente constrangida, principalmente por ver que a garota não se ofendeu com seus modos e continuou sorrindo.
− Na verdade, nada. Mas meus pais têm uma padaria e eu trouxe para nosso lanche alguns croissants de chocolate. Como fomos recebidos com um banquete, acabou que sobraram alguns. Daí decidi oferece-los a senhorita. E ao Gorila.
− E estão uma delícia! – completou Gorila, fugindo ao protocolo do silêncio, com vasto sorriso que logo em seguida disfarçou. Se o Gorila abriu a boca, os croissants deveriam estar mesmo deliciosos. E estavam muito cheirosos.
− Er... ah... bem... o-obrigada! – Nathalie não sabia nem reagir àquela gentileza. Apenas esticou a mão e pegou o prato com o croissant. – Por favor, encaminhe a senhorita Marinette novamente ao grupo, Gorila.
Desconcertada. Parecia que estava se quebrando em pedacinhos. Nathalie estava tão, mas tão sem graça, que nem conseguiu permanecer em sua mesa. Correu para o banheiro, pegou uma toalha e abafou um urro que tanto queria libertar. Precisava tirar do peito aquele aperto.
− A menina ainda é gentil! É uma gracinha! Como eu pude fazer isso com ela? Ai, o que eu fiz? – dizia ainda com a toalha apertada contra a boca. Andava de um lado para o outro no recinto, se corroendo de culpa. Mas não podia ficar o resto da vida no banheiro, então se recompôs, recolocou a toalha no apoio, arrumou o cabelo e voltou ao seu posto com a mesma cara de estátua de sempre.
As horas foram passando e pouco antes das 20h Adrien apareceu seguido de seus amigos.
− Nathalie, terminamos. Será que o Gorila pode levar meus amigos em casa?
− Claro, Adrien – respondeu a mulher sem arriscar levar o olhar à Marinette.
− E será que... eu poderia ir acompanhando?
− Creio que seu pai não aprovaria a ideia. No mais, Gorila precisa aproveitar a viagem e fazer um trabalho para mim. Vai demorar a retornar.
− Ah, ok. Então tchau, galera. Vou ficar.
− Tem problema não. A gente se vê amanhã. – Nino cumprimentou o amigo.
− Adrien, por favor, acompanhe seus amigos até a porta. Preciso passar instruções ao motorista.
Nathalie puxou o Gorila de lado:
− Gorila, deixe por último a menina Marinette e compre pra gente mais alguns daqueles croissants de chocolate. – sussurrou.
− Oba! – o grande homem não escondeu a satisfação.
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