A professia de Kilgarrah
1 Uma vida destruída
Notas iniciais
A música estava alta, mas não machucava os ouvidos. Nunca machucava. Para Jessifer, a música nunca poderia machucar, nunca poderia fazê-la sofrer. Ela espantava o medo, o sofrimento. Deixava as pessoas alegres, fazia com que seus corações fossem livres, que elas fossem livres. Não havia nada que valorizava mais que liberdade.
E nada melhor e mais relaxante que Coldplay. Era uma das bandas que Jessifer mais gostava, e ouvia sua melodia com um fone de ouvido que esquentava suas orelhas e enchia sua cabeça com um som alto e apaixonante. Estava ouvindo o álbum Parachutes, seu álbum favorito deles, a música Sparks. Era uma música linda e tranquila, maravilhosa.
Jessifer tirou um fone de uma orelha, deixando que ele desarrumasse seus cabelos loiros e curtos, e chamou, com a voz suave:
— Táxi! – Um carro amarelo parou na sua frente. Ela entrou nele e falou para o motorista o endereço de uma lanchonete que ela sempre ia depois do ensaio de sua banda. Era um lugar barato, considerando que era vegano. Normalmente, as comidas veganas e orgânicas eram mais caras.
Ao chegar, ela pagou o homem do táxi e se dirigiu para dentro do lugar. Logo avistou uma mesa com um grupo de pessoas e fui até lá.
Os integrantes daquela mesa eram diversificados. O primeiro, sentado no canto esquerdo da mesa, era um jovem de cabelos negros e rebeldes, usava um óculos descolado que contornava seus olhos castanhos. Sua pele era morena e lisa. Ao seu lado, estava uma jovem de cabelos lisos e negros jogados para o lado. As pontas deles eram azuis e a pele dela era branca.
A garota ao seu lado tinha a pele negra como chocolate e uma boca vermelha e sorridente. Ela era alegre e sua alegria era altamente contagiante. Seus cabelos eram encaracolados e rebeldes, cortados a altura de seu ombro.
Em frente a ela estava um homem. Seus cabelos eram loiros e curtos. Eles eram naturalmente castanhos, mas ele o pintava com uma cor clara que era quase branca. Sua pele era branca e seus olhos eram azuis e alegres.
Jessifer sentou-se ao lado dele.
— Hoje você não demorou tanto – disse o garoto de cabelos negros sarcasticamente. Seu nome era James e ele costumava ser o mais irônico da turma.
— Nós temos um show na sexta, e isso quer dizer que temos só uma semana para ensaiar – retrucou ela. – Não é de se espantar que atrase um pouco para acabar o ensaio.
Eles trocaram olhares apreensivos. Jessifer franziu a testa. Sempre quando eles faziam isso, eles queriam dizer alguma coisa, mais sabiam que o que diriam iria chatear a amiga.
— O que é? – ela perguntou desconfiada.
— O quê?
— O que vocês querem falar?
Eles lançaram olhares nervosos um para os outros. A jovem de pele negra, chamada Kate, lançou a Jessifer seu olhar de psicóloga e analista.
— Jess, nós estávamos conversando sobre você... – ela parou de repente e lançou mais olhares para os amigos. Jessifer, por sua vez, encarou-os com uma expressão impaciente.
— O que?
— Achamos que deveria sair da banda – a garota de cabelos negros, Naomi, terminou.
As sobrancelhas de Jessifer se levantaram. Sabia que os amigos desaprovavam sua banda, mas nunca achou que eles iriam pedir algo assim para ela. Abriu a boca levemente para falar algo, mais James a interrompeu.
— Você nunca vai conseguir nada com ela – argumentou ele. – Tudo que vocês fazem é tocar em bares que ninguém nunca ouviu falar, além de que você ganha muito mal.
— Não é como se a vida de vocês estivesse desenvolvida ao máximo – disse ela. Estava começando a ficar nervosa com aquilo.
— Nossos empregos vão nos levar a algum lugar – Kate disse. Sua expressão estava envergonhada, mas decidida.
— Vocês acham que eu quero o que? Ser famosa? Ter sucesso? – perguntou indignada. É claro que, secretamente, era isso que queria.
— Achamos – Naomi respondeu. – Pelo menos você quer chegar perto disso.
Jessifer olhou para eles com uma expressão surpresa. Então encarou o jovem de cabelos claros ao seu lado.
— Joseph? – perguntou.
O jovem a encarou.
— Desculpe, querida, mas eles estão certos.
Ela cruzou os braços com raiva.
— Bem, se vocês acham que essa banda não vai me levar a lugar nenhum, estão terrivelmente enganados – ela disse.
