Carrington

O carro estacionou no endereço indicado e, ao sair do carro, foi recebido por flashes e vozes de jornalistas chamando seu nome. Com um ajuste na jaqueta e um suspiro discreto, Kojiro desceu do carro, acompanhado de Mike, seu intérprete. O vento fresco da cidade atravessava o estacionamento, o que só reforçava sua primeira impressão de Manchester: fria, cinza e de um clima instável, mesmo em pleno verão de agosto.

Entraram no prédio e Kaori Matsumoto já o aguardava, ao lado dos dirigentes do clube. Kojiro percebeu o olhar da agente assim que se aproximou.

— Por que a demora? — O tom dela era profissional, mas ele sentiu um leve traço de preocupação.

— Tivemos alguns contratempos.

— Os contratos estão prontos. Juventus e United aguardam apenas sua assinatura. — Ela fez uma pausa, e puxou Kojiro para se afastarem um pouco dos executivos. — Ainda dá tempo de reconsiderar.

Kojiro suspirou, já esperando por aquilo.

— Você sempre quis jogar na liga italiana. E conseguiu. O Juventus te trouxe de volta ao time A depois das Olimpíadas. Então, por que tão de repente?

Ele não respondeu.

— Kojiro... — Ela abaixou um pouco o tom. — Você quer provar que é um dos melhores do mundo. Mas sair da liga italiana para a Premier League assim, sem pensar melhor, foi impulsivo.

Kojiro manteve o olhar firme sobre ela. Ele entendia a preocupação de Kaori. Ela sempre se certificava de que ele tomasse as melhores decisões para a carreira. Mas, desta vez, a decisão já havia sido tomada.

— É aqui que eu quero jogar.

Kaori não insistiu. Apenas assentiu, um suspiro breve escapando dos lábios, antes de guiá-lo até a sala de reuniões.

A assinatura aconteceu sem contratempos. O contrato foi fechado, e os dirigentes pareciam satisfeitos: um empréstimo de uma temporada, com cláusula de opção de compra ao final. No dia seguinte, Kojiro seria apresentado oficialmente como jogador do Manchester United. Ainda assim, uma leve inquietação pairava sobre ele. Não era medo, era apenas o peso da mudança.

Recusou o almoço comemorativo. Estava cansado da viagem e queria apenas um momento para si. Enquanto caminhava até o estacionamento, pegou o celular e enviou uma mensagem rápida para Ken Wakashimazu.

"Assinado. Sou do Manchester United pela próxima temporada."

Guardou o celular no bolso e avistou Mike esperando ao lado do carro. Antes que pudesse abrir a porta, uma voz familiar o chamou.

— Hyuga.

Kojiro se virou e encontrou Brian Cruyfford, encostado casualmente em uma pilastra.

— Cruyfford?

O holandês se afastou da pilastra com um meio sorriso e estendeu a mão para cumprimentá-lo.

— Quando ouvi que você poderia vir para cá, achei que fosse só especulação. — Ele riu. — Bem-vindo ao United.

Kojiro apertou sua mão com firmeza.

— Obrigado. Já imaginava que, mais cedo ou mais tarde, nos encontraríamos de novo.

Brian assentiu, examinando o rosto do japonês por um momento antes de perguntar:

— Primeiras impressões?

Kojiro soltou um suspiro breve, erguendo o olhar para o céu cinzento.

— Fria. Cinza. Barulhenta na imprensa, mas estranhamente silenciosa no resto.

Brian riu.

— Bem-vindo à Inglaterra. Você se acostuma.

Kojiro não respondeu. Ele sabia que se acostumaria. (Mas acostumar-se não significava gostar);

— E a Premier League? — Kojiro perguntou também.

Brian cruzou os braços.

— Você já deve ter ouvido isso, mas a Premier League é diferente de qualquer outro campeonato. Aqui, a intensidade é outra. Um jogador pode ser bom na Serie A, na La Liga, na Bundesliga... mas nada garante que ele vai se dar bem aqui.

Kojiro ergueu uma sobrancelha.

— É. Já me falaram isso.

— Aqui não existe conforto, Hyuga. — Brian o encarou diretamente. — Se você é bom na Premier League, você é bom em qualquer lugar. Mas o contrário nem sempre é verdade.

Kojiro absorveu as palavras. Esse era exatamente o motivo pelo qual estava ali.

— Então é aqui que eu quero estar.

Brian o analisou por um momento.

— Então você fez a escolha certa. Mas, se quer um conselho... Aqui, ninguém te dá tempo para se adaptar. Ou você entra pronto, ou engolem você vivo.

Kojiro sorriu de lado.

— Bom saber.

Brian assentiu.

