A praga
2 Marionete
Notas iniciais
Segue agora o segundo capítulo...
Esperamos que faça uma ótima leitura!
Eu ouvi um grito. Vários sons, várias vozes. O ruído desesperado em meus ouvidos intensificava-se a cada passo. Meus olhos conseguiram capturar a nefasta imagem da morte, bem a minha frente, com o sofrimento desenhado no rosto daquela pobre mulher.
Olhei para o meu reflexo assustado no espelho, minhas mãos estavam trêmulas. Todo aquele pranto não saía de minha cabeça, como se eu pudesse ainda escutá-lo nitidamente, ecoando em meus pensamentos. Apoiei minhas mãos na pia, eu estava muito ofegante até ouvir a porta do banheiro se abrindo.
— Então é aqui que você estava escondida! — A voz surpresa de Nicole fez-me estremecer, como se eu tivesse feito algo errado e estivesse realmente me escondendo.
— Não estou escondida, é que...
— Eu sei! — Ela interrompeu. — Eu também teria vergonha de falar diante de toda a escola, o padre ama nós fazer passar vergonha.
— Mas... — Ela só podia estar brincando. — Você não viu o que aconteceu?
— E aconteceu alguma coisa? — Franziu a testa. — Eu tinha ido no quarto pra buscar um casaco, maldito vestido sem mangas...
Por um breve momento cheguei a pensar que tudo era uma ilusão, fantasia da minha cabeça. Mas eu tinha certeza que a freira estava morta, eu a vi morta. Agora meu dever era informar a Nicole sobre isso, rapidamente.
— Aconteceu uma tragédia... — Respirei fundo. — No salão.
— Como assim? — Ela me olhou preocupada.
— Uma das freiras, bem, ela está morta. — Estremeci pela milésima vez.
— Morta?! — Os olhos de Nicole se arregalaram. — Mas... Meu Deus, como assim morta?! O que aconteceu?
— Ela caiu... T-talvez um desmaio. — Meu nervosismo voltava com tudo enquanto falava e aquela cena se repetia em meus olhos. — Caiu na mesa, completamente estática... Foi horrível.
— Ai meu Deus... — Ela afastava os cabelos do rosto, massageando as próprias têmporas. — Mais alguém saiu com você? Aquilo deve tá um pandemônio.
— Não, eu não sei. Saí de lá porque me senti mal... — Nicole assentiu, pegando minha mão.
— Vem, vamos voltar pra lá. — A encarei, sem ação. — Não temos outra escolha, e de nada vai adiantar ficarmos trancadas aqui. — Concordei silenciosamente, seguindo o ritmo de seus passos para fora do banheiro.
O salão estava inundado de pessoas, todas com as mesmas expressões de pavor. Nicole me guiava por entre meninas chorosas e freiras ajoelhadas. Eu tinha que me conter, nunca havia visto tanto desespero em um só local. Ainda procurando um pouco de espaço passamos sem perceber pela grande mesa de jantar, onde o corpo ainda permanecia, porém mais perturbador, o rosto da freira estava completamente imerso no ponche.
— Calma, tá tudo bem. — Nicole achou espaço no canto do salão. — Vamos pensar Anitta, precisamos pensar.
— Vamos sair daqui. — Eu estava perplexa, meu corpo estava prestes a cair.
— Não podemos, você tem que prestar atenção.
— Eu quero sair daqui! — Minha voz foi ofuscada pelas sirenes gritantes.
— Anitta! — Acordei de meu estado perturbado ao sentir Nicole me sacudir pelos braços.
— Escuta, eles vão interrogar todos aqui, todos mesmo. Olha pra você, está pálida, sofrendo por alguém que você nem conhece, ou estaria você fingindo?
— Como assim? — Perguntei realmente confusa com o que ela estava falando.
— Não é obvio? Olha pra elas. — Nicole apontou discretamente para as outras alunas novas, todas pareciam calmas. — Você terá que ser fria, querendo ou não, você é suspeita até eles descobrirem o que aconteceu com a pobre irmã Elaine.
Nada pude fazer além de engolir meu medo e assentir.
— Ótimo. — Nicole sorriu, pegando minha mão e me levando até as outras meninas. A polícia já entrava no salão e alguns dos homens fardados conversavam com Padre Alberto.