Eles se olharam confusos.
— Um homem de uma gravadora chamado Joey Teward nos tinha visto tocar e gostou do que viu. Ele quer ver se consegue trabalhar conosco – Jessifer continuou.
Joseph me olhou abismado.
— Joey Teward? O Joey Teward? – ele perguntou surpreso.
Jessifer assentiu, sorrindo. Não conseguiria mais ficar com a expressão fechada. Sua alegria logo se espalhou por seu rosto.
— Meu deus, Jess! Isso é maravilhoso! – ele disse, agora rindo. Ele se inclinou e beijou suavemente os lábios de Jessifer.
Os outros os encaravam confusos.
— Quem é Joey... – James parou de falar, confuso. – Alguma coisa?
— Joey Teward. Ele é dono de uma das gravadoras de maior sucesso de Nova Iorque. Uma pessoa que trabalha com ele é imediatamente conhecida – Joseph respondeu, animado.
Os rostos dos amigos se iluminaram.
— Parabéns!
— Eu sabia que você conseguiria.
É claro que eles estavam ignorando a conversa que eles tinham tido há poucos minutos atrás, mas Jessifer não ligou. Eles pareciam envergonhados sobre o acontecimento, e nada poderia demonstrar mais perdão do que ignorar que algo acontecera.
— Vamos fazer um brinde – Kate decidiu, e ergueu seu copo com refrigerante. – A Jessifer.
— Melhor – Joseph disse, também erguendo seu copo. – Ao grupo mais perfeito do mundo.
— Realmente – James disse, sorrindo. – A cantora vegetariana, a negra feminista, o jornalista gostoso, o DJ e a lésbica. Não poderia haver grupo melhor.
Eles brindaram rindo e levaram o copo aos lábios. James ergueu uma sobrancelha.
— Isso é refrigerante orgânico? – perguntou.
— Sim – respondeu Jessifer rindo. – Algum problema?
— Não – disse ele. – É bom.
Eles beberam mais um gole.
— E, sinto muito James, mas eu acho que quando você disse “jornalista gostoso”, acho que você realmente quis dizer “sociopata idiota” – disse Kate.
James revirou os olhos.
— Cala a boca, feminazi – ele disse.
Eles poderiam viver se provocando, mas bem no fundo se amavam. James havia sido adotado pelos pais de Kate depois que seus pais morreram. Eles na verdade eram primos de sangue, e tinham personalidades distintas demais. Por isso ficavam se provocando toda a hora. Mas ás vezes, quando ninguém estava olhando, eles eram gentis e atenciosos um com o outro.
Kate respondeu o comentário do irmão com uma careta de desgosto.
Joseph virou-se para Jessifer, a alegria estampada em seu rosto.
— Então, quando vocês vão se encontrar com ele?
— Sexta-feira – respondeu. – Por isso temos que nos preparar, para criar uma boa impressão. Se alguma coisa sair errado...
— Nada vai sair errado – Naomi confortou-a, sorrindo.
Jessifer estremeceu. A simples idéia de que essa oportunidade fosse desperdiçada a apavorava mais que qualquer coisa. E ela não era o tipo de pessoa que ficava facilmente apavorada.
— Tomara – falou, sua voz tão baixa quanto um sussurro.
* * *
— Jessifer! – Ela ouve a voz de Joseph gritando do quarto. – Você viu o meu celular?
— Hã... – murmurou ela, pensativa. – Acho que vi no banheiro! – ela gritou de volta.
O apartamento não era nada luxuoso. Não era tão pequeno nem tão grande. Tinha dois quartos, um banheiro e uma pequena cozinha. A sala e a cozinha eram juntas. Na verdade, a sala era quase inexistente. Era só um corredor apertado. Ele era composto com muitas prateleiras com diversos livros e CDs de todos os estilos. Não era de se surpreender que o apartamento fosse tão simples. Nenhum dos dois ganhava muito, mas eles tinham a esperança de que isso mudasse nos próximos dias.
Jessifer suspirou e se sentou no banco da pequena mesa na cozinha. Não era muito difícil deixá-la impaciente, e a demora era um modo mais que eficiente de deixá-la impaciente. Botou seus fones de ouvido e ficou ouvindo sua melhor coleção de músicas indies. Tentou se concentrar na música, mas até isso estava a deixando aborrecida. Estava ansiosa para sair. Eles tinham reservado uma mesa em seu restaurante favorito, um lugar italiano. Na verdade, ela nunca pusera o pé naquele lugar. Eles não tinham condições de pagar uma refeição em um lugar daqueles. Mas estavam indo lá para celebrar a conquista de Jessifer com sua banda. Ela sorriu. Joseph tinha realmente muita confiança nela e em sua banda.
