A porta
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A maçaneta pendia à minha frente, gélida como o ar que respirava, a coragem ia e voltava, se apoderava de mim e como um leão eu a desejava, porém tão rapidamente se esvaia que quase se tornava palpável.
Eu, nervoso, andava em círculos e voltava pro mesmo ponto remoto, a tentação de olhar através da fechadura me consumia e devorava meus pensamentos, eu queria girá-la e saciar minha curiosidade, queria enxergar através daquela madeira pútrida e fétida de carvalho, queria atravessá-la com meu corpo ou apenas me materializar para o outro lado, nem uma possibilidade poderia ser excluída, eu tinha de arranjar um jeito.
Não sei quanto tempo eu passei estudando cada detalhe daquela porta, pareciam anos de análise fria e precisa, não que eu tivesse muita experiência, mas nenhum detalhe me fugiu aos olhos, quatro trincos a prendiam na parede, dois parafusos para cada trinco, era preta, tinha uma maçaneta em formato oval e uma fechadura nada convencional, nunca havia visto tal formato de chave, onde será que ela estaria? Uhm, deixe-me pensar…pensando bem, como cheguei aqui? Qual é o meu nome? Por que esta porta é meu objeto de fascinação? Tentei achar respostas, mas minha cabeça parecia não a ter-las.
Cansado de batalhar com o meu eu interior, estendi minha mão, a maçaneta que antes estava fria, agora ardia com um calor inexplicável, lutando contra o impulso de retirar rapidamente minha mão, girei aquela parte oval da porta e adentrei no desconhecido.
Senti uma brisa gélida acariciar minha espinha, um ar pesado de inalar e um clima pesado de se estar. Depois que a minha visão se acostumou àquela penumbra, eu tentei me localizar. Era um quarto simples, não possuía outra porta, as paredes tinham um tom de azul claro, havia uma janela perto da cama, parecia um quarto de adolescente, pôsteres de bandas que eu não lembrava de alguma vez ter ouvido falar, um guarda-roupa simples, uma mesa com alguns papéis jogados e nada mais que chamasse muita atenção.
Caminhei e me debrucei sobre o parapeito da janela, porque tudo me parecia tão familiar? O céu era de um azul escuro pálido e as estrelas tinham um brilho mortal, havia uma grande árvore no quintal que dava de frente para aquela janela, eu não conhecia muito de árvores, mas acho que era um salgueiro, galhos retorcidos como se tivessem dor, a grama a seus pés estava sem vida, parecia que nunca tinham sido verdes, uma visão um tanto quanto assustadora.
Me virei e percebi algo que antes eu não havia notado, estava lá todo esse tempo? Me aproximei da cama, puxei os lençóis e vi um corpo inerte, estava de costas, toquei em seu ombro e a criatura não se moveu, respirei fundo e concentrei todas as minha forças em virá-lo para finalmente poder ver seu rosto, eu não podia acreditar no que estava acontecendo, minha mão o atravessava como se eu fosse feito de luz, um vulto, uma lembrança, um fantasma.
As portas se abriram e uma mulher entrou, ela era bela, possuía uma expressão serena e seus olhos eram da cor do mel, aparentava ter menos de trinta anos, ela me passava uma sensação de conforto, como o colo de uma mãe. Tentei pedir ajuda, mas ela parecia enxergar através de mim, ela chamou o corpo por um nome que me parecia familiar, Damian, Damian, eu já ouvira esse nome em algum lugar. Ela o virou e eu finalmente pude ver seu rosto, ele era eu, eu era ele, como isso era possível? Ouvi um grito de desespero ecoar da boca daquela mulher desconhecida, tomara o cadáver em seus braços e em lágrimas, gritava por seu filho…
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