A procura do meu amigo suicida
1 A primeira carta
Notas iniciais
"Para todos que já pensaram em morrer um dia. Para todos que já viram o suicídio como uma saída. Para todos que estão em constante conflito se ainda vale a pena continuar vivo, eu quero dizer uma coisa: eu compreendo vocês.
O meu conflito começou quando eu procurei um culpado. Procurei um culpado para o meu sofrimento e julguei serem todos. Todos eram culpados pelo meu sofrimento. A culpa jamais poderia ser minha, eu munca fazia as coisas erradas, eu sempre dava o melhor de mim, eram os outros os culpados. Se todos morressem eu iria ficar bem. Eu não precisava de ninguém me magoando e me fazendo sofrer. A culpa era toda deles.
Seria mesmo?
Me conflitei mais uma vez. Mais de sete bilhões de pessoas no mundo, seriam todas elas responsáveis por tudo de ruim que acontecia com uma pessoa só? Óbvio que não.
Mas eu ainda procurava um culpado. E foi aí que eu me encontrei. Sentado na cama, pensando nos culpados de tudo e os eliminei um por um. Só sobrou eu. Eu era culpado. As pessoas não me faziam sofrer, era eu que esperava demais delas, tinha muitas expectativas, eu mesmo me magoava. Eu era a fonte de todo meu sofrimento.
Eu era minha própria ruína. Eu não merecia existir. Eu machucava a mim e aos outros. Minha família, meus amigos, meus inimigos. Se todos morressem eu ia continuar com esse vazio dentro de mim, eu ia continuar me sentindo um lixo, eu ia continuar mal pra caramba. Eu ia continuar sendo eu.
Mas, e se eu morresse? O que iria acontecer? Eu deixaria de existir. Eu daria adeus a esse terrível mundo que eu criei.
Se eu era o culpado, nada mais justo eu mesmo morrer.
Sem morte aos inocentes, mate o culpado, Mateus. Melhor dizendo, mate O culpado. Mate você mesmo. Encontre seu fim. E nesse seu fim encontre também seu começo. Seu começo sem sofrimento. Seu começo sem coisas ruins. Seu começo tranquilo.
Seu melhor começo.
Seu começo no fim.
A morte era minha solução.
Alguém diz que não?
Eu digo que não.
Eu não sei.
Eu não posso dar opiniões sobre o assunto. Eu não sei. Até hoje eu não sei.
Eu não morri. Já quis muitas vezes, já me aproximei muitas vezes, mas não morri.
Insistir? Insistir pela vida? É... Talvez. Mas eu não sei. Eu nunca sei.
Quando meu coração apertar mais uma vez, quando minhas lágrimas caírem mais uma vez pelo meu rosto, quando fazerem cócegas na minha bochecha, será que eu ainda insistirei? Eu ainda lutarei pela vida?
Eu ainda buscarei culpados?
Eu já encontrei culpados?
Eu não quero morrer. Eu não quero desistir de mim. Eu não quero desistir de mim. Eu não quero optar pelo suicídio. Eu nem sei direito o que eu quero. Mas só o fato de querer já é um começo, não é? Eu tenho algo para me agarrar, não tenho? Algo precioso que me liga a esse mundo. Eu tenho. Eu preciso ter.
Eu preciso ter.
Eu não quero morrer."
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