O casaco de Joseph estava apoiado na mesa. Só quando ela o olhou com atenção que percebeu uma caixinha no bolso de couro do casaco. Curiosa, Jessifer estendeu sua mão até o bolso do casaco. Era uma caixinha preta, com um tecido suave como veludo. Era pequena, uma caixa de jóia. Ela abriu. Dentro dela, havia um anel.
Jessifer pulou para trás, surpresa. Os fones de ouvido caíram, e ficaram pendurados pela sua bolsa. Suas mãos cobriram sua boca. Seus olhos estavam arregalados. O que aquilo significava? Joseph a iria pedir em casamento? A aliança brilhava, como se a encarasse, virada para ela. Ficou muito surpresa ao ver que aquilo era realmente uma jóia. Aquela aliança deveria ter custado muito caro.
Por meio de seu pânico e surpresa, começou a imaginar a si mesma usando aquele anel. O prateado da jóia iria lhe cair bem. Iria distrair o branco e o pálido de sua pele. Depois se imaginou em um vestido de noiva, caminhando por um altar, em uma igreja. As paredes brancas, o cabelo coberto por um véu, um padre a esperando no fim do corredor. Ela riu com o pensamento. Nem ela nem Joseph iriam concordar em casar na igreja, com um padre. Seria uma cerimônia absurda. Não, o casamento seria ao ar livre. Seus cabelos seriam descobertos. O véu só a deixaria atrapalhada e nervosa. Os cabelos estariam soltos, caindo logo abaixo de seu queixo.
Depois se imaginou no altar, frente a frente com Joseph. Ela e Joseph. Por toda a eternidade. Com filhos, com um emprego eficiente. Quem sabe? Até lá, sua banda poderia já estar famosa. Não seria tão difícil construir uma com ele. E seus lábios se abriram em um sorriso. Uma vida com ele... Seria algo maravilhoso. Seria uma vida maravilhosa.
Ouviu algo no fim do corredor. Joseph devia ter achado o celular. Nervosa, atirou-se na caixinha. Ao tentar fechá-la, deixou-a cair. O anel voou da caixa e se perdeu no chão, para o desespero de Jessifer. Ela se jogou no chão e estendeu a mão cegamente por entre os móveis, procurando a aliança. Embaixo do armário de pratos, avistou uma coisa brilhante entre a sombra do móvel. Segurou o anel, orgulhosa por tê-lo achado. E, segurando ele pela primeira vez em frente aos seus olhos, teve certeza de que, quando Joseph pedisse ela em casamento, ela com certeza diria sim.
Mais um barulho. Ela disparou para a caixinha e botou o anel lá. Só quando botou a caixinha no bolso do casaco percebeu que o barulho não havia sido no corredor.
Jessifer se virou e olhou atentamente para a janela do lado do armário de pratos. Depois, ignorou o barulho. Provavelmente era algum pássaro ou um rato passando por ali. Botou o fone de ouvido dentro da bolsa e se virou para encontrar Joseph, quando a janela se abriu.
Ela gritou, surpresa que a janela lacrada tenha se aberto sozinha com tanta violência. Quando foi fechá-la, um forte vento bateu nela, a derrubando. Seus olhos arregalaram. Como o tempo ficou tão violento tão repentinamente?
O vento parou tão rápido quanto começou. Jessifer caminhou lentamente até a janela, curiosa para saber o que a ventania tinha causado. Viu algo que a deixou chocada. As árvores e todo o resto da cidade estavam tranquilas. O céu escuro estava cheio de estrelas, sem nenhum sinal de tempestade. O vento agora estava tranquilo.
Ela olhou para baixo. Por meio da escuridão da noite, a única coisa que conseguiu perceber na rua de seu prédio foi um par de olhos. Olhos amarelos e sábios, envelhecidos e muito sofridos. Jessifer inclinou-se surpresa. Eram olhos grandes, e não estavam tão distantes. Na verdade, encaravam-na de frente.
Mas ao invés de dois olhos, eram quatro. Espera, não eram quatro. Ela tentou focar seu olhar, e por um momento de lucidez eram dois olhos que via, mas então voltaram a ser quatro. Ela sacudiu a cabeça, frustrada por estar tão tonta. Quando voltou a focar seu olhar, percebeu uma coisa surpreendente: o mundo estava girando.
Então ela sentiu seu corpo tombar, e um barulho de algo caindo no chão. Depois, uma escuridão tomou conta de seus olhos, e ela perdeu a consciência.
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