Meu corpo estava anestesiado. Eu apenas seguia os comandos de Nicole como uma boneca de pano, manejável, frágil e indefesa. Um fantoche controlado e sem vontade própria. Em meu estado alucinado, via as outras meninas como pedras, frias e vazias, ainda assim, mais autossuficientes e vivas do que eu.
Os minutos passavam e eu pressentia minha vez de agir. Claro que de acordo com as instruções rápidas de Nicole. Segundo ela eu deveria apenas mentir. Isso, mentir, causaria minha paz instantânea.
— Srta. Couch não é mesmo? — Perguntou o policial de meia idade.
— Sim.
— Está ciente do acontecimento? — Tirou os olhos de seu pequeno bloco de notas para olhar no fundo dos meus olhos.
— Sim... — Olhei para Nicole ao meu lado e voltei a encara-lo. — Foi horrível.
— Onde você estava entre o início da festa e o suposto acidente?
— Em meu quarto, depois vim para festa com minha colega de quarto e ficamos um bom tempo observando a movimentação. Logo tive de ir ao banheiro arrumar esse vestido, que como o senhor pode ver, não é muito fácil de aguentar. Claro, levei Nicole comigo, impossível de ajustá-lo sozinha. Quando voltamos, tudo já tinha acontecido. — Sorri de leve, mesmo querendo gritar.
— É um belo vestido. — Retribuiu o sorriso. — Reparou em algo suspeito?
— Tudo para mim é suspeito senhor, hoje é meu primeiro dia. Agora se não há mais perguntas, gostaria de ir a meu quarto, esse vestido realmente está me matando.
— Era apenas isso. Boa noite. — Ele gesticulou mostrando a saída.
— Boa noite e bom trabalho. — Segui caminhando deixando Nicole para trás.
Cheguei a um estado que não apenas o peso do vestido incomodava meus ombros, como também minhas pernas pareciam falhar enquanto eu caminhava. Cheguei ao quarto e me joguei na cama. Talvez eu estivesse exagerando, mas aquilo realmente tinha mexido comigo, com algo dentro de mim. Nunca estive tão perto da morte antes, nunca senti o sofrimento tão perto de mim, nunca estive no meio de uma comoção assim pelo que me lembro bem.
As pessoas costumam tratar esse tipo de coisa com uma banalidade confortável, mas a grande maioria nunca ao menos viu alguém morto bem diante de seus olhos. A assustadora sensação de imobilidade, aquela pessoa morreu e não há simplesmente nada que eu possa fazer. Essa é a única certeza da vida, a única triste e avassaladora certeza. O caminho final. Você vai morrer um dia. Seja na frente da sua família, de seus amigos, do seu grande amor. Ou até mesmo sozinho. É algo tão natural e eu simplesmente não consigo lidar com isso...
— Anitta? — Virei meu rosto na direção da porta e vi Nicole entrar no quarto, um pouco hesitante com o meu estado emocional. — Tá tudo bem? — Sentou ao meu lado.
— Não. — Apoiei os cotovelos no colchão. — Mas vai ficar. — Assenti e a olhei, vendo um pequeno sorriso se formar em seu rosto. — Desculpe por ter ficado tão abalada. Isso me pegou de surpresa, eu fiquei sem reação...
— Tudo bem, não se preocupe com isso. É natural se assustar, eu também fiquei um pouco nervosa. — Desviou o olhar para o chão. — Só que você tem que aprender a controlar isso. Aqui as coisas nunca são previsíveis, então não pode deixar o emocional te controlar. — Seu rosto suavizou em mais um sorriso. — Esteja sempre preparada pra tudo, certo?
— Certo... — Concordei com a cabeça lentamente, digerindo as palavras de Nicole com certa dificuldade. Mas eu ainda devia estar muito amuada com tudo aquilo de qualquer forma, meus pensamentos ainda estavam desorganizados. Nicole se levantou de minha cama e foi até a dela, retirando aos poucos sua roupa. Me sentei sobre o colchão e fiz o mesmo. Assim que as roupas estavam arrumadas no armário – pelo menos as minhas –, ela apagou as luzes. E nada mais disse, me fazendo interpretar seu silêncio como um desejo de boa noite.
Aos poucos, o sono e cansaço me afetaram, dando-se assim o desfecho de meu agitado primeiro dia.
Notas finais
Nome do próximo capítulo: "Contato"
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