A redenção de Nathalie

4 Final (e mais um presente roubado)


Notas iniciais
Ontem não pude postar, mas segue aí a conclusão da história de Marinette e sua sina de perder presentes para os outros.

Marinette recebeu uma ligação de Nathalie, solicitando sua presença na mansão dos Agrestes. Não deu mais detalhes, apenas combinou o horário que a limusine a buscaria. Mas só de saber que ela seria recebida pessoalmente por Gabriel Agreste, a menina já ficou ansiosa, por não saber do que se tratava e por saber da fama de mal-humorado do estilista. Se ela mal conseguia falar com Adrien sem engasgar e gaguejar, como conseguiria se comportar na frente de seu pai famoso e carrancudo?

A limusine estava na frente da padaria na hora marcada. Quando Marinette entrou, Nathalie estava a sua espera. Ficaram em silêncio por alguns minutos e, para relaxar, a garota começou a puxar assunto.

− Senhorita Nathalie, a senhora já deu o colete de presente?

− Er... sim...

− E a pessoa gostou?

− Adorou! Mas houve um mal entendido e ele não compreendeu de quem foi o presente.

− Ah... sei bem como é isso. Já aconteceu comigo!

Marinette sorriu sem graça. Seria trágico, se não fosse cômico. Já Nathalie engoliu seco. E o silêncio imperou novamente, até que chegaram à mansão e seguiram para o escritório de Gabriel.

Nathalie anunciou a chegada da visitante e a encaminhou para o encontro. Marinette não continha o nervosismo.

− Boa tarde, senhor Agreste.

− Boa tarde, Marinette. Entre, sente-se. Nathalie, por favor, fique. – As duas sentiram gelar.

− O senhor queria me ver.

− Eu vi seu colete.

− V-v-viu? – Por essa Marinette não esperava.

− Sim, meu filho o recebeu. Aproveito para agradecer por ele o seu presente.

Marinette olhou para Nathalie, que lhe sorriu e piscou um olho. Imediatamente a menina entendeu: Nathalie fez com que o colete passasse por seu presente para Adrien. Mas a troco de quê?

− Eu achei a costura de boa qualidade. Detalhes bem caprichados. Produto de muito bom gosto. Pude ver Adrien o vestindo. O caimento ficou perf... muito bom mesmo! – Mesmo elogiando, Gabriel mantinha a feição afetada.

− Ob-obrigada, senhor. O fiz lindo como o Adrien... Não! Quer dizer... fiz pensando no Adrien. Quer dizer, fiz inspirada nele... inspirada nas fotos dele, nas suas roupas nele... como se fosse pra ele... ai... – Marinette se atrapalhava, pensando que seria melhor nem ter começado a falar.

Gabriel girou a cadeira e virou-se de costas para a menina ruborizada, para disfarçar o riso. Nathalie notou a reação do chefe, e sentiu certo alívio por ela. Mas Marinette só queria afundar-se no chão. De volta para ela, agora novamente sério, Gabriel continuou:

− Está tão bem feito que Adrien pensou que eu o costurei. E eu, confesso, não desmenti. Fiz mal?

− Mas isso não é justo! – Marinette falou instintivamente, sem notar sua exaltação.

− Mas o presente chegou a ele sem nome, sem dedicatória... poderia ser de qualquer um. – Gabriel manteve-se sóbrio à reação de Marinette.

− Havia um cartão... – Nathalie tentou dizer, mas sua pouca coragem em entrar no meio do diálogo manteve sua voz tão baixa que nem foi percebida. Marinette a interrompeu.

− Eu assinei o lenço...

− Mas não assinou o colete.

Marinette grunhiu baixinho, sabendo que não teria argumentos nem defesa.

− Essa vai ficar como lição para você, jovem. Uma lição para sua vida profissional. Mas eu gostaria de lhe dar uma escolha: Eu posso apresenta-la agora para Adrien como a costureira do colete e a pessoa que pretendia realmente presenteá-lo. Ou... você permite que ele pense que o presente foi meu e, em troca da sua conivência, eu lhe ofereço uma oportunidade única de aprendizado.

− Como essa lição que o senhor acabou de me dar, sobre a assinatura?

− Essa foi de graça. Mas você almeja um futuro como designer de moda, não? O que me diz de ser minha aprendiz?

Marinette nem piscava. Nathalie nem respirava. Estavam ambas muito surpresas com a oferta de Gabriel. Para a mais velha era como se seu chefe abrisse os portões da mansão e desse um passeio no parque. Um grande avanço em sua relação com o mundo exterior.

Porém, Marinette se encontrava numa questão moral. Não queria mentir, mas seria como com o cachecol – a felicidade de Adrien poderia valer a pena. Contudo, se ele achasse que o colete era um presente dela, seria uma oportunidade de se aproximar de Adrien. Ainda assim, o presente nem era dela inicialmente. Mas era pra ser. Ou parecer. Poderia ter sido. Estava tudo tão confuso que ela não conseguia dar pesos e medidas às opções, então decidiu desempatar.

− Se eu quiser contar a verdade, o que aconteceria?

− Creio que Adrien ficaria bem mais decepcionado comigo do que já é. Nathalie passaria por incompetente, pois ela também não chegou a dizer a ele de quem era o presente. E você teria sua gratidão e não sei se muito mais do que isso. – Gabriel tinha um ponto.

− E o estágio?

Não remunerado! Você viria aqui na mansão três vezes por semana e me acompanharia em alguns trabalhos de menor importância. Poderia conhecer parte do meu processo criativo, me apresentar suas ideias e receber orientação de como executá-las de forma profissional.

− Posso acompanhar algum desfile?

− Só se fizer por merecer.

− Mais alguém me avaliaria?

− Não. Só eu.

− Me parece tudo muito subjetivo... E se meu colete aparecesse em uma peça publicitária?

− Ainda não está com meu padrão de qualidade. No mais, não poderia lhe dar o crédito e eu não sou tão injusto.

− Hum... Ainda é pouco.

− Ok: Um acessório, na primeira peça publicitária do próximo semestre, coleção de outono. Até mesmo para compensar o chapéu de penas, que não pôde ser usado por Adrien, que é alérgico. Você teria algum tempo com meu filho, que será o modelo exclusivo. E terá o seu nome creditado. É minha última oferta! – concluiu seriamente.

Marinette fitou o chão, depois a janela, depois o teto... pensativa. Ainda sentia o peito apertar, sentindo-se ora injustiçada, ora afortunada. Nathalie, com o olhar, lhe implorava que aceitasse, vendo na oportunidade sua própria redenção. Ela lhe fez um sinal de positivo com a mão, disfarçadamente. A menina olhou Gabriel nos olhos e deu seu ultimato.

− Senhor Agreste, o colete que fez para seu filho parece combinar com meu chapéu de penas!

− Boa decisão! Agora deixe-me voltar ao trabalho. Volte na segunda-feira. Nathalie, acompanhe a senhorita Marinette.

− Sim, senhor! – disseram as duas.

No caminho de volta, ainda um pouco surpresa, Marinette organizava seus horários com a agenda de Nathalie.

− Srta. Nathalie. O Senhor Agreste está ficando expert em dar meus presentes para o Adrien, não? – algo lhe dizia que a assistente sabia como aquele mal entendido surgiu.

− Ah.. er... Marinette, por favor, não o julque mal. Sobre o cachecol... ele não sabia...

− Não sabia que era meu?

− Não foi ideia dele. Foi entregue a Adrien como presente dele, mas sem sua participação. Ainda assim, você precisa saber que esse incidente transformou a relação entre pai e filho. Eles... precisavam..

O olhar de Nathalie dizia tudo. Marinette notou seu constrangimento em assinar a autoria do desvio do presente. Mas também percebeu que a mulher a sua frente conhecia a família Agreste como poucos e que nada do que fez foi para prejudica-la, mas para ajudar pessoas a quem ela obviamente tinha mais do que mera consideração. Não podia tomar a atitude de Nathalie como um ataque pessoal, pois ambas queriam o bem de Adrien. Como não gostar de alguém que tem esse compromisso com seu amado?

− Senhorita, dê ao Adrien quantos presentes meus forem necessários para deixa-lo bem com o pai. O que importa...

Elas se entreolharam e disseram juntas:

− É fazer Adrien feliz!

E assim, um novo tratado de cumplicidade estava sendo selado.

Notas finais
Não foi de propósito, mas pensando bem, da forma como tudo conclui agora, dá até pra encaixar como evento anterior ao especial de natal, quando a menina finalmente faz um presente seu chegar às mãos de Adrien. Ou seja... final feliz, né? Tô pensando se lanço ou não o prólogo que pensei. Tá meio bobinho. Então, ou até a próxima fic ou até o próximo capítulo.