A protegida de Anúbis

4 Os demônios vermelhos de Seth


Acordei em uma cama extremamente confortável, ao lado havia uma pequena cômoda com um cartão escrito “hotel Luxor”. Meu braço havia cicatrizado, mas ainda sentia dor no lugar da picada da cobra. A noite anterior havia sido estranha, ainda não acreditava nas coisas que haviam acontecido, deuses e chacais, mundo dos mortos, tudo era muito,muito louco, mas tudo havia sido real. Depois de um bom banho me recompus e sentei-me na varanda para tomar café na companhia de Anúbis.

—Como você está?_Ele parecia serio.

—Estou bem, obrigado....sei que você foi o responsável por salvar a minha vida._Soltei um suspiro.

—Parece que você não ficou muito feliz com isso?!_Ele sorriu ironicamente.

—Não é isso, só me surpreendi um pouco, afinal você parece detestar a ideia de ser meu guardião.

Anúbis era um mistério para mim, Néftis me disse que podia depositar minha confiança nele. Apesar do seu jeito indiferente, tentei não começar uma discussão, havia um leve sorriso em seu rosto que demonstrava certa graça pelo meu comentário.

—Bem não é como se eu houvesse escolhido você, apenas sigo ordens, mas acredito que tenhamos começado do jeito errado.

Se colocando de pé, Anúbis se curvou como um verdadeiro cavalheiro.

—Me desculpe por insulta-la, não foi proposital.

—Tudo bem...sei que não sou lá a pessoa mais fácil de lhe dar, me desculpe pela infantilidade de antes.

Anúbis sorriu com o canto da boca, seu charme, sua marca.

O café estava ótimo, mas Anúbis estava apreensivo para que saíssemos o mais rápido possível, pois estávamos sendo seguidos.

—Pegue aquela mochila, tem tudo o que precisamos para a viagem.

Depois de fazermos o cheking do hotel, saímos pelas portas dos fundos, havia dois camelos presos ao pé de um coqueiro, confesso que tive um pouco de dificuldade para monta-lo. Com tudo pronto nós partimos em direção ao deserto.

Anúbis havia me dito que precisávamos encontrar Thot, apenas ele sabia a localização do livro dos mortos, ainda não entendia o porque, mas era necessário para um ritual ao qual Bastet seria invocada.

Horas de uma jornada pelo deserto. O sol castigava, minha boca estava seca, precisávamos parar para dar de beber aos camelos. Avistamos um Oasis a um metro de onde estávamos, um milagre.

Havia coqueiros, um lago cristalino de aguá doce e muitos frutos, era algo um tanto quanto estranho, mas me dei ao luxo de desfrutar do pequeno paraíso. Amarramos os camelos e demos de beber a eles.

Me sentei abaixo da sombra de um enorme coqueiro, aproveitei cada gota da aguá em meu cantil, enquanto Anúbis observava cuidadosamente o local, como se pressentisse algo.

—Porque não descansa um pouco deus da morte?!

O sorriso irônico surgiu em seu rosto.

—Não vossa majestade, não estou cansado, acredito que alguém aqui precise ficar de vigia hã?!

Confesso, por mais irônico que Anúbis fosse ainda sim conseguia tirar algumas risadas de mim.

—A deixa de ser mal humorado e relaxa um pouco, estamos em um Oasis no meio do nada, não tem que se preocupar por hora.

—È por esse tipo de pensamento que o mundo dos mortos está a cada dia mais cheio, vocês humanos só se importam com o momento e se esquecem do amanhã.

Foi impossível não rir.

—Ah Anúbis, para de ser tão ranzinza, você tem o que 1.000 anos?

—Um pouco mais.

—Ok, mas a aparência é de um cara de 23 anos, então faça-me o favor de agir como um.

Com certeza ele não entendeu o que eu disse.

—Como poderia? Se tenho 1.000 anos não existe possibilidade de agir como uma pessoa mais jovem.

—Claro que existe, é porque você é todo serio e focado nessa coisa de deter Seth.

Anúbis fez um gesto de silêncio, algo se movia abaixo do pequeno lago de água doce.

—O que é isso?_Tentei soar o mais calma possível

—Essa não!

Um demônio, corpo de serpente e com grandes ossos pontudos negros saindo das extremidades do corpo se levantou perante nós, ele segurava dois grandes Khopesh em cada mão, de sua boca cheia de dentes pontudos e dos olhos, saiam brasas vivas.

—Mais...o que é isso?

Estava apavorada, Anúbis pediu que ficasse logo atrás dele.

—Quando eu disser corre, você vai e não olha pra trás._Cochichou.

A criatura parecia não enxergar. De vagar fui me movendo para trás, tentando ser o mais cautelosa possível, afinal qualquer barulho atrairia a atenção do demônio para nós.

— Mas pra onde?_Cochichei.

Infelizmente o grunhido do camelo despertou atenção do monstro, Anúbis me puxou com força e começamos a correr. A criatura se rastejava rapidamente indo em nossa direção, nunca pensei que meus pulmões aguentariam tal façanha, me surpreendi.

O demônio tinha cerca de 5 metros de altura e era muito rápido, porém não enxergava com facilidade, se localizava pela audição. As ruínas do que um dia havia de ter sido um templo parecia ser uma boa opção pra se esconder e foi lá que ficamos até Anúbis bolar algum plano para sairmos vivos dessa.

—Qual a ideia?_Perguntei ofegante.

—Idéia? Você viu o tamanho daquilo?

—Horas mais você é um deus! Não pode fazer nada contra aquela coisa?_Disse irritada.

—No mundo mortal eu não tenho poder e outra lutar contra um demônio vermelho é suicídio até pra mim._Sorriu ironicamente.

—Demônio vermelho?

—Sim, os demônios vermelhos de Seth.

—Você disse demônios no plural? Quer dizer que..._Fui interrompida por um estrondo vindo de trás de um pilar do templo, das areias surgiu uma criatura semelhante a um escorpião, porém com o tamanho do nosso outro amigo serpente.

—Mas que droga! Eu disse pra mandarem Horus, mas não, escolheram o deus da morte, porque? Porque ele é o deus da morte._Anúbis reclamava a si mesmo enquanto corríamos para o outro lado do templo.

—Droga Anúbis, faça alguma coisa!

A serpente de olhos de brasa se aproximava e do outro lado o grande escorpião abria e fechava suas grandes garras.

—Ótimo, vou ser obrigada a visitar novamente Osíris, só que dessa vez sem volta._Falei me tentando me esconder atrás do deus.

De repente uma aura negra começou a emanar de Anúbis, vi grandes garras crescerem, seu corpo ganhar uma proporção 2 vezes maior que a das criaturas e no lugar de seu rosto uma cabeça de chacal com ornamentos egípcios, em sua mão surgiu uma enorme foice.

—O que..._Fiquei espantada com o que meus olhos viam, Anúbis o deus da morte totalmente transformado, era a mesma imagem que eu tinha visto no mundo dos mortos, mas real.

—Corre!_Sua voz era monstruosa.

Corri para o templo e fiquei escondida assistindo a batalha dos dois demônios contra o deus Anúbis.

—Por Rá! se eu dissesse ninguém acreditaria em mim_Exclamei.

A força dos demônios era imensa, mas a de Anúbis era escomunal. Enquanto a grande serpente vermelha tentava-o atacar por trás o escorpião gigante o ferroava no peito, mas o deus da morte não se rendia, arrancou a foice das costas da serpente e lançou em direção ao escorpião, ouvi o grunhido da criatura quando sua garra caiu no chão esvaindo um liquido escuro.

Rapidamente Anúbis se virou e agarrou a serpente por trás, invertendo assim a situação a seu favor. Com toda força Anúbis levantou o monstro e o partiu no meio, ouve uma chuva de gosma escura, enquanto isso o outro demônio semelhante a um escorpião entrou em baixo da terra e desapareceu.

Corri até onde estava Anúbis, era surpreendente sua transformação, a força e a aura maligna que saia de seu corpo, seus olhos vermelhos se dirigiram a mim e então ele voltou a ser o mesmo de antes.

—Como você..._Ele então me interrompeu.

—Vamos não tenho que te dar explicação de tudo._Falou ele se virando e caminhando em direção ao Oasis.

—Espera eu quero saber o que foi aquilo!_Gritei, mas Anúbis não me respondeu, por algum motivo ele parou de andar e desabou na areia.

—Anúbis_Gritei e corri rapidamente em direção a ele.

O deus da morte havia sido ferido na batalha com os demônios e uma grande mancha negra estava se formando em seu peito.