— Se quiser conversar sobre isso, podemos ir a um café. Ou, se preferir algo mais interessante, tem um pub que sempre frequentamos quando queremos celebrar.

Kojiro arqueou uma sobrancelha.

— Você sempre é assim com os novatos?

— Só quando eu enxergo potencial.

Kojiro riu.

— Agradeço a oferta, mas estou exausto. Vamos deixar para outro dia.

— Sem problema.

Brian começou a se afastar, mas antes lançou uma última provocação.

— Ah, e antes que eu esqueça... Ainda não superei aquel nas Olimpíadas.

Kojiro riu de leve.

— Foi um bom jogo.

— Dessa vez estamos no mesmo time. Mas eu nunca esqueço uma derrota.

Kojiro sorriu de canto.

— Então acho que estamos quites. Eu também nunca esqueço um adversário difícil.

Brian lançou um último olhar para ele antes de seguir seu caminho.

Kojiro entrou no carro, mas, antes de dar partida, olhou mais uma vez para o CT. Talvez tenha sido precipitado em vir para cá. Talvez tenha sido um erro, mas agora que estava aqui, não tinha mais volta.

...

Elena analisava a filha de forma minuciosa enquanto Emma olhava para sua xicara de chá entre suas mãos. Não ousava dizer uma palavra. Seu estomago começava a doer de nervosismo. A emprega da casa, Jane, lhe oferecia mais chá e alguns biscoitos. Quando ela ia pegar, sua mãe interrompeu.

- Não, Jane. Pode guardar isso todo e voltar a preparar o almoço. – Emma recuou. – Daqui a pouco vou buscar o Ryan na estação e vamos almoçar.

- Sim, senhora. – E Jane se retirou com a bandeja em mãos.

Emma olhou em volta e não se via mais sinal de ninguém em casa.

- Meu irmão estava viajando?

- Ele foi expulso da colônia de férias.

- Aconteceu alguma coisa com o meu irmão? – perguntou preocupada.

- O de sempre. Problemas. Quando não é com um, é com outro. Ou os dois juntos.

- Eu posso conversar com ele...

- Você não vai falar nada com ele. – Sua voz era ainda tão agressiva do que antes. Elena respirou fundo e passou a mão no rosto tentando se acalmar. — Seu pai disse até quando você vai precisar ficar aqui?

Emma sabia que a sua presença não era desejada, mas aquele tratamento vindo da própria mãe a machucava mais do imaginava. Ela não falaria nada que provocasse ainda mais atrito entre elas.

- Papai só pediu para eu vir o quanto antes e que a senhora...

- Responda apenas sim ou não.

- Não.

- Ele te disse alguma coisa?

- Não.

Emma sentiu que Elena queria falar alguma coisa. Ouviu seus dedos batendo no braço do sofá e suas pernas agitadas.

- Seu pai é um mau-caráter. Ele não tinha que te meter em nada disso. Vai atrasar a conclusão do seu curso mesmo eu falando que não era para te envolver.

- Me envolver? Em que?

- Preciso fazer umas ligações e depois vou buscar seu irmão. Seu quarto ainda está do mesmo jeito que você deixou. Se quiser, pode descasar.

Elena se levantou e se retirou da sala, deixando Emma sozinha, sem responder a sua pergunta.

Algumas lágrimas começaram a escorrer dos seus olhos. Passou as mãos no cabelo como uma forma de tirar o nervosismo e olhou em sua volta. Aquele apartamento estava completamente diferente do que se lembrava. Emma não conseguia se decidir que aquilo era bom, ou ruim. Só sabia que queria ir embora o mais rápido possível.

Brian tinha acabado de estacionar o carro em frente à sua casa quando seu telefone começou a tocar. Pegou o aparelho e o atendeu:

- Brian Cruyfford. Tenho ótimas notícias.

Em pouco tempo reconheceu a voz do homem do outro lado da linha.

- Olá senhor. Ela chegou? – Aquele assunto o deixava ansioso.

- Acabou de chegar em Manchester. Quero convidá-lo a um jantar na casa de Elena Larson, esse sábado, as 8 da noite.

- Claro. Mas é claro que sim. Pode confirmar.

O homem sorriu confiante. Seu trabalho estava feito. Agora era por conta da sua ex-mulher.

Brian desligou e ficou um tempo olhando o nada, sem acreditar no que acabou de ouvir. Seu coração batia forte. Não sabia como aguentaria esperar mais um dia até revê-la.

Continua...

Notas finais
- Todos os personagens de Captain Tsubasa, tá na cara que não me pertencem, e sim ao seu autor Yoichi Takahashi. Pois se fosse meu, com certeza, haveria muito mais romance do que futebol.