A recíproca é verdadeira
1 Eu te odeio! - Guerra nossa de cada dia.
Notas iniciais
– Eu te odeio! – gritei sem me importar que alguém ouvisse, nunca tive tanta certeza disso em toda a minha vida.
Sasuke Uchiha, definitivamente, nasceu com o dom de despertar em mim os piores sentimentos, mesmo que eu odeie sentir tamanho desprezo por qualquer ser humano, era mais forte do que eu. Aquele sorriso irônico que se formou no rosto pálido ao ouvir meu desabafo só fez com que meu sangue aumentasse a temperatura em alguns graus, minhas bochechas provavelmente chegaram a um vermelho escarlate.
– A recíproca é verdadeira minha cara – falou com seu nojento tom de superioridade.
A vontade que eu tinha era de pular em cima dele e distorcer aquele rostinho perfeito na base da pancada.
Você é quem apanharia dele.
Minha parcela racional advertiu, mas quem se importa com a racionalidade nesses momentos?
Talvez eu realmente tivesse pulado na garganta dele, mas minha mãe entrou no quarto preocupada, obviamente por me ouvir gritar. Eu nunca grito.
– O que esta acontecendo aqui? – perguntou enquanto olhava para nós, mas encontrou sua resposta no chão, próximo aos pés de Sasuke.
Lá estava a cabeça que costumava ser de meu ursinho, Kyuubi, que me acompanhava desde meus tempos no orfanato. Ela não precisou de uma resposta, apenas olhou para aquele sínico com uma expressão realmente irritada.
– Pega – ordenou ao filho, que percebeu que deveria obedecer e retirar aquela droga de sorriso dos lábios – me dê isso – estendeu a mão ainda mantendo a voz assustadoramente baixa – vá para o seu quarto e me espere lá.
Ele obedeceu novamente, mas antes de sair direcionou seus olhos negros para mim em um olhar vitorioso. É isso mesmo, o desgraçado estava com problemas, mas apenas por saber que me fez mal ele sentia orgulho de si mesmo. Problemático!
Quando ele saiu eu finalmente me permiti chorar, mesmo com a presença de minha mãe. Chorei como uma criança.
– Acalme-se, querida – mamãe disse com sua voz doce – posso concertá-lo.
Mas minha dor não era apenas pelo meu velho amigo, era pior do que isso.
– P-por quê? – questionei entre soluços.
E ela entendeu o que eu quis dizer.
A dor de ser uma rejeitada.
Uma das piores sensações do mundo é a de não ser aceito, ser humilhado por não pertencer a algum lugar, mas é realmente pior quando isto vem de alguém que, supostamente, é de sua família.
Mamãe me abraçou e acariciou meu longo cabelo rosa, bem diferente de seus fios negros.
Na verdade, os demais Uchihas – os verdadeiros – são muito parecidos, olhos e cabelos negros que contrastam com a pele clara, deixando bem evidente que sou diferente. Meu cabelo é rosa e meus olhos verdes, no fim só sou semelhante pela tonalidade da pele.
Talvez se não fosse tão diferente seria aceita.
– Não ligue para isso querida, vou conversar com ele.
Nunca funcionou, não é agora que vai.
– Deixa pra lá – falei já controlando o choro, isso só costumar piorar a coisas.
Ele nunca vai aceitar.
Ela saiu do quarto depois de algum tempo e eu voltei a chorar.
Fraca!
Quando fui adotada pelos Uchiha eu não poderia imaginar um dia mais feliz em minha vida, e continuo pensando assim, mas parece que tudo tem seu preço. O meu foi Sasuke, o filho mais novo, demonstrando abertamente o quanto odiou a escolha dos pais. Nos primeiros meses, quando tínhamos dez anos, ele pareceu me aceitar, mas tudo mudou e agora, aos dezesseis, chegamos a esse quadro de ódio recíproco. Afinal, não posso simplesmente ignorar tudo que ele fez.
Me levantei da cama e fui ao meu banheiro para lavar o rosto, não permitiria que mais ninguém me visse chorando. Sai do quarto e acabei passando pela porta do quarto de Sasuke, papai gritava como louco lá dentro.
É sua culpa!
Fui para a sala e encontrei Itachi, o irmão que me aceita. Ele sempre foi carinhoso comigo, me contaram que sempre quis uma irmã quando jovem.
– Ele fez outra vez, não é? – perguntou após olhar para mim.
– Fez o que? – me fiz de desentendida e sentei ao seu lado olhando para a TV.
– Não se faça de boba, você só chora por um motivo.
Droga de olhos vermelhos. Itachi é fisicamente muito parecido com Sasuke, a diferença é que ele tem dezenove anos e tem o cabelo cumprido – que por acaso estava solto, por algum milagre.
– Quem disse que eu estava chorando? – me levantei, fui para traz do sofá e juntei o cabelo dele – talvez eu estivesse usando drogas.
– Acredito muito nisso – falou rindo, era esse o objetivo – não gosta do meu cabelo solto?
– Não parece você – disse e prendi os fios negros com um elástico que estava no meu braço – bem melhor.
– Agora me conta o que aconteceu.
– Nada – menti, não preciso de mais um brigando com Sasuke para ele descontar em mim depois.
Recebi um olhar acusatório, mas não disse nada. Apenas sorri para ele indicando que eu estava “muito bem obrigada e isso que importa”.
Algum tempo depois Sasuke desceu as escadas e veio em minha direção, parou em pé ao meu lado e estendeu a mão. Vi que meus pais apareceram atrás dele logo em seguida e entendi a história. Apenas siga o roteiro. Apertei a mão, mas não olhei para o rosto dele.
– Me desculpe, eu não deveria ter rasgado aquele ursinho velho – ele se deteve por ouvir um “Sasuke!” irritado de papai – prometo não fazer mais coisas como esta, irmãzinha — a palavra foi tão carregada de ironia que pensei que alguém reclamaria, mas não o fizeram, mesmo obrigado, ele falar isso já era até uma evolução.
O clima ficou meio estranho até minha mãe se pronunciar.
– Bom, agora que tudo foi resolvido – acredite nisso que é legal – vamos comer.
Sentamos a mesa e mamãe serviu o jantar, olhei para Sasuke e vi que ele estava com cara de “te pego depois da aula”. Será que só eu percebo isso?
Ninguém liga.
A noite terminou com todos na sala assistindo a um filme, isso é uma coisa rara por papai e mamãe serem muito ocupados, e Itachi passou a sempre ter trabalhos de faculdade, mas fazemos isso sempre que temos chance só para ficarmos juntos mesmo. Os acontecimentos do dia não me impediram de sorrir brincando com Itachi, no fim das contas sempre acabo parecendo uma criança.
Quando finalmente fui dormir me senti triste outra vez. É isso ai, nunca deixei de dormir com meu ursinho de pelúcia, mesmo fazendo dezesseis anos, e agora não tinha mais minha raposa fofa para abraçar. Sasuke sabia que iria me afetar decapitando Kyuubi.
Dormi depois de me mexer muito na cama